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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O expresso do Rio Selvagem.



Fluir de um rio.

Correm as águas do rio

Passam na agulheta do tempo

A mesma água não volta, nem pelo fio
Não repete a sua passagem, observo, lembro
A vida é como esse rio
Na superfície a velocidade instantânea
No fundo as correntes pesadas
As pedras roladas, as plantas prezadas
O que se esconde e funde no leito
Escorregadio que com os tempos feitos
Pouco mudam, pouco nadam
A vida de um rio, não é só a agua que passa
É as margens descoladas, divididas
São quem passa quem refresca
É a vida num todo que se compõe
É quem mergulha, quem acha
Quem muda, leva ou põe
É quem toca no fundo
Traz a vida que mergulha num rio também


O expresso do Rio Selvagem.

            Carmem olhava pela janela do trem, as belas paisagens que iam ficando para trás. Sua mente rebuscava timidamente sua vida. Ela não sabia se era feliz, se tinha alegrias, tristezas, se sua vida estava valendo a pena. Achou que era hora de pensar. Com calma. Merecia umas férias. Quinze dias bastavam. Falou com seu diretor que autorizou na hora. Afinal ela tinha já duas férias vencidas. Trabalhava muito. Arduamente. Começou do nada e hoje era gerente na área de montagem. Telas de computador. Lembrava-se do seu passado. Não foi bom mas o que passou, passou não volta mais. Lembrou-se quando chegou em Santa Fé. Não era uma cidade pequena. As margens daquele rio caudaloso ela se destacava pela sua beleza selvagem e pela sua competência. Não sabia por que dissera selvagem quando lá chegou. Talvez pelo seu frenesi de homens e mulheres que andam sem saber aonde ir. Queria esquecer tudo. Não lembrar. Passar uma esponja em sua mente. Sabia que não dava. Esquecer não é fácil.

             Nasceu em Cidade Santa. Pequena. As margens do rio onde a ferrovia passava e morava com sua Vó. Ali viveu boa parte da sua vida. Ali viu seus pais serem enterrados. Mortos por nada. Uma peste? Assim disseram. Morreu muita gente. Ela não, sua Vó também não. Precisava de um emprego. Lá não conseguiria. Estava com dezenove anos, terminou o segundo grau. Difícil estudar mais. Queria ser alguém se formar, quem sabe ser professora ou então outra profissão que não fosse aquelas famosas que seria impossível de conseguir. Achou que uns dias em Cidade Santa para rever sua Vó e alguns amigos bastavam. Depois iria para Vitória. Procurar uma boa pousada em frente ao mar. Aí sim, iria colocar sua vida em ordem. Nada tão estranho. Era comedida. Tinha uma boa quantia na poupança. Poderia ter um carro mas achou que morava a duas quadras do trabalho e não precisava.

             Seria umas férias onde se daria ao luxo do bom e melhor. Nada de economias. Carmem não era linda. Bonita sim, simpática sim. Uns cabelos negros, olhos negros, um rosto muito simpático. Sua voz era calma. Cativante. Teve alguns pretendentes. Mas nenhum deles lhe interessou. Seu corpo era bem feito e ela cuidava bastante. Mesmo trabalhando de sol a sol não deixava de frequentar a academia. Conheceu um Engenheiro Espanhol que iniciou um trabalho na mesma empresa que ela. Era simpático, alegre, despretensioso. Saíram diversas vezes. Nunca dormiram juntos. Carmem jurou a sua Vó que só iria fazer amor depois de casada.

              Gostava de viajar de trem. Quanto tempo não fazia isto. Muitas saudades. A janela enorme, a vista linda, o verde, o amarelo, o rio caudaloso, uma fazenda aqui outra casinha ali, uns dados adeus e a meninada correndo ao lado do trem. Sentiu fome e viu que não tinha almoçado. Levantou-se pegou sua bolsa e se dirigiu ao vagão restaurante. Não notou um homem mal encarado que a acompanhou até lá. Sentou-se duas mesas atrás dela. Carmem almoçou devagar. Não tinha pressa. Só chegaria em Cidade Santa lá pelas quatro e meia da tarde. Pelo visto o expresso estava no horário. Bebeu uma cerveja pequena. Deu-se ao luxo. Não fazia isto mas agora podia. Quando voltasse a sua poltrona iria cochilar até chegar ao seu destino.

              Pagou sua despesa e voltou calmamente. Ao atravessar um vagão para o outro, onde fica a porta de saída do trem, um braço a agarrou pelo pescoço. – Não grite. Se gritar enfio-lhe uma faca nas costelas. Tomou dela sua bolsa. Começou a forçar sua calça para baixo. Ele queria estuprá-la! Meu Deus! Isto não! Proteja-me. Ela gritou e mordeu com força as mãos do maníaco. Ele gemeu alto e a chamou de puta. Abriu a porta e a jogou do trem. Carmem não sentiu nada. Rolou em cima de algumas pedras e foi parar próximo a uma moita de capim colonião. Ficou desacorda. O trem sumiu no horizonte.

             Carmem acordou quase à noitinha. Não lembrava de nada. De nada mesmo. Quem era o que fazia ali nada. Sentia uma dor tremenda na testa passou a mão e viu que tinha um corte enorme. Deve ter sangrado muito mas agora já tinha coagulado. Não conhecia onde estava. Porque estava ali também não sabia. Levantou-se com dificuldade. Suas roupas rasgadas. Uma sede terrível. Começou a andar junto à linha do trem. Ouviu um barulho. Um barulho que achava que já tinha ouvido antes. Era um carro de boi. Atravessou um bosque e viu uma estradinha de terra. O carro de boi seguia devagar com duas juntas de dois bois cada uma. O carreiro era um menino de uns quinze anos. Correu para ajudá-la. Pediu para subir no carro pois ele estava indo para casa. Não era longe.

              Chegaram uma casinha de Sapé, pequena, apenas dois cômodos. Uma cozinha e um quarto. Feita de bambu com barro. Chão de terra. Carmem não estranhou. Não conheceu outra casa ou se conheceu não lembrava. Lico o menino disse que morava ali com seu pai. Não conhecera sua mãe. Ia sempre a Cidade de Manto Azul levar verduras e frutas para vender. Viviam disto. Seu pai ainda pescava alguns peixes e quando dava ele vendia também. À noitinha seu pai chegou. Assustou-se com Carmem. Lico explicou o que acontecera. Ele chamou Lico em um canto – Olhe filho, ela parece ser uma mulher fina. Não é daqui. Suas roupas mostram isto. – Pai, ela não trouxe nada. Não tem nenhuma muda de roupa extra. Nem documentos!

                Manuel não sabia ao que fazer. Não tinha ideias. Era homem da roça. Entendia tudo dela. De mulher não. A única lhe dera um filho e sumiu no mundo. Dificilmente ia a cidade para dar uma “fisgada” em alguma na Rua do Taichim. Agora soubera da tal AIDS. Evitava tudo. Não podia morrer enquanto Lico não fosse maior de idade. Lico sugeriu que ela ficasse ali por uns tempos. Quem sabe recuperava a memória. Pensaram em levá-la a Manto Azul mas lá não tinha delegado e nem prefeito. Era um arraial simplesmente.

