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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Vinte e cinco segundos para morrer!


Um beijo

Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior... Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! E anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto...

Vinte e cinco segundos para morrer!

Tempo atual
Quinta feira – 15 horas

                 - Você tem vinte e cinco segundos para rezar seu filho da puta. Vou matar você como se mata um cão! Não espere piedade. Você me tirou Letícia nada mais me resta. Vai se encontrar com o diabo nos meios dos infernos! – Eu estava branco, lívido, pálido e tremia. Que situação! Nunca pensei em morrer assim. Tentei falar e não conseguia, só balbuciava. O que fiz? Não podia acreditar no que estava acontecendo. Todos estavam espantados. Assim como eu estavam no lugar errado na hora errada!

                Impossível descrever meu pavor. Tudo parecia um grande engano, mas era real. Meu nome é Roberto Silviano. Sou um simples professor de história. Não sei o que é violência e nem tampouco estive com ela algum dia. Como fui parar ali era uma situação inusitada. Melhor é começar contando tudo. Incrível como a vida nos reserva surpresas assim. Dizem que na vida temos muitas surpresas. Boas, ruins e inesperadas. Temos de estar preparados para reagir a cada uma delas. Até me disseram que não devemos ter medo de viver e ser feliz. Mas eu não estava vendo assim.

Quarta feira – 22 horas – um dia antes

                  Tinha rodado por toda a cidade não só nos melhores colégios, mas também aqueles mais humildes. Cinco meses desempregado. Achei que era um bom professor. Sempre a mesma desculpa. Volte no fim do ano, quem sabe teremos alguma desistência de professores e poderemos admitir você? Educadamente é claro. Minha família era muito unida. Casei com Karina há dez anos atrás. Deus nos abençoou com Antero e Maria Eugenia. Um casal de filhos lindos e que agora se aproximando dos oito e nove anos faziam de nossa família o lado extremo da felicidade.

                   Dizem que a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para frente. Nunca tive problemas com minha atividade profissional. Provi minha família de um lar humilde sim, mas cheio de alegrias e felicidade. Era professor de um grande colégio que para surpresa de muitos fechou as portas e me vi na rua. Como não estava conseguindo nenhuma oportunidade, li que uma universidade no interior, por sinal muito bem quista na sua área, estava oferecendo vagas para professores que tivessem formação acadêmica ou pedagógica.

                   Karina concordou e até fez planos se fosse admitido. Ela achava que uma cidade menor teria uma vida mais simples, mas bem mais calma e pacata. Peguei o ônibus das 22 horas, e deveria chegar à cidade por volta de 07 da manhã. Uma viagem calma deu até para tirar bons cochilos. Notei com alegria que a cidade tinha aquele aspecto de interior, e era bem provida de arvores com um belo rio cortando de ponta a ponta vários bairros.

Quinta feira – 07 horas – o dia fatídico

                  A rodoviária era pequena e logo que desci peguei minha maleta e procurei alguém para me informar sobre a universidade. Uma moça próxima a uma banca de jornal me fazia sinais para aproximar. Era uma linda morena de olhos castanhos, grandes, um lindo cabelo negro amarrado em rabo do cavalo e ela sorria para mim. Deus do céu! Ela era linda demais. Fui ao seu encontro, primeiro pela sua beleza segundo porque achei que ela queria algum de mim e não era eu, pois não era bonito, e até tinha o corpo meio encurvado para os meus 42 anos.

                 Pediu desculpa e se apresentou como Cecília. Queria saber se poderia acompanhá-la até o Banco da cidade, pois iria retirar uma grande quantia em dinheiro e tinha medo e de ir lá só. Poderia ter aconselhado a pedir ajuda a um policial, mas não o fiz. Tinha duvidas sobre sua historia se era verídica. Eu estava absorto com sua imagem, pois apesar de amar profundamente Karina, não podia deixar de aproveitar alguns minutos ao lado dela. Não pensem mal de mim. Nunca iria trair Karina. Mas como era cedo, fomos até um restaurante/bar que estava aberto e tomamos um café acompanhado de pães e biscoitos.

Quinta feira – 09 horas – o dia fatídico

                  Se fosse um bom observador, o que não sou, poderia ter visto do outro lado da rua um pequeno Fiat com três pessoas dentro, a observar nosso colóquio amigo no restaurante. Conversamos amenidades, e eu não sei por que, estava fascinado com aquela mulher. Não deixava de olhar dentro dos seus olhos grandes, seus lábios grossos e vermelhos. Senti-me culpado por Karina. Eu ali com uma bela mulher, agora desejando ela ardentemente e ela a labutar e dar assistência aos filhos que lá ficaram.

                 Cecília falava naturalmente. Quando ria, sua boca estremecia para a direita e seus lindos dentes apareciam fazendo um trejeito irresistível. Não sei se falou a verdade ou se contou pequenas nuances de sua vida de maneira ficcional só para me enganar. Eu não tinha experiência com mulheres. Nunca tive. Cecília em poucas horas estava me conquistando fazendo de mim um escravo de tudo que ela desejasse. Agora ali, eu não olhava para trás. Este estava sendo o dia mais feliz de minha vida. Vivia ele como se fosse o único, e especial, com uma pessoa especial.

Quinta feira – 10 horas – o dia fatídico

                   Saímos do restaurante e nos dirigimos ao banco. Sua historia do dinheiro me deixou intrigado, mas sua beleza me enfeitiçou. Entramos e ela procurou o gerente. Não sei o que conversaram, mas o gerente saiu com ela branco como uma folha de papel. Ela me olhou e sorriu. Aproximou de mim e disse – Muito obrigado, não preciso mais de você e me deu um beijo mordido. Um beijo que nunca tive na vida. Foi realmente incrível. Fiquei estático com aquele beijo. Logo vi que a trama que me envolveram não estava de maneira nenhuma preparado para ela.

                    Os três bandidos que estavam no Fiat entraram armados até os dentes. Mandaram todos deitar e um cliente que demorou levou uma coronhada no ombro caindo como uma pedra no chão. Eu não deitei e o que parecia ser o chefão, um barbudo, se aproximou e me disse baixinho.  – Pela sua ajuda vais levar uma parte, agora não se faça de bobo e deite como todo mundo. Eu tremia. Não deitei e ele me olhou de novo e me deu uma rasteira. Mesmo assim não cai. Dei nele um tremendo soco no rosto. Nossa! Nunca fiz isso! Um dos bandidos atirou em mim e Cecília entrou na frente recebendo a bala que a mim era destinada.

Quinta feira – 11 horas – o dia fatídico

                     Virou uma balburdia o banco. Gente gritando, outros tentando correr para a porta e eu boquiaberto com tudo. Não sabia como reagir. Ouvimos lá fora a sirene do carro da policia. O banco estava cercado. O barbudo que parecia ser o chefe e dava ordens a todos inclusive a mim se aproximou de Cecília. O tiro tinha entrado no ombro e sangrava muito, mas ela ainda estava viva. Poderia ter sobrevivido, mas o barbudo não quis que ninguém a socorresse. Porque não sei. Ela estava de olhos abertos, deitada em uma poltrona e fez um sinal com os olhos para me aproximar.

