Bem vindo ao blog do Osvaldo

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sábado, 8 de novembro de 2014

Uma historia de amor perdida no tempo


Uma historia de amor perdida no tempo

"Há homens que têm patroa.
Há homens que têm mulher.
E há mulheres que escolhem o que querem ser."

Os ventos que às vezes tiram
algo que amamos, são os
mesmos que trazem algo que
aprendemos a amar...
Por isso não devemos chorar
pelo que nos foi tirado e sim,
aprender a amar o que nos foi
dado. Pois tudo aquilo que é
realmente nosso, nunca se vai
para sempre...


Um conto baseado em uma historia impossível 

       
               Leonora, trinta e quatro anos, morena jambo, cabelos castanhos curtos, lábios carnudos, corpo bem feito, muito bonita. Quando passava próximo a minha casa, eu a via no seu porte altivo. Um olhar arrogante olhando sempre em frente. Quem a via não sabia o que se passava em sua mente. Ela planejava, era uma maquina trabalhando sem cessar. Buscava uma solução, um milagre. Sua vida pelo avesso. Dificuldades, sentimentos doidos, casamento fracassado, amigos distantes, credores ligando, ameaçando. Sua vida cada dia piorava. Só mesmo uma surpresa amiga que nunca esperou.

        Nunca teve vida fácil. Nasceu de um parto difícil, lá pelas bandas do norte estado sofrido,  cidade pequena, onde seu pai era já falecido nunca teve nada. Lutara com dificuldade desde pequena. Sua mãe a protegia muito. Seu pai não. Era severo, cara amarrada, fazia tudo que ela não queria. Não a deixava sair de dentro de casa, não tinha amigos e só foi para o colégio com oito anos. Mesmo assim a vigiava entrar e sair. Ele mesmo fazia questão disso todos os dias.

       Cresceu, virou mulher, sonhando em sair de casa, ter a sua, seu homem, mas esse dia não chegava. Terminou a oitava série. Era bonita, muito. Todos os homens corriam para ela. Ela criteriosa escolhia. Seu pai morreu numa tarde de setembro. Dia frio. Ela não chorou. Poucos compareceram ao seu féretro. Um ano depois, sua mãe amasiou com outro. Era um casal feliz. Ela passou a amar o padastro. Suas irmãs a adoravam. Eram grandes amigas.

      Por um capricho do destino, mudou de cidade. Sua mãe a expulsou. Por causa de nada. Não confiava nela. São pequenos pedaços de historia mal contada. Conheceu um homem. Rude, não sabia se gostava ou não dele. Bruto, sem cultura, mas seu coração batia por ele. Mas naquele momento era sua bóia naquele mar revolto. A primeira decepção. Sua mãe vivia dizendo do valor da virgindade. Colocou-a sem mais nem menos para fora de casa porque duvidou dela. Como se ela fosse uma mulher qualquer. Sabia de sexo o que tinha lido. Ele lhe fez um convite. Ela curiosa aceitou.

     Levou-a a um motel de terceira. Feio, fedido. Ela não se sentiu bem. Aquilo não era o que esperava. Entraram. Um quarto sem janelas. Cheiro ruim marcas na cama no chão na mesinha. Ele colocou em um filme pornô. Ela olhou. Primeira vez, quem sabe aprenderia. Ele ficou nu na cama. Ela olhou e assustou, ele nu na cama, medo, horror. Nunca tinha visto. O que fazer?

Deitou com ele. Só com roupa de baixo. Ele a forçou. Ela o empurrou. Não era aquilo que pensava como seria a primeira vez. Levantaram e se foram sem fazer sexo. A semana não foi boa. Sua mente sempre voltava aquele motel. Ficou noiva dele. Será que iria dar certo? Ela sonhava com isso. No fundo achava que gostava dele. Não aquele amor que lia nos romances nas novelas.

    Casaram-se. Houve sexo. No inicio nada bom. Depois ela sentiu que ele não tinha experiência. Ele a possuía com força. Não era e nunca foi carinhoso. Satisfeito virava e ia dormir. Se ela sentia ou não, ele não importava. O tempo foi passando, o primeiro filho, o segundo e ela pensava se teria futuro.

      Sua família fora do casamento não era muito unida. Se se preocupavam com ela, não sabia. Uma bela tarde soube que sua mãe tinha morrido. Suas irmãs casaram-se e não soube mais delas. Ela verteu lágrimas, gostava muito da mãe e de suas irmãs. Criou os filhos com dificuldades. Uma lutadora. O tempo passou, doze anos para ser exato. Largou o emprego fixo para uma aventura. Iria tentar nunca desistiu. Comprou um pequeno negócio.

        Com dificuldade, não tinha capital, mas arregaçou as mangas e foi em frente. Seu casamento estava no fim. Queria mudar de vida, viver com e para seus filhos. Sem ele. Mas eram doze anos de casada. Uma vida. Seus filhos não entendiam o porquê das brigas, das discussões, da sua tristeza.

        A cada dia mais seu casamento piorava. Ela era jovem, bonita, glamorosa, simpática, chamava atenção quando seu olhar firme de olhos amendoados sorriam para alguém. Atraia atenção. Muitos homens a queriam. Clientes que iam beber alguma coisa a olhavam com volúpia nos olhos. Ela via em algumas ocasiões um ou outro que poderiam lhe chamar a atenção. Olhe, não fiquei sabendo se ela teve ou não um caso. Nunca me falou sobre isso. Hoje, aqui em minha casa, eu e ela sentados nesta varanda em frente à praia das Palmeiras, conversamos sempre. Mas ela não diz nada.

       Seu marido era um homem sem cultura. Tentava de todas as maneiras ajudar, mas brigavam muito. A princípio até que foram felizes. Ela chegou até a gostar dele. Ele era perverso. Exigia muito dela. Um ciúme doentio. Agora faziam sexo por fazer. Ela não tinha mais nenhum interesse por ele. Quando ela me contava isso, eu não sei. Acreditava, pois sempre a achei sincera.

        Não sei por que estou contando isso. Ela é uma grande amiga. Gostamos muito um do outro como pai e filha. Visita-me sempre. Vem sempre a minha casa. Nunca tivemos relacionamento. Sou viúvo, moro de frente para o mar. Coisa que adoro. Gosto de ficar aqui, olhando as ondas jogando na praia, o vento soprando. Aqui eu costumo ficar até altas horas. Varias vezes dormi pensando em Maria. Sei que isso não vai trazer ela de volta. Mas minhas lembranças são minhas. Minha cadeira de balanço de palhinha que vive comigo a mais de 40 anos é minha companheira de nostalgia.

       Leonora estava em grandes dificuldades. Não tão grandes assim, ela uma mulher lutadora iria vencer. Mas sentia falta de um companheiro que lutasse ao lado dela. Contou-me que tentou muito. Mas o dialogo tinha chegado ao fim. O sexo ela sentia como obrigatório. Não gostava mais. Não acreditei muito nisso. Acho, no entanto que ela era honesta comigo. Agora só fazia quando ele insistia. Durante o dia, vinha para almoçar, e sempre lá estava ele, flertando com uma vizinha. Não tinha ciúmes acreditava que não era certo. Falou com ela um dia, foi franca, gosta dele? Pode levar! Achei graça.

        Era uma luta. Uma grande luta. Cuidar, criar e sustentar três filhos não era fácil. Levantava cedo, abria sua loja, voltava para fazer as refeições, cuidar da casa, a tarde voltava de novo. Clientes, crianças gritando, correndo dentro do seu estabelecimento a enervava. Gostava de ficar ali, na telinha, no computador ou no seu celular moderno, vendo e ouvindo tudo que encontrava na internet. Tinha amigos, recebia email, sorria, piscava seu olhos castanhos, mastigava uma bala, trabalhava. Assim era Leonora. Uma mulher de verdade.