                 Carmem ficou lá por muito tempo. Os dias passavam céleres. A noite sentava na porta da casinha e olhava as estrelas pensava quem era de onde era e o que fazia ali. Aos poucos acostumava a nova vida. Ajudava na horta, a colher jabuticabas, goiabas, laranjas, mangas tudo quando era época. Um dia foi com Lico a Manto Azul. Todo mundo veio para a porta. O pequeno arraial se assustou. Era uma mulher jovem e bonita. Vestia um short e uma camisa velha. Devia ser de Manuel. Ninguém sabia que ele estava com mulher. Ela fez algumas compras de roupas para ela. Roupas simples. A lojinha ficou cheia de olheiros.
                Carmem sem perceber começou a gostar de Manuel. Olhava para ele e sentia que o amava. Mas seria amor mesmo? Não sabia. O que era o amor? Também não sabia. Uma noite ele a beijou. Sentiu que ele não sabia beijar. Segurou sua língua e ele assustou mas deixou. Fizeram um amor louco. Ele não sabia como ela também não. Ela era virgem ele não mas não tinha nenhuma experiência. Foi gostoso. Ambos gostaram. Não parou por ai. Passaram a dormir juntos. Lico não se incomodou. Passou a gostar também de Carmem. Quem sabe ela poderia ser sua mãe? Manuel disse que queria casar com ela. Carmem achou melhor esperar para saber quem era.

               Passaram-se quase um ano. Carmem ao seu modo era feliz. Alí naquela casinha junto a Manuel não pensava em mais nada. Não tinham luz, TV, geladeira e o fogão a lenha dava tudo que precisavam para fazer a alimentação. Ela mesma fazia. Lavava e passava. Uma verdadeira dona de casa. Não engordou, seu corpo até ficou mas esguio. Cuidava dos seus cabelos. Suas roupas simples para ela bastavam. Manuel era calado. Falava pouco. Conversava com ela em monossílabos. Não sabia ler e nem Lico também sabia. Ela passou a ensinar aos dois. Compraram em Manto Azul, cadernos, lápis canetas e uma tabuada.

              Um ano e meio. Dois anos. Nada de Carmem voltar a lembrar. Ela não se preocupava mais com isto. Vivia feliz muito feliz ao lado de Manuel e para ela Lico era como se fosse um filho. Pensava que se um dia recordasse quem era não iriam deixa-los nunca. Uma tarde voltada da mata onde tinha muitos pês de jabuticaba e não abaixou a tempo de evitar uma galhada grossa de uma jabuticabeira. Bateu a cabeça tão forte que ficou zonza e caiu ao chão. Estava só mas meu Deus! Ela voltou a se lembrar. Tudo veio assim do nada e ela agora sabia tudo de sua vida. Voltou correndo. Chamando alto Manuel e Lico – Lembrei-me! Agora sei o que fui! Mas ao olhar o semblante deles ficou triste também. O medo de perdê-la era grande. E ela não sabia que atitude tomar.

               Dormiu abraçado a Manuel. Disse que nunca iria abandoná-los. Mas tinha de voltar em Cidade Santa para saber de sua Avó e depois iria a Santa Fé. Tinha lá um apartamento, roupas, móveis e dinheiro no banco. Precisava ver se tudo estava lá. Lico chorou quando ela partiu. Manuel abraçou-o e ambos choraram quando ela pegou o trem de volta a Santa Fé em Derribadinha. Carmem também chorou. Mas prometeu voltar. Manuel e Lico não acreditaram. Sabia que ela era uma moça de cidade grande, estudada e porque voltaria?

              Na janela do expresso Carmem olhava o rio, as casas as fazendas e o seu passado. Desceu sem pressa na estação de Santa Fé. A cidade pouco mudou. Um taxi a levou em seu apartamento. Fechado. O porteiro a reconheceu e sorriu quando ela contou por partes o que tinha acontecido. Disse que a policia, o diretor e muitos da empresa que ela trabalhava lá estiveram. Ele tinha copia da chave. Ela entrou. Olhou, não sentiu saudades. Saudades sim de sua tapera de barro com telhas de folha de coco e capim seco. Foi até a empresa. Uma surpresa de todos. O diretor pediu a ela para ir a sua sala. Uma festa. Era muito bem quista. Dois anos e meio fora e todos compreenderam o que aconteceu com ela.

                O diretor disse que sua vaga estava em aberto. Ela podia começar a trabalhar quando quisesse. O salario seria aumentado. Não disse nada. Iria pensar e depois dar uma resposta. Ele não entendeu. Não quer mais o seu lugar? Vai voltar para a tapera onde morou muitos anos? Ela não sabia o que fazer. Duvidas e mais duvidas. Pediu um prazo. Duas semanas. O diretor riu. Claro que sim. Você não vai deixar isto aqui para morar lá no mato em uma casinha de barro. Carmem foi para o apartamento não antes de passar no banco. Estava tudo lá e até mais com os juros. Quase um milhão e meio.

               Dormiu mal em sua cama de casal. Grande, colchão de mola, caro que comprou há muitos anos. Estava novo ainda. Ficou ali olhando para o teto e pensando. Dormiu sonhando com Lico e Manuel. Pela manhã já sabia o que fazer. Publicou no jornal local a venda de tudo. Apartamento mobiliado. Separou as roupas que precisava as demais doou para uma instituição de caridade. Deixou o dinheiro da poupança lá no mesmo banco. Tirou cem mil para despesas. Foi à empresa e agradeceu ao Diretor pela confiança. Abraçou a todos os seus amigos e ao espantado engenheiro espanhol que tinha namorado.

              Pegou o expresso novamente rumo a Cidade Santa. Precisava ver sua Avó. Desta vez prestou atenção a tudo no vagão de primeira classe e quando foi ao vagão restaurante ficou de olho. Nada aconteceu. Sorriu quando viu sua Avó viva. Foi uma festa o encontro das duas. Contou tudo. Ela compreendeu e a motivou a continuar com sua tomada de decisão. Deixou um cheque com ela de cinquenta mil reais.  Disse que voltaria daí a um ano e daria mais a ela. Em oito dias estava de volta. Desceu em Derribadinha. Uma maleta com poucas roupas. Nenhuma joia. Só com o saldo do dinheiro que tirou. Agora uns quarenta mil reais. Poderia ter comprado um carro, chegar lá de carro novo. Não era o que desejava.

               Comprou uma pequena charrete de três lugares. Um cavalo baio bom para trotar. Saiu de Derribadinha às duas da tarde. Às quatro e meia chegou a Manto Azul. O povo todo veio à porta. Nunca acreditaram que ela ia voltar. Já sabiam de sua história. Ela cumprimentou a todos. Sorria. Às seis e meia da tarde avistou a Casinha. Avistou de longe Lico que veio correndo e gritando chamando seu pai. Desceu da charrete e o abraçou com força. Era seu filho. Não de “barriga” mas de direito de mulher do seu pai. Manuel a olhou. Sorriu sem jeito. Pensou em abraçá-la. Estava bonita. Roupas novas. Sapatos novos. Um brinco de ouro. Teve medo. Achou que ela foi ali para despedir para sempre. Ela o abraçou. Disse – Manuel sou sua mulher. Nunca mais me separarei de você. Abraçaram-se ali, um beijo enorme. A lua brotou no céu. “Bunita, que nem um queijo redondo”.