                      Fernando Pessoa dizia que o próprio viver é morrer. Não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos nisso, um dia a menos nela. Foi uma carnificina. Os três ouviram os policiais para se renderem. Fizeram tudo ao contrário. Disseram alto que a cada cinco minutos matariam um se a policia não saísse de frente do banco. Policia do interior, não preparada para esse tipo de ação. Não saíram. Deram um tiro na cabeça do gerente. Cinco minutos depois outro no pescoço de uma moça jovem.

Quinta feira – 13 horas – o dia fatídico  

                        Cecília queria falar e não conseguia. Sua boca enchia de sangue. Fui até ela mesmo com o barbudo gritando para ficar onde estava. Ela baixinho pedia perdão, não queria isso, não era assim que tinham planejado. O plano falhou. Eu teria outro papel. Não sei que papel seria, pois ela morreu em meus braços. O barbudo me deu uma tremenda coronhada com o fuzil que portava. Cai esparramado no chão próximo a um vigilante desmaiado e não desmaiei. Deu para pegar seu 38. Nem sei o que pensei. Não sabia atirar. Nunca dei um tiro na vida.

                        Meu primeiro tiro pegou no peito do magrinho que não falava e ele caiu duro no chão. Corri atrás do balcão. Uma saraiva de balas pelos dois que lutavam ainda para escapar. Olhei e vi que só tinha duas balas. Mirei no cara do jaleco preto, ele também quase não falou, mas matou três pessoas no banco a sangue frio. Ele veio na minha direção rindo, debochando e acertei um tiro em sua boca. Ele caiu estrebuchando feito um porco capado.

Quinta feira – 14 horas – o dia fatídico   

                      Ouve um silencio macabro no banco. A policia não se mexia. Não queriam entrar. Receberam ordens da capital. Um major de uma cidade próxima chegaria logo para negociar. Eu fiquei calado e quieto. Só uma bala na arma. O barbudo começou a cantar baixinho e depois cantava alto. Louco, ele é louco pensei. Um homem de idade levantou e saiu correndo em direção à porta. O barbudo o derrubou com um tiro.

                     Fiquei ali sem saber o que fazer. O barbudo não se aproximou. Não sabia quantas balas tinha e eu achava que ele se amedrontou com meus tiros certeiros. Não sei por que fiz aquilo. Um simples professor. Nunca tinha usado da violência. Nunca dei um tiro em minha vida. Agora não tremia mais. Fiquei preocupado, pois achava que estava gostando de tudo. Deus meu! Isto não pode acontecer. Uma saraiva de balas entrou pela janela. Fui atingindo no braço e minha arma caiu. Os policiais resolveram atirar não sei por quê.

  Quinta feira – 15 horas

                 - Você tem vinte e cinco segundos para rezar seu filho da puta. Vou matar você como se mata um cão! Não espere piedade. Você me tirou Letícia e matou meus amigos. Nada mais me resta. Vai se encontrar com o diabo nos meios dos infernos! – Ele me pegou desprevenido. Olhava para a porta e ele veio por trás. Não reagi, não dava mais. Só vi a policia de choque invadindo o salão do banco. Ele atirou em mim e o tiro pegou no outro braço. Caiu para trás com vários tiros dados pelos policiais. Acho que morreu na hora.

                   Levaram-me para o hospital da cidade. Não tinham condições de me tratar. Duas balas em cada braço. Fui para outra próxima. Fiquei lá por 15 dias. Minha esposa me acompanhou. Quando soube veio correndo. Os jornais me tratavam como o herói que salvou muitos reféns. Não salvei ninguém. Nem sei até hoje porque fiz aquilo. Mas me fizeram um herói que nunca existiu. Não adiantava explicar.

Segunda feira – 07 horas – dois meses depois do acontecido.        

                    Meu primeiro dia de faculdade. Fui aceito como professor e todos me olhavam admirados. Não gostava disto. Mas sabia que era um fato e este fato iria desaparecer com o tempo. Karina estava contente com a nova casa. Simples mas uma morada cheia de amor. Meus filhos adoraram a cidade. Fui homenageado por diversos clubes da cidade. O Rotary e o Lyons Clube. O prefeito me deu uma medalha que disse ser a mais alta condecoração já dada a alguém. Não me sentia bem com todas aquelas homenagens. Mas a vida é assim mesmo.

                   Diziam que na vida, nada se resolve, tudo continua. Permanecemos na incerteza e chegamos ao fim sem sabermos com o que podemos contar. Nunca mais esqueci Cecília. As pessoas entram em nossa vida por acaso, mas não é por acaso que elas permanecem. Karina nunca soube da minha paixão momentânea por ela. Nunca contei. Se nossas vidas só pode ser compreendida olhando-se para trás, que assim seja. Mas acredito que só pode ser vivida olhando-se para frente.

                   Sei que os anos irão passar como o vento passa e se vai. Diferente do vento não esqueci. Tudo que aconteceu permanece vivo na minha mente. Amo Karina e não esqueço Cecília. Quem sabe as voltas do mundo me farão ver o outro lado que ainda não tinha visto. A violência nunca existiu em mim até o dia que ela apareceu. O deus da guerra e da violência aparece sempre em atitude de repouso. Não sei quanto tempo ficarei nesta inércia do passado e do presente. Mas se a vida quis assim, quem será eu para mudá-la?

CANÇÃO DE OUTONO

Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.

Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando àqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.

Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

domingo, 7 de setembro de 2014

O Agente Funerário e a mulher do Barão da Mexerica.


O FUNERAL

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Evitem o latido do cachorro com um osso suculento,
Silenciem os pianos e com tambores lentos
Tragam o caixão, deixem que o luto chore.

 
Deixem que os aviões voem em círculos altos
Riscando no céu a mensagem Ele Está Morto,
Ponham gravatas beges no pescoço dos pombos brancos do chão,
Deixem que os guardas de trânsito usem luvas pretas de algodão.

 
Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,
Minha semana útil e meu domingo inerte,
Meu meio-dia, minha meia-noite, minha canção, meu papo,
Achei que o amor fosse para sempre: Eu estava errado.

 
As estrelas não são necessárias: retirem cada uma delas;
Empacotem a lua e façam o sol desmanchar;
Esvaziem o oceano e varram as florestas;
Pois agora nada mais de bom nos resta.


O Agente Funerário e a mulher do Barão da Mexerica.

                    Esta história eu ouvi de um amigo meu, quando nos encontramos em uma viagem de trem até Vitória no Espírito Santo. Minha empresa me mandou lá para tomar uma providencia urgente sobre alguns funcionários da filial. Gostava do trem. Fui um dia antes para chegar na data certa. Não gosto muito de avião. Sentou ao meu lado um senhor já de idade, mas extremamente simpático. Valdo Feer as suas ordens disse. Uma conversa boa gostosa e fomos jantar juntos no vagão restaurante. Contou sua vida, seus amores suas histórias. Uma ficou marcada. O Agente Funerário de Rio Verde. Guardei tudo para contar a voces esta história que ele me garantiu verídica. Para dizer a verdade não acreditei. Se fosse verdade mesmo ele estaria com mais de cem anos. Mas quem sabe ele tem mesmo?

