Bem vindo ao blog do Osvaldo

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sábado, 22 de setembro de 2012

O expresso do Rio Selvagem.



Fluir de um rio.

Correm as águas do rio
Passam na agulheta do tempo
A mesma água não volta, nem pelo fio
Não repete a sua passagem, observo, lembro
A vida é como esse rio
Na superfície a velocidade instantânea
No fundo as correntes pesadas
As pedras roladas, as plantas prezadas
O que se esconde e funde no leito
Escorregadio que com os tempos feitos
Pouco mudam, pouco nadam
A vida de um rio, não é só a agua que passa
É as margens descoladas, divididas
São quem passa quem refresca
É a vida num todo que se compõe
É quem mergulha, quem acha
Quem muda, leva ou põe
É quem toca no fundo
Traz a vida que mergulha num rio também


O expresso do Rio Selvagem.

            Carmem olhava pela janela do trem, as belas paisagens que iam ficando para trás. Sua mente rebuscava timidamente sua vida. Ela não sabia se era feliz, se tinha alegrias, tristezas, se sua vida estava valendo a pena. Achou que era hora de pensar. Com calma. Merecia umas férias. Quinze dias bastavam. Falou com seu diretor que autorizou na hora. Afinal ela tinha já duas férias vencidas. Trabalhava muito. Arduamente. Começou do nada e hoje era gerente na área de montagem. Telas de computador. Lembrava-se do seu passado. Não foi bom mas o que passou, passou não volta mais. Lembrou-se quando chegou em Santa Fé. Não era uma cidade pequena. As margens daquele rio caudaloso ela se destacava pela sua beleza selvagem e pela sua competência. Não sabia por que dissera selvagem quando lá chegou. Talvez pelo seu frenesi de homens e mulheres que andam sem saber aonde ir. Queria esquecer tudo. Não lembrar. Passar uma esponja em sua mente. Sabia que não dava. Esquecer não é fácil.

             Nasceu em Cidade Santa. Pequena. As margens do rio onde a ferrovia passava e morava com sua Vó. Ali viveu boa parte da sua vida. Ali viu seus pais serem enterrados. Mortos por nada. Uma peste? Assim disseram. Morreu muita gente. Ela não, sua Vó também não. Precisava de um emprego. Lá não conseguiria. Estava com dezenove anos, terminou o segundo grau. Difícil estudar mais. Queria ser alguém se formar, quem sabe ser professora ou então outra profissão que não fosse aquelas famosas que seria impossível de conseguir. Achou que uns dias em Cidade Santa para rever sua Vó e alguns amigos bastavam. Depois iria para Vitória. Procurar uma boa pousada em frente ao mar. Aí sim, iria colocar sua vida em ordem. Nada tão estranho. Era comedida. Tinha uma boa quantia na poupança. Poderia ter um carro mas achou que morava a duas quadras do trabalho e não precisava.

             Seria umas férias onde se daria ao luxo do bom e melhor. Nada de economias. Carmem não era linda. Bonita sim, simpática sim. Uns cabelos negros, olhos negros, um rosto muito simpático. Sua voz era calma. Cativante. Teve alguns pretendentes. Mas nenhum deles lhe interessou. Seu corpo era bem feito e ela cuidava bastante. Mesmo trabalhando de sol a sol não deixava de frequentar a academia. Conheceu um Engenheiro Espanhol que iniciou um trabalho na mesma empresa que ela. Era simpático, alegre, despretensioso. Saíram diversas vezes. Nunca dormiram juntos. Carmem jurou a sua Vó que só iria fazer amor depois de casada.

              Gostava de viajar de trem. Quanto tempo não fazia isto. Muitas saudades. A janela enorme, a vista linda, o verde, o amarelo, o rio caudaloso, uma fazenda aqui outra casinha ali, uns dados adeus e a meninada correndo ao lado do trem. Sentiu fome e viu que não tinha almoçado. Levantou-se pegou sua bolsa e se dirigiu ao vagão restaurante. Não notou um homem mal encarado que a acompanhou até lá. Sentou-se duas mesas atrás dela. Carmem almoçou devagar. Não tinha pressa. Só chegaria em Cidade Santa lá pelas quatro e meia da tarde. Pelo visto o expresso estava no horário. Bebeu uma cerveja pequena. Deu-se ao luxo. Não fazia isto mas agora podia. Quando voltasse a sua poltrona iria cochilar até chegar ao seu destino.

              Pagou sua despesa e voltou calmamente. Ao atravessar um vagão para o outro, onde fica a porta de saída do trem, um braço a agarrou pelo pescoço. – Não grite. Se gritar enfio-lhe uma faca nas costelas. Tomou dela sua bolsa. Começou a forçar sua calça para baixo. Ele queria estuprá-la! Meu Deus! Isto não! Proteja-me. Ela gritou e mordeu com força as mãos do maníaco. Ele gemeu alto e a chamou de puta. Abriu a porta e a jogou do trem. Carmem não sentiu nada. Rolou em cima de algumas pedras e foi parar próximo a uma moita de capim colonião. Ficou desacorda. O trem sumiu no horizonte.

             Carmem acordou quase à noitinha. Não lembrava de nada. De nada mesmo. Quem era o que fazia ali nada. Sentia uma dor tremenda na testa passou a mão e viu que tinha um corte enorme. Deve ter sangrado muito mas agora já tinha coagulado. Não conhecia onde estava. Porque estava ali também não sabia. Levantou-se com dificuldade. Suas roupas rasgadas. Uma sede terrível. Começou a andar junto à linha do trem. Ouviu um barulho. Um barulho que achava que já tinha ouvido antes. Era um carro de boi. Atravessou um bosque e viu uma estradinha de terra. O carro de boi seguia devagar com duas juntas de dois bois cada uma. O carreiro era um menino de uns quinze anos. Correu para ajudá-la. Pediu para subir no carro pois ele estava indo para casa. Não era longe.

              Chegaram uma casinha de Sapé, pequena, apenas dois cômodos. Uma cozinha e um quarto. Feita de bambu com barro. Chão de terra. Carmem não estranhou. Não conheceu outra casa ou se conheceu não lembrava. Lico o menino disse que morava ali com seu pai. Não conhecera sua mãe. Ia sempre a Cidade de Manto Azul levar verduras e frutas para vender. Viviam disto. Seu pai ainda pescava alguns peixes e quando dava ele vendia também. À noitinha seu pai chegou. Assustou-se com Carmem. Lico explicou o que acontecera. Ele chamou Lico em um canto – Olhe filho, ela parece ser uma mulher fina. Não é daqui. Suas roupas mostram isto. – Pai, ela não trouxe nada. Não tem nenhuma muda de roupa extra. Nem documentos!

                Manuel não sabia ao que fazer. Não tinha ideias. Era homem da roça. Entendia tudo dela. De mulher não. A única lhe dera um filho e sumiu no mundo. Dificilmente ia a cidade para dar uma “fisgada” em alguma na Rua do Taichim. Agora soubera da tal AIDS. Evitava tudo. Não podia morrer enquanto Lico não fosse maior de idade. Lico sugeriu que ela ficasse ali por uns tempos. Quem sabe recuperava a memória. Pensaram em levá-la a Manto Azul mas lá não tinha delegado e nem prefeito. Era um arraial simplesmente.