               Ela de vez em quando voltava a Santa Fé. Levava Manuel e Lico juntos. Tirava dinheiro do banco, não muito, faziam umas comprinhas e voltavam ao seu lar, sua casinha de barro de chão de terra com um banquinho na porta para ver as estrelas e a lua quando estava cheia. Acertou em cheio. Nunca se arrependeu. O que sei é que viveram felizes por toda a vida. Um amor simples, uma aceitação de ambos que só podia ser de almas gêmeas!      

Não escrevas aos meus olhos.

Não me iludas se não

tens a intenção

de entregar-me 

o teu coração! 
Não escrevas aos meus olhos
lindas palavras de amor
se pensas fazê-lo
chorar de dor!
Não grites que me amas
se o teu silêncio 
revela que apenas 
me enganas!
Não quero mais 
os teus beijos...
Quero apenas um pouco de paz!
Vou ardendo de desejo
quando lembro
das tuas mãos deslizando
no meu corpo gélido
nas madrugadas 
que fui inocente
entregando-me a ti
Poeta indecente,
de corpo, alma 
e coração.
Mas agora basta!
Não viverei mais de ilusão.
Já sofri demais
nessa vida madrasta!


terça-feira, 14 de julho de 2015

A vingança de Chico Mortalha, o matador.



O sentimento do avesso
Por te querer tanto
não mais te quero
Por me fazer pranto
não mais espero
Por te querer encanto
não mais me espanto
Meu sentimento é avesso
verso e reverso
acolhimento e arremeço
os dois lados da mesma moeda
amor e ódio no mesmo endereço
Te quero aqui
te quero distante
te recebo em meu leito
te vejo errante
Aconchegada ao teu peito
te desejo amante
não te quero livre e saltitante
te almejo preso ao meu regaço
te encontro no tempo de um abraço
Vá embora
Fique aqui
Não demora
Saia de mim
Úrsula de Almeida Vairo

A vingança de Chico Mortalha.

Chico Mortalha, o matador.

                É uma história que me foi contada por um amigo um dia quando chorávamos a vida em um botequim de uma esquina na Rua do Machado. Eu estava quase dormindo quando ele começou. Não sei por que bebia, não era um ébrio isto não. Pode ser que minha vida acabou de pronto quando perdi meus pais em um desastre de avião. Solteiro, dependente dos dois sofria calado sua perda. Os amigos me consolaram por uns tempos depois me esqueceram. Mas minha dor continuava. Sem emprego parei de estudar. Agora que ninguém poderia se interessar por mim bebia aqui e ali. Um ébrio sem motivo aparente a chorar um passado que já devia estar morto há muito tempo.

                   Gastei o que meu pai tinha de reserva e aos poucos vendi tudo que tinha. Mas eu parei de chorar quando conheci Neco. Um amigo verdadeiro. Foi ele quem me contou a história de Chico Mortalha e Tininha, a gostosa. Não foi uma história de mil e uma noites, não poderia ser. Foi uma história contada de arredo em duas ou três noites e talvez fosse à história que transformou a minha vida, pois resolvi ser escritor. Escritor? Risos, nem pense nisso. Andei escrevendo tanto e ninguém se interessou. Coloquei no papel tudo que o Neco contou. Publiquei em um blog. Poucos leitores e não desisti. O conto do Chico Mortalha se transformou em um incentivo. Um dia alguém disse que seria ótimo escrever um livro. Assim o fiz, mas quem publicaria? Mas deixemos esta trilha do conto, pois aqui vamos contar é a vida de Chico Mortalha.

                     Nasceu de família simples, pai professor e mãe dona de casa. Aos três anos descobriram que ele era gago. Muito. Falava com extrema dificuldade. Seu nome verdadeiro era Simplício da Anunciação Louzeiro. O apelido veio depois. Muito depois quando ele matou a pedradas seu primeiro desafeto. Chico à medida que crescia evitava falar. Via o semblante dos outros a rirem dele e isto ele odiava. Até os onze anos de idade brigou muito. Chegava sempre em casa com as roupas em farrapos. Aos doze ao voltar do colégio uma turma começou a gritar e a zombar dele pela sua incapacidade de falar direito. Lá vai o gago! Xô Gaguinho! Risos e risos. Chico pegou uma pedra e arremeçou na multidão que troçava dele. A pedra pegou bem na testa de Leandrinho que morreu na hora.

                     Durante muito tempo ficaram longe dele. Claro era menor de idade e o delegado admoestou sua família para olhar melhor o filho e educá-lo conforme os preceitos cristãos. Mas tudo na vida tem uma razão de ser e um recém-chegado da capital achou que poderia troçar de sua gagueira. Mais um morto. Desta vez a faca. Levaram-no preso. Com medo de linchamento foi transferido para a penitenciária estadual até o julgamento. O camburão sofreu um acidente na estrada e todos morreram menos Chico Mortalha. Chico resolveu que não iria preso mais. Só morto. Fugiu para outro estado. Lá começou a trabalhar como servente de pedreiro. Por pouco tempo é claro, pois mandou para o inferno um companheiro que morava com ele em um quartinho e achou que ele era “viado”.

                    Dai para matador foi um pulo. Era um matador que ninguém conhecia. Só um sabia como ele era. Seu padrinho Malecio. Padrinho? Risos, nada disto. Conhecia seu segredo quando mandou para a cova o amigo de quarto. Ofereceu um serviço, dois, três e agora tinha perdido a conta. Tornou-se um matador famoso entre os bandidos e até entre grandes homens da sociedade que não hesitavam em lhe pedir um trabalhinho. Ganhou muito dinheiro. Guardava tudo em poupança em diversos bancos. Assim era mais fácil diversificar e não ser identificado. Um dia se encheu de tudo. Falou para seu padrinho que não mais iria matar. Ia mudar de vida. Malecio riu. Duvido – disse. Mas Chico Mortalha sumiu no mundo. Foi parar em uma cidade lá perto de Alta Floresta no Mato Grosso em um pequeno povoado de menos de cinco mil habitantes chamado Martelo.

               Abriu um pequeno bar, e fez muitos amigos. Falava pouco. Alguns acharam que era mudo. Tinha medo de sua gagueira. Gostava de sua nova vida. No fundo do bar construiu uma pequena vivenda e lá tinha uma sala, uma cozinha, um quarto e tudo que ele precisava para viver tranquilamente. Comprou muitos livros e passou a ler sem parar. No bar sempre tinha um embaixo do balcão. Isto o ajudou muito. Através dos livros conheceu lugares, viajou pela Europa, Ásia, Oceania, e Américas. Notou que sua gagueira diminuía. Chico Mortalha se transformou. Um simples homem um emérito matador agora era bem quisto na cidade. Até o delegado se dizia amigo o que ele matinha um pé atrás. Tudo ia bem, mas sua vida não tinha jeito. A desgraça não tardou a se aproximar novamente.