                            Toda tarde Picolino ia para os quartos dos fundos de sua Funerária mais conhecida como a “Aquela do sono gostoso e profundo”. Ninguém sabia o que ele ia fazer. Dormente e Mafalda que trabalhavam para ele nunca entraram naquele quarto. Sabiam que se perguntassem ou fossem lá seriam demitidos na hora. Emprego difícil, Picolino pagando bem porque facilitar? Claro eles sabiam da fama de Picolino. Nenhuma viúva deixava de visitar o quarto nos fundos de Picolino. O que todos não entendiam era por que. Picolino era feio. Alto. Cara chupada, nariz fino, olhos sumidos, cabelos negros com guméx para fixar mais para trás e sempre com um terno preto e chapéu coco preto.

                                Contaram-me uma vez, não sei se é verdade que Picolino mandou sua esposa para melhor só porque ela reconheceu um troço grande. Ele estava para mandar um tal Jamil Peixeira para ser cremado quando viu no seu corpo nu o maior membro que ele tinha visto na vida. Pediu desculpas ao morto o Jamil e disse a ele – Não posso mandar o senhor para o crematório com essa coisa enorme. Isto tem de ser conservado para a posteridade. Ele com um bisturi corta o treco do Jamil, guardou e o levou para casa. Não resistiu e resolveu mostrar a monstruosidade para a mulher que ao ver o conteúdo gritou! – Ai meu Deus! O Jamil morreu? Risos. Não sei se a história é verdadeira.
                    
                       Bem quando cheguei na cidade me disseram que ele não era casado. Viúvo talvez. Não importa, portanto vamos voltar à história. Mesmo com aquele olhar e aquela maneira de cadáver ambulante, o danado atraia as mulheres. E como atraia. Todos se perguntavam o que ele tinha assim para que elas caíssem em cima dele como moscas no mel. Seu estilo cadavérico? Conversa de macho? Mandioca grande? Ninguém contava. Nenhuma mulher falava. Na cidade os maridos ficavam de orelha em pé. Ninguém queria morrer e cá prá nós, morrer ninguém quer mesmo. Risos. Mas lá em Rio Verde pensar que todos estavam te pranteando e Picolino comendo sua mulher ali na funerária?

                      Era comum a Funerária estar sempre cheia. As mulheres vinham e ficavam a passear em voltas dos caixões, vendo os preços, quem sabe o mais luxuoso e pagar a prestação. Claro, isto não importava para quem morreu, mas quem fica sempre quer impressionar. E atrás vem a mortalha, a decoração do lugar no dia da morte, plantas e flores, a coroa de flores e claro um pedreiro para arrumar o tumulo da família se houvesse. Ficavam todas alvoroçadas quando Picolino vinha atender. Picolino tinha na parede vários diplomas de cursos que fez para cuidar dos mortos. Um deles fazia questão de mostrar pessoalmente. Tratronopraxia Avançada de Terapia Facial. (quase quebrei o queixo para falar) Picolino fazia os mortos reviverem de tão bonitos. Alguns até diziam – Parece que está dormindo!

                     Telúrio era um homossexual muito conhecido em Rio Verde. O único que saiu do armário apesar de todos saberem que a cidade era cheia deles, mas enrustidos. Tinha uma queda por Picolino. Ninguém soube até hoje se tiveram algum caso ou se ele foi até o quartinho dos fundos da funerária. O que ninguém sabia é que Telúrio ajudava Picolino a deglutir a mulher do Barão da Mexerica. A Baronesa Olga Cata Prússia chamava a atenção pelo seu porte. Linda, alta cabelos negros encaracolados. Usava brincos enormes, uns lábios carnudos vermelhos e por onde passava deixava um rastro de “Belle et Saine” um perfume que só ela usava e que vinha de Paris para ela. Coisa de duzentos mil reis.

                    Ninguém conhecia sua história. Chegou casada com o Barão das Mexericas numa tarde no trem da Central vindo da capital. O Barão, ou melhor, Doutor Archimedes Cata Prússia era um homem rico. Milhares e milhares de acres de pés de cacau. Ele tentou quando foi a capital comprar o titulo de barão pediu para ser o Barão do Cacau, mas já tinha outro. Disponível só o Barão das Mexericas.  Sem alternativa aceitou. Dizem que ela era uma das moças mais bonitas do Bordel de Madame Solange, lá na Ladeira da Montanha. Assim me contaram e o Barão se encantou por ela. Ninguém tinha certeza. Fuçar no assunto era morrer nas Mãos do Barão das Mexericas. Um olho na mulher dele, um tiro no olho ou na bunda e bem no buraco como ele gostava.

                    Eu não sei não, mas acredito que o Barão das Mexericas era cornudo. Mas se era mesmo porque não mandou matar ou ele mesmo podia ter liquidado Picolino? Quem na cidade não sabia que tinha um belo par de chifres na testa colocada gostosamente por Picolino? Um segredo que muitos tentavam saber. Mas era difícil. Muito. A mulherada não contava nada. Na beira do rio das Borboletas, lá onde ele tem as corredeiras cheias de pedras e onde as lavadeiras trabalham e se divertem, as fofocas correm longe. Mas sobre Picolino? Nada. Simplesmente nada. Um silencio sepulcral.

                   Rio Verde há quatro meses estava sem Delegado. O prefeito foi avisado da chegada de Mauzinho Tirocerto o novo Delegado transferido da comarca de Itabaiana. Foi informado que era um homem mau, não perdoava ladrão e assassino. Ele gostava de ser o Juiz e o Carrasco. Dizia que bandido bom é aquele que cheira a defunto. Dr. Mauzinho chegou a grande estilo no trem da tarde da Central do Brasil. Esperava Banda de Musica. Não tinha. Procurou autoridades. Nenhuma. Porra! Vou tirar o couro desta merda de cidade! Ele mesmo e sua bela mulher Pepita Tirocerto foram a pé para o hotel Bento das Flores. O prefeito quando soube, chamou o Doutor Juiz, o Doutor Promotor e correram para o hotel. O Delegado Mauzinho Tirocerto os mandou a merda. Não vou receber ninguém.

                  Assim começou o trabalho do Delegado Mauzinho Tirocerto em Rio Verde. Contra tudo e contra todos. Vão se foder comigo pensava. Mandou um recado para o prefeito. Urgente, quero uma casa boa no centro da cidade. Não tinha. A única era de Picolino. Estava vazia, mas ele nunca quis alugar para ninguém. O prefeito explicou ao delegado. Na mesma hora o valente homem foi à funerária. Vou mostrar a este “bosta” quem sou eu. Entrou sem bater e gritou: Quem é o dono desta merda?