                 Carmem ficou lá por muito tempo. Os dias passavam céleres. A noite sentava na porta da casinha e olhava as estrelas pensava quem era de onde era e o que fazia ali. Aos poucos acostumava a nova vida. Ajudava na horta, a colher jabuticabas, goiabas, laranjas, mangas tudo quando era época. Um dia foi com Lico a Manto Azul. Todo mundo veio para a porta. O pequeno arraial se assustou. Era uma mulher jovem e bonita. Vestia um short e uma camisa velha. Devia ser de Manuel. Ninguém sabia que ele estava com mulher. Ela fez algumas compras de roupas para ela. Roupas simples. A lojinha ficou cheia de olheiros.
                Carmem sem perceber começou a gostar de Manuel. Olhava para ele e sentia que o amava. Mas seria amor mesmo? Não sabia. O que era o amor? Também não sabia. Uma noite ele a beijou. Sentiu que ele não sabia beijar. Segurou sua língua e ele assustou mas deixou. Fizeram um amor louco. Ele não sabia como ela também não. Ela era virgem ele não mas não tinha nenhuma experiência. Foi gostoso. Ambos gostaram. Não parou por ai. Passaram a dormir juntos. Lico não se incomodou. Passou a gostar também de Carmem. Quem sabe ela poderia ser sua mãe? Manuel disse que queria casar com ela. Carmem achou melhor esperar para saber quem era.

               Passaram-se quase um ano. Carmem ao seu modo era feliz. Alí naquela casinha junto a Manuel não pensava em mais nada. Não tinham luz, TV, geladeira e o fogão a lenha dava tudo que precisavam para fazer a alimentação. Ela mesma fazia. Lavava e passava. Uma verdadeira dona de casa. Não engordou, seu corpo até ficou mas esguio. Cuidava dos seus cabelos. Suas roupas simples para ela bastavam. Manuel era calado. Falava pouco. Conversava com ela em monossílabos. Não sabia ler e nem Lico também sabia. Ela passou a ensinar aos dois. Compraram em Manto Azul, cadernos, lápis canetas e uma tabuada.

              Um ano e meio. Dois anos. Nada de Carmem voltar a lembrar. Ela não se preocupava mais com isto. Vivia feliz muito feliz ao lado de Manuel e para ela Lico era como se fosse um filho. Pensava que se um dia recordasse quem era não iriam deixa-los nunca. Uma tarde voltada da mata onde tinha muitos pês de jabuticaba e não abaixou a tempo de evitar uma galhada grossa de uma jabuticabeira. Bateu a cabeça tão forte que ficou zonza e caiu ao chão. Estava só mas meu Deus! Ela voltou a se lembrar. Tudo veio assim do nada e ela agora sabia tudo de sua vida. Voltou correndo. Chamando alto Manuel e Lico – Lembrei-me! Agora sei o que fui! Mas ao olhar o semblante deles ficou triste também. O medo de perdê-la era grande. E ela não sabia que atitude tomar.

               Dormiu abraçado a Manuel. Disse que nunca iria abandoná-los. Mas tinha de voltar em Cidade Santa para saber de sua Avó e depois iria a Santa Fé. Tinha lá um apartamento, roupas, móveis e dinheiro no banco. Precisava ver se tudo estava lá. Lico chorou quando ela partiu. Manuel abraçou-o e ambos choraram quando ela pegou o trem de volta a Santa Fé em Derribadinha. Carmem também chorou. Mas prometeu voltar. Manuel e Lico não acreditaram. Sabia que ela era uma moça de cidade grande, estudada e porque voltaria?

              Na janela do expresso Carmem olhava o rio, as casas as fazendas e o seu passado. Desceu sem pressa na estação de Santa Fé. A cidade pouco mudou. Um taxi a levou em seu apartamento. Fechado. O porteiro a reconheceu e sorriu quando ela contou por partes o que tinha acontecido. Disse que a policia, o diretor e muitos da empresa que ela trabalhava lá estiveram. Ele tinha copia da chave. Ela entrou. Olhou, não sentiu saudades. Saudades sim de sua tapera de barro com telhas de folha de coco e capim seco. Foi até a empresa. Uma surpresa de todos. O diretor pediu a ela para ir a sua sala. Uma festa. Era muito bem quista. Dois anos e meio fora e todos compreenderam o que aconteceu com ela.

                O diretor disse que sua vaga estava em aberto. Ela podia começar a trabalhar quando quisesse. O salario seria aumentado. Não disse nada. Iria pensar e depois dar uma resposta. Ele não entendeu. Não quer mais o seu lugar? Vai voltar para a tapera onde morou muitos anos? Ela não sabia o que fazer. Duvidas e mais duvidas. Pediu um prazo. Duas semanas. O diretor riu. Claro que sim. Você não vai deixar isto aqui para morar lá no mato em uma casinha de barro. Carmem foi para o apartamento não antes de passar no banco. Estava tudo lá e até mais com os juros. Quase um milhão e meio.

               Dormiu mal em sua cama de casal. Grande, colchão de mola, caro que comprou há muitos anos. Estava novo ainda. Ficou ali olhando para o teto e pensando. Dormiu sonhando com Lico e Manuel. Pela manhã já sabia o que fazer. Publicou no jornal local a venda de tudo. Apartamento mobiliado. Separou as roupas que precisava as demais doou para uma instituição de caridade. Deixou o dinheiro da poupança lá no mesmo banco. Tirou cem mil para despesas. Foi à empresa e agradeceu ao Diretor pela confiança. Abraçou a todos os seus amigos e ao espantado engenheiro espanhol que tinha namorado.

              Pegou o expresso novamente rumo a Cidade Santa. Precisava ver sua Avó. Desta vez prestou atenção a tudo no vagão de primeira classe e quando foi ao vagão restaurante ficou de olho. Nada aconteceu. Sorriu quando viu sua Avó viva. Foi uma festa o encontro das duas. Contou tudo. Ela compreendeu e a motivou a continuar com sua tomada de decisão. Deixou um cheque com ela de cinquenta mil reais.  Disse que voltaria daí a um ano e daria mais a ela. Em oito dias estava de volta. Desceu em Derribadinha. Uma maleta com poucas roupas. Nenhuma joia. Só com o saldo do dinheiro que tirou. Agora uns quarenta mil reais. Poderia ter comprado um carro, chegar lá de carro novo. Não era o que desejava.

               Comprou uma pequena charrete de três lugares. Um cavalo baio bom para trotar. Saiu de Derribadinha às duas da tarde. Às quatro e meia chegou a Manto Azul. O povo todo veio à porta. Nunca acreditaram que ela ia voltar. Já sabiam de sua história. Ela cumprimentou a todos. Sorria. Às seis e meia da tarde avistou a Casinha. Avistou de longe Lico que veio correndo e gritando chamando seu pai. Desceu da charrete e o abraçou com força. Era seu filho. Não de “barriga” mas de direito de mulher do seu pai. Manuel a olhou. Sorriu sem jeito. Pensou em abraçá-la. Estava bonita. Roupas novas. Sapatos novos. Um brinco de ouro. Teve medo. Achou que ela foi ali para despedir para sempre. Ela o abraçou. Disse – Manuel sou sua mulher. Nunca mais me separarei de você. Abraçaram-se ali, um beijo enorme. A lua brotou no céu. “Bunita, que nem um queijo redondo”.