Tininha quando subia a Rua dos Macacos todos paravam. Vai ser gostosa assim no inferno diziam os homens. Tininha estava agora com dezesseis anos. Olhe Tininha era indescritível. Era a mulher mais gostosa de Martelo. Quando ia a Alta Floresta era comum batidas de carros, mulheres querendo dar uma sova nela, maridos sendo beliscados pelas esposas, noivados desmanchados. Incrível! Mas olhe, tente analisar Tininha. Coxas grossas lisas queimada de sol. Um metro e sessenta bunda redonda arrebitada. Não tinha barriga e um belo par de seios que ela fazia questão de deixar à metade a mostra. Sempre usou uma microssaia. Sempre de cor berrante. Vermelha, amarela, rosa e sapatos altos. Lábios carnudos um olhar profundo reluzente como se fossem duas enormes jabuticabas. Um cabelo comprido pintado de vermelho dava o tom lascivo que ela completava em tudo que tinha em volta de si.

                      Quando Tininha fez doze anos sofreu uma tentativa de estupro por parte de seu tio. Ele entrou no seu quarto e a viu trocando de roupa. Estava sem calcinha e seu púbis apesar da idade, era espesso, liso e brilhante. Isto colocava qualquer um de “pau duro” na hora. E foi isto que aconteceu. Ele tentou conversar e ela gritou. Mesmo com o pinto para fora ela se recusou a pegar e não parava de gritar. Seu pai chegava a casa e ouvindo os gritos correu para seu quarto vendo a cena dantesca de um estupro no seu inicio. Seu tio pulou a janela e sumiu da cidade. O pai de Tininha nervoso não aguentou olhar para a filha seminua com aquele púbis lindo, aqueles seios desabrochando e saiu rápido dali com o pau subindo por dentro da calça.

                  Tininha cresceu. Sabia que era gostosa. Não escondia. Que os outros olhassem suas coxas, seus seios, seus lábios carnudos e seus olhos negros enormes e brilhantes. Todos que a olhavam diziam que dariam tudo para uma noite com ela. Mas ninguém sabia se ouve alguém que comeu a Tininha. Um dia o filho do seu Antônio do armazém, metido a Doutor, pois tentara se formar com advogado e não conseguiu, falou aos quatro ventos que tinha comido a Tininha. Não deu outra. No sábado na praça, à noite no “foot” Tininha aproximou dele e o chamou de tudo. Viado, fresco, filho da puta, você comeu sua mãe e nunca encostou a mão em mim. Punheteiro sem vergonha! Realmente Tininha era virgem. Nunca pensou em dar para ninguém a não ser para seu príncipe que um dia sabia que ia encontrar.

                      Continuava na escola. Terminou o segundo grau e tentava um emprego na farmácia do Seu Thadeu. Mas quando foi conversar com ele viu que suas calças se avolumaram. Mais um de pau duro pensou. Desistiu. Pensava em ir embora de Martelo. Nem Alta Floresta serviria para ela. Melhor ir para longe. Se todos a achavam gostosa e ela sabia que era porque não aproveitar na capital em algum programa de televisão? Mas precisava dos dezoito anos. Dezesseis não davam. Agora evitava andar muito pelas ruas de Martelo. Sabia que se facilitasse seria estuprada em qualquer canto. Mas como disse antes a vida tem os caminhos traçados. O de Tininha era só um. No sábado foi à padaria quando ao passar em frente ao bar do Chico Mortalha três jovens da cidade começaram a esfregar e passar a mão na bunda dela. Belisca aqui, aperta dali e soltaram sua blusa que sem sutiã os seios apareceram em todo seu esplendor.

                      Tudo aconteceu muito rápido. Tininha correu para dentro do bar. Chico Mortalha não gostou dos rapazes agindo daquela maneira. Tentou “maneirar” aconselhar, mas um deles o mandou “tomar no rabo”. Foi à conta, Chico Mortalha o pegou pelo colarinho e o arremessou fora do bar. O danado caiu como uma banana podre na rua. Os outros tomaram as dores e avançaram em direção a ele. Chico Mortalha era um matador. Treinado para matar. Matava a tiros, faca ou punhal e era mestre com as mãos. Ninguém sabia do perigo que corria. Na carótida de um ele partiu seu pescoço e do outro pegou no seus ovos apertou e quando os olhos esbugalharam ele meteu os dois dedos e os olhos saltaram para fora. Uma gritaria sem sessar. Dois mortos. Um aleijado. Ninguém mais no bar para testemunhar a não ser Tininha, a gostosa.

                   Tininha chorava e via Chico Mortalha espantado com tudo. Tentou agradecer, mas sua voz não saia. Pegou na mão de Chico Mortalha e beijou. Ao beijar sentiu seu cheiro e sabia. Chico Mortalha era seu príncipe. Era o seu homem esperado. O abraçou e lhe deu um longo beijo. Gritou para ele antes que a policia chegasse que ele não deixasse de procurá-la. Ele era seu homem e ela não queria perde-lo. – Estou indo para Alta Floresta, espero você lá na Rua dos Cabritos 44. Tenho uma amiga lá. Não falte eu te amo muito!

Chico Mortalha o matador sabia que tinha de sumir. Afinal os dois mortos eram gente fina da cidade. Só deu tempo para ele pegar umas roupas, dinheiro que tinha guardado e sumiu no meio do mato e dali em diante ninguém nunca mais o viu. Um dia apareceu na cidade um homem engravatado dizendo ter uma procuração sua. Vendeu tudo. E sumiu de novo da cidade. Tudo deu certo agora na vida de Chico Mortalha. Na rua dos cabritos encontrou Tininha, a gostosa. A beijou como nunca tinha beijado uma mulher. No melhor Motel da cidade ele a comeu saboreando cada pedaço. Assim como ela ele também era virgem. Ficaram se amando por uma semana. Ele não saia de cima dela. Arrumou em Vargem Alegre, uma cidade próxima ao Rio de Janeiro um homem que lhe fez documentos novos para ele e ela. Agora ele se chamava Paulo Roberto Santini e ela a senhora Vanessa Santini. Claro tinham se casado. Conseguiram um visto para os Estados Unidos e lá se radicaram.

                  Em Sacramento na Califórnia ele abriu um minimercado. Tininha era sua companheira em todas as horas. Continuava gostosa, mas agora se vestia pudicamente. Iam à igreja pentecostal, aprendeu inglês, e hoje seus quatro filhos são a alegria do lar. Não sei se eles ainda moram lá. Soube que um pé rapado morador do Martelo os viu na rua principal e os chamou. Nunca mais voltou para sua terra e sumiu naquele enorme estado americano. Se Chico Mortalha deu um jeito ninguém sabe. Claro, cinco anos depois acharam após uma tempestade de areia no deserto de Mojave uma caveira cheia de buracos de bala.