                Bem não sei como, mas me contaram que Picolino levou o delegado para o quarto dos fundos e ele nunca mais encheu o saco de Picolino. Mas sua mulher a Pepita Tirocerto passou a frequentar e mais um dos rioverdenses foi coroado com um belo par de chifres na testa. Na morte do Doutor Malacacheta dos Santos a cidade em peso compareceu no velório. Para dizer a verdade sua mulher dona Zenilda dos Santos não era muito bonita e mesmo assim foi parar no quarto dos fundos de Picolino. Como eram muito ricos, donos de duas casas de comercio na cidade e único revender Ford da cidade ela resolveu dar uma grande festa na morte do marido. Bem isto era comum naquela época.

                Contrataram uma Madame da Capital, uma tal de Eufrásia Rigoleto que era bamba na preparação de tais festas e muito falada em toda a capital. Ela organizou uma festança e rápida, pois o defunto já tinha dois dias que tinha morrido. Claro Dormente e Mafalda se locupletaram. O defunto sempre bonito e cheiroso. E a mulher dele não parava de ir ao quarto dos fundos de Picolino. Madame Eufrásia vendo aquilo resolveu participar também. Uma saia outra entrava e Picolino lá. Puxa vida, que animal era esse para dar tantas assim uma atrás da outra?

              O Delegado Doutor Mauzinho Tirocerto chegou com a mulher dona Pepita Tirocerto. Ela disse que tinha de ir à toalete, mas o delgado sabia aonde ela ia. No quarto dos fundos de Picolino. Ele fechou a cara e não disse nada. O que aquele homem tinha? Deus do céu! Ninguém se revoltava dos chifres que estavam levando? A mulherada da cidade toda passou pelo quarto dos fundos de Picolino naquele enterro onde os comes e bebes corriam solto. E olhem, ninguém, ninguém dizia nada. Quase cinco mil habitantes e ninguém para se revoltar contra Picolino?

               Lamartine de Vilavenco da Anunciação Caravajio, era um simples caixeiro viajante. Nunca fez aquela área, pois era de um colega seu. Agora que ele se demitiu da companhia Lamartine ficou encarregado. Chegou a Rio Verde no expresso da Central do Brasil as cinco da tarde de uma sexta feira, data programada para o enterro do Doutor Malacacheta dos Santos. A cidade vazia. Um moleque contou o que estava havendo. Foi ao hotel e estava fechado. Chamou o moleque para tomar conta de sua mala. Lá foi ele para o cemitério. Nunca tinha visto uma cidade parar por causa de um enterro. Assustou com tudo. Comida farta, bebida farta e nunca viu tantas mulheres bonitas.

                 Ficou de olho em uma. Moreninha linda, baixinha quase da altura dele. Devia ter o mesmo que ele um metro e cinquenta e cinco. Sempre gostou de jovens da altura dele. Adorava fazer o “negócio em pé”. Cada um com suas manias e suas taras. Quando ia aproximar viu que ela foi pelo corredor da Funerária sem olhar para trás. Achou que era um chamariz para ele. Não se fez de rogado. Ela entrou em um quartinho dos fundos. Riu para sí próprio. Está no papo! Abriu a porta já com o negocio em ponto de bala! Meu Deus! Que diabo era aquilo? A moreninha estava de quatro com as calcinhas rasgadas gemendo e o Capeta atrás enfiando um membro enorme nela. Minha nossa senhora, ia sair correndo e o capeta com um olhar não deixou. Soltou à moreninha e colocou-o de quatro. Maldito demônio dos infernos! Comigo não seu filho da mãe!

                    Gritou alto. Jesus amado socorrei-me! O capeta ou o demônio sei lá gemeu e pegou uma espada em chamas e ia cortar seu pescoço. Pulou uma janela e sumiu em uma rua da cidade. Sua mala ficou lá. Uma semana depois chegou com vários milicos da capital. Não acreditaram nele, mas ele disse que se não fossem com ele publicava em todos os jornais da capital. Chegaram à estação e ela vazia. A cidade vazia. Parecia uma cidade fantasma. Foram até a delegacia. O delegado Mauzinho Tiro certo, o chifrudo mor, recebeu a todos com cara amarrada. Olhou para Lamartine com os olhos em chama. Filho da Puta! O Delegado era um merda. Um cornudo que gostava de ser. Foram até a funerária. Pranteavam um morto. Lamartine riu. Agora vamos pegar o danado com a boca na botija. Levou o tenente até o quarto dos fundos. Abriram e a surpresa. Picolino e duas mulheres de joelhos rezando em frente à Santa Erotildes.      
                                           
                      O tenente estava puto. Vamos embora. – Vamos sumir daqui. Não sei onde arrumou esta historia do demônio. Riram dele. Resolveu ficar até o dia seguinte. Afinal eram anjos ou demônio? Lamartine foi dormir. Não conseguiu. Uma luz vermelha em seu quarto. Picolino de capeta rindo. Mostrando o membro enorme. Lamartine saiu correndo. Correu pela estrada até a cidade de Batislau Amarelo. Pegou o trem. Na capital contou tudo para seus amigos repórteres. Riram dele, mas um resolveu ir até a cidade de Rio Verde. Na estação o bilheteiro disse que não havia aquela cidade servida pelo trem. Lamartine quando ficou sabendo correu mais ainda. Saiu pela fronteira do Paraguai. Deve estar correndo até hoje. Nos seus pensamentos a capetaiada estava montando um inferno particular nas cidades. Pegando todo mundo de quatro! Nunca mais voltou ao Brasil. A ultima noticia dele é que havia passado pela Mongólia. Lá nos montes Urais. Nunca mais souberam dele.

                    Se você quiser um bom enterro, procure o Picolino. Será um enterro nota dez. Mas não leve sua namorada e ou sua mulher. Risos. Agora me lembrei. Você é o morto. Não pode fazer nada. Feliz bom inferno para você chifrudo!

                                             Suspiro - o derradeiro

Por quais devaneios tu reclamas,
Se tu és um homem coroado,
Entre mil margaridas e rosas,
E gritas: “Deus! Estou acordado!”.
 
Que angústia invasora é essa?
Quando tu foste abençoado
Pelo padre, anjo dominical,
E gritas: “Deus! Sou um desgraçado!”.
 
Que paixão derradeira é essa?
Por entre o véu de rendas bordado,
Que na escuridão se manifesta,
Gritando “Deus! Estou acordado!”.
 
Que choro de lamento é esse? 
Teu terno italiano foi passado.
Lindos sapatos te adularam.
Só porque vivo fostes sepultado?
 
Que engraçado! Até na morte tu és ingrato!