               Ela de vez em quando voltava a Santa Fé. Levava Manuel e Lico juntos. Tirava dinheiro do banco, não muito, faziam umas comprinhas e voltavam ao seu lar, sua casinha de barro de chão de terra com um banquinho na porta para ver as estrelas e a lua quando estava cheia. Acertou em cheio. Nunca se arrependeu. O que sei é que viveram felizes por toda a vida. Um amor simples, uma aceitação de ambos que só podia ser de almas gêmeas!      

Não escrevas aos meus olhos.
Não me iludas se não
tens a intenção
de entregar-me 
o teu coração! 
Não escrevas aos meus olhos
lindas palavras de amor
se pensas fazê-lo
chorar de dor!
Não grites que me amas
se o teu silêncio 
revela que apenas 
me enganas!
Não quero mais 
os teus beijos...
Quero apenas um pouco de paz!
Vou ardendo de desejo
quando lembro
das tuas mãos deslizando
no meu corpo gélido
nas madrugadas 
que fui inocente
entregando-me a ti
Poeta indecente,
de corpo, alma 
e coração.
Mas agora basta!
Não viverei mais de ilusão.
Já sofri demais
nessa vida madrasta!

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Menina Maria sem pecado e sem ódio no coração.



Cantiga para não morrer


Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve. 


Se acaso você não possa

me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração. 

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar. 

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.


Menina Maria sem pecado e sem ódio no coração.

              Eram doze irmãos. Uma escadinha que começava com Vania de seis até Marilda que tinha 19. Todos só conheciam o pai. A mãe morrera há tempos. Virgo Olho Grande seu pai, era um homem feio, barbudo, mau e ela nem sabia por que ele ainda dava comida a todos. Só comida porque roupas todos se viravam quando iam à igreja do padre Aloizio. E nem sempre podiam. Eram mais de vinte e cinco quilômetros de trilha até a cidade de Rio Esperança. Todos nasceram sob o jugo de seu pai. Ele praticava o incesto com todas as meninas. Quando alguma alcança dez anos ele dizia que era hora do batismo. Quatro de seus irmãos e irmãs eram filhos de Marilda. Quem não conhecia achava que ela era mulher dele. Fazia a comida e dirigia a casa.

             Menina Maria escapou da sanha pedófila dele. Todos sabiam por quê. Seus olhos. Isto mesmo, azuis, parecido com o da Virgem Maria da igreja. Seu pai até que tentou, mas ao olhar seus olhos esqueceu-se de tudo. Era como se estivesse fazendo sexo com uma santa. Achou que devia descartar Menina Maria. Ela não tinha mais serventia para ele. Dois Exploradores de ouro passaram próximo ao rancho onde moravam e o pai ofereceu Menina Maria para eles. – Se vão para Serra Pelada, porque não ter uma mulher junto? Ela sabe lavar, passar, cozinhar e olhem, tem um belo corpo. Tonico e Milorde não fizeram de rogado. Compraram Menina Maria por duzentos reais.

            De manhã ela embarcou na canoa deles, e com lágrimas nos olhos despediu com um aceno dos seus irmãos. Em Pirapora pegaram a Gaiola uma espécie de barca a vapor e foram até Juazeiro na Bahia. Em nenhum momento Tonico e Milorde ameaçaram tocá-la. Nem pediram nada. Davam a ela comida e na Gaiola almoçou a comida que serviam a todos. Tiveram sorte, um caminhão de boiadeiro vazio os levou até o inicio da rodovia PA-150, uma rodovia estadual do Estado do Pará. Lá esperando carona viajaram a pé por oito dias. Menina Maria estava esgotada. Agora quando a noite chegava ela preparava em fogões improvisados almoço e jantar que não passavam de carne seca farinha de mandioca e uma vez ou outra cozinhava um feijão.

             Quando chegaram à PA 275 uma carona em uma caminhonete os levou até o km 16 e dai em uma estrada vicinal chegaram à serra Pelada. Menina Maria nunca esqueceu seus irmãos. Viveu junto com Tonico e Milorde por cinco anos. Fazia tudo para eles e os considerava como irmãos. Só Milorde um dia tentou estuprá-la, mas a olhar em seus olhos desistiu. Em uma tarde seu Tarcino a procurou para dizer que eles estavam mortos. Soterrados quando garimpavam em um buraco onde achavam que iam encontrar ouro. Menina Maria chorou. Agora estava sozinha. Nenhum dos amigos de Tonico e Milorde a convidaram a morar com eles. Claro sabiam que ela era ótima para cozinhar lavar, e que sua comida era muito boa, mas eles ali naquele inferno precisavam de uma mulher que fizesse tudo inclusive fosse para cama com eles. Todos tinham medo de Menina Maria e seus olhos da Virgem Imaculada.

              Menina Maria já não era mais aquela donzela que abaixava a cabeça e aceitava tudo que a mandavam fazer. Sabia que era desejada por muitos e ela também sonhava em conhecer alguém, que a amasse de verdade e não há visse como uma santa. Queria um homem que a amasse de verdade, quem pudesse confiar e que faria dela uma esposa para sempre. Sabia que em Serra Pelada nunca encontraria ninguém. Olhou na parede onde Tonico e Milorde colocavam o ouro que encontravam e viu que daria uma boa quantia. Seu Joaquim comprava ouro e ela sabia que era um homem honesto. Vendeu a ele a metade e aumentou sua casinha e fez dela um restaurante. Cozinhar não era problema. Em pouco tempo a procura foi tanta que teve de empregar mais uma pessoa, mais uma e quando assustou eram nove.

                  Ganhou muito dinheiro. Tornou-se uma mulher experiente com dinheiro e negócios. Seu Joaquim ficou seu amigo e dizia para ela – Olhe Menina Maria, venda logo seu restaurante. Isto aqui não dura mais um ano. Já não encontram ouro e todo mundo irá embora. Achou um comprador que pagou menos de trinta por cento do que queria. Tudo bem. Agora era ir embora. Para onde? Voltar onde morava? Tinha dinheiro no banco, mas de três milhões de reais. Daria sem sombra de dúvida para iniciar uma nova vida onde quer que quisesse montar seu rancho. Pensou nos seus irmãos. Pensou no maldito pai que aprendeu a não gostar desde que saiu de lá. Ela não entendia porque nunca teve ódio dele e nem de ninguém.

                  Uma tarde de setembro, Menina Maria chegou em Rio Esperança. Dalí a sua antiga casa era menos de trinta quilômetros em estrada de terra ou de barco pelo Rio Jaboti. Entrou em um pequeno hotel o único da cidade. Era ali que ela iria morar. Procurou o dono e ofereceu a ele Duzentos mil reais. O dono o Senhor Jacobino não titubeou. Aceitou na hora. Chamou todos os empregados, não mais que onze e apresentou a nova proprietária. Queria rever seus irmãos e irmãs, mas não ia sozinha e não chegara a hora. Tinha medo do seu pai e ele podia ser perigoso com sua chegada. Contratou dois homens que tinham sido policiais e eles passaram a ser seus seguranças dia e noite. Rio Esperança era um lugar pacato, simples e com um cabo e três soldados que só prendiam bêbados à noite e os soltavam no dia seguinte.

