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sábado, 24 de outubro de 2015

O estranho funeral de Jacinto Malaquias


O funeral azul
Parem já os relógios, corte-se o telefone,
dê-se um bom osso ao cão para que ele não rosne,
emudeçam pianos, com rufos abafados
transportem o caixão, venham enlutados.
Descrevam aviões em círculos no céu
a garatuja de um lamento: Ele Morreu.
no alvo colo das pombas ponham crepes de viúvas,
polícias-sinaleiros tinjam de preto as luvas.
Era-me Norte e Sul, Leste e Oeste, o emprego
dos dias da semana, Domingo de sossego,
meio-dia, meia-noite, era-me voz, canção;
julguei o amor pra sempre: mas não tinha razão.
Não quero agora estrelas: vão todos lá para fora;
enevoe-se a lua e vá-se o sol agora;
esvaziem-se os mares e varra-se a floresta.
Nada mais vale a pena agora do que resta.
O estranho funeral de Jacinto Malaquias
                    Era estranho, muito. Jacinto não reconhecia aquele salão. Nunca o tinha visto, afinal sua cidade pequena não possuía salões assim. Lá dentro viu várias pessoas, muitos amigos. Seria uma festa? Festa estranha. Todos sussurrando, não havia musica. Grupinhos aqui e ali. Num canto do salão Pedro Bala e Antonio da Linda davam risadinhas sacanas. Claro, eles eram sempre assim. Nanci da Nadir e Napoleão espoleta também estavam lá. Sempre agarradinhos. Os dois namoravam há quinze anos (risos), nem noivos ficavam. Diziam que assim que era melhor.
                   Jacinto pensou que poderia estar em um sonho. Mas não se lembrava de ter dormido. Claro já tinha tido outros sonhos, mas nunca tão real como esse. Viu no fundo do salão uma figura de um homem que ele não conhecia. Fazia sinais para ele se aproximar. Ao adentrar viu na entrada uma plaqueta escrita – Jacinto Malaquias – 1980-2010. Era ele! Então estava sendo homenageado? Sorriu e entrou. Nunca na vida recebera uma homenagem. Viu seu avô em um canto sentado em uma cadeira de cabeça baixa. Sua avó não estava. Claro morrera cinco anos antes.
                     Quando estava entrando ouviu um sussurro no salão, olhou e viu Maysa chegando. Estava linda! Toda de preto com um véu negro sobre os olhos. Nossa! Como estava linda! Durante seus cinco anos de casados ele nunca tinha visto ela tão linda. Ela passou por ele sem dizer nada. Ele não se preocupou. Era sempre assim. Ela só o procurava quando queria. Nunca parava em casa. Mas ele gostava tanto dela que alem de ganhar seu sustento na sapataria, também fazia a limpeza da casa e as refeições diárias.
                     Ele sabia disso quando casou com ela. Diziam que era frívola fútil e interesseira. Não era surpresa. Afinal era a única que desde os doze anos só andava com um “micro-saia” que os homens adoravam e as mulheres detestavam. Sabia até que ela tinha vários casos com diversos homens da cidade. No entanto nenhuma mulher se interessou por ele nesses seus trinta anos de vida. Disseram-lhe uma vez que o homem verdadeiro quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso escolhe a mulher, o jogo mais perigoso. Seria mesmo? Ela o enfeitiçou. Entrou na sua sapataria com um salto alto que quebrou. Sussurrou baixinho se ele podia fazer alguma coisa.
                    O que ele não faria por aquela mulher? Todos na cidade a desejavam. Jacinto sabia. É mais claro que o sol que Deus criou a mulher para domar o homem. E olhe, o homem que não mente para uma mulher tem muito pouca consideração pelos sentimentos dela. Risos. Jacinto era louco por Maysa. Depois da primeira vez ele voltou varias vezes na sapataria. Ele ficava sem ter o que falar. Só olhava para ela. Um feitiço isso sim ela tinha colocado nele. Um dia quando estava fechando ela chegou. Ajudou a fechar a porta e ficaram dentro da sapataria. O que ela fez quase matou Jacinto.