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A canção do adeus


Canção do Adeus

Digo-te adeus e talvez
Ainda te queira
Não sei se vou te esquecer,
Mas te digo adeus
Não sei se você me quis
Não sei se eu te quis
Ou talvez a gente se quis
Demais os dois.
Este meu carinho,
Apaixonado e louco.
Eu o semeei na minha alma
Para te querer a ti.
Não sei se te amei muito,
Não sei se te amei pouco.
O que eu sim sei é que nunca
Voltarei a amar assim.
Fico com teu sorriso,
Gravado nas minhas lembranças
Y o coração me diz,
Que não vou te esquecer.
Mas ao ficar sozinho,
Sabendo que perco você
Talvez comece a te amar,
Como jamais te amei.
Digo-te adeus e talvez,
Nesta despedida.
Meu sonho mais bonito,
Morra dentro de mim,
Mas te digo adeus,
Para toda a vida.
Ainda que toda a vida,
Continue pensando em você,
Continue pensando em você,
Continue pensando em você.
(Horacio Guarany – José Angel Buesa)

 A canção do adeus

              Há dias eu estava assim. Não me lembrava do meu passado. Não sabia de onde tinha vindo. Lembrar para que? Estava bebendo sempre, achava que não tinha parado nem um minuto. Eu devia ser rico, pois sempre tinha uns tostões para pagar a bebida. Sempre ficava ali naquela cadeira do canto do bar do Joel. Não olhava para ninguém. Não tinha motivo. Conhecia o Joel, o único, o barman que se tornou meu amigo. Ele era prestativo e educado. Não perguntava o que houve, não dava conselhos e não ficava encarando. Os outros bares que já tinha percorrido não.

                As madrugadas, Joel me colocava em um taxi e dava o endereço. Joel sabia. Não entendia como o porteiro do prédio me levava até meu apartamento. Abria a porta, me colocava na cama, tirava meus sapatos e ia embora. Devo ter sido boa pessoa. Todos eram gentis comigo. Acordava ainda de madrugada. Suando. Nem me lembrava do que sonhei, mas tinha sido um pesadelo. Tinha sido sempre assim. Levantava e olhava a mesinha. Lá estava meu uísque. Não podia faltar. Nem sabia quem o comprava.

                Já começava o dia bebendo. Sentia uma fraqueza no corpo, um vazio, como se fosse explodir para dentro. Devia haver um motivo. Tinha de haver. Mas minha mente se recusava a voltar ao passado. Eu tinha passado? Claro que sim. Todos têm. Parece a piada que dizia assim – “Ontem eu bebi para esquecer. Bebi tanto que esqueci. Hoje estou bebendo para lembrar”. Disso eu me lembro. Risos. Lembro até das outras piadinhas:

- Uma mulher me levou a beber... E eu nem agradeci!
- Aos que bebem para esquecer, favor pagar adiantado!
- Quem bebe morre, quem não bebe morre também, então vamos beber!

                  Eu lembrava, mas não ria. Não achava mais graça. Não achava graça de nada. Preferia estar morto. Acho que era um zumbi, a andar por aí como um morto vivo. Sem nada para fazer a não ser beber. Vesti uma roupa limpa. Uma camisa branca de mangas compridas, uma calça cinza esporte, um paletó também cinza esporte e achei um Mocassim marrom que poderia calçar sem meia.  Custei a achar a porta da sala. Nem fechei. Sabia que alguém a fecharia. Na porta do prédio todos me chamavam de doutor. Doutor? Doutor de que? Não respondia. Não sabia o que dizer.

                   Olhei para o céu, o sol estava se pondo. Tão tarde assim? Achei que tinha dormido pouco. Dormi o dia todo. Meu estomago pedia um bife. Um bife ou um drink? Acho melhor um drink primeiro. Já conhecia todos os bares e restaurantes ali perto. Não gostava de nenhum deles. Sempre me aconselhando. Dizendo o que tinha de fazer. Preferia o bar do Joel. Lá em me escondia em meu próprio corpo e nem sabia quem estava lá. Peguei um taxi. Só disse bar do Joel. Ele sabia onde era.

                    Parei na porta. Desci, uma jovem linda me cumprimentou. Boa tarde Doutor Marcio Basseto. Ela sabia meu nome? Chamei-a, ela sorriu e se aproximou. Você me conhece? Quem não conhece o senhor Doutor Marcio Basseto? O maior cientista vivo do país. Riu e se foi. Meu nome é Marcio? Boa bisca não devo ter sido para não me lembrar de nada. E ainda vivo? Estou morto e só ela não sabia. Risos. Entrei no bar do Joel. Foi para minha cadeira e minha mesa. Joel colocou uma garrafa na mesa. Um legítimo Buchanans 18 anos. Não era barato. Mas era o meu preferido.

                   Chegava ao anoitecer e quando Joel ia fechar eu saia. Sempre o mesmo taxi. O mesmo porteiro, o mesmo apartamento, a mesma cama e os pesadelos. Uma noite no bar do Joel, alguém sentou em minha frente. Doutor Marcio Basseto, permite-me. Permite-me? Já sentou “cacete” falei. Nem olhei, não precisava, varias vezes alguém aparecia para conversar e eu não queria. Conversar o que? Não sabia nada, não me lembrava de nada. Não conhecia ninguém. – Estou aqui a pedido de dona Eugênia Basseto. Olhei para ele. Na casa de seus 55 anos. Cabelos negros grandes com mechas brancas. Um bigode já ficando também branco. Todo o tipo de um advogado.

                   Doutor Marcio eu estou aqui em nome da Dona Eugenia Basseto. Levantei. Olhei para ele e sai do bar. Não estava a fim de conversar. Não estava a fim de lembrar. Não estava a fim de nada. Cacete! Ele devia saber. Não foi a primeira vez que me procurou. Se eu bebia era para esquecer e não ficar conversando com advogados idiotas. Não queria lembrar-se do meu passado. Pequei o primeiro taxi. Parou, entrei, para onde Doutor Marcio? Era sempre assim, eu era um “merda”. Não poderia me esconder nunca. Me leve ao inferno, por favor! Quem sabe o diabo me dá sossego?

                  Ele sabia. Levava-me ao bar do Joel de novo. Dava umas duas voltas e voltava ao ponto de partida. Minha garrafa de Buchanans estava lá. Joel sabia que eu ia voltar. Um dia desmaiei na mesa. Joel correu e chamou uma ambulância. Só acordei com o corpo em pandarecos num apartamento de um hospital. Em volta duas enfermeiras e um médico. Gritei – Meu uísque onde está? Ninguém respondeu. Tentei levantar não deu. Fios e buracos no corpo para todo lado. Chorei. Chorava querendo meu drink. Eles não diziam nada. Desmaiei. Acho que me sedaram.

                    Acordei calmo. Olhei o teto, não era do hospital. Um azul profundo. Não era teto ou era? Eu via o céu. Mas estava em uma cama. Meu corpo não doía. Não tinha fios ligados ao meu corpo. Olhei de lado e não vi ninguém. Muitas árvores. Muitas flores, bem perto uma bica de água doce corria e cantava sons intermitentes como se fosse uma obra de Bach. Johann Sebastian Bach. O meu preferido. Não sabia qual sonata, mas uns sabiás pousaram em uma árvore próxima. Canários rajados, amarelos e azuis faziam acrobacias no ar.

