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domingo, 17 de fevereiro de 2013

O doce sorriso da Primavera.



Quero apenas cinco coisas... 
Primeiro é o amor sem fim 
À segunda é ver o outono 
A terceira é o grave inverno 
Em quarto lugar o verão 
A quinta coisa são teus olhos 
Não quero dormir sem teus olhos. 
Não quero ser... Sem que me olhes. 
Abro mão da primavera para que continues me olhando.


O doce sorriso da Primavera.

                    Não sei como fui aparecer ali. Acho que foi o acaso. "Nada acontece por acaso. Não existe a sorte. Há um significado por detrás de cada pequeno ato. Talvez não possa ser visto com clareza imediatamente, mas sê-lo-á antes que se passe muito tempo." Dizem que os acasos são importantes em nossas vidas. Lá estava ela, um sorriso que me conquistou na hora. Não era linda, nada disto, nem alta nem baixa. Cabelos castanhos nos ombros ondulados. Duas mechas insistiam em cair em seus olhos e ela os fazia voltar ao lugar de uma maneira encantadora. Ela brincava com seu irmãozinho de dois ou três anos. Era um parque de diversões. Nunca o vi na cidade. Também nunca fui de ir a parques de diversão. Ela não teria mais que catorze anos. Vestia simplesmente uma saia de cambraia, chinelos de dedo, nem um colar nem um anel. Fiquei paralisado. Ela era um ímã que me atraia. Nunca uma jovem me atraiu assim.

                     Nunca fui um bom conquistador. Nunca. Era reservado. Sempre tinha medo das moças da minha idade ou não. Com quinze anos ainda não tinha namorada. Olhava uma ou outra, mas aproximar? Chegar perto? Nunca. Diferente do meu primo Cesar que diziam ser um “Don Juan”. Nenhuma mocinha da cidade deixou de lhe dar um “beijo”. – Olhe Vadico, dizia ele, existem quatro questões na nossa vida. (Um) O que é sagrado? (Dois) De que é feito a alma? (Três) O que vale a pena ser vivido e qual o motivo pelo qual vale a pena morrer? (Quatro) A resposta meu amigo é a mesma para todas as questões – O amor! Se um dia você amar uma mulher tudo isto vai valer a pena. Assim quando acontecer você vai ver que essa seria uma boa ocasião para mentir, mas não esqueça, a verdade é um hábito terrível.

                    De onde ele tirava estas palavras? Afinal estávamos com quinze anos e eu mal lia um livro por ano. Lembro que na Praça Doutor Gervásio quando ele chegava à moçada ficava prá lá e prá cá se mostrando para ele. Mas sabia que se ele escolhesse alguma seria apenas um beijinho e mais nada. Afinal uma época onde a palavra “sexo” era tabu. Nenhuma moça deixaria que seu namorado desse mais que um beijinho. Sabia que se fosse diferente os comentários logo iriam surgir e ela ficaria falada. Fiquei ali olhando para ela. Vontade de me aproximar, mas e o medo? Olhe, eu me considerava corajoso. Enfrenta nas minhas brigas de juventude os mais valentes da cidade. Mas mulheres? Estas me faziam tremer.

                  Enquanto ela ficou ali com seu irmãozinho eu também fiquei. Na minha mente lá estava ela com seu sorriso e esta foto invisível ficou gravado em minha mente para sempre. Uma hora eu fiquei ali e só um dia para saber que estava apaixonado. Sei que por toda a minha vida nunca mais iria esquecê-la. Quando ela se foi deveria ter ido atrás para saber onde morava. Não fui. Voltei no parque nos dias seguintes. Ela não mais apareceu. Que dor eu sentia no meu coração! Seria isto o amor? Com quinze anos não seria a ilusão que nunca tive? Eu não era um bom católico, mas o colégio nos obrigava a uma vez por ano confessar e comungar. Confessei com o Padre Nonato. No domingo lá estava eu. Meus colegas de classe achavam aquilo chatíssimo, eu não. Afinal não precisamos lembrar-nos de Deus? Não digo que gostava de perder a manhã de domingo das peladas do campinho do Seu Nonô.