        Ontem veio me contar, uma historia fantástica. Rocambolesca mesmo. Não sei se acreditei. Era inverossímil. Impossível mesmo. Mas partindo dela, porque não? – Olhe, ela me dizia, apaixonei por um homem, que nunca vi, nunca senti seu calor, seu aperto de mão, sua respiração. Eu vejo sua foto, algumas muitas antigas, quase não mostra o que é hoje. No entanto ele é para mim real. É Leonora, sua fantasia de mulher que sonha em conhecer algum dia seu príncipe encantado, desta vez passou dos limites.

        Ele é atencioso, educado, parece simpático. – continuou. Sei que tem mais de setenta anos, mas me parece ter uma saúde de ferro. Diz-me coisas lindas. Respeita-me, diz que gosta de mim. - Eu fiquei em dúvida. Acho que Leonora está indo para um caminho sem volta. Isso não existe. Não se pode amar uma fantasia, um fantasma, mesmo que ele seja de carne e osso, mas cuja pele você nunca sentiu e que nunca viu. Ela ria. Aquele sorrindo lindo, ardente. Olhe, vou lhe contar uma coisa, se fosse mais novo, pediria ela em casamento. Acho que ela apesar de pura nos pensamentos para comigo, devia ser ardente, fogosa, uma mulher que todo homem sonha.

       Leonora voltou mais algumas vezes em minha casa. Sentávamos sempre a varanda, olhando o mar, as ondas, o som do vento balançando as árvores. Sempre me contava do seu homem. Do seu amor por ele. Ficava abismado com sua maneira de dizer, de contar. Ela sorria sorriso de menina apaixonada. Ainda persistia Leonora? Dizia eu. Ela sorria de novo, com aquele seu jeito espalhafatoso de dizer – Claro amo ele, gosto dele não sei viver sem ele. Olhe passo os dias pensando só nele, é o sol da minha vida. O meu acordar das manhãs.

       Pensei comigo, pobre Leonora. Apaixonou-se por uma tela de computador. Alguém que não existe. Será que isso vale à pena? Um Engodo. Uma enganação. Achei que alguém a estava tapeando. Mas a mulher, principalmente Leonora, acreditava que aquela ilusão era real. Sonhava com ela. Comprou um celular e quando não estava na sua loja, ligava para ele de qualquer lugar. Gastava, gastava sem poder. Incrível um amor assim. Em meu pensamento não podia idealizar o que não existe.

     Leonora era simples. Claro uma mulher forte. Agora, aproximando da maturidade dos 34 anos, ela se portava como uma pantera, ágil, forte, mostrando que não era para qualquer macho do seu bando. Não sei se ainda interessa por sexo. Ela não me contou. De seu marido ela não esperava mais nada. Mas mesmo com muitas cantadas de outros, não aceitou nenhuma. Olhe, não sei se é verdade. Leonora era fogosa demais, se mostrava sempre como uma gata no cio. No seu subconsciente contava uma coisa, mas eu mesmo pensava que haviam outras.

       Ria desbragadamente, quando as tardes, ficava comigo na varanda, esperando o por do sol que se estendia no vasto azul do mar. Era um espetáculo novo para mim todos os dias. Vivia ali a mais de 15 anos. Diziam que morar ali era solidão de quem perdeu o bem amado. Não sei. Nunca esqueci Maria, minha esposa que morreu de câncer. Eu a amava mais que tudo. Nenhuma mulher a substituiu e nem iria substituir. Ali todas as tardes eu a via, saindo do mar, no seu vestido rosa, aquele que usava quando a conheci. Eu tinha poucos amigos. Leonora era a mais próxima. Gostava muito dela. Sempre a respeitei. Nutria um sentimento de pai para filha.

Lembro-me bem quando entrei em sua loja, e me deparei com ela. Lembrava quando passava em frente a minha morada. Por um motivo que não lembro bem, precisava fazer uma consulta de um pequeno gerador que queria comprar para minha casa. Faltava sempre luz e apesar de gostar do escuro e da solidão, achava que precisava ter um. Entrei e me deparei com aquela linda mulher. Adorei suas maneiras. Tratou-me como se fosse uma amiga de longa data. Conversamos banalidades, fiz o que pretendia e me fui. Lembrava-me sempre dela.

      Um dia, passando perto voltei lá. Conheci seus dois filhos. Os convidei para um domingo almoçar comigo. Foram. Nasceu uma grande amizade. Hoje, passado alguns anos ela sempre me procura. Não me considera um conselheiro, pois não vai à busca de conselhos. Mulher determinada nunca pede isso. Ela eu acho gosta de mim por ser bom ouvinte. A sua maneira é sincera. Conta tudo, até os detalhes mais sórdidos. Fiquei perplexo com certos detalhes que me contou. Mas era assim Leonora. Uma mulher de verdade.

Grande Leonora. Uma grande mulher. Ficou dias e dias amando sua ilusão. Uma quimera. Desmaio de segunda em seus braços. Flor que não desabrochou na primavera. Em seu devaneio via seu amor em todo o lugar. Dizia que o sentia que sabia como era seu toque. Sonhava com ele em todos os lugares por onde andava. Eu não ria, não podia, não era assim que a tratava. Gostava dela, me sentia feliz, extremamente afortunado para não dizer bem-aventurado por ter sua amizade.

       Alguns meses depois, ela chegou. Com os olhos vermelhos. Chorou ali, copiosamente naquela tarde de maio, inverno rigoroso. Disse que seu sonho acabou. Nada mais existia. Tentei saber o porquê, mas ela não disse. Seus olhos negros grandes como jabuticabas colhidas nas grandes matas escondidas nas extensas florestas verdes do amazonas, deixava escorrer lágrimas. Não pude dizer nada. Nada havia a dizer. Dizem que chorar faz bem. Eu quando perdi minha mulher não consegui chorar. Quem chorou e chora até hoje, é meu coração. Ficamos ali, ouvindo o anoitecer coberto pelas estrelas no céu. Uma brisa correu em seus cabelos, e ela sentiu um calafrio. Leonora estava silenciosa. Nada dizia. Olhava para o céu e mais lagrimas corriam no seu lindo rosto.

       Foi embora. Ao levantar, me olhou, e chorando disse. - Ele se foi. Meu único e grande amor se foi. Desejei morrer quando soube. Ele dizia que me amava, não sei. Acho que amava todas as mulheres. Disseram-me que morreu sorrindo. Foi melhor. Acho que foi o destino que quis assim. Deus não foi bom comigo. Desejei tantas coisas na vida, o único homem que amei, queria tocá-lo, sentir o calor do seu rosto, sentir o seu sorriso, ouvi sua voz umas poucas vezes e não pude vê-lo. Perdi o único homem que amava. O queria muito. Sempre pensei que um dia teria ele comigo em carne e osso. Ele sempre dizia não. Sei que sou infeliz. Perdi alguém que não podia perder. Que esteve ao meu lado longe de mim. Gostava dele, falar com ele. Agora só tenho meus filhos que muito amo. Ajudam-me a viver.

       Pobre Leonora. Também chorei por ela. Uma pequena lágrima escorreu pelo meu rosto. Gostava dela, minha única filha que nunca tive. O que ela sentia eu também sentia. Mas o amanhã nunca morre tudo tem seu tempo e sua hora. Sei que iria esquecer. A alegria de Leonora se foi. O tempo quem sabe vai fazê-la recuperar. Ao seu modo foi feliz por um mês ou dois não sei. Amou alguém que era uma ilusão. Manteve na mente um amor impossível.