                   Onde estava? Uma nuvem branca se aproximava. Era ela. Tinha certeza. Maria Inês se aproximava com aquele seu sorriso que nunca esqueci. Ou já tinha esquecido? Junto a ela de mãos dadas, Darlene de um lado e Mauricio de outro. Todos sorriso se aproximando. Bach estava chegando ao auge com sua melodia. Minha cabeça começou a doer. Gritei alto. Não! Não deixe que ela se vá de novo!

                    Acordei suando. Gemendo. Médicos e enfermeiras do meu lado. Chega! Pelo amor de Deus! Não me cedem mais. Não estou agüentando! Eles não diziam nada. Apenas sorriam. Um sorriso enigmático. Porque não tiram minha vida? Matem-me ou me deixem ir para o meu lar. A mesa do bar do Joel. Lá pelo menos ele me entende. Ninguem dizia nada. Mamãe estava ali. Assim ela dizia. Claro lembrava que Já tinha dito que desaparecesse da minha vida. Nunca me ajudou. Sempre me odiou por ter casado com Maria Inês. Agora ficava sempre ao meu lado como uma ave de mau agouro.

                    Na minha mente, tocava harmoniosamente as Sonatas para flauta de Bach. Mas meu estomago pedia meu uísque. Malditos. Tragam meu uísque! Mas ninguém me atendia. Médicos e enfermeiras ali, feito idiotas sorrindo e me sedando. Dormi de novo. Uma sensação de alegria de novo. Lá estava Maria Inês correndo para mim, ao seu lado Darlene e Mauricio. A música aumentava o som. Pedia a Bach para não tocar tão alto as sonatas para flautas. Minha mente começava a gritar, o suor chegava. Tudo desaparecia. Meu Deus! Acho que estou louco. Uma bebida pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus!

                    Naquele dia quanto acordei não havia médicos. Ninguém no quarto. Levantei cambaleando. Muitos fios. Arranquei todos. Estava amarrado com uma bata azul clara. A bunda de fora. Por baixo nada. Olhei a janela, três andares. Dava para tentar descer. Tinha saliências entre um andar e outro. Consegui chegar ao primeiro depois caí no vácuo. Não perdi os sentidos, mas a perna esquerda doía muito. Mesmo assim saí mancando. Peguei um taxi, nem precisei falar. Levou-me ao meu edifício. Zezé o porteiro abriu a porta e me conduziu ao apartamento.

                    Lá estava ela, linda, como a amava aquela garrafa. Corri até ela. Coloquei o liquido no copo. Não sei por que nunca bebi no gargalo. Talvez fosse um costume do passado. Não sabia. Sentei em uma cadeira. Fechei os olhos. Enchi o copo novamente. Estava melhorando. Sabia o que fazer. Um banho! Isso! Tinha mais de duas semanas que não tomava um. Escolhi uma camisa azul clara. Mangas compridas. Uma calça azul de mescla. Um paletó marrom esporte. O Mocassim de sempre.

                  Pela primeira vez resolvi ir ao bar do Joel a pé. Estava um ar gostoso. Já tinha bebido quatro drinks. Notei que todos que me olhavam me cumprimentavam. Devia ser muito conhecido ou tinha muitas dívidas. Meu estomago doía de fome. Nunca pensava em comer só beber. Vi na esquina um carrinho de cachorro quente. Quanto tempo não comia um? Acho que muitos e muitos anos. Ainda não sabia o motivo, mas agora ia tirar o atraso. Sentei no meio fio, comecei a comer um. Pela primeira vez senti o gosto.

                 Alguém sentou ao meu lado. Um mendigo. Sujo. Imundo. Um cheiro ruim. Não importei. Pedi ao moço do cachorro quente que fizesse um para ele. Ficamos ali os dois sem falar nada. Comemos quatro cachorros quentes. Levantei, tirei do bolso duas notas de cem, dei para o mendigo. Paguei com uma de cinqüenta ao moço do cachorro quente. Fique com o troco eu disse. Se tinha tanto dinheiro no bolso tinha que ser rico.

                Já estava escurecendo quando cheguei ao bar do Joel. Alguém na minha mesa. Não gostei. Joel me disse que a moça queria falar comigo. Não iria embora enquanto eu não atendesse. Merda! Merda! Fui até lá. – Diga logo, essa mesa é minha e não gosto de convidados. Ela levantou a cabeça, sorriu. Um sorriso de Mona Lisa. Estava gostando daquele sorriso. Não podia. Tinha um passado que não lembrava e que me proibia.

                Sentei. Ela me olhou dentro dos olhos. Tenho uma proposta disse. Obrigado, eu mesmo compro minha bebida. E não gosto de prostitutas. Nada disso completou – Minha empresa tem um bom salário a lhe oferecer se resolver voltar a trabalhar e largar a bebida. Olhei para ela profundamente. Proposta? A única proposta que quero fazer é com Deus se ele me aceitar quando partir desta para melhor. Ela completou - Vou lhe deixar um cartão. Qualquer coisa me telefone.

                Levantou-se e saiu rebolando. Pela primeira vez assim achava, senti um pequeno calor no corpo. Logo Joel trouxe meu uísque. Beberiquei devagar o primeiro drink. Não estava entendendo. Só fazia isso quando passava dos dez. Por mais de uma hora não sorvi ele todo. Estava pensando. Mas juro que não sabia em que. Minha mente se fechava quando tentava lembrar. Agora lembrava mais amiúde do meu pesadelo. No inicio o sonho mais lindo que um homem podia ter depois o seu pior pesadelo.

               Pedi ao Joel colocar Bach. As Sonatas para Flautas. Não sei por que a chamava da Canção do Adeus. Tinha de haver um motivo. Não sabia. Não lembrava. Que merda meu Deus! Desculpe Deus! Foi sem querer. Fechei os olhos. Lá estava ela, linda, sorrindo, flutuando em nuvens brancas levadas pelo vento. Juntos Darlene e Mauricio. Mas que diabos eram isso? Quem eram eles? Abria os olhos. Joel atrás do balcão, alguns outros bebendo nas mesas subseqüentes. Um reclamou da Sonata de Bach. Joel o mandou para o inferno. Ri baixinho.

               Hora de fechar Doutor. Joel agora me chamava de Doutor.  Levou-me até o taxi. Este me deixou na porta do meu prédio. Não vi o Zezé. Era outro porteiro. Onde está o Zezé? - Foi embora. Pediu demissão. Voltou para sua terra no norte. Dizia que lá se vive aqui se vegeta. Pela primeira vez ninguém me levou ao meu apartamento. Subi as escadas com dificuldade. Não quis ir de elevador. Achava que desta vez bebi menos. Precisava me exercitar. No segundo andar senti uma forte dor no peito.

                  Acordei de novo no tal hospital. Lá estavam duas enfermeiras e o médico. Em pé, feito três panacas. Olhando-me e sorrindo. Não diziam nada. Ao lado minha mãe. Dona Eugenia Basseto. Mãe? Que mãe? Quando conseguia me lembrar nunca pensava em amor, só em ódio. – Ela dizia você vai morrer assim, Marcio Basseto. Eu sei que é o que você quer. Mas não se foge assim dos problemas. Senti uma dor aguda de novo no coração. Médicos acorreram. Massagens cardíacas. Nada. Meu coração parou de bater.