                   Rafael Campo Grande vivia em Rio Esperança há cinco anos. Nunca ouviu falar em Menina Maria e quando o buchicho sobre ela começou se interessou em conhecê-la. Que graça! Pensou. Linda. Quem sabe seria a mulher que procurava? Ele vivia de um pouco de dinheiro que sua mãe deixara quando morrera. O dia inteiro estava no boteco de Jesuíno, jogando sinuca ou um baralho num jogo qualquer. Não apostava. Nunca apostou. Rafael Campo Grande não era mau sujeito. Parecia um preguiçoso, mas não era. Nunca trabalhou porque ainda tinha uma reserva financeira e achou que quando acabasse ele iria embora para uma cidade grande. A turma do bar o incentivava a cortejar Menina Maria e até já havia apostas se ele conseguiria ou não.

                 Um dia, ao passar por ela em uma rua da cidade, se fez de galante. Tirou seu chapéu de palha, fez uma reverencia e disse – Boa tarde moça! Tenha um lindo dia. Menina Maria estranhou. Quem era? Quem seria? Nunca o tinha visto apesar de estar a poucos meses morando em Rio Esperança. Em casa ficou pensando nele. Era um rapaz bonito, alto, cabelos negros e até sonhou com ele a noite. Um sonho que ela não costumava sonhar. Erótico. Ele a possuíu. Calmamente. Foi um cavalheiro. Não a machucou. A beijou em todos os lugares. Ele sentiu em seu sonho pela primeira vez que poderia ser mulher. Nunca tinha sido. Até agora aos 26 anos ainda era virgem. Acordou suada e sentiu que estava levemente molhada em suas partes intimas.

                  Menina Maria levantava cedo. Tinha hospedes para servir. Verificava na cozinha se tudo andava bem, olhava as mesas servidas com pãezinhos da padaria do Seu Inácio, os bolos que Gorete fazia os biscoitos de polvilho que ela mesmo tinha feito no forno que mantinha no quintal. Gostava de cumprimentar a todos que ali estivessem hospedados. Seus clientes quase sempre caixeiros viajantes adoravam Menina Maria. Nenhum tentou se mostrar um Don Juan. Eles olhavam em seus olhos e logo desistiam. Uma tarde, sentada na varanda Rafael Campo Grande passou devagar. Parou. Subiu os quatro degraus e educadamente se aproximou dela fazendo um galanteio. Menina Maria ficou vermelha. Nunca ninguém fez isto com ela. Seu Arlindo um dos seguranças se aproximou. – Tudo bem Dona Menina Maria? Ela riu. Sim seu Arlindo.

                 Começou ali o namoro. Rafael Campo Grande era um cavalheiro. Nunca tentou nada. Mal pegava em sua mão nas noites que ficava com ela conversando na varanda do hotel. Quando a convidou para um cinema a cidade toda comentou. Passaram a ir a missa juntos. Menina Maria não esqueceu suas irmãs. Estava na hora de ir busca-las. Comprou ao lado do hotel uma casa e a mobiliou. Nos fundos construiu dois barracões com mais seis quartos e em todos eles tinham chuveiros e WCs. Contou para Rafael Campo Grande um pouco de sua vida. Contou que ia buscar as irmãs. O pai não. Que ele ficasse só ali no mato e morresse. Rafael Campo Grande se ofereceu para ir junto. Ela agradeceu. Não, obrigado. Chamou os dois seguranças, pediu para alugarem um barco grande, e mais quatro homens para proteção. Deixou Gorete responsável pelo hotel e partiu. Acreditava que no dia seguinte estaria de volta.

                   Assustou-se com o que viu quando lá chegou. Cinco irmãs tinham morrido de hemorragia ao dar a luz. Havia mais oito meninos e meninas pequenos que nasceram de uma de suas irmãs desde quando ela partiu. Eram agora quinze irmãos. Todos vivendo como ratos. Sem cama para todos. Ainda bem que Marilda cuidava deles. Coitada de Marilda. Menos de 35 anos e parecendo uma velha de 60. Alí tinham muitos irmãos que também eram seus filhos. Ela nem sabia o que era incesto. Seu pai não estava. Muitos não a reconheceram, mas Vania, Marilda, Josenildo e Alfredo não tiveram dúvidas. Era Menina Maria. Uma festa. Alegria. Ela explicou sua vida hoje. Onde estava. Disse que comprou uma casinha para todos eles morarem com ela na cidade. Só Marilda não quis ir. Disse que se ela não ficasse seu pai morreria logo. Não iria aguentar ficar sozinho.

                    Em menos de uma hora todos estavam no barco. Menina Maria insistiu com Marilda, mas ela foi irredutível. Chorava muito, mas disse que não ia. Como ia fazer agora sozinha na casa não sabia. Quando ela ia para barco viu seu pai chegando e gritando. Ameaça todos que estavam indo embora. Gritou palavrões e disse que se fossem ele ia atrás, mataria todo mundo. Dois seguranças de Menina Maria o pegaram e amarraram.  Ela mesmo disse a ele que se aparecesse na cidade seria preso. Ia falar com o delegado o que ele fazia. Não iria escapar de uns vinte anos de cadeia. Disse a Marilda que quando o barco partisse ela o desamarrasse. Partiu chorando por Marilda. Prometeu voltar um mês depois. Não iria deixar ela desamparada. Deu a ela escondido dois mil reais. Compre o que quiser apesar de que aqui só quando o barco do Jesuíno passar.

                   Durante vários meses Menina Maria viveu feliz com seus irmãos. Rafael Campo Grande a pediu em casamento. Não sabia o que sentia por ele. Aceitou. Precisava de um braço a mais para ajudar no Hotel. Casaram-se. Uma decepção. Rafael Campo Grande não conseguiu fazer amor com ela. Olhe que ele tentou. Não olhava em seus olhos, mas era como se estive vendo eles em sua mente. Durante meses ele tentou até que desistiu. Dormiam na mesma cama, se beijavam, abraçavam e nada alem disso. Menina Maria se conformou. Ia morrer virgem. Seus irmãos e irmãs receberam dela tudo o que poderia dar. Estudo, roupas não faltou nada.

                   Rafael Campo Grande foi um grande amigo. Mais nada. Ninguém se aproximou dela para quem sabe ter um amante. Seu pai nunca mais apareceu. Uma manhã de sol Marilda chegou ao hotel. Maltrapilha, suja, sentou na varanda e ficou olhando o horizonte. Ninguém sabia quem ela era. Um dos seguranças a pegou pelo braço e a jogou na rua. Tavinho ia passando e viu sua irmã sendo maltratada. Chamou Menina Maria. Alegria geral dos irmãos. Fizeram uma festa para ela. O segurança pediu desculpas. Mas mesmo assim foi chamado a atenção. Marilda contou que seu pai morrera. Acordou com ele gemendo e viu que não dava mais. Ela achou que tinha pegado malária. O enterrou na curva do rio. Sabia que uma cheia qualquer o levaria junto às águas barrentas.