                 Jogou-o com força sobre uma velha poltrona de couro marrom rasgada. Pegou um cinto e bateu nas pernas dele. Ele estava atônito! Quando ia reagir ela começou a se despir. Devagar. Sensual. Jacinto ficou petrificado! Deus meu! Ela tinha um corpo fenomenal. Única loira autentica da cidade. Cabelos curtos, olhos azuis profundos. Ficou nua na sua frente. Jacinto não fez nada. Estava tremendo. Ela rasgou as roupas de Jacinto. Ela o possuiu. Jacinto fechou os olhos. Achou que estava no paraíso. Sempre fora assim. Terminavam e ela sussurrava em seu ouvido - “quero mais!”
                 Casaram-se na igrejinha de São Francisco numa tarde de setembro. Ele nunca esqueceu aquele dia. Seu vestido de noiva era transparente e mostrava a calcinha biquíni preta. Ela não usava sutiã. Terminado o casamento, por sinal bem concorrido ela sumiu. Sumiu mesmo da cidade. Voltou duas semanas depois. Foi para a casa de Jacinto. Entrou olhou para ele e não disse nada. Com o dedo polegar fez sinal para ele segui-la. Ele suspirou fundo. Achou que deveria inquiri-la, mas se calou. Ele era assim e aquela mulher o dominava. Toda a cidade sabia como ela era todos os homens a desejavam e Jacinto foi um privilegiado. Ele sabia que ia dividir. Seria normal.
                Durante cinco anos seu casamento foi entremeado de idas e vindas de Maysa. Interessante que nunca pediu dinheiro a Jacinto. Sempre quando sumia deixava uma boa quantia em cima da penteadeira. Jacinto não usava. Abriu uma poupança em nome dela. Um dia fechou a sapataria e ao chegar em casa ele viu saindo o Vadico do seu Leôncio. Ele conhecia Vadico. “O garanhão”, todos os chamavam de ‘gostosão da cidade’ o tal ‘Ricardão”. Nem se deu o implante de cumprimentar Jacinto. Ele a encontrou deitada, nua, de pernas abertas e molhadas, olhando para ele. Claro, esqueceu tudo e cumpriu sua função de marido.
                Agora ele estava ali, naquela festa estranha, ou melhor, dizer bizarra depois que Jacinto viu seu pai e sua mãe em volta de um esquife dourado. Ora, quem seria? Porque seu pai e sua mãe estavam chorando? Jacinto viu quando Maysa se aproximou deles e levantando o véu viu que algumas lágrimas desciam dos seus lindos olhos azuis da cor do céu de outono. Queria se aproximar, pois o amigo que tinha feito o sinal insistia em sua presença. Ele foi até ele. O cara que não conhecia sorriu e disse – “Bem vindo ao clube dos chifrudos mortos!”
                Ele deu uma gargalhada e sumiu. Jacinto aceitou. Sempre fora pacato e tranqüilo. Nunca brigou nem reclamou. A vida para ele era assim. Quando alguém perguntava a ele que “A vida é dura’, ele sempre respondia “Comparada a que?”E ainda completava a vida para os desconfiados e os temerosos, não é vida, mas uma morte constante. Simplório este Jacinto. Ingênuo? Não sei. Havia pelo menos umas trintas pessoas na sala, mas em volta do esquife que intrigava Jacinto. De quem seria? Aproximou-se – Nossa! Era ele! Mas não podia ser ele estava vivo, ali presente.