      Nunca me contou quem era de onde era. Isto ela guardou para sempre. Hoje, perambula entre sua casa, seus afazeres, sua loja. Não sei se separou do marido, não sei. Só me disseram que fica horas e horas de frente para o computador, muitas vezes desligado, ou então ouvindo musicas que achei que antes não gostava. Quando estive lá, ela estava ouvindo “A montanha azul dos grandes amantes”, eu conhecia. Era uma paródia romântica de Stavivinsky. Ou melhor, Igor Fiodorovitch Starvinsky, um grande compositor russo. Ou então ouvia Somewhere in time (Em Algum Lugar do Passado) e chorava copiosamente.

       A vida é assim, feita de sonhos de pedaços de historias que não existem, mas que resistem ao sabor do tempo, na memória daqueles que puderam um dia vive um grande amor. Grande Leonora. Espero que seja feliz. Muito feliz. Ela merece e muito. Faz tempo que não a vejo. A última vez que esteve aqui, quase não falou. Pediu para colocar Have I told You Lolely, com floid Cramers, um grande pianista que tocava divinamente musicas românticas. Eu tinha o CD, Ela ficou horas e horas olhando para o mar. Ouvindo a melodia e chorava baixinho.

        Naquele dia, não ouve por do sol, os pássaros noturnos não gorjeavam. Uma chuva fina caia sobre o mar. Um véu cinzento cobria a encosta da montanha ao longe. E ela, Leonora, chorava copiosamente. Descanse minha filha. Linda e Bela Leonora. Também fiquei ali. Mudo. Sem nada dizer. Só as recordações dela e minha faziam do silencio uma memória viva da realidade!

Quero Amar-te

Quero amar-te como ninguém te amou;
Em toda a parte quero ter-te sem fim;
Como se fosses tu uma parte de mim;
Amar-te até desconhecer quem sou;

Quero encontrar-te se ninguém te encontrou;
Passear contigo entre as flores do jardim;
Colher as mais perfumadas que o jasmim;
Para que por ti saibas quem se apaixonou.

Quando te imagino sabes o que eu vejo:
Alguém que encheria todo o meu ego;
Por isso encontrar-te é o que eu almejo.

E se não podes amar-me por medo
Aqui te deixo um secreto desejo:
Seremos amantes em grande segredo!

Ass: amante virtual

          


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A calcinha de renda vermelha de Lola.



CALCINHA
De renda sua textura
Moldando pele macia
Traduz sonhos na cama escura
Enquanto eu lhe tiraria
Perfumada pelo desejo
Eu te arranco com um beijo
Arrepiando seus sentimentos
Desvendando seus momentos
Calafrios em pensamentos
Que num toque se entregou
A essência do amor
De quem veio e lhe beijou.
Everson Russo


A calcinha de renda vermelha de Lola.

                      Lola, apenas um nome. Sua mãe nunca lhe disse o porquê. Era um mistério, de onde surgiu? Afinal Lola era uma menina de dezessete anos, morena magra, sem formosura, seios pequeninos, pernas finas, cabelos encarapinhado e o pior, era pobre. Mas conseguia sustentar sua mãe que vivia em uma cadeira de rodas. Trabalhava em casa de família como diarista e nunca pensou em ter um namorado. Ela entendia como era e sabia que nenhum rapaz um dia iria se interessar por ela. Cresceu assim ali naquele bairro pobre, e só Valeria como amiga. Valeria era diferente. Mais espevitada. Saia à noite para as baladas e voltava tarde. Seus pais acostumaram com tudo e virou rotina na vida dela. Convidou várias vezes para ela ir também, mas Lola sabia que não seria bem vinda. Sabia que era feia, corpo magro e quem poderia se interessar por ela?

                     Ramon era seu vizinho. Nascera ali ao lado da casa de Lola. Nunca foram amigos, pois Ramon também era meio esquisito. Não gostava do bairro que nascera e sabia que quando terminasse a faculdade ele iria embora dali. Trabalhava no Banco do Estado, serviço simples e salário pequeno. Quase todo gasto na faculdade São Judas no seu curso de Arquitetura e Urbanismo. Não sabia que teria possibilidade de algum dia ser um arquiteto famoso e isto não o incomodava. Queria trabalhar em um lugar onde fosse respeitado e que pudesse mostrar seu valor profissional. No banco não passava de um office-boy e poucos o respeitavam. Um dia Ramon ficou encucado. Tudo porque ele viu pendurado no varal da casa de Lola uma calcinha de renda vermelha. Seria dela? Teria que ser. Sua mãe nunca iria vestir uma calcinha assim. Ficou pensando nela com a calcinha de renda vermelha. Tentou fazer dela uma mulher sensual, mas não conseguiu. Não dava, Lola era o que é e nunca seria uma mulher atraente usando uma calcinha de renda vermelha.

                    Foi Valeria quem inventou tudo. – Lola, nem sempre o corpo é tudo, o que o envolve também. Vou lhe dar uma calcinha de renda vermelha que tenho. Você não vai usar. Pendure-a no varal. Todos que passarem irão ver sua calcinha. Ficarão intrigados como você seria usando esta calcinha. Vai ser divertido saber que pelo menos terão pensado em você e quem sabe alguém poderá ter tesão? Lola riu. Tesão minha amiga? Nunca. Não com este corpo. – Valeria disse – Olha Lola sem querer ofender, mas para todo chinelo Velho tem um pé que adora ficar ali. Quando Valeria saiu deixando a calcinha de renda vermelha na sua cama, Lola olhou bem para ela. Riu pensando como ficaria vestido com ela. Ficou tentada. Sabia que não iria ser nenhuma beldade, mas a vontade chegou e foi tanta que ela se despiu e olhando no espelho foi colocando devagar a calcinha. Passou pelos seus joelhos e ali ela deixou parada. Viu seus ralos pelos cobrindo sua nudez entre as coxas. Fechou os olhos e pensou que poderia estar sendo observada por um homem em algum lugar.

                    Pela primeira vez Lola sentiu sua condição de mulher. Teve desejos. Teve vontade de abraçar alguém, sentir o seu cheiro, teve vontade de ser possuída. Mas não sabia como. Nunca fora. Era virgem e nem tinha ideia de como seria. Abriu os olhos e se viu no espelho nua, tendo a cobrir-lhe as partes íntimas uma calcinha de renda vermelha. Tirou logo e não olhou mais no espelho. Vestiu seu vestido Velho de chita barata e saiu para o trabalho. Ninguém iria trabalhar para sustentá-la e uma vertigem erótica não poderia substituir o pobre dinheirinho que iria ganhar naquele dia. Saiu e viu muitos vizinhos olhando para ela. Sentiu vergonha. Alguém teria visto ela só de calcinha? Impossível. A janela estava fechada. Voltou e só de raiva pegou a calcinha de renda vermelha e a colocou no varal.

                   Valeria quando chegou à tardinha riu quando viu a Calcinha de renda vermelha no varal de Lola. Foi até lá, mas ela ainda não havia chegado do seu trabalho. Mais tarde iria comentar com ela como todos os vizinhos estavam alvoraçados com a calcinha de renda vermelha presa no varal do seu quintal. Valeria não viu mais Lola naquela noite. Saiu como sempre fazia como uma mariposa noturna em busca de sua diversão, dos homens que amava. Nem prestou atenção na calcinha de renda vermelha que estava presa no varal do quintal de Lola. Naquele noite Ramon chegou tarde da faculdade. Quando ia entrar em sua casa reparou que a calcinha vermelha estava lá. - Que coisa pensou. Uma calcinha de renda vermelha a me importunar? Queria esquecer Lola e sua calcinha de renda vermelha. Tomou logo uma ducha fria. Precisava. Sentia que seu corpo tremia. Desejos? Como? Por Lola? Riu só de pensar. Não era Lola, era a calcinha de renda vermelha. Ela sim lhe dava uma sensação enorme de possuir Lola. Não iria olhar em seu rosto, iria esquecer seu corpo magro e sem graça, estava encantando era de ver Lola vestida com a calcinha de renda vermelha.