                     Neco parou de contar. Disse que esta era a história. Claro que dei um toque de escritor. E quem não dá? Foi a minha primeira história que nunca esqueci. Foi meu inicio nas sendas da escrita e hoje tenho oito livros publicados. Dizem que sou famoso. Não sei. Para dizer a verdade um dia em visita aos Estados Unidos fui a Sacramento, mas nem sinal de Chico Mortalha. Uma cidade grande como aquela não seria fácil. Uma agulha no palheiro. Um tarde quando saia de um cinema em um shopping vi uma garota morena, com uma micro saia colorida, pernas morenas lindas, uns seios de tirar todo mundo do sério, uns lábios carnudos, olhos negros brilhantes, cabelos vermelhos longos e esvoaçantes de braços dados com um cara magrinho, caolho, boca murcha, andava mancando e até ri dele quando observei ao seu lado um homem grande, bigodudo, dentes de ouro que todos chamavam de Don Castilho e cercado de capangas todos armados. Levei o maior susto me mandei e sai correndo quando ela gritou – Chico Mortalha! Onde você deixou o carro?

Tercetos

Noite ainda, quando ela me pedia 
Entre dois beijos que me fosse embora, 
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia: 

 “Espera ao menos que desponte a aurora! 
Tua alcova é cheirosa como um ninho... 
E olha que escuridão há lá por fora! 

Como queres que eu vá triste e sozinho, 
Casando a treva e o frio de meu peito 
Ao frio e à treva que há pelo caminho? 

Ouves? é o vento! é um temporal desfeito! 
Não me arrojes à chuva e à tempestade! 
Não me exiles do vale do teu leito! 

Morrerei de aflição e de saudade... 
Espera! até que o dia resplandeça, 
Aquece-me com a tua mocidade! 

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça 
Repousar, como há pouco repousava... 
Espera um pouco! deixa que amanheça!" 

E ela abria-me os braços. E eu ficava.


quarta-feira, 17 de junho de 2015

Hacienda Rosa... de Cimarron.

Que Amor Fez sem Remédio, o Tempo, os Fados? 

Depois de tantos dias mal gastados, 
Depois de tantas noites mal dormidas, 
Depois de tantas lágrimas vertidas, 
Tantos suspiros vãos vãmente dados, 

Como não sois vós já desenganados, 
Desejos, que de cousas esquecidas 
Quereis remediar mortais feridas, 
Que amor fez sem remédio, o tempo, os Fados? 


Se não tivéreis já longa exp'riência 
Das sem-razões de Amor a quem servistes, 
Fraqueza fora em vós a resistência. 

Mas, pois por vosso mal seus males vistes, 
Que o tempo não curou, nem larga ausência, 
Qual bem dele esperais, desejos tristes?


Hacienda Rosa... de Cimarron.

                 - Deveria ser o nome que eu coloquei quando meu pai morreu e eu assumi a fazenda. De onde vim? Não importa. Não é isto que vais escrever. Coloquei Fazenda Santo Eulálio. Mas ele com aquela alegria, com aquele olhar que me conquistou no primeiro minuto que nos conhecemos, pediu para mudar. Eu ria dele. Mudar para que meu amor? Para ficar igual a você. Hacienda Rosa... de Cimarron. Porque não? Pensei. Afinal ele era o homem da minha vida. O amei no dia que o conheci e até hoje nunca deixei de amá-lo. Não tive outro e nunca terei. Ele não tem substituto. Foi único. Uma paixão que durou muito tempo mas ele se foi. Chorar hoje não choro mais. Ele era um amante perfeito. Vivia sorrindo, cantava e olhe tinha uma linda voz. – Hacienda e Cimarron disse, foi de um livro que tinha lido.

                  Disse-me que Cimarron significava Cavalo selvagem. Eu sou assim? Ria dele. Melhor completou quem sabe os valentes selvagens que fugiram para a montanha dos pássaros dourados? Comprou uma cópia do livro Cimarron e me trouxe para ler. Uma história que me emocionou muito. Quando à placa foi colocada no novo pórtico que ele mesmo fez com as próprias mãos, olhou de todos os ângulos, deu um belo sorriso e tirou a foto do século com aquela máquina que dava um apito e uma luz forte pipocando. Claro, em preto e branco. Em 1921 poucos tinham uma melhor que aquela. Eu já estava com vinte e um anos. – Não se assuste. Claro que tenho mais de cento e dez anos. E ela ria. E como ria!

                    Eu estava com ela a mais de dois meses. Não sei como me descobriu no meu escritório diminuto no Bairro da Penha em São Paulo. Eu publiquei no meu jornal que fazia trabalhos de biografia e como “Biógrafo” já tinha escrito a vida de muita gente. Ela queria escrever sua história. A principio ir para aquele fim de mundo não me entusiasmou muito. Mas o que me ofereceu não era de se jogar fora. Aceitei. Pedi demissão do meu emprego no Jornal A Voz do Brasil e parti. Lembro que quando cheguei a Vale Feliz todos se assustaram comigo. Claro, cheguei de terno cinza, uma gravata vermelha com bolinhas azuis e somente uma valise de mão, pois achei que não ficaria mais que dez dias. Fui de ônibus. Tinha um carrinho mas não resolvi arriscar. Uma mulher como ela não teria muito a contar. Claro não foi ela quem me contratou. Foi através da firma Astolpho Advogados da capital. Eu já sabia quem eram. Famosos e reconhecidos como um dos melhores escritórios de advocacia do país. Disseram que seria por dois meses. Mais de cem mil reais para escrever a história dela. Puxa! Valia tanto assim?

                   Na cidade fiquei surpreso. Poucos a conheciam de perto. Fiz dela uma fazendeira bronca e pé de chinelo. Seu nome era conhecido de norte a sul da cidade e redondezas. Mas só o nome. De perto poucos tiveram esta honra. Diziam que seus avós já a conheciam antes de morrer. Não ia a cidade desde 1946. Desde que marido faleceu. Mais de sessenta anos. O farmacêutico Nando me disse que ela tinha ido lá com ele nesta data para assistir um foguetório da virada do ano. Foi uma festa na cidade a presença dela. Sempre foi motivo de especulação. Todos não tiravam os olhos dela e o padre nunca se queixou. Na igreja não faltava nada. Disseram-me também que era riquíssima. De onde veio o dinheiro ninguém sabia. No banco da cidade não tinha nada. Não criava gado e nem tinha nenhuma plantação. Sabiam que lá na Hacienda havia jagunços prá todo lado. Ninguém entrava sem permissão. Nicodemos um "Velho" que encontrei na praça me disse que ela era linda. Uma mulata para ninguém botar defeito Não soube descrevê-la. – Faz tempo meu amigo, muito tempo.

                  Especulei o máximo que pude a respeito dela na cidade. Mas quase não sabiam de nada. Não entendia como uma mulher que morava ali há tantos anos ninguém a conhecia? Para dirimir dúvidas fui à delegacia.
Dr. Manuel o delegado, um homem educado pouco me contou. Falou-me que há quinze anos quando chegou foi fazer uma visita. De cortesia. Não passou da porta. Não há viu. Um jagunço de nome Dente Cariado não o deixou entrar. Nunca mais voltou. Procurei um taxi que me levasse até a Hacienda. Ninguém quis me levar. Pio XII soube que queria ir lá. Ofereceu-me sua charrete. Disse-me que o chamavam assim por se parecer com o “papa que morreu” Necas. Nem passava perto. Risos. Viajamos por mais de quatro horas. Estrada poeirenta. Tão logo ao passarmos pelas corredeiras do Bom Pastor ele me disse que já eram terras dela. Agora sentia que tudo mudou. A estrada era forrada de pedras bem postadas. Sem poeira, dos dois lados plantaram Ipês de todas as cores. Achei que quando florissem seriam um espetáculo digno de se ver. Andamos quase duas horas e meia até chegar ao pórtico da entrada.