Prólogo                                       

                 Há três anos atrás, os maiores jornais do país em letras garrafais de primeira página, traziam escritos – DOUTOR MARCIO BASSETO, O PRIMEIRO BRASILEIRO A GANHAR O PREMIO NOBEL. Comparavam-no a Pierre Curie e Maria Curie pelo estudo da radioatividade. A maior descoberta na época. O Doutor Marcio, sem ajuda governamental e muitas vezes gastando do próprio bolso comprovou que a explosão de um tipo específico de estrela no fim de sua vida (supernova) e a análise da luz emitida nessas situações, demonstra que o universo cresce de forma acelerada e não cada vez mais devagar como se supunha.

                 A nação estava em polvorosa, pois nunca esperavam que um brasileiro pudesse ganhar um prêmio desta magnitude. Dois anos depois, os jornais traziam em letras garrafais na primeira página – O DOUTOR MARCIO BASSETO, É BALEADO NO JARDIM DAS ROSAS, E VIROU HEROI DO POVO. Seis terroristas tentaram matar os filhos do Presidente da Republica, que acompanhado de amigos e seguranças, estavam indo a pé para uma partida de futebol de salão.

                 O Doutor Marcio Basseto, sua esposa dona Maria Inês e seus dois filhos de seis e sete anos, Darlene e Mauricio, brincavam no jardim das Rosas quando os terroristas começaram a atirar. Doutor Marcio num ato heróico pegou um dos terroristas, tomou sua arma e matou três deles, outros dois ficaram feridos e o sexto fugiu, sendo capturado logo a seguir pela policia. Infelizmente os tiros dos bandidos mataram na hora a esposa e os filhos do Doutor Marcio. Ele levado ao hospital sobreviveu de uma bala alojada no cérebro que o fez perder a memória para sempre.

                 O Doutor Marcio Basseto e sua mãe dona Eugenia Basseto, pertenciam à aristocracia nacional. Ela sempre requisitada para festas beneficentes. Parece que não se dava bem com o filho. Doutor Marcio, filho único se distanciou de tudo e de todos quando resolveu se casar com Maria Inês uma jovem simples e humilde que morava em uma favela da capital.

                Os jornais do dia trouxeram a ultima noticia do dia, desta vez em uma pagina escondida onde se lia – Doutor Marcio Basseto. 1960 – 2008. O famoso físico Doutor Marcio Basseto, morreu ontem à tarde, no hospital Conrado Pacífico, vitima de parada cardíaca.  A família enlutada convida para o féretro que será realizado hoje, às quatro da tarde, no cemitério Jardim da Saudade.

       

Amor é um fogo que arde sem se ver, 
é ferida que dói, e não se sente; 
é um contentamento descontente, 
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer; 
é um andar solitário entre a gente; 
é nunca contentar se de contente; 
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade; 
é servir a quem vence o vencedor; 
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor 
nos corações humanos amizade, 
se tão contrário a si é o mesmo Amor? 

Luis de Camões                    

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Um golpe de Mestre.



Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Um golpe de Mestre.

                O Comendador Teobaldo Lascarim estava com os olhos vidrados, uma dor terrível em todo o corpo nu e amarrado em uma mesa com as pernas abertas. Gerônimo não o perdoou. Logo ele quem O Comendador empregou com seu principal capataz na Fazenda Luar do Sertão e sempre o prestigiou. Agora queria matá-lo e no fundo até que tinha razão, mas “pombas” ele não ofereceu a triplicar seu salário? A comprar um carrinho para ele? A dar a melhor casa da fazenda para ele? O Comendador não podia se mexer. Sentia no seu traseiro gordo o enorme pedaço de pau que o Filho da Puta do Jerônimo tinha enfiado. Já não sangrava mais e Jerônimo sempre que aparecia tinha o prazer inato de tirar e enfiar de novo – Se continuar assim eu vou morrer! Ele disse. -  Que morra desgraçado. Isto não é nada com o que ainda vou lhe fazer! O Comendador Teobaldo Lascarim sabia que não haveria perdão.

                O Comendador sabia que ele não teria salvação. Se o Delegado Paludo desconfiasse tudo bem, ele nunca poderia achá-lo ali naquela choupana proximo ao Rio Verde. Mas seria um milagre e ele nunca acreditou em milagres. Gerônimo vinha à noite e pela madrugada. Sabido o cara. Trabalhando ninguém desconfiaria dele. Porque entrou naquela fria? Maldito tesão dos infernos. Sempre ele para desgraçar sua vida. Não fora a primeira vez e se não fosse suas posição na comunidade, já teria levado alguns anos de cadeia. Lembrava-se de tudo. Como todos os dias ia até a cidade para ver como andava seu Cartório do 1º Ofício. Quase não ficava lá. Viu Nininha correndo para pegar o ônibus da escola. Não conseguiu. Ele parou e ofereceu uma carona. Ela sorridente entrou no seu Buick reformado. Ele adorava aquele carro. Tinha mais dois zero quilômetros na garagem de sua fazenda, mas o Buick era seu preferido.

                 Nininha parecia ter onze ou doze anos. Magrinha uma teteia, pois seus seios exuberantes já demonstravam sua força. O Comendador olhava de esguelha sem tirar os olhos da estrada. Ele gostava de meninas. Em fins de semana sempre tinha uma ou duas a disposição na fazenda. Pagava bem aos pais para não ter problemas depois e sabia que o Delegado Paludo também tinha as mesmas taras. Quer saber? Todos os homens proeminentes em Natividade eram pródigos em procurar uma menininha para passar o tempo. Sempre tinha pais que vendiam e sabiam que pagavam bem. Ele com sua mão direita colocou nas pernas de Nininha. Ela sorriu para ele. Sentiu seu corpo ferver. Estava bom demais aquilo. Sem mandar ela acariciou sua protuberância com sua mãozinha pequena. Ele entrou em uma estrada de terra e não deu outra. Possuiu a menina ali mesmo. Ela não reclamava só pedia para ser atrás, pois era virgem. Não gritou e nem gemeu.

                   Mas que “merda” no dia seguinte Jerônimo o pegou de jeito ao sair na porteira da fazenda. O Comendador não esperava aquilo. Jerônimo era seu empregado e sempre foi pacato e obediente. Com brutalidade o empurrou para o lado do passageiro e com um facão o mandou ficar calado. Engatou uma primeira e uma segunda no Buick e saiu a toda pela estradinha. Quando percebeu estavam na Beira do Rio Verde, numa choupana que há tempos ninguém usava. Jerônimo não dizia nada. O amarrou na pequena mesa e cortou suas roupas com o facão o deixado nu. O pior aconteceu. Sentiu quando Jerônimo enfiou aquele galho cortado em seu traseiro. Como doeu e ele nem sabia por que Jerônimo fazia isto. O deixou lá amarrado à mesa com as pernas abertas e se foi. O Comendador gritou feito um peão danado. E quem ouvia? Ninguém ele sabia. Ficou rouco de tanto gritar. À noitinha Jerônimo apareceu. Deu-lhe água e um pouco de arroz com feijão. O Comendador sempre perguntando o porquê ele fazia isto com ele.