                 A missa começou e então eu a vi novamente. Um véu sobre a cabeça. Um vestido branco e uma sapatilha cinza. Os cabelos presos por um lacinho verde e meu Deus! Mais linda ainda. Meu coração batia forte. Quando chegou a hora da comunhão ela estava na minha frente. Ela me olhou e sorriu. Minhas pernas ficaram bambas. Queria ficar olhando para ela o tempo todo, mas ali na igreja? O que Deus iria pensar? Quando a missa terminou não mais a vi. Passou-se um ano quando a encontrei novamente. Na fila do Cine Marrocos. Estava em cartaz os Dez Mandamentos. Uma fila enorme. Todos na cidade querendo assistir, pois seriam duas sessões por dia e o filme ficaria só por uma semana. De novo não consegui meu intento. Falar com ela. Ela entrou e a porta do cinema fechou. Lotação esgotada. Só amanhã! Fiquei sentado na calçada esperando a sessão terminar. Quase três horas. Todos saindo e eu olhando. Desta vez iria segui-la e saber onde morava. Perda de tempo. Ela parecia fumaça a correr com o vento.

                 Desta vez ela sumiu para sempre. Fiz dezesseis, dezessete, dezoito, vinte e fui trabalhar na cidade grande. Durante todo este tempo ela não saia da minha mente. Caramba! Pelo menos eu devia saber seu nome. Mas sempre receoso de um “fora” não me aproximei dela. Conheci algumas garotas, saía com elas, mas nenhum compromisso. Nenhuma fez o meu coração bater. Não tinha jeito. Quatro anos se passou desde a última vez que a vi. Nunca em tempo algum há esqueci. Não riam, por favor, mas fiz um desenho dela em uma folha de papel cartolina. Nunca fui desenhista. Mas demorou seis meses para terminar. Comprei uma linda moldura. A pendurei na saleta do pequeno apartamento onde morava com mais dois amigos. Quando chegava do serviço olhava o quadro e dizia – “Boa tarde amor da minha vida”, quando saia dizia – “Até mais tarde amor da minha vida”. Calma, não sou um psicopata. Nada disto. Apenas um homem apaixonado.

             De novo aconteceu. Na Avenida Angélica ao esperar o sinal abrir lá estava ela. Do outro lado da rua. Não era mais um menino. Não era mais aquele que tinha medo das meninas. Desta vez não iria me escapar pensei. Fui atravessar a rua correndo e quase fui atropelado. Passou cinco ônibus. Quando consegui atravessar ela tinha sumido. De novo! Que coisa meu Deus! Era meu destino? Fui para casa triste e pensando o que a vida me reservara. Tinha um bom emprego. Se não fosse tão novo já podia ser um gerente. Isto foi meu Chefe quem disse. Pediu-me se podiam ficar uns quinze dias na filial. Teria que dormir lá. Em Campinas. Mais de uma hora da capital. Não dava para ir e voltar. O gerente da filial ia sair em férias. Claro que sim. Alem dos dois amigos do apartamento não tinha mais ninguém. Campinas não era uma pequena cidade. Quase três milhões de habitantes. Alojei-me em um pequeno hotel próximo onde trabalhava. Era a empresa que iria pagar.

              Cinco dias depois fui chamado pelo diretor. Gente boa. Educado. Pediu-me se eu podia entrevistar algumas candidatas para a vaga de almoxarife na fábrica. Iria entrevistar homens e mulheres. Deveria escolher três. Ele iria decidir o melhor. Achei interessante. Nunca pensei em fazer isto. Agora com vinte e três anos seria uma nova experiência. Olhei pela janela o pátio da fábrica. Uma multidão na fila. Mais de cem pessoas. Fiquei maluco. Não pensei que fosse assim. Chamei três funcionários do escritório. Separem só quem tem a última série e disponibilidade para horário noturno. Sobraram vinte cinco. Pedi à funcionária que levasse um de cada vez na sala de reuniões. No inicio ainda motivado por ser a primeira vez depois cansado. As mesmas coisas. As mesmas promessas. O mesmo olhar havido e choroso para conseguir a vaga.