                     Era lindo o pórtico. Enorme. Cavaram um fosso para parecer um castelo. Cortaram a mão duas toras enormes. Escrito a fogo – Hacienda Rosa... De Cimarron. Dezenas de casinhas pequenas que deveriam ser dos colonos começaram a aparecer. Limpas, com cercas brancas e a maioria com muitas flores. As crianças eram educadas. Não se viam nenhuma delas sem camisa, sujas ou descalças. Corriam de um lado ao outro para me ver. Os colonos tiravam o chapéu com minha passagem. Parecia que estava entrando em outro mundo. Já estive uma vez nos Urais, atravessei as cordilheiras e ao norte do Cazaquistão fiquei dois dias na ilha de Nova Zembla. Lembrei que lá os habitantes abaixavam a cabeça com nossa passagem e as crianças corriam para beijar as mãos. Mas não trago boas lembranças de lá. Principalmente quando atravessei ao sul dos Urais o rio Samara. Mas esta é outra história que não vou contar aqui.

                     Ao aproximarmos da Hacienda dois pistoleiros vieram me receber. Quem os visse não iriam dizer ser pistoleiros. Todos vestidos a caráter de terno e gravata e o indefectível quarenta e cinco na cintura. Já sabiam da minha chegada. A Hacienda era linda. Enorme. Parecia uma daquelas onde viviam os donos de Capitanias Hereditárias com todo luxo e conforto como se estivessem em algum palácio europeu. Era tão grande que calculei ter mais de vinte quartos e muitas salas. Na escada de acesso a varanda da casa um homem enorme, cabelos longos prateados, botas de cano longo, um vasto bigode e sem barba, mas com uma quarenta e cinco pendurada no quadril veio me receber. Também a caráter. Os ternos pareciam iguais. Bem vindo Senhor. Vamos entrar. Eu sou o Dente Cariado. Dona Rosa logo que puder vai encontrar com o Senhor. Deixe-me acompanhá-lo até os seus aposentos. Dente Cariado? Só se ele tivesse dentadura, pois seus dentes eram brancos e alvos.

                  Passei por duas salas, e vi com espanto duas enormes escadarias que brilhavam ali naquele lusco fusco da manhã. O chão de mármore era ou pelo menos parecia cravejado de pedras preciosas. Os moveis deu para ver eram no estilo Luiz XV. Como tinha algum conhecimento de móveis antigos só uma estante que ali estava tinha certeza que precisaria trabalhar por mais de vinte anos para comprar uma. E os quadros que vi na parede? Sem parecer esnobe mas lá estava um Van Gogh, Retrato de Dr. Gachet. Vi também um Cézanne que não lembro o nome, O Bau au moulin de la galete de Reonir. Mar au Chat de Picasso e para completar o Le massacre des innocents de Rubens. Incrível os poucos que vi valeriam milhões e milhões de dólares.

                  Meu quarto caberia tranquilamente cinco casas iguais a que eu morava. Enorme. Uma cama no estilo renascentista italiana, enorme gigante mesmo e muito macia com decoração e paredes forradas de tecido. Nossa nunca vi tanto luxo. Como uma mulher teria condições financeiras para manter uma Hacienda como aquela? Para que? Não recebia visitas e pelo que soube eu fui um dos poucos que adentrou ali nos últimos quarenta anos.                      Fiquei dois dias perambulando pela fazenda. Ela não apareceu. Tinha livre acesso a tudo. Adorei a Capela ao lado da Casa Sede. Parecia ter sido forrada a ouro e cheia de pedras preciosas. As refeições fazia sozinho. Sempre acompanhado de longe por Dona Nair e um jovenzinho vestido a caráter que servia como os melhores garçons do mundo. Deliciosas as sopas que ela fazia. Dona Nair cozinhava divinamente. Quase não via Dente Cariado, mas sabia que ele me observa o tempo todo. Já estava me cansando daquilo. Fui ali para trabalhar e até agora nada.

                 Na manhã do sexto dia bateram na porta do meu quarto. Abri. Dente Cariado solenemente me disse que Madame Rosa iria me receber as onze em ponto no Salão de Cristal. Ufa! Parece que iria começar minhas tarefas para qual fui contratado. Tomei um banho, coloquei meu melhor terno e pus uma gravatinha borboleta com desenhos de flor de lis. Desci as escadarias e logo Dente Cariado me pediu para segui-lo. Atravessamos duas salas e adentrei em outra enorme. Uma verdadeira biblioteca. Teria ali no mínimo trinta mil livros. Que mulher é essa? Como poderia encontrar tanto luxo e tanta riqueza em uma fazenda do sertão de Goiás? Dente Cariado me pediu para sentar em uma poltrona no canto da parede, de frente a outra bem menor, ambas de madeira de lei pura, forrado com cetim escarlate. Uma musica suave adentrava ao Salão de Cristal. Tentei saber qual seria mas era tão linda que não a identifiquei de imediato.

                  Estava ali inebriado com tudo. Dente Cariado interrompeu minha “mise-en-scène” para anunciar solenemente a Senhora Rosa de Cimarron. Cimarron? Tinha adotado este sobrenome? Levantei-me, olhei para ela, meu Deus! Nunca tinha visto uma mulher assim. Deveria ter mais de um metro e setenta e cinco. Linda e olhe me disse ter mais de cento e dez anos. Não podia acreditar. Seu rosto não tinha rugas, seu cabelo avermelhado estava embranquecendo o que deva um aspecto maravilhoso a todo o seu corpo. Seus lábios grossos e seus olhos negros me colocavam em frente a uma estátua de alguma deusa grega que nunca tinha visto, mas que sem sombra de duvida eu se pudesse a levaria ao Olimpo para ficar junto às demais. Vestia simplesmente. Uma camiseta branca com gola, um lenço azul celeste amarrado ao pescoço e um jeans azul desbotado. Não daria para ela mais que uns cinquenta ou sessenta anos.

                  Cumprimentou-me simplesmente com um sorriso encantador. Quando apertei suas mãos vi uma mão macia sem rugas. Entrou logo no assunto do motivo de me ter contratado. Queria fazer sua biografia. Disse-me que um Diretor de cinema uma vez se encantou com ela. Ele queria por que queria conhecer minha Hacienda. Estávamos em um barco a vapor descendo o Rio Mississipi. Chegou a me pedir em casamento. Ficamos juntos por alguns meses. Em Nova York o deixei. Queria mandar em mim. Não me conhecia. Antes de partir insistiu que escrevesse sobre minha vida. Ia fazer um filme. Achei a ideia interessante. Mando minha biografia. Mas o filme só depois de minha morte. E olhe completou. Acreditando em você, farei um deposito em seu nome de quarenta milhões de dólares que só pode ser retirado após minha morte e com fins específicos para o filme. Não disse mais nada. Não tinha o que dizer. Ela estava me pagando cem mil reais para escrever. E fui ali para isto. Assim começou meus dias com Madame Rosa. Dias que até hoje não esqueço e acredito que nunca mais vou esquecer.