                   Só no segundo dia ele disse. - Se quer sair daqui sem morrer bode Velho escreva um bilhete para o Gerente do Cartório dizendo que fez uma pequena viagem e só daqui a alguns dias irá voltar. Já estava ali há dias ele mesmo nem sabia quantos. Sentia que não ia durar muito. Sempre Jerônimo lhe dando comida e água e enfiando o galho naquele lugar. A noite ele ficou sabendo o porquê. Nem sabia que Jerônimo era o pai de Nininha.  Ele nunca foi a sua casa e nunca viu a menina com ele. Jerônimo não falou mais nada. Só disse que ele iria morrer da forma mais horrenda do mundo. Com um pau enfiado em seu trazeiro, amarrado a uma mesa e ele iria parar de levar comida e agua. Que você morra seu Filho da Puta ele disse. No dia seguinte sua ração de água e comida foi cortada. O Comendador chorava a cântaros. Pedia perdão dizia que daria tudo para ele soltá-lo. No dia seguinte Jerônimo pôs as cartas na mesa: – Com um Lepitot o mandou transferir todo seu dinheiro na conta de alguém chamado Aristides Peixoto.

                  O Comendador Teobaldo Lascarim passou uma noite do cão. Ele não acreditava em uma palavra do que dizia Jerônimo em soltá-lo. Mas sempre a duvida está presente e se fosse verdade? Melhor dar o dinheiro a ele e rezar para que ele o soltasse. Transferiu dezoito milhões da poupança e quatro milhões de sua conta pessoal. Pelo menos seus investimentos não poderiam ser transferidos e ele poderia fazer dinheiro com eles quando quisesse. Achou que tinha morrido quando ouviu vozes. Era o Delegado Paludo e mais três praças. Soltaram-no e o levaram para o Hospital Santa Maria. Ficou lá dez dias. Recuperou logo suas forças e só a parte do trazeiro é que ardia demais. O delegado lhe disse que encontraram seu Buick perto de Santana do Livramento há mais de setecentos quilômetros de sua cidade. Prometeu a Deus que nunca mais iria olhar para uma menina. Para ele chegava àquela que quase o matou. Promessas, promessas... E quem acredita nelas?

                   Nininha de óculos escuros, escondida em um biquíni para adultos, se refastelava em uma cadeira da praia particular do Hotel Sirenusi em Mar Del Plata. Estava só e Aristides, ou melhor, Jerônimo tinha viajado até o sul do Brasil a procura de um emprego em alguma fazenda de um ricaço. Nininha na realidade tinha dezessete anos e rosto de anjo de doze. Todos achavam que ela era uma menininha e ela fingia bem. Sabia corar, sabia rebolar, sabia gemer se preciso quando uma vara a penetrava. Ganhou muito dinheiro com isto e pretendia ganhar mais. O Comendador foi uma de suas vítimas. Tudo planejado de antemão. Aristides era um excelente peão boiadeiro e não tinha dificuldades de se empregar em qualquer fazenda. Conheceu Aristides em Araçatuba há cinco anos. Ele bêbado tentou agarrá-la. Ela o levou até sua casa na periferia e ali ele desmaiou. No dia seguinte ela fez sua vontade. Ele achando que era uma menina virgem.

                    Tudo foi o começo. O medo de ela contar para alguém, principalmente o delegado o fez escravo dela. A danada filmou tudo que ele fez com ela. Como era sabida. Quando ele soube que ela tinha dezessete anos ficou possesso. Tentou estrangulá-la, mas ela com um punhal no seu pescoço o fizeram desistir. Ficaram sócios nos golpes que ela armava. Um dia pensou em sumir com o dinheiro, pois todos depositavam em seu nome em uma conta que tinha em Montevidéu. Ela o engendrou de tal jeito que ele não teve escapatória. Tinha uma declaração dele que a tinha estuprado enquanto dormia e tinha o filme. A danada não se sabe como tinha uma identidade onde dizia ter onze anos. Ela com outra identidade falsa tinha contas em vários bancos. Dava para Aristides dez por cento do que conseguiam e pagava todas suas despesas. Ela sabia que mais cedo ou mais tarde tinha de dar um sumiço nele e isto não seria difícil.

                     Em uma tarde de novembro, na cidade de Jersey no Rio Grande do Sul, durante uma exposição de gado Holandês Aristides conseguiu um emprego na fazenda do Coronel Salud que adorou seu modo de tratar os animais. Nininha chegou à noite e viu o Coronel Salud. Não demorou dois dias e planejou tudo. Aristides era seu pau mandado e ficava admirado em ver aquela menina, com cara de novinha e corpo sem graça a não ser os seios atrair os homens como ela atraia. Ele não reclamava, pois sua conta no banco tinha engordado bastante desde que a conheceu. E assim, de golpe em golpe Aristides um dia foi traído pelo destino. Ou será que foi por ela? Quando o Coronel Salud sofria com um galho no trazeiro, nu e amarrado em uma mesa foi surpreendido pelo Delegado Praxedes. O delegado não era boa bisca e chegou atirando. Aristides com os olhos arregalados nem tempo teve de saber o que ouve e como o delegado ficou sabendo. Agora Aristides prestava contas na porta do inferno onde o diabo rindo o esperava.

                  De Nininha ninguém soube mais. Um dia o Comendador Teobaldo Lascarim viu em um jornal da capital a foto do Príncipe de Astúrias George Lascanes que se casava com uma jovem mexicana. Presente Presidentes Reis e Rainhas. A foto não deixava dúvidas. Era Nininha. Ele riu e correu a mostrar ao delegado Paludo. - Comendador, deste buraco não sai coelho. Acusar esta menina dos crimes que cometeu aqui é mexer com o diabo. O cara é príncipe e vai ser rei. Deixa prá lá. Um dia ela encontra seu destino e vai se danar também. O Comendador riu baixinho. Foi duro o pau que ele carregou no traseiro por uma semana. Mas a menina era uma delicia. Ele nunca esqueceu a “trepada” que deu com ela. Mas não dizem que existem males que vem para o bem? Hoje ele está casado com Dindinha, uma menina de catorze anos de cair o queixo. Afinal ele gostava disto e se sofreu merece agora melhor sorte. Nem imaginava que Dindinha era amante de Ponsigolo. Um peão que ele empregara seis meses antes.

                  É... Não tem jeito. Que assim seja, pois não dizem que enquanto houver cavalo São Jorge não anda a pé? Risos.

“Se algum dos senhores quiser mandar uma mensagem ao diabo, digam-me imediatamente, pois estou prestes a encontrá-lo.”

Via Láctea
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”.

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”.

Olavo Bilac