                   Uma história comum. Sem surpresas. Menina Maria viveu ao seu modo feliz ao lado de Rafael Campo Grande. Ele se tornou seu braço direito. Fazia de tudo. Foram inclusive todos eles passar vinte dias no litoral. Ninguém ainda tinha visto o mar. Uma festa. Menina Maria chorou muito mas de alegria. Rafael Campo Grande morreu com setenta e dois anos. Menina Maria morreu com noventa e cinco. A família dela se casou tiveram filhos e na cidade eram bem considerados. Não sei na eternidade o que aconteceu a Menina Maria. Não sei. Não tem explicação dos seus olhos de santa. Um dia fui a Rio Esperança. Visitei o hotel onde ela morou. Conversei com muitos moradores que a conheceram. Ninguém podia explicar a vida de Menina Maria. Bem nada mais a dizer, a não ser... Que Deus a tenha!


Menina-Moça 
A menina-moça sonha...
Sonha  com o que a menina-moça?
Com o vestido branco rodado,
com a emoção da valsa no salão enfeitado.
A menina-moça acredita...
Acredita em que a moça-menina?
Na vontade de enfrentar a vida,
na beleza da noite prometida.
A menina-moça vive...
Vive como a moça-menina?
Como o botão que se transforma em flor,
acreditando num futuro alentador...
A menina-moça sorri...
Sorri por que a moça-menina?
Pela certeza da glória alcançada,
pela  alegria da paixão encontrada.
  

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Que o céu me condene!




Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo amor?


Que o céu me condene!

           Todos riam dela. Desde pequena chamavam-na de tudo, nomes feios, nomes que ele morria de vergonha quando ouvia e o pior não tinha como fugir. Quando sua mãe e seu pai eram vivos ainda tinham um pouco de respeito, mas quando a polícia os matou a tiros em uma cidade próxima acusando-os de serem bandidos perigosos, sua vida acabou. Depois viram que eram inocentes. E daí? Apenas dois pobres catadores de papel que trabalhavam para sobreviver. Ana Cláudia um dia tentou se matar. Pulou da ponte no rio pensando em se afogar. Alguém viu e a salvou. Uma família lhe ofereceu emprego. Abusavam dela. No final do mês uns trocados, nos fundos um quartinho simples que mal cabia uma cama e um armário. Ela aprendeu que o sofrimento era parte dela e o aceitou normalmente. Mas dentro de sua mente e do seu coração ela odiava aquela cidade e todos que nela moravam.

            Ana Cláudia era negra, feia, com um nariz grosso, cabelos crespos cortados curtos, e o pior era vesga, isto mesmo. Os outros a chamavam de Caolha. Sempre a chamaram assim. Abaixava a cabeça, mas não chorava. Evitava andar na cidade durante o dia. Não tinha amigos, fez só o primário, quase não ouvia musicas e TV? Nunca. Sua vida em Monte Azul não era divertida e nem colorida. Dona Esmeralda sua patroa só dirigia a ela falando impropérios. Seu Astholfo então, nem olhava para ela. Isto não a preocupava mais. Agora com vinte e seis anos não tinha, ou melhor, nunca teve sonhos e esperanças. Sabia que assim seria até sua morte. Um dia ao voltar do armazém lá pelas nove da noite uns bêbados a encurralaram em um beco e a maltrataram muito. Chegou em casa toda machucada, sangrando e Dona Esmeralda e Seu Astholfo riram e nem ligaram. – Vai ver que foi você quem provocou Caolha!

             Quando voltou da missa no domingo, viu uma enorme fila em frente a um mercadinho. Riu e se perguntou por quê. Entrou na fila. Gostava de filas. Quando terminou a moça atrás do vidro perguntou qual seu jogo. Qual jogo? Ora moça, não sei que jogo. Nem sabia o que era isso. Claro já tinha ouvido falar que grandes premios eram pagos a quem fosse sorteado. Não tinha dinheiro. Saiu da fila com todos gritando com ela. – Caolha! Caolha! Nunca ganhou nada e sabia que não iria ganhar. A virar a esquina viu um bilhete jogado no chão. Por curiosidade o pegou e levou para casa. Nem sabe o porquê o guardou. Todo dia tirava ele debaixo da cama, olhava, ria e sonhava. Continuou sua vida de empregada, sem salario a troco de um quartinho e alimentação que não era a que servia para seus patrões.

             Na quarta feira ficou sabendo que o sorteado era de sua cidade. Todos querendo saber quem era. Passou uma semana e ninguém reclamou o prêmio. Ana Claudia anotou os números sorteados. Em casa conferiu. Era o seu bilhete! Seu? Não era seu, mas o que fazer? Ninguém reclamou e ela esperou mês. Nada. Resolveu procurar a Caixa, mas não em sua cidade. Tinha umas economias. Dona Esmeralda riu. Você viajar? Para onde Caolha? Para que ir a Recife? – Só conhecer disse. Vou no sábado à noite e na segunda estou de volta. – Pode ir, mas não vou lhe dar um tostão e a cada dia que faltar lhe desconto uma semana. Ana Claudia bem que pensou falar um palavrão, mas era melhor esperar.
             No sábado pegou o ônibus das sete da noite. Adorou. Havia tempos que não viajava de ônibus. Ficou na janela. O passageiro ao seu lado a olhava com desdém. Nem a cumprimentou. Às cinco da manhã chegou em Recife. Ficou boquiaberta com a cidade. Passeou pelo centro admirando os belos prédios de uma altura que iam até o céu. Encontrou a igreja de São Pedro dos Clérigos aberta e entrou. Não rezou. Achava que Deus não iria perdoar o que ela estava fazendo. Assistiu a missa das seis e saiu. Passou pelo Convento Franciscano, na Casa da Cultura de Pernambuco, no Mercado de São José e ficou encantada. Iria comprar uma casa ali. Tinha de morar em Recife. Mas isto iria demorar. Primeiro receber o prêmio depois à vingança.

          Ana Claudia sabia que tinha de esperar a segunda feira. A caixa só abria em dias úteis. Rodou por várias ruas e descobriu uma agência enorme na Rua do Cais do Apolo. A tarde ia chegando e logo iria escurecer. Viu uma placa e deduziu que era uma pensão. Ana Cláudia lia com dificuldade. Entrou e alugou um quartinho por uma noite. Pagou adiantado. Levantou cedo. As oito já estava na agencia da caixa na Rua do Cais do Apolo. Abriram as dez. Falou com uma moça que tinha um bilhete premiado. Levaram-na ao gerente. Este se assustou. Era o prêmio do mês passado. Sessenta e cinco milhões de reais. Foram para um escritório fechado. Conversaram com ela toda a manhã. Levaram-na a um restaurante e ela comeu o que nunca tinha comido na vida. A vida de Ana Claudia começou a mudar.

            Todo o dinheiro foi aplicado na poupança. Disseram para ela que daria mais de trezentos mil reais por mês. Ela estava rica por toda a vida. Pediu ao gerente que lhe contrata-se alguém para lhe ensinar tudo com o dinheiro. Queria aprender. Lucia Mortille lhe foi apresentada. Trabalhava no banco como escrituraria. Ofereceu a ela ser sua funcionária. Um bom salário. Dez mil por mês. Lucia não pestanejou. A partir daí Lucia ensinou tudo para ela. Mandou-a construir uma mansão em Monte Azul. A melhor e mais linda da cidade. Mandou comprar a maioria das casas comerciais da cidade. Lucia descobriu que a casa de Dona Esmeralda tinha uma dívida no Banco e se ela e marido não pagasse seria despejada. Comprou a divida no banco. A casa ficou pronta. Na cidade um buchicho. Quem era! Um frisson tremendo em todo o povo de Monte Azul. Quando ficou pronta os olheiros esperavam a chegada do dono.