                     Resumindo. Era filha de uma índia com um Capitão português da Bandeira de Borba Gato. Ela foi aprisionada e feita escrava dele. Uma época que ninguém discutia estes atos. Sua mãe morreu quando ela tinha dois anos. Seu pai resolveu deixar a bandeira. Arranchou em Jaciara no sul de Goiás e ali tomou algumas terras para sí. Ela cresceu. Ficou moça. Ainda sem conhecer rapazes e nenhuma cidade próxima. Seu pai a prendia muito. Sua vida mudou depois que ele morreu. Então me contou um segredo que me fez jurar de não contar para ninguém. Deveria constar em sua biografia. Só iriam saber depois de sua morte. Ela deu um lindo sorriso e me disse – Se alguém souber meu amigo, você estará morto no outro dia. E riu novamente. Eu não duvidava.

                   - Meu pai tinha morrido e eu já estava com dezenove anos. Moça ainda sem saber o que fazer. Nossa casa era humilde. Tinha dois quartos uma sala e uma cozinha, mas era uma tapera. Uma noite um trovão anunciou uma enorme tempestade. Sempre tive medo e corri para meu quarto. Um raio entrou pela janela e abriu um enorme buraco no chão. Eu gritava e pedia a Deus para me ajudar. Assim como começou a chuva parou. Olhei o buraco. Enorme. Uma escada apareceu. Isto mesmo. E agora? Chamar quem? Morava sozinha. Não tinha vizinhos próximos. Meu pai me ensinou a plantar, caçar e pescar. Vivíamos assim. Tomei coragem. Com um lampião enorme que tínhamos desci as escadas. Acredito ter descido por meia hora ou mais. Nem sei onde tive aquela coragem. A escada terminou em um enorme salão. Estava iluminado. Luz elétrica? Já tinha ouvido falar mas não conhecia.

                     Notei uma serie de máquinas esquisitas. Sem querer toquei em uma. Uma mulher apareceu na minha frente. Era um fantasma só podia ser. Só depois de muito tempo fiquei sabendo que era uma holografia. Aos poucos ela foi me explicando tudo. Mandou-me colocar uns fios na cabeça. Aprendia rápido. Em pouco tempo aqueles computadores não tinham segredo. Não vou dizer para você tudo que fiquei sabendo deles. Ou seja de onde vieram e para onde foram. Mostrou-me um pequeno túnel. Disse que estava cravejado de diamantes. Sabia o que era um. Meu pai passou uma vida correndo atrás deles. Em alguns meses retirei uns dez. Não precisava de mais. Só aqueles valeriam milhões e milhões de reais. Assim começou tudo. Sem ninguém me ver fui a cavalo até Jaciara. Peguei um ônibus até Goiânia. De lá um avião para São Paulo. Claro que conhecia tudo e sabia de tudo através dos fios que coloquei em minha cabeça e em pouco tempo dominava sem problemas os conhecimentos de muitos e muitos anos que outros precisavam para saber o que eu sabia.

                 Vendi os diamantes. Em Goiânia conheci Dente Cariado. Fiz dele meu confidente e meu administrador. Ajudou-me em tudo para fazer desta fazenda uma que não tinha igual em todo o país. Mandei vir da França todos os móveis. Tudo que tem aqui veio de avião direto. Você ainda não viu mas tenho um pequeno aeroporto atrás das Colinas do Caçador. Ele está preparado para receber aviões até de médio porte. Aprendi através dos fios na cabeça como viver mais. O que comer, como tratar meu corpo. Estou agora com cento e doze anos. Pelo que eu saiba ainda posso viver mais uns vinte. Vamos ver. Foi então que ela me levou até uma sala pequena com uma porta de aço. Pediu-me para ficar afastado. Olhava a porta e ela se abriu como um passe de mágica. Se fosse pelos olhos ninguém nunca abriria aquela porta. A escadaria levava ao salão dos sonhos. Fiquei embasbacado. Um salão enorme. Cheio de parafernálias e fios. Um computador central não muito grande ocupava boa parte do salão. Vi que ele se matinha sempre ligado. Ela agora não teclava mais. Conversava com ele e ele obedecia a suas ordens.

                 Por favor, não riam de mim. Sei que dirão que em termos de ficção eu ultrapassei as raias da sanidade. E o túnel dos diamantes? Incrível! Centenas ou milhares deles. Brilhavam tanto que não precisava de nenhum tipo de energia. Tudo aquilo para mim era fantástico. Poderia ficar aqui horas discorrendo de tudo que estava vendo, mas não quero fugir do tema principal. Durante dois meses só falamos no salão dos sonhos onde poderia ser sem sombra de duvida uma cidade dos sonhos. Quem sabe ali seria uma replica de Xangri-lá. Pelo menos a Senhora Rosa de Cimarron tinha descoberto a fonte da juventude. Todos os dias ela mandava me chamar e passeando pela Hacienda conversando percorríamos grandes distancias do enorme jardim que havia atrás da casa sede. Olhe jardim imenso. Ela riu de meu espanto e disse que mandou fazer uma réplica dos jardins de Versalhes na França. Mandei um arquiteto lá só para isto. Treinei posseiros fora da Hacienda só para o jardim. Era lindo mesmo.

                - Riosvaldo, amanhã vamos viajar. – Onde? Perguntei – Vamos percorrer meio mundo. Quero que conheça algumas propriedades que tenho por aí. – Bem eu estava ali para isto. Já tinha preenchido bem umas trinta paginas em uma pequena maquina de escrever que ela me deu. Sairemos cedo. É melhor que saiba antes. Não tenho carro e nem aviões em lugar nenhum. Não quero, se os tivesse sempre teria pessoas que poderiam de uma forma ou outra bisbilhotar como vivo e o que faço. Para isto sempre alugo os veículos que preciso. Não eram nove da manhã e um Jatinho pousou no aeroporto da Hacienda. Parecia que os pilotos já a conheciam. – Ela deu suas ordens – Vamos para Aguascalientes, no México. Algumas horas de viagem. Um luxo meu Deus! Uma aeromoça nos servia o que quiséssemos. Não descemos em Aguascalientes. Mais adiante na Estancia Alfonso.  – É minha. Comprei depois que Alfonso morreu. – E quem foi Alfonso? – O homem que amei e que jurei nunca mais amar outro.