                       Por vários dias a Calcinha de renda vermelha de Lola não saia da cabeça de Ramon. Até seus estudos estavam prejudicados. Na sala de aula da faculdade ele não se concentrava. Não tinha jeito. Ele tinha de ver Lola com a calcinha de renda vermelha. Enquanto isto não acontecesse ele não teria paz. Era um jovem tranquilo, calmo e sempre respeitador até mesmo em seus pensamentos. Agora não era mais assim. Passou a se masturbar com frequência sempre a pensar em Lola com sua calcinha de renda vermelha. Em seus sonhos eróticos a possuiu em todos os lugares. No cinema, no motel, em sua cama, na cama dela e em bosques de parques da cidade que conhecia. Lola, Lola e sua calcinha vermelha de renda. Tomou uma decisão. Iria conquistá-la. Acontecesse o que acontecesse. Mas iria demorar a conquista. Ele não podia chegar a ela e dizer – Lola, eu estou louco por você. Vista sua calcinha de renda vermelha e deixe-me olhar. – Não isto é coisa de doidos. Mas como conquistá-la? E a vizinhança o que iriam dizer? Afinal ele era um guapo bonito e tinha muitas moças do bairro que faziam tudo para um convite dele. Bastava ele sorrir e piscar os olhos que elas vinham correndo.

                       Aquele dia não foi trabalhar. Ficou na varanda de sua casa esperando Lola sair ou chegar. Meio dia, quatro da tarde, seis e nada. Lola não aparecia. Ele não sabia, mas Lola o observava sorrateiramente atrás da cortina de sua casa. Ela também sonhou com ele. Um sonho lindo, ela sendo possuída pela primeira vez. Ele um cavalheiro entrou devagar para não machucar. Afinal Lola era virgem e sempre dói na primeira vez. Ele foi calmo. Sentiu sua dureza em seu íntimo. Sentiu suas caricias seus beijos e ela pela primeira vez chegou a um clímax que nunca tinha chegado. Acordou suando. Isto era errado. O que Valeria tinha feito? Era feitiço? Era apenas uma calcinha de renda vermelha, mas que transformou Lola e Ramon. Ambos sabiam que queira ou não um seria do outro. Teriam que fazer o que todo homem e mulher fazem. Lola sabia que quando Ramon a convidasse ela aceitaria no ato. Não precisava de preliminares. Ela queria ser possuída. Seja como for ela nunca pensaria mal dele.

                        Ramon não aguentou mais. O dia inteiro esperando Lola chegar ou sair. Resolveu tomar uma decisão. Foi até sua casa. Bateu e a porta se abriu. Ele viu o céu a sua frente. Lola nua vestida com a calcinha de renda vermelha. Ele não sabia o que fazer. Sem membro endureceu. Ele queria abraçá-la, beijá-la, fazer tudo que achava direito. Mas entrou devagar em sua sala. Lola morena estava vermelha. O que Ramon poderia pensar dela? Receber ele assim nua só de calcinha de renda vermelha? Ela não era uma mulher de vida, não era uma moça oferecida. Ela era uma moça direita, virgem e que sabia não ter atrativos, mas aquela calcinha de renda vermelha a transformou. O jovem mais bonito do bairro a queria. Ela sabia disto. E depois? Sabia por ter lido que após o ato muitas vezes vem o arrependimento. E se ele se arrependesse? Seria só uma vez? Valeria a pena? Pelo sim e pelo não pegou ele pelo braço e o levou ao seu quarto. Ele fechou a porta devagar, olhou para ela nua só com a calcinha de renda vermelha.

                         Parece que o mundo explodiu em goso. Um goso gostoso, animalesco, um goso de um homem e de uma mulher. Ramon achou que estava voando no céu. Achou que seu corpo estava experimentando um êxtase nunca antes conquistado. O assalto não foi uma única vez. Ele assaltou seu corpo por varias vezes. Não falavam. A cúpula era uma atrás da outra. Como ele conseguia? Mas ele estava extasiado com aquela mulher e ela extasiada com ele. Nunca pensou que o ato fosse assim. Sempre teve medo sempre correu dos homens, pois nunca pensava em ser possuída. Ramon sentou em sua cama. Colcha branca agora vermelha como sua calcinha de renda vermelha. Não se arrependeu. Para ele Lola era outra moça. Não a achou mais feia, magra sem graça. Ele a queria para sempre. Um amor diferente estava nascendo. Ela também sentia o mesmo.

                           Na rua ela andava agora diferente. Olhava a todos como se fosse uma vencedora. Não era mais uma moça, agora era uma mulher. Ramon também mudou. Era outro homem. Sabia que tinha encontrado a mulher dos seus sonhos. Não esquecia a calcinha vermelha de renda. Formou-se e se tornou um famoso arquiteto. Sempre corre para casa as pressas para encontrar Lola. Seus desejos eróticos se mantinham firmes. Todas as noites ele a possuía. Ela gemia de prazer quando ele lhe tirava a calcinha de renda vermelha devagar. Devagar para não rasgar. Ambos sabiam que era uma calcinha de renda vermelha encantada. Ela foi à razão deles se tornarem amantes e agora casados viviam a vida de um casal em plena felicidade. Feliz para sempre. Nem mesmo Jô, Martinho e Lolita seus filhos tiraram seus prazeres secretos. Eles sabiam que quando o pai chegava se trancava no quarto de sua mãe. Saiam de lá sorrido, de mãos dadas como se tivessem feito o grande amor de suas vidas.

                     A calcinha de renda vermelha, guardada sozinha em uma pequena cômoda feito só para ela sorria. Sabia que todas as noites ela seria usada. Mas não foi encantada por uma feiticeira que sentia falta de um grande amor? E agora ela parecia viva, sabia que estava ali por pouco tempo. Até a hora que Ramon ia chegar e amar Lola. Assim termina a história. A história de uma calcinha de renda vermelha que fez um casal feliz por todo o sempre.
CALCINHA
Ah que calcinha linda
De renda nunca foi não
Os fios todos bem justos
Querendo ser proteção
Uma calcinha bem branca
Bem fina de algodão
Fugindo do cós da calça
Deixando-me com paixão
Chateia-me esta peça
Nos dias de muito tesão
Só serve pra dar trabalho
De tirar molhada ou não
Depois do amor já feito
Volta ela ao lugar
Branca, seca, bonita
Fetiche de me matar

João Freitas

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Perverso entardecer



Sensual
Ainda sinto o teu corpo ao meu corpo colado;
Nos lábios, a volúpia ardente do teu beijo;
No quarto a solidão, desnuda, ainda te vejo,
A olhar-me com olhar nervoso apaixonado...

Partiste!... Mas no peito ainda sinto a ânsia e o latejo
Daquele último abraço inquieto e demorado...
Na quentura do espaço a transpirar pecado,
Ainda baila a figura estranha do desejo...

Não posso mais viver sem ter-te nos meus braços;
- Quando longe tu estás minha alma se alvoroça
Julgando ouvir no quarto o ruído dos teus passos...