             Quando o Padre Liovegildo Começou a missa, viram entrando na cidade uma limusine branca, enorme. A maioria nunca tinha visto nada igual. Um homem negro enorme, de terno e gravata, junto com o motorista do carro desceram e abriram o portão. Lucia abriu a porta e viu uma multidão chegando. Notou que a igreja se esvaziava até o Padre Liovegildo deixou a missa sem terminar e veio ver também. Quando viram Ana Cláudia levaram um susto tremendo. Era a mesma. Cabelos crespos, caolha, agora bem vestida e não mudara nada. Incrível! Dona Esmeralda e o Senhor Astholfo estavam embasbacados. Nunca pensaram o que tinha acontecido com Ana Cláudia. Acharam que tinha morrido em Recife e esqueceram logo sua figura.

              Na segunda mandou chamar a todos que lhe venderam seus comércios. Os deixou no jardim e um a um entrava e saia cabisbaixo. Eram onze. Ofereceu-lhes um salário para gerenciar. Se começasse a dar prejuízo – rua. Chamou o gerente do Banco e disse a ele que queria a casa de Dona Esmeralda em um mês. Um susto! Mas por quê? Não lhe interessa disse Ana Cláudia. Dona Esmeralda e o Senhor Astholfo imploram para dar um tempo para pagar. Ana Claudia não os atendeu. Mandou Lucia falar com eles. – Um mês ela disse. Nem mais um dia! Todas as manhãs passeava pela cidade. Ao seu lado o Laudivino seu guarda costa. Fazia medo em todo mundo. Entrou na igreja, doou cem mil reais ao padre. Mesuras, e o pároco virou um puxa saco de primeira.
              A primeira casa comercial que deu prejuízo mandou o ex dono embora. Mandou botar fogo nela. Um susto. Delegado correu. Por quê? É minha faço o que quiser. Assim se sucedeu com mais quatro. Louca, louca! Todos disseram. Todos na cidade que ficavam em dificuldade ela pagava as contas e não recebendo queimava a casa dele. Um medo terrível passou a existir na cidade. O padre também ficou com medo. O que aquela mulher queria? Que vingança estava em curso? Em dois meses cinco casas residenciais e quatro comerciais foram queimadas. Uma fábrica de Tijolos e telhas ela comprou e fechou. Muitos desempregados. Todos se assustaram quando a casa dela ficou protegida por oito seguranças. Colocaram cercas eletrificadas e uma enorme quantidade de câmaras. Sua mansão virou uma fortaleza.

            Uma reunião na câmara dos vereadores, com a presença do prefeito, do juiz, do delegado e do promotor de justiça discutiam a situação da cidade. Todos tinham seus comércios agora em mãos de Ana Cláudia. Ela tinha chamado um por um e dito que era candidata a prefeita. Que eles se virassem para ela ser eleita. O medo estava estampado na face de cada um. Vários disseram que iam abandonar a cidade. Perguntaram ao delegado se ele podia fazer alguma coisa para acabar com aquele regime de terror. Nada ele disse. Ela nos tem nas mãos. Doou uma grande quantia para o partido do governador.  Ana Lucia foi eleita. Demitiu a maioria dos funcionários da prefeitura. Esta quase parou. Tudo estava acabando em Monte Azul.
            Lucia era uma funcionaria leal, mas estava vendo que as coisas iam por um caminho sem volta e que muitos inocentes estavam pagando o que não deviam. Tentou falar com Ana Cláudia. Perda de tempo. Ela só tinha o pensamento de vingança. Jurou que iria destruir a cidade. A cidade na mão dela como prefeita estava paralisada. O povo começava a se revoltar. Ana Cláudia mal sai à rua. Lucia aconselhando para parar. Ela com seus olhos estrábicos só olhava e não dizia nada. Mais oito casas foram queimadas. Ninguém podia fazer nada. As casas eram dela. Podia fazer o que quisesse. Quando ela mandou queimar a casa de Dona Eucládia tudo degringolou. O povo inteiro foi para a mansão de Ana Cláudia e começou a gritar – Vamos queimar a casa dela! Uma anarquia. Chamaram o delegado e quando ele viu aquilo desistiu. Seria suicídio ir contra o povo.

            Ficaram em frente à casa dela cinco dias. Ninguém entrava ninguém saia. Ana Cláudia começou a ficar assustada. O que fazer? Conversou com Lúcia que ligou para o delegado. Este disse que não podia fazer nada. Porque não chama um contingente militar? Não posso respondeu. Cortaram o telefone da delegacia. Ouviram um estalo. O povo invadiu a mansão. Ana Cláudia foi segura por vários homens e mulheres. Bateram nela. Lucia saiu incólume. A Colocaram na limusine e disseram que se ela voltasse a cidade eles a matariam. Quando saiam da cidade, Ana Cláudia sorriu. Olhou para trás e viu uma grande explosão. Ela havia mandado colocar dinamites em vários pontos da mansão. Ela mesma tinha um controle e sabia que após ligar uma hora depois a casa explodiria.

            Morreram mais de 20 pessoas que estavam saqueando a mansão. A policia procurou Ana Claudia. Nunca a encontraram. Hoje mora em Coupvray, uma cidadezinha próximo de Paris. Não é uma mansão e nem um castelo, isso não. Lucia aconselhou Ana Claudia a comprar uma casinha simples. Assim passariam despercebidas. Os vizinhos achavam que Ana Cláudia era a empregada e Lucia a proprietária. Risos. Bom isso. Viveram assim por muitos anos e ambas morreram com mais de noventa anos. Toda sua fortuna foi doada para uma instituição de caridade no Brasil.

            Dizem que Ana Cláudia morreu sorrindo. Sua vingança aconteceu. Não foi como tinha planejado, mas a cidade de Monte Azul sempre se lembraria dela. A caolha, a vesga, a negra esfarrapada que fez muitos se ajoelharem-se diante dela. É, o dinheiro! Ele dizem que não trás a felicidade, pode até ser que não, mas compra tudo. Compra vidas, consciências, amor mesmo que fingido. Machado de Assis dizia que o dinheiro não traz felicidade, claro, para quem não sabe o que fazer com ele. Risos.
EXALTAÇÃO DO AMOR

JG de Araújo Jorge

Sofro, bem sei... Mas se preciso for

sofrer mais, mal maior, extraordinário,
sofrerei tudo o quanto necessário
para a estrela alcançar... Colher a flor...



Que seja imenso o sofrimento, e vário!
Que eu tenha que lutar com força e ardor!
Como um louco talvez, ou um visionário
hei de alcançar o amor... Com o meu Amor!



Nada me impedirá que seja meu
se é fogo que em meu peito se acendeu
e lavra, e cresce, e me consome o Ser...