                     Então este era o grande amor de Rosa de Cimarron. A estancia era linda. Vieram recebê-la com honras. Não eram muitos. Um mordomo de Nome Delito, uma cozinheira e duas arrumadeiras. Nem entramos e ela me levou até o pé de uma montanha. Que coisa maravilhosa. Toda florida de Ipês de todas as cores. – Foi aqui que o vi pela primeira vez. Ele estava filmando. Fiquei estarrecida. Não era o homem mais lindo que conheci, mas seu olhar! Meu corpo tremeu. Perdi a voz. Apresentou-se e olhe uma voz de barítono. Não vou entrar em detalhes, mas em dois dias nos casamos em Aguascalientes. Casamento simples. Durou enquanto durou. Ele foi um homem que me disse coisas lindas e nunca tinha ouvido dos lábios de outro homem. – Sabes Rosa, queria ser uma lágrima para nascer em seus olhos. Rolar entre suas faces e teus lábios beijar. – Difícil você resistir. – Um dia ele me disse: - Fale comigo sempre que você estiver triste. Mesmo que eu não consiga lhe trazer a felicidade eu lhe darei o meu amor!

                  Aqui nesta encosta do Morro Das Flores ele me beijou. Meu primeiro beijo. Não resisti. Possuiu-me ali no chão, entre as pétalas dos ipês roxo, amarelo e não sei mais quantas cores. Andei com Rosa de Cimarron por todo o vale. Vi lágrimas em seus olhos. Não chorou, mas um pequeno soluço deixou escapar. Não ficamos muitos dias em sua instância. Novo destino: Suíça, mais precisamente na Basileia. Um helicóptero nos levou até os Alpes e conheci mais uma de suas propriedades. Um chalé enorme. Também com quatro funcionários. Todos a reverenciavam. Sentamos na varanda com uma enorme lareira acesa. Contou como ali viveu por cinco anos com Alfonso. Alí aprendeu a esquiar. Mais uma viagem, desta vez em Orleans, uma pequena cidade francesa as margens do Rio Loire. Um castelo! Isto mesmo! Um enorme castelo era dela. Não sei por que comprou tamanha propriedade. Lá tinha mais de dez funcionários. Estava intacto. Também me disse que morou ali seis anos com Alfonso. Acho que ela queria lembrar-se do passado e me levou para conhecer suas propriedades no mundo.

                   Ela mesma me disse que possuía propriedades em Portugal, Espanha, Itália, e em São Petersburgo na Rússia. A que ela mais gostava de ficar era nos Estados Unidos. Voamos para lá. Sempre foi o amor de Alfonso. Um grande rancho no Texas. Mais precisamente próximo a El Paso. Suas terras banhavam mais de seis quilômetros do Rio Grande. Enorme. Alí ela criava gado nelore. Dizia ter mais de vinte mil cabeças. Não precisava disto. Não pretendia em nenhuma de suas propriedades ter retorno financeiro. Mas foi Alfonso quem quis. Ele adorava ver o mar de chifres pelos campos. Todos os anos eles passavam pelo menos quatro meses ali no Rancho Cimarron. Ele assim também o chamou. Fiquei pensando que amor era este. Um amor de entrega total. Ela comprava tudo e podia ter quantos homens quisesse, mas se apaixonou por um homem que só podia dar ela muito amor e mais nada.

                 Ficamos fora quatro meses. Nunca a vi telefonar para ninguém. Parecia que ela sabia quem contratava. Não faziam perguntas. Quando vem e quando vai. Em Nova Yorque ela tinha um enorme apartamento de cobertura de frente para o Central Park. Ficamos lá um mês. Na viagem de volta ficou calada até chegar a Hacienda Rosa... De Cimarron. Durante dois meses não me procurou. Dente Cariado quando perguntei me disse – Quando ela quiser te chama. E mais não disse. Pensei em ir até Vale Feliz para dar uns telefonemas. Já estava fora de São Paulo há mais de seis meses. Para uns amigos disse que ficaria por dois meses. Não me deixaram sair. Entendi que era um prisioneiro com direitos de ir e vir, mas dentro da Hacienda. Em um domingo Dente Cariado me chamou. – Madame Rosa de Cimarron vai falar com o Senhor. Por volta de seis horas da tarde. Na capela da Hacienda. Por favor, não atrase. Faltando cinco minutos para as seis já estava lá. Pretendia dizer que precisava ir embora. Tudo que precisava saber dela já tinha escrito. Mais de quatrocentas folhas.

                   Entrei e sentei. As seis em ponto ela entrou. Vestida de preto com um véu sobre seu rosto. Sentou bem à frente. Apareceu um padre que nunca tinha visto. Celebrou uma missa. Após ela sentou ao meu lado. – Sei que você quer ir embora. Disse. Não pode e não vai. Sabe muito de mim. Vais morar aqui até minha morte. Quando morrer lhe darei uma sacola de diamantes uma fortuna que você nunca viu em sua vida. Terás aqui tudo que quiser. É só pedir e em quarenta horas será colocado em seu quarto. Inclusive um telefone, mas lembre-se ele será monitorado pela minha máquina. Não pode dizer onde estás. Uma Televisão também será instalada. Peço que não tente fugir. Meus homens tem ordem de atirar para matar. – E agora? O que faria? Não tinha saída. Sabia que a fortuna em diamantes era incalculável e ela mesma me disse que viveria no máximo uns dez ou quinze anos.

                    Ela mandou para seus advogados o esboço do livro que fiz de sua autobiografia. Tinha ordens expressas de publicar somente quando morresse. Já tinha feito seus planos. Dente Cariado tomaria conta de tudo com o auxilio dos advogados. Toda sua fortuna seria direcionada para instituições de caridade. Fiquei calado. Durante um ano fiquei calado sem nada dizer. Sempre que ela viajava para suas propriedades no exterior me levava consigo. Era a única diversão que me era dada. Eu e ela nunca tivemos nada. Claro, ela não fez qualquer menção em ter algum comigo. São coisas que nunca entendi. Até seu amor doentio por Alfonso, pois via em seus olhos que não o esquecia.

                     Estou "Velho" e cansado. Muito. Fiz cento e cinco anos no mês passado. Ela continuava como se fosse à mesma quando a conheci. Ela me ajudou com sua fonte da juventude. Agora quase não consigo andar. Dente Cariado me ajuda. Milagrosamente ele continua o mesmo. Não mudou nada. Então este será meu destino. Morrerei antes dela. Sei tudo de sua vida, sei tudo de seu amor por Alfonso. Não entendi e nem entendo o que ela queria ou quer agora. Não mudou suas atitudes, sua maneira de ser. Costuma ficar meses sem falar comigo. Porque não me deixou ir embora? Afinal sua vida se contasse para alguém ninguém iria acreditar. Se este é meu destino que assim o seja. O mundo um dia vai conhecer sua história. Sei que será um belo filme. Será conhecida no mundo inteiro e todos saberão quem foi Rosa... de Cimarron. Sua história está escrita. Quando isto vai acontecer não sei. Até me pergunto se ela não tem parte com o Demônio. Acho que não. Estou perdendo a noção de tudo. A vida vai se esvaindo de mim. Acho que é o meu fim. Vejo-me no céu olhando Rosa... de Cimarron. Eu conheci sua história, eu vivi ali, junto a Rosa. Aquela que amava Alfonso, aquela que morava na Hacienda Rosa... De Cimarron! 
                    
"Leia o texto abaixo e depois leia de baixo para cima”
Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...