Na lembrança revejo os momentos felizes,
E chego a acreditara que a minha carne moça
Nua carne moça até criou raízes!...
J.G. de Araujo Jorge

Perverso entardecer
(Baseado em uma história real)

      A brisa da tarde varria as folhas mortas da castanheira em frente à minha moradia. Era uma linda castanheira. Principalmente quando ficava verdejante, e na primavera as castanhas maduras amareladas, faziam com que a criançada subisse na arvore para saborear a fruta doce que ela oferecia. Já não sei mais e nem lembro como foi a minha infância e como era a castanheira no passado. O tempo passou, e durante muitos anos morei em tantos lugares que deles só guardo a lembrança de Ana Laura. Se ela era cheia de graça, formosa, hoje tudo acabou. Eu a vejo como se fosse uma espécie de nômade a buscar um lugar ao sol e que nunca encontrei.
      
Ana Laura. O meu único e grande amor, por quem dediquei uma vida e ainda tenho dúvidas se foi realmente uma vida. Sempre fugindo. Sempre buscando refúgio e nunca encontramos um lugar onde pudéssemos viver a nossa vida... Não se sei se todo homem é poeta quando está apaixonado. Um homem sensato dizem, pode apaixonar-se como um doido, só não pode ser um tolo. Eu fui tudo isso, um louco de paixão, e um tolo como homem. Quanto a poeta não. Nunca fui. Minhas palavras neste sentido saem com dificuldade. 

       Busco lá no passado, como tudo começou. Meus vinte e três anos. Sonhos. Ambições. Somente um mísero ginasial que não me dava oportunidades na vida profissional. Empregos escassos e as oportunidades não apareciam. Eu tinha lido que a oportunidade bate em nossa porta somente uma vez. Não podemos deixá-la ir embora. Se ela se for nunca mais vai voltar. Portanto devemos agarrá-la logo. Mas se eu ficasse em casa esperando, sabia que nunca ela viria. Eu tinha que correr atrás.
      Consegui através de um amigo, uma oportunidade de ganhar bem. Ganhar bem? Não sei. Era vendas. Nunca fui um bom vendedor. Mas fazer o que? Emprego na minha cidade não tinha. Então me embarquei nesta aventura. Vendia livros. Enciclopédias famosas. Éramos três. Eu Lazio e Paulo. Cidades do interior. Lá estava eu na minha primeira experiência. Após o café no hotel saiamos cedo. De porta em porta. Uma conversa já treinada antes para convencer.

      Primeira casa bati a porta abriu. Fiquei pasmo! Espantoso! Ali estava a moça mais linda que já tinha visto. Meus pés viraram chumbo. Minha cabeça ia a mil por hora, meu coração acelerou. Se fosse um cardíaco, ali teria sido o meu fim. Foi assim que conheci Ana Laura pela primeira vez. Nenhum dos dois dizia nada. Eu estático na porta, ela dentro de casa, mas na porta. Um olhava para o outro. Minutos, até que ela balbuciou algum como se fosse, “pois não”?

       Entrei. Não sabia como iniciar a conversa para vender meus livros. Ela sorria. O sorriso mais lindo que já tinha visto. Seu olhar, seus olhos, era como se fosse um novo dia para mim. Poderia estar na natureza esquecida, ou na própria essência da vida, ou no frescor da aragem da brisa neste dia que Ana Laura apareceu na minha vida. Ou eu apareci na vida dela. Queria dizer mais, não vender, queria dizer que agora eu viajava no meu mundo de sonhos, pois agora todo o dia seria para mim ano novo, colorido, pois encontrei o meu grande amor.

       Ficamos ali conversando, um olhando fundo nos olhos do outro. Conversa banais, mas sabendo que a paixão estava florescendo. Sentia nela um perfume silvestre, como as folhas novas que brotam na primavera. Ana Laura tinha dezessete anos. Pele clara, um sorriso encantador, olhos negros bondosos, cabelos encaracolados castanhos, magra, lindos seios, uma mulher perfeita. Onze horas, uma duas horas. O tempo foi passando, o amor aumentando.

     Naquele dia possui Ana Laura. Não foi uma posse, foi mais um sentimento profundo, um amor transformado em pétalas de rosa, usufruindo nosso enlace, dois corpos que se fundiam. Incrível. Sem arrebatamento. Amor sublime, calmo, adorando cada parte, sentindo o doce sabor do clímax, na hora certa, no ponto certo. Ana Laura fechava os olhos, gemia baixinho, aceitava tudo como se fosse a ultima vez que iria fazer o que estava fazendo. Às seis da tarde me escorreguei do leito e um beijo calmo, saboroso, selou meu até logo. Ela e eu sabíamos que não iríamos parar ali.
      Fui para o hotel. Sonhando. Não via ninguém. Os olhos de todos a espreita, vigiando, sabendo o que aconteceu. Um banho sorrindo, cantando, e a mesa do jantar, olhei meus companheiros. Não disse nada, não contei nada. Eles sim disseram como foi o dia. Venderam alguns livros. Meu pensamento estava longe. Jantei, fui para a varanda e fiquei olhando a noite escura. Muitas estrelas no céu. Não tinha sono, não queria dormir, não queria esquecer a paixão avassaladora que estava sentindo. Eu amava Ana Laura. Agora nunca mais iria deixá-la. Aconteça o que acontecer.

     O dia amanheceu. Logo estava a sua porta. Ela me recebeu chorando. Não me deixou entrar. Dizia que eu devia partir. Imediatamente. Se ficasse eu seria morto. Não me explicou. Não disse o por que. Não havia tempo a perder disse. Não me queria morto e sim vivo. Agora não podia ficar. Tinha de partir dizia. Não estava entendendo e ela fechou a porta. Fiquei ali pasmo, sem saber que atitude tomar. Ouvi um barulho, meu ombro sentiu uma pontada. Tinha levado um tiro. Voltei-me, quatro homens me apontando armas. Mais tiros. Sai em desabalada carreira e eles atrás.

      No final da rua virei à esquerda e entrei em um matagal. Consegui me esconder. Eles passaram por mim varias vezes. Ficava imóvel. Foram-se. Fiquei só. E agora? O que eu devia fazer? Voltar ao hotel fora de cogitação. Peguei uma trilha e fui em frente. A bala tinha entrado no antebraço e saído. Não havia sangue. A dor era pequena. Meu lenço de bolso serviu para fazer um dreno. Avistei uma casinha, lá me informaram que a próxima cidade não estava longe. Havia a possibilidade de pegar o noturno que me levaria à capital.

     Passado duas semanas, voltei à cidade de Ana Laura. Cheguei à noitinha. Não disse nada a ninguém. Não iria ficar sem ela. Era a mulher da minha vida. Iria propor fugir naquela noite mesmo comigo. Ela iria decidir. Se não iria ficar ali junto a ela e morrer. Minha vida não tinha mais sentido sem ela. Tentando me desviar das pessoas e não ser visto, cheguei e bati a porta. Se o atirador estivesse lá que seja. Não me importava mais. Ela abriu a porta e entrei. Falei o que tinha de falar. Nos abraços, beijamos e ela fez as malas. Pequena, pouca coisa. Saímos sorrateiramente.
      Eu tinha poucas economias. Ela tinha algum. Pegamos o trem noturno para a capital. A levei a casa dos meus pais. Cinco dias depois partimos para o interior de Minas. Ela já havia me contado tudo. Era casada com o capitão Levegildo. Intitulavam-se “Polícia de captura’”. Era um valente militar que passava dias e dias a procura de bandidos em diversas cidades. Ela não gostava dele. Sabia que não teríamos paz em lugar nenhum. Ele iria nos procurar em todos os lugares. Tinha amigos poderosos.

     Durante seis meses ficamos escondidos perto de Guajará Mirim. Uma casinha pequena de pau-a-pique. Trabalhava em uma fazenda de café. Aceitaram-me como auxiliar de escrita. Salário pequeno. Dava para as despesas. Vivi com Ana Laura os mais belos dias de minha vida. Contava as horas e minutos que voltaria para casa. Ela me recebia como um príncipe. Casa humilde. Caixotes servindo de cadeira. Fogão a lenha. Luz de lamparina, uma esteira como cama de casal.