Deus o pôs... Ninguém mais há de dispor!
Se esse amor não puder ser meu viver

há de ser meu para eu morrer de Amor!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A doce vingança de Laudivino Centauro




 Vingança

Eu consigo a incrível façanha
de ser feliz e triste ao mesmo tempo

É que falta uma peça
tão grande e importante
que fica difícil percebê-la
mas ela existe…
e dói saber

Não há fardo maior na vida
do que os malditos sonhos
que te iludem

Eu não quero me vingar da vida
mas parece que ela se vinga de mim.


A doce vingança de Laudivino Centauro

              Nuvens brancas, cinzentas perpassavam pela minha mente em um redemoinho nefasto. Minha vida mostrava devassidão, corrupção, bandalheira. Este era eu? Não estava me reconhecendo. Tentava concatenar as ideias e não conseguia. Era como se toda uma vida fosse passada ali naquela tela imensa um relato do que fui, do que fiz e sem sombra de dúvida mostrava que eu não era ninguém. Apenas um ser perverso, maléfico e que a troco de riquezas e poder destruiu muitas vidas e tirou de quem precisava em benefício próprio. Mas onde eu estava? Tentava lembrar tudo que aconteceu e só via aquele filme maldito que passava naquela tela gigante me forçando a lembrar de toda minha vida desde que nasci.
               Agora sim. Estava entendendo. Eu estava em um hospital. Vi-me ali cheio de fios na boca nas orelhas. Uma parafernália de aparelhos que me faziam respirar. Mas como se eu não estava lá no corpo? Como não sentia nada? Através do vidro vi Celina chorando e ela rezava. Sua reza me ajudava. Era pura, verdadeira. Celina, quem diria! A mulher que nunca pedi em casamento e me foi fiel por toda a vida. Uma empregada que nunca reclamou de salários nunca reclamou de meus carinhos. Maldito sou eu. Ficou do meu lado durante todo o tempo sem nada pedir. Celina, a mulher mais linda do mundo que não soube valorizar. Nunca quis o meu dinheiro, maldito dinheiro, sim, hoje digo maldito diferente do passado quando corria atrás dele como o diabo corre atrás das almas perdidas.
               Mas onde estava Fernanda? Afinal foi a ela que dediquei muitos anos para ver se tinha uma vida feliz. Dei a ela o que queria. Seus sonhos de mulher rica foram concretizados. Tinha tudo que desejou. Fomos para a Europa, Américas, lugares que nunca desejei ir e ela adorava e ria, cantava quando estávamos lá. E eu iludido fazia tudo o que ela me pedia. Mas onde está ela? Não jurou que me amava? Que a paixão por mim era a única e nunca iria me abandonar? Começava a lembrar-me de tudo. Não de tudo e sim de uma boa parte. Agora via o caminhão carregado vindo em minha direção. O volante não obedecia. Parecia que estava solto. Um monstro a minha frente buzinava alto, parecia dizer – Sai seu burro! Vais morrer e ir para o inferno onde é seu lugar.
                Nem fizera dezoito anos e sai de casa. Minha mãe chorava e meu pai sério ficou na janela sem dizer adeus. Ele no seu íntimo sabia o que eu era. Sabia da minha cobiça, dos meus sonhos de riqueza. Aquela vida que ele deu a mamãe e a mim eu considerava um lixo. Não posso reclamar tanto. Ele deu para ela uma casinha simples, limpa, aconchegante. Meu deu estudos ou tentou já que não liguei muito para isto. Na minha cidade sempre tentei enganar as pessoas. Era conhecido como um embusteiro, enganador e trapaceiro. Minha mãe sempre chorava quando ia preso. Mas menor de idade ficava lá pouco tempo. Tinha pinta, as meninas eram apaixonadas por mim apesar dos pais manterem elas longe. Engravidei umas cinco. Risos. Problema delas. Quem mandou abrir as pernas? Tudo bem. Menor de idade. Mas de uma coisa tinha certeza, nunca matei ninguém. Nunca.
               No Rio de Janeiro cheguei com uma mão na frente e outra atrás. Um mendigo que se dizia cego tentei roubá-lo. Não era cego. Chamou amigos e me deram uma surra tremenda. Uma ambulância me levou ao hospital. Fiquei oito dias internado. Arrumei lá algum dinheiro. De madrugada ia aos apartamentos e roubava os pacientes ricos. Não era muito, mas deu para ficar uns meses em um hotel enquanto planejava outros golpes. Achei um interessante. Na página de necrologia dos jornais via os que morreram, procura seus endereços e telefones, ligava para a empregada pedindo um documento como se eu fosse o gerente do velório onde ele estava. Enquanto ela corria para levar o documento eu fazia uma limpeza na casa. Era chamado de rato de velório.
                 Aprendi também a não pagar o barbeiro. Pegava um menino qualquer, cortava meu cabelo, fazia a barba, as unhas e quando terminava colocava o menino para cortar o cabelo como se fosse o meu filho e dizia que ia tomar um café. Sumia é claro. Assim fui dando muitos golpes até que um amigo me convidou para ser seu sócio. Arrematar em um leilão, dez mil fraldas para velhos. Ri dele. E daí? Perguntei. Simples, montamos uma firma fantasma, entramos em uma concorrência publica em uma cidade do interior, compramos o responsável pela escolha e dai partimos para outras concorrências mais fortes. Conheço gente que está rico com isto! E quando vamos precisar para iniciar? Se tiver vinte mil já dá. Tinha. Foi só o começo. Ninguém das prefeituras do interior recusavam uma propina. Ganhamos muito dinheiro.
                Comprei uma casa boa em um bairro de classe media. Celina apareceu um dia pedindo emprego. Negra, jovem ainda e sempre de cabeça baixa, humilde, simples. Ela me serviu na casa e na cama. Nunca reclamou. Não sei se fui bom para ela. O dinheiro que pagava não era nada. Mas nunca reclamou. Disse que não precisava de nada. O que sobrava guardava na poupança. Prá que Celina? Você é só no mundo. Não sei respondia. Um dia posso usar. Tudo cresceu mais quando entramos em uma concorrência em um estado. Desta vez era coisa grande. De cem milhões. Uma fábula. Ganhamos. Vinte por cento para meia dúzia de safados do governo. Daí foi um pulo. Outras e outras. Fiquei milionário. Deputados, senadores, prefeitos e vereadores me bajulavam. Sempre cada um querendo seu quinhão. É para o partido diziam! Partido. Eu sei que partido. O próprio bolso.
               Quando estava no aeroporto para embarcar para Lós Angeles, conheci Fernanda. Ela também estava indo para lá. Disse que me conhecia pelos amigos que tinha. Fernanda era linda, alta quem sabe um e setenta e cinco, seios maravilhosos, olhos verdes profundos, cabelos loiros naturais. Uma voz rouca, gostosa que fazia dela a mulher perfeita. No avião ela não estava em minha poltrona. Havia duas vazias bem atrás. Fiz um sinal e ela foi. Amassos, beijos chupadas. Tudo terminou no WC do avião. Nunca tinha feito assim. Muito gostoso adorei. Nesta viagem fomos lá quatro vezes. Cheguei esgotado em Los Angeles.