               - Quantos ainda têm? Perguntei. Só uma. Graças a Deus! Estava soberbamente cansado. Já sabia quem seriam os escolhidos. Separei cinco e depois iria reduzir para três. Iria entrevistar o ultimo só pró-forma. – A candidata entrou. Não era possível! Meu Deus! Era ela. Ali a menos de dois metros. Linda. Aqueles cabelos cacheados. Transformara-se em uma bela mulher. Perdi a fala. Perdi o rumo. Tentei falar. A voz não saia. Parecia o jovenzinho do passado. Vergonhoso com seu primeiro amor. Engasguei. Ela sorria. Não dizia nada. Não podendo falar peguei sua Carteira Profissional. Comecei a folhear. Mas estava tremendo. Acho que ela tinha percebido. Levantei os olhos. Os dela fixos no meu. Falou com voz doce, voz de anjo. Mais encantado fiquei – Preciso trabalhar. Tenho um filho para cuidar!

               Filho? Não era seu irmão? E agora? Fazer o que? Tinha que ajudá-la, mas não conseguia entrevistar. Pedi para voltar no dia seguinte. Pela manhã. Bem cedo. Ela aquiesceu. Levantou-se. De cabeça baixa agradeceu e foi saindo. Não resisti. Perguntei se poderia acompanhá-la até o portão. Ela estranhou. Não disse nada. Fui com ela ao seu lado. Uma pequena brisa trouxe para mim o seu perfume. Ficou para sempre em meu corpo. No portão dei adeus. Ela riu. Não é até amanhã? Ri sem jeito. Claro que sim. Fiquei ali olhando até ela desaparecer na esquina. No outro dia não apareceu. Fiquei andando de um lado a outro esperando. Olhando o pátio pela janela. Fui varias vezes ao portão nada. Ela desapareceu como uma sombra na escuridão da noite. Fiquei desnorteado. Fizera planos. Seria admitida. Iria convidá-la a jantar. Sair, passear. Fazer uma pic nic com ela e seu filho. E depois casar...

             Planos que nunca se cumpriram. Sonhava com ela. Rezava para ela voltar à fábrica. Não voltou. Voltei para São Paulo triste e acabrunhado. A menina, ou melhor, a mulher tinha me enfeitiçado. Como achá-la em Campinas? Quase três milhões de habitantes. Todo sábado e domingo ia para lá. Rodava rua por rua. Nada. O tempo passou. Muito tempo. Acho que cinco anos. Pediram-me para fechar uma compra de uma pequena mercearia no Bairro Vila das Mercês em São Paulo. Era bem considerado nesta área. Precisavam do terreno da mercearia. Iriam construir um grande Shopping ali. A mercearia ficava bem no meio do terreno já comprado. Disseram-me que iria enfrentar o maior desafio da minha vida.

             Quarta feira. Meio de semana. Melhor dia para fechar negócio. Deram-me um valor máximo. O dobro do que ela valia. Precisavam do terreno. Mas devia começar por baixo. Parei o carro bem em frente. A mercearia vazia. Um terreno pequeno, mas atrapalhava em muito os planos da empresa. Entrei. Só um cliente. Perguntei pelo proprietário. Disseram-me para aguardar. Estava vendo um livro que estava à venda. Um Amor de Verdade. Da escritora Zibia Gasparetto. Já tinha ouvido falar na escritora. Espiritualista. Diziam ser médium. Conhecia pouco da nova doutrina. O livro me chamou a atenção pelas poucas linhas que li. O livro versava sobre viver uma verdadeira experiência amorosa. Dizia que seria um dos maiores prazeres da vida. Explicava que gostar é sentir com a alma, mas expressar os sentimentos depende das ideias de cada um. Condicionamos o amor as nossas necessidades neuróticas e acabamos com ele. Deus meu! Seria eu?

             Alguém atrás de mim me cumprimentou. Boa tarde Senhor! Era a voz dela. Impossível. Virei rápido. Ainda linda. Ainda com aquele sorriso encantador. – Ah! É o Senhor? – Sim sou eu. Esperei você no dia seguinte – Não pude ir. Meu filho adoeceu. Corremos para o pronto socorro. Ficou entre a vida e a morte por dois meses. Estava desesperada. Quando melhorou desisti de voltar. Sabia que a vaga não iria mais existir. Voltei para São Paulo. Minha Tia me acolheu. Era dona desta mercearia. Morreu ano passado. Deixou tudo para mim. E agora? E agora? Negociar com ela? Eu a amava e ela não sabia disto. A amei desde o primeiro dia da minha infância nos meus inocentes quinze anos. Nunca a esqueci. Agora em caminhos opostos. Tentei ser delicado. Apresentei-me. Antonio Marcus, gerente da Rede de Super Mercados Brasil.