    Uma manhã vi diversos cavalos na venda do Zé das Quantas. Sabia quem eram. Corri em casa, juntei alguns trapos e sai com Ana Laura correndo em sentido contrário à estrada de chegada. Andamos a pé quase a noite toda. Cedinho chegamos a Tarumim, e lá pegamos um ônibus para Visconde de Avelar. Ficamos uns dias na pensão da dona Matilde. No quinto dia vi que não iria conseguir nenhum emprego naquela cidade. Andava de volta a pensão quando um tiro ecoou. Olhei e lá estava o filho da puta do capitão a rir e atirar em mim.

     Escondi-me nuns espinheiros próximo ao rio Peroba. Já noite alta fui como um fantasma até a pensão. Ana Laura estava lá, sentada na sala, e ao seu lado o capitão Levegildo. Entrei por uma janela e ele não me viu. Por trás peguei uma cadeira e soquei com força em sua cabeça. Caiu desmaiado ou morto não sei. Eu e Ana Laura juntamos nossos trapos e partimos de novo a pé como sempre. Não havia ônibus àquela hora.

    Resolvemos sair do Estado de Minas. Fomos em direção à Bahia. Em Feira de Santana trabalhei uma semana na construção de um Grupo Escolar. Logo que recebi botamos o pé na estrada. Desta vez fomos direto a Salvador. Pretendíamos ver um navio qualquer para nos levar para longe. Difícil muito difícil. O dinheiro era escasso. Minha única alegria era estar ao lado de Ana Laura. Ela estava enfrentando tudo com uma força que me fazia orgulhar da mulher que eu amava loucamente.

      Uma tarde chuvosa ela me comunicou que estava grávida. Bendito seja Deus! Eu ria, mas rir porque? Será que aquele menino ou menina teria futuro? Não sei só o tempo sabe a resposta. De novo um tiro, de novo senti a picada desta vez nas navegas. Maldito capitão. Maldito. Não nos dava trégua. Onde fossemos ele estava atrás. Como ele estava à paisana foi preso por dois militares que estavam próximos. Deu tempo para fugir. Mas a bala ficou alojada em um lado das minhas nádegas. Sangrava bastante e Ana Laura fez compressas durante as paradas de ônibus. Desta vez nos dirigimos a São Paulo. A maior cidade do pais. Seria difícil sermos encontrados.

       Durante mais de dez anos, vivemos uma vida cheia de alegria e felicidade. Nestor nasceu em fins de outubro, hoje com nove anos e meio. Um lindo garoto. Estuda, é um ótimo filho. Ana Laura mantém seu belo sorriso. Ainda é a mulher mais linda do mundo! Estava aproximando o natal. Eu trabalhava como mestre de obras em uma grande empreiteira. Ganhava bem. Tínhamos um casa boa em um bairro da zona norte.
       Recebi um telefonema de Ana Laura e ela estava desesperada. Nosso filho tinha sido raptado. O capitão Levegildo nos tinha descoberto. Maldito. Maldito mesmo! Nunca teríamos sossego. Pegou meu filho e disse a Ana que só o soltaria se eu fosse buscá-lo pessoalmente. Não tinha medo, mas não andava armado. Fui até onde ele estava. Nem bem me viu e me deu um tiro certeiro. Entrou na barriga, caí desmaiado. Ele veio rindo e atirando, mas cinco tiros. Um na perna, outro na coxa direita, outro no pescoço, os demais não me atingiram.

      Ele soltou meu filho e levou com ele a força Ana Laura. Deixou meu filho com um vizinho. Fui dado como morto. Fiquei entre a vida e a morte por seis meses. Recuperei mas andava coaxando. Juntei a pequena economia que tinha e comprei uma Magnum 357 semi-automática. Deixei meu filho aos cuidados de uma comadre, que morava próximo a nossa casa. Sabia onde encontraria o capitão Levegildo. Cheguei a Don Marcos pela manhã, em um pequeno Fiat que tinha comprado. Fui direto a casa dele. Não estava lá. Ana Laura quando me viu correu e me abraçou chorando.

     Ela me disse que ele estava na delegacia. Pedi a ela para juntar tudo e entrasse no carro na parte de trás. Fui direto a delegacia. Desci e o vi em pé na porta conversando com outro policial. Dei oito tiros nele. Fugi correndo no Fiat. Seu amigo ainda atirou e atingiu Ana Laura na cabeça. Fiquei maluco. Acelerei mais e na primeira cidade deixei Ana Laura no hospital, mas não podia ficar. Agora seria caçado por toda a policia do estado.
      Passaram-se dois anos. Mandei uma carta no meu antigo endereço e lá estava Ana Laura que tinha sobrevivido. Liguei para ela e disse que fosse me encontrar em Porto Alegre. Que felicidade em estarmos junto novamente. Nestor agora tinha quinze anos. Um belo jovem. Conseguimos em um caminhão de transporte de grãos, ir até a divisa com o Paraguai. Em Villarica uma pequena cidade no interior do Paraguai alugamos uma casinha. A felicidade tinha voltado as nossas vidas.

     Mais três anos e um dia, lá estava de novo o filho da puta do Capitão Levegildo. O desgraçado não tinha morrido. Desta vez não errou. Matou com um só tiro Ana Laura. Meu filho também foi atingido e morreu. Fiquei transtornado, fui em casa correndo e consegui alcançá-lo na fronteira. Um tiroteio feio. Mas desta vez ele estava morto. Para não haver duvidas dei quinze tiros em sua cabeça. Virou uma peneira. Eu também estava morto, tinha perdido tudo. Tudo que mais amava na vida. Maldito, se amava Ana Laura porque a matou?

     Passaram-se mais de quarenta anos. Voltei para a casa dos meus pais em belo Horizonte. Eles haviam morrido. Nunca mais fui importunado.  Ainda faço uns biscates com minha idade. Estou beirando os setenta e oito, mas me considero forte e mesmo sentindo o peito vazio, uma saudade imensa. Ainda ando sem precisar de ajuda. Acho que não tenho mais coração. Não sinto nada por ninguém. Dizem que a vida é conforme nosso merecimento. Não sei.

    Meu amor hoje está escondido no fundo do meu ser. Minhas saudades é amar um passado que ainda não passou. Não posso recusar o presente mesmo ele me machucando. É como se a saudade fosse o inferno dos que a perderam e a dor dos que ficaram. Parece que o gosto da morte me acompanha e ela não vem. A cada dia peço a Deus que me leve, pois tenho certeza que Ana Laura me espera lá no céu, onde as flores são mais lindas, onde as cores são mais vivas, onde o sorriso faz parte do amanhecer e do por do sol. Sei que meu dia irá chegar e eu e Ana Laura iremos viver felizes para sempre...

     Desculpem. Esqueci de dizer meu nome. Podem me chamar de Rodrigo, aquele que foi sem nunca ter sido...

QUADRILHA

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Servidão humana


O CONDENADO 

O que importa se vivo, sentido, sem tino, sem valor? 
Eu não consigo ser diferente de mim mesmo. 
Não consigo não sentir o que sinto. 
Estranho é ser reticente... 

Não me julgue! Que não me condeno! 
Faço-me impune e detenho-me. 
Aprisiono-me em teus braços 
E declaro-me culpado! É prisão perpétua!