                Ela aceitou meu convite. Mesmo hotel mesma suíte. O que veio fazer aqui? Perguntei. – Ela – Passear somente. Acreditei. Sempre fui um sabido com os negócios e um idiota com as mulheres. Minha missão era encontrar deputados, juízes, senadores na calada da noite para planejarmos negociatas longe das luzes de holofotes que se encontram no Brasil. Fernanda ia comigo. Aos poucos se inteirando de tudo. Os políticos e juízes a olhavam e ficavam loucos por ela. Ela disse-me que os durões ela amansava. E amansou. Fez sexo com muitos para me ajudar. Um ciúme enorme. Mas negócios são negócios, amores à parte.
               Comprei um apartamento de cobertura na Vieira Souto no Rio de Janeiro e outro no Morumbi em SP. Ela gostava mais do Rio. Tudo bem. Ficava em São Paulo a maioria do tempo. Sempre com a fiel Celina. Grande Celina. Tentou me abrir os olhos e eu cego achei que era ciumeira dela. Seu Laudivino, ela dizia, Fernanda já esteve aqui com outro homem quando o senhor Não estava. Eu ria e dizia, são negócios minha “nega”. Não sei como ela descobriu minha conta na Suíça. Uma grande quantia tinha lá, acho que mais de duzentos milhões de dólares. Uma fábula. No Brasil quase nada. Um dia poderiam vasculhar minha conta a vontade.
               Tudo começou a desmoronar quando fui preso de manhã em meu apartamento do Morumbi pela Polícia Federal. Quantas acusações. Falsidade ideológica (nem sabia o que era isso), formação de quadrilha, e mais uma dezena de acusações. Deram-me uns cascudos. Mas foram benevolentes. Não tinha advogado. Liguei para Fernanda e pedi que escolhesse o melhor de todos. O preço não importava. Ela escolheu o pior. Não me tirou da cadeia. Através deste advogado arrumei outro. Conseguiu um Habeas Corpus. Solto voltei ao apartamento. Vazio. Roubaram tudo. Foi Fernanda eu fiquei sabendo. E Celina? Perguntei ao porteiro. Não sei me disse. Fernanda a pôs para fora do apartamento.  Ela sempre ficava aqui sentada no meio fio esperando o senhor. Não veio ontem nem hoje. Já ia embora quando a vi. De cabeça baixa, chorando. O que será de mim senhor Laudivino sem o senhor? Calma Celina. Calma, vamos resolver tudo.
               Mas tudo estava indo para o brejo. Ainda bem que no Banco Itaú e no Bradesco tinha uma merreca. Comprei um notebook e uma surpresa. Não tinha nenhum tostão nos bancos suíços. Tinham sido surrupiados. Consegui em quatro bancos mais de trinta mil reais. Mal deu para pagar o advogado. Procurei uns amigos. Todos me viraram as costas. Coloquei a venda o apartamento do Morumbi, o mesmo ia fazer com o da Vieira Souto. Não estava mais no meu nome e sim no de Fernanda. – Então foi ela! Dei tudo que queria e não ficou satisfeita? Deve ter descoberto minha senha e retirou nos bancos suíços. Maldita, pensei, vai pagar em dobro!
               Aluguei uma casinha na Lapa, pedi a Celina para tomar conta e fui ao Rio de janeiro. Encontrei Fernanda. Junto o Laureano. Um antigo Deputado Federal que foi cassado. Agora eram amantes. Laureano me ofendeu. Que eu sumisse da vida deles. Juraram-me de morte. Morte? Quem ia morrer eram eles.
À tardinha de novo a Federal. Disseram que eu estava cerceando testemunhas. Mas não me prenderam. Só disseram para tomar cuidado. Um delegado dos mais novos ao pé do ouvido me disse para ficar de orelha em pé. Muita gente querendo me ver morto. Muitos figurões. Voltei a São Paulo de carro. Quando passei por Resende notei uma folga no volante. Esperei o próximo posto. Lá veria o que era. Antes da entrada de Itatiaia o carro dançou na pista, não consegui dominar, invadiu a pista contrária e bati de frente a uma enorme carreta que estava a mais de cem por hora.
               Estou me vendo ali na cama, cheio de fios, e no vidro chorando estava Celina. A única companheira de verdade. Fernanda eu sabia que não viria. Devia estar festejando com Laureano em algum lugar do Rio de Janeiro. Malditos. Tinha de me vingar. Minha mente só pensava em vingança. Notei ao meu lado dois homens vermelhos, como se estivessem queimando. Exalavam um mau cheiro parecendo enxofre. Nós ajudamos você disseram. Nosso mestre tem poderes e se os quiser mortos o faremos. Em troca vai conosco. Fechei os olhos. Tinha lido histórias de pacto com o demônio. Eles estavam me oferecendo um? Valeria a pena? Olhei para Celina no espelho. Ela rezava. Sua reza chegava até a mim. Dizia para me arrepender dos meus pecados que estavam passando na tela grande a minha frente. Eram muitos. Não sei se Deus iria me perdoar.
              Os dois homens vermelhos começaram a me arrastar. A reza de Celina bateu fundo no meu coração. Comecei a rezar também. Chorava, um clarão apareceu. Vários homens e mulheres de branco. Junto meu avô que só me lembrava dele quando tinha cinco anos depois ele morreu. Pegou no meu braço e disse – Venha comigo meu neto querido. Levou-me rumo aos céus. – Laudivino meu filho, você cometeu muitos erros, prejudicou muita gente, mas Deus se apiedou de sua alma. Você vai ter que trabalhar em dobro para recuperar o que perdeu em suas ultimas andanças na terra. Alguém me levou para uma cidade cinzenta, onde todos choravam e gemiam. Uma mulher me abraçou e disse, vamos trabalhar meu amigo, aqui tem muito trabalho a fazer. São espíritos que precisam de nossa ajuda. Vieram das zonas inferiores. Aqui não vais ter folga, não vais ver o céu azul, só dores e sofrimento.
               Ainda recebo as boas rezas de Celina. Elas me ajudam muito. Aos poucos fui esquecendo-se de Fernanda. Não pensava mais em vingança. Minha alma estava em paz. O Chefe da cidade me chamou. Venha me ajudar. Fiquei contente ia sair da cidade em que estava por anos a fio. Um trabalho incessante. Fomos a uma casa simples.  Lá estava Fernanda, gritando. Laureano tinha atirado nela por uma discussão boba. Estava morta. Desencarnada. Gritava, queria ver morto o Laureano. Aproximei-me. Ele me viu e se assustou. Dei a mão a ela. Venha minha amiga, vamos a uma cidade onde poderemos trabalhar muito. Você vai gostar de lá. Ela se calou. Olhou nos meus olhos, não viu vingança viu amor. Um amor diferente do qual ela nunca teve. Ouvi o sorriso de Celina, na terra ela continua a horar por nós dois.


Lágrimas tristes tomarão vingança

Se somente hora alguma em vós piedade
De tão longo tormento se sentira,
Amor sofrera, mal que eu me partira
De vossos olhos, minha saudade.

Apartei-me de vós, mas a vontade,
Que por o natural na alma vos tira,
Faz-me crer que esta ausência é de mentira;
Porém venho a provar que é de verdade.

Ir-me-ei, Senhora; e neste apartamento
Lágrimas tristes tomarão vingança
Nos olhos de quem fostes mantimento.

Desta arte darei vida a meu tormento
Que, enfim, cá me achará minha lembrança
Sepultado no vosso esquecimento.

Luis Vas de Camões