             Senhor Antonio Marcus, sei de sua pretensão. Não quero vender. É tudo que tenho. Meu filho logo vai para a faculdade. Não tenho outros ganhos. – Seu nome? Perguntei. – Renata. Renata Ambrosio. – Renata. Que lindo nome. Quase quinze anos para saber. Quinze anos imaginando como devia ser. Pode me dar à honra de ir jantar comigo hoje? Quem sabe poderemos nos entender. Garanto que não vai se arrepender. Ela ficou em duvida, mas aceitou. Oito e meia da noite. Morava nos fundos da mercearia. Oito e vinte. Estava na porta. Desta vez ela não iria me escapar. Alí estava o sonho da minha vida. Esperei muitos anos. Minha chance agora. Oito e meia, nove, nove e meia. Desci do carro. Bati no portão ninguém atendeu. Tudo escuro. Meu Deus! De novo? De novo não. Esperei dar dez horas, onze, meia noite. Se necessário iria passar a noite ali.

              O dia clareou. A mercearia não abriu. Liguei para a empresa. Expliquei. Deram-me carta branca. Dez da manhã. Onze duas da tarde. Alguém chegou ao portão. Era uma senhora. Corri. Perguntei. – Dona Renata levou correndo seu filho ao Hospital das Clinicas. Ele ficou ruim de uma hora para outra. Tem uma doença no pulmão. Sem cura disseram aos médicos. Sai em desabalada carreira para as Clinicas. Grande. Um hospital enorme. Seria como achar uma agulha no palheiro. Procurei uma enfermeira. Foi educada. Encaminhou-me a secretaria. Tinha um sistema de som. Mas não precisou. Achou no computador onde ela estava. Fui correndo. A encontrei no corredor chorando. Seu filho estava mal. Liguei para o diretor. Expliquei. Ele conhecia o Diretor do Hospital. Ligou para ele. Dois dias depois ele saiu da UTI.

          Ela vendeu a mercearia. Nunca mais sai do lado dela. Com o dinheiro recebido da venda da mercearia Levou o filho para um tratamento no Hospital Johns Hopkins em Baltimore. Diziam ser o melhor para Neurologia e Neurocirurgia. Tirei férias. Fui com ela. Lá a pedi em casamento. Ela riu. Há tempos que não ria. Voltamos vinte e cinco dias depois. Seu filho fora operado e passava bem. Se tratasse como foi explicado poderia viver por muitos e muitos anos. Casei com Renata. Sou feliz. Acredito que ela também. Robertinho eu o considerava como meu filho. Nunca perguntei quem era o pai dele. Não era importante para mim. Dezesseis anos e eu o amava. Não sou rico. Ainda tenho responsabilidade na empresa. Agora sou Diretor Comercial. Renata nunca mais vai sair de perto de mim. Não precisa trabalhar. Mas dei inteira liberdade se ela quisesse. Eu a amo e sempre a amei em todas as minhas vidas passadas. O nosso amor era um amor de verdade. Quando chegava a primavera eu me lembrava sempre do primeiro dia que a vi. Eu chamava aquele dia como o doce sorriso da primavera.

          Desculpem. Tenho que ir. Renata me espera. Combinamos de ir passar o fim de semana no litoral. Tenho uma casinha lá em Ilhabela. Desta vez iremos em quatro. Quatro? Sim Robertinho pediu para levar sua namorada. Agora seria assim. Eu, Renata, Robertinho e Alessandra. Quatro felizes e quatros amores naquela primavera que chegava. “Um amor de verdade para sempre”.

Nunca eu tivera querido
Dizer palavra tão louca
Bateu-me um vento na boca
E depois no teu ouvido
Levou somente a palavra
Deixou ficar o sentido

O sentido está guardado
No rosto com que te miro
Nesse perdido suspiro
Que te segue alucinado
No meu sorriso suspenso
Como um beijo malogrado

Nunca ninguém viu ninguém
Que o amor pusesse tão triste
Esta tristeza não viste
E eu sei que ela se vê bem
Só se aquele mesmo vento
Fechou teus olhos também
Cecília Meireles

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