Servidão humana

                 Moro no inferno. Aqui onde estou é a casa do demônio. Não me invejem e nem queiram me fazer companhia. Onde estou à degradação e o sofrimento humano não é mais que um antro de podridão. Quem me visita e são poucos, ou melhor, ninguém eu sempre digo que se existir um inferno na terra ele é aqui nesta prisão onde a devassidão é inimaginável. Só quem vive aqui sabe que não existem palavras suficientes que explicam como é essa morada. Quem por aqui já passou pode relembrar o sofrimento, pois aqui eles são o pior que existe. Aqui sou um inquilino do príncipe das trevas.
                   Não durmo o sono dos justos. Não sou inocente. Se estou aqui é porque mereço. Ouvi de alguém dizer que quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo. Eu não consigo parar de lembrar. Marcou profundamente minha alma, meus sentimentos e até hoje não sei se os tinha. À tarde quando saio da cela nada tenho a fazer. No pátio ando de um lado para outro como todos. Olho as paredes do pátio, descascadas e úmidas cheirando a bolor. É melhor que nas celas, também úmidas, cheirando a podridão e onde as paredes sujas são cobertas pelos companheiros com fotos das namoradas ou de mulheres nuas rasgadas de revistas masculinas.
                Não tenho cama. Um levantado de cimento com um colchonete fino. Meu corpo já acostumou. Estou aqui há oito anos. Até a comida podre servida em mamitex de terceira já aprendi a comer. Muitas vezes infestadas de insetos, baratas e excremento de ratos. Não me incomoda mais.  Eu mesmo tento lavar minha roupa não mais que quatro peças. Não tenho ninguém para fazer isso. Os meus companheiros de cela recebem visitas e sempre trazem roupa limpa. O banheiro? Só rindo. Um quadrado pequeno chamado por todos de “boi” é compartilhado pelos quatro amigos, ou melhor, companheiros de cela, pois aqui não se tem amigos. Aqui me chamam de Pato o coxo, não sei por quê.
             Meu nome é Ivete. Tenho 19 anos. Não sei se sou feliz. Vivo como posso. Não tenho muito, mas não passo fome e nem frio. Moro com uma amiga, Leda, ela nunca me disse o nome completo e nunca perguntei. Trabalhamos juntas em uma lanchonete no centro da cidade. Trabalho simples. Ivete recebe muitas cantadas dos clientes eu não. Ela tem estilo, é bonita, loira, e veio de uma cidade do interior. Seu pai a expulsou de casa. Namorava um jovem negro. O pai não aceitava. Ele a abandonou quando vieram para a capital. Ela sozinha conseguiu o emprego e nós duas alugamos um quartinho barato na periferia da cidade.
                  Não reclamo da vida que levo. Não sou bonita, nunca fui. Sou morena, quase negra, meus cabelos crespos não ajudam. Um dos meus olhos são meio estrábico. De nascença me disseram. Fui criada em um orfanato. Não conheci um lar e ali eu tinha um. Madre Maria era enérgica e uma mãe para mim. Tive lá muitos amigos. Aprendi a cozinhar, a arrumar uma casa, a lavar e passar. Esqueci de dizer, aprendi a ler e escrever também. Nunca ninguém interessou em me adotar. Quando alguém aparecia, todos ficavam alvoroçados. Eu não. Sabia que não seria escolhida.
                 Nunca sai. Sempre lá, junto com minha amigas que fugiam ou que morriam. Muitas delas foram parar ali viciadas em drogas. Eu não sabia o que era isso. Via pela televisão que assistíamos toda tarde de duas as cinco. Madre Maria conversava pouco, mas por ela fiquei sabendo que cheguei com dois meses. Minha mãe me abandonou numa esquina movimentada em uma caixa de papelão. Quando fiz 18 anos Madre Maria me chamou e disse que eu tinha de ir embora. Era a lei. Não entendia de lei e nem sabia o que era. Me deram uma mala, algumas roupas, cem reais em dinheiro e um endereço onde disseram que eu poderia trabalhar de empregada domestica.
                 Quando cheguei aqui há oito anos atrás, fui violentado por dez presos. Diziam que era meu batismo pelo que fiz. Depois matei dois lá mesmo na prisão a escondida e ninguém até hoje sabe que fui eu. Os demais me pediram perdão e disseram que eu era o chefe, podia mandar e eles obedeciam. Mas com o tempo matei também todos eles. Não mereciam perdão. Apesar de baixo, sou forte, e diariamente não deixo de fazer meus exercícios físicos. Francamente eu sabia que um dia iriam acabar com minha vida ali. Se isso acontecesse tudo bem. Ainda tinha mais 22 anos pela frente. Poderia sair antes, mas não podia pagar advogado. Coisa que os outros faziam. Antes de irem presos, tinham quem pagasse para eles.
                Sou caladão. Converso pouco. Aqui não dou as costas para ninguém. Muitos se dizem meus amigos, mas vá acreditar neles! Na cela os quatro que lá estão me olham sempre com medo. Desde que cheguei mais de 30 passaram pela minha cela. O diretor já me deixou varias vezes na solitária. Não fazia nada e lá estava eu. Mal cabia um homem ficar deitado. Só com as pernas encolhidas. Era um lugar fétido. Sem sol. Sempre na escuridão. De vez em quando baratas cruzavam meu corpo. Aprendi a comê-las. Assim elas diminuíam e me deixavam em paz. Não reclamo. Nunca reclamei.
                 Nunca disse nada a ninguém porque estava ali. Todos que conheci se diziam inocentes. Não fizeram nada. Eram puros. Só rindo! Eu nunca disse que era inocente. Não era. Antes de fazer o que eu fiz, trabalhei na roça de sol a sol. Não tinha medo e nem preguiça. Meu pai não queria que eu viesse para a cidade grande. Acho que sabia o que ia acontecer. Peguei umas poucas roupas, um ônibus. Cheguei em uma rodoviária cheia, carros passando, prédios, gente, fiquei pasmo. Sabia que seria assim. Tinha visto na televisão, mas ao vivo era outra coisa. Perguntei ao um carregador onde poderia achar uma pensão. Ele riu e me mostrou um homem de bigodes grandes.
                Custei a encontrar o endereço. Uma casa com muro alto. Me identifiquei e me mandaram entrar. Uma senhora gorda de uniforme falou comigo e perguntou se sabia passar e lavar. Balancei a cabeça. Ela me levou para um quartinho pequeno nos fundos. Uma cama, uma penteadeira, uma cadeira e um espelho pequeno. Não era difícil. Eu sabia como fazer. Fiquei lá três meses, não me deram nenhum dinheiro. Quando fui reclamar disseram que eu comia e dormia, não merecia mais. Não concordei com isso. Não foi o que Madre Maria me disse. Insisti. A gorda me disse que a porta da casa é a serventia da rua.
                Sai de lá, sem dinheiro, só minha mala e sem ter para onde ir. Andei alguns quarteirões. A fome apertou. Vi uma lanchonete. Uma loira servia alguns clientes. Falei para ela que faria tudo por um prato de comida. Ela me mandou sentar. Comi bem. Levantei e ela mandou esperar. Conversou com o proprietário. Fiquei sabendo depois que ele não queria. Me achava feia, sem graça e poderia espantar os clientes. Fui admitida. Fiquei amiga de Leda. Quando a noite terminou, ela me disse até amanhã e se foi. Eu fiquei por ali. Ela voltou e perguntou onde morava. Falei a verdade. Me levou para a casa dela. Um quartinho e uma cozinha pequena. Disse que eu pagaria a metade das despesas com meu salário. Sorri. Agora achava que minha vida tinha recomeçado.
              Já fazia mais de cinco meses que trabalhava na lanchonete. Adorava o trabalho. E seu Jorge passou a gostar de mim me elogiando. Recebia o pagamento, dava a Leda à parte dela e o que sobrava guardava. Comprei poucas roupas. Não tinha namorado não era atraente e, portanto não gastava com que considerava supérfluo. Uma tarde servi a um rapaz baixo, calado, nunca me encarava, ou seja, não encarava ninguém. Foi educado comigo e passou a vir todas as tardes para jantar. Aos poucos entabulamos conversa e ele me convidou para ir ao cinema. Fiquei de boca aberta. Nunca pensei que aconteceria comigo.
              O homem de bigode foi educado comigo. Depois soube que era um “gato”. Arregimentava trabalhadores para obras de construção na cidade. Disse que lá tinha alojamento. Fui. O salário não era bom, mas tinha de começar. O “Gato” queria meus dois primeiros salários. Não concordei. Ofereci a metade de um e só isso. O mestre de obras não aceitou a imposição dele. Sabia que eu era bom trabalhador e dedicado. Não tinha horas para parar e nem incomodava em receber ou não horas extras.
           Conheci uma moça em uma lanchonete próxima. Passei lá a fazer minhas refeições que era só um jantar a noite. Não almoçava. A firma dava um café quente e um pão com manteiga pela manhã. Comia dois. Seu nome era Ivete. Nâo era bonita. Acho que até feia sim. Mas ela me atraia. Era educada, simples sem afetação. Começamos a namorar. Conheci a historia dela, ela conheceu a minha. Em menos de dois meses convidei ela para casar comigo. Ela sorriu e aceitou. Uma semana antes aconteceu a desgraça. Uma turma de playboy a encurralou na saída de sua casa a noite quando retornava do trabalho.
           Ela não me contou. Nada disse. Mas seus olhos mostravam medo. O que antes não existia. Com muito custo narrou-me tudo. Achou que agora eu não ia mais casar com ela. Não era mais virgem. Isso não era importante para mim. Mas não ia deixar passar em branco o acontecido. Ela disse-me que se lembrava de um. Era o filho do proprietário da casa onde trabalhou. Ela me contou tudo que aconteceu lá. Fiquei sabendo onde era e fiz uma “campana“ de cinco dias. Pelos amigos que andavam com ele, sabia que todos tinham participado da curra. Um dia, quando saiam no portão, meti o revolver na boca do playboy. Os demais em numero de dois, não reagiram.
           Tudo aconteceu muito rápido. Nosso namoro se transformou em noivado. Estava feliz. Muito feliz. Vivia fazendo planos. Muitos. Que beleza! Eu teria minha casa, meu marido meus filhos. Daria a eles o que não tive. Minha vida de plena felicidade se desmoronou. Fui currada por três playboys na rua onde morava. Voltava para casa à noite, eles estavam em uma picape. Me agarraram e me levaram para um terreno baldio. Fizeram comigo coisas incríveis. Todos três. Depois me deixaram lá, meio desacordada com as roupas todas rasgadas e toda suja de sangue. Doía muito, por fora e por dentro. Me senti imunda. Não pensei mais na minha vida de sonhos. Eles destruíram tudo.
              Devia ter ido fazer um boletim de ocorrência. Não fui. Achei que não ia resolver nada e iam rir de mim. Uma meia negra, feia, sem pai e mãe, criada num orfanato, não teria razão e nem acreditariam em mim. Um deles reconheci como o filho do patrão na casa que trabalhei e não me pagaram nada. Escondi tudo de Leda. Não queria piedade. O que diria para o Nelson? Não sei. Meu medo era grande demais. Não consegui esconder. Leda tanto insistiu que contei para ela que contou para o meu patrão. Eu e o Nelson saímos à noite e desatei a chorar. Resolvi contar tudo. Sabia que ele iria terminar comigo. Ele me ouviu calado. Só insistiu se eu sabia ou tinha reconhecido alguém.
              Nelson desapareceu da lanchonete. Eu sabia que isso iria acontecer. Soube depois o que tinha acontecido com ele. Deu dois tiros na boca de cada um e depois capou todos. Uma sangueira danada ficou na rua onde aconteceu. Todos morreram. A policia o encurralou na cidade onde ele morava antes de vir para a capital. Deram vários tiros nele. Ele revidou. Ficou ferido e não morreu. Levado para o hospital tiraram as balas e depois ele foi para a prisão. Foi julgado e condenado há trinta anos. O juiz fez questão de dizer que teria de cumprir toda a pena. Ele não tinha advogado, sua defesa foi improvisada. Ele nunca contou porque matou os playboy. Só eu sabia.
           Dizem que aqui é a sucursal do inferno. Não sei. Vai ser minha vida. Tenho 29 anos, quando sair, se sair, pois acho que me matam antes, terei mais de cinqüenta anos. Bem novo ainda, mas sem vida. Acabou as ilusões, os amores, os sonhos. Sempre me disseram que lugar de bandido é na cadeia. Acho que sou um bandido. A vida passa e a minha vida também. Ainda tenho dignidade, acho que ainda sou um ser humano. Sei que aqui muitos aprendem a ser melhores ladrões, bandidos e assassinos. Somos todos aqui demônios dominados pelo ódio e alimentados pela sede de vingança.
           Não há ninguém inocente aqui. Por um motivo ou outro estamos na prisão porque merecemos. Até pode ser fatos desta ou de outra vida passada. Acredito nisso. Vários pastores tentaram me catequizar. Não quis. Não preciso disso para acreditar em Jesus. Nunca deixei Ivete me visitar. Não queria alimentar ilusões. Ela nunca mais seria minha e nem eu seria nada dela. Soube que ela vinha sempre. Chorava e implorava para entrar. Mas eu era irredutível. Sinto que alguma coisa vai acontecer. Parece que sou um médio vidente. Não sei bem o que é, mas muitos irão morrer. Eu estarei junto. Irei prestar contas ao Satanás nas profundas do inferno.
           Foi num sábado, uma grande rebelião, ou motim sei lá, fogo nos colchões, fizeram carcereiros prisioneiros, arrebentaram portas, quebraram e botaram fogo em tudo. O pavilhão nove onde eu estava virou um inferno. A policia militar invadiu o pavilhão e instalaram o terror. Entravam de cela em cela, e atiravam em todos que ali estivessem. Eu ouvi os primeiros tiros, depois de metralhadora. Não corri, permaneci na cela sem me mexer. Sabia que tinha chegado minha hora. Estava só eu lá, os demais procuravam refugio, mas eu sabia que não encontrariam. Se tinha de morrer, que fosse como homem. Não iria pedir perdão e nem iria chorar.
           Eles entraram, mais de dez. Me viram, Olhei para eles sorrindo. Uma saraiva de balas me pegou em cheio. Não senti nada. Parecia que eu estava saindo de lá, voando não sei bem, e minha mente apagou. Onde estou hoje não tenho ódio e nem rancores de ninguém. De vez em quando me deixam visitar Ivete. Ela continua a mesma. Na lanchonete, dificilmente sorri. Queria ter casado com ela. Acho que se tivesse acontecido, seria maravilhoso. Meu destino foi outro. Gostaria que ela fosse feliz. Sei que vivemos juntos em outra vida, mas não sei o que fomos e nem o que fizemos. Vai haver continuação. Iremos nos encontrar de novo. Por muitas e muitas gerações.
         Aqui sou feliz. Não muito, mas aprendo todos os dias que os homens semeiam na terra o que colherão na vida espiritual: - Os frutos de sua coragem ou da sua franqueza. Ninguém pode voltar atrás e fazer um novo começo, mas qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim. Aprendo muito. Mas não sei, não me arrependo do que fiz. Um amigo aqui já "Velho" me disse: - Não amarre o seu amor, porém nunca dê muita corda, ela pode se arrebentar e você não saberá onde o perdeu.

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam) 
a cada instante de amor.