               Deu-se conta que ninguém falava com ele. Tentou falar com Maysa. Ele nem olhou para ele. Chamou sua mãe e seu pai. Nada. Alguém cutucou suas costas e ele se virou e outro estranho sorria, com dois pares de chifres na cabeça. Disse – Quando terminar me procure. Sou o chefe do Clube dos Chifrudos mortos. Vou fazer sua admissão no clube. Ria e a valer e saiu como entrou. Viu Maysa ir ao banheiro. Logo em seguida viu Vadico indo para lá. Ele atravessou a porta com facilidade. Maysa estava sentada no colo dele com a saia levantada e ele sentado no vaso. Ela gemia baixinho e Vadico ria. Se ele estava morto, até no enterro Maysa botava chifre nele?
               Saiu Dalí quando viu dois homens de uniforme dizendo – Chegou à hora, quem quiser que despeça agora. Todos fizeram volta no esquife. O sinal da cruz e os homens fecharam a tampa. Jacinto podia ler os pensamentos e ninguém pensava nele. Ao caminhar nas alamedas da necrópole, viu que os homens só olhavam a “bunda” de Maysa. As mulheres beliscando os homens. Maysa sabia disto e mais se rebolava. Jacinto riu. Gostava disto. Sabia como todos sonhavam em levar Maysa para a cama. Claro muitos levaram, mas ele a levou muito mais.
               Chegaram a um canto bem no final do cemitério. Uma roda, a mãe de jacinto chorava e o pai se despediu dele. Disse um Pai Nosso e Jacinto viu que o pai pensava outra coisa. “Vai meu filho, um frouxo, ficará na memória de todos como o maior chifrudo que esta cidade já teve”. Jacinto não chorava aquilo era estranho para ele. Todos que se aproximaram do caixão para se despedir aproveitavam a multidão (pequena) para passar a mão na “bunda” da Maysa. Que mulher pensava jacinto. Até no meu enterro deixava os homens fazendo “continência”.
               Só então Jacinto percebeu que o cemitério estava cheio. Tinha centenas e centenas de homens, sentados nos muros, nas cruzes, nos mausoléu e nas catacumbas. Todos com um par de chifres na cabeça. Todos riam. Gargalhavam. Gritavam para Jacinto, “Bem vindo ao clube”. Jacinto riu. Parece ser uma turma boa, acho que vou gostar daqui. Os amigos e parentes se foram. A noite chegou. Jacinto tentou sair do cemitério, não deixaram. Tentou dormir também não deixaram. Jacinto era de paz. Não quis discutir. Sentou em um galho de um abacateiro e lá passou a noite.
               Jacinto acordou. Não estava no cemitério. Estava em baixo da mangueira do quintal de sua casa. Ficou de pé. Estranho. Muito. Ele sentia que estava vivo, ficou com sede e foi até a pequena bica que passava em seu quintal. Bebeu com gosto. Olhou para a porta da cozinha. Estava aberta. Entrou. Não tinha café. Ele fez. Bebeu e comeu alguns biscoitos. Foi para a sala. Viu Maysa nua deitada na poltrona abraçada a Vadico. A Televisão estava ligada. Um desenho de Popeye.
               Pela primeira vez não gostou do que via. Uma coisa entrou na sua cabeça. Não sabia o que era. Foi cozinha. Pegou uma faca de cortar carne. Voltou e enfiou de uma só vez no pescoço de Maysa. Ela nem gritou. Passou a faca com o sangue no “penis” de Vadico. Cortou seu saco. Ele berrou. Jacinto bateu com um vaso de flores em sua cabeça. Subiu ao seu quarto, arrumou umas roupas e suas poucas economias. Levou também o cartão do banco onde depositava o dinheiro de Maysa. Ela agora não iria precisar mais.
               Saiu sem fazer barulho. Ninguém o viu. A cidade acordou. O padeiro foi entregar o pão. Jacinto não atendeu. O leiteiro entregou o leite. Ninguém atendeu. Dona Cotinha a vizinha achou estranho. Chamou o Delegado. A porta estava aberta. Viu que Maysa estava morta. Ao lado Vadico desacordado. De Jacinto nem sinal. Foi uma festa na cidade. Fofocas de boca em boca. Vadico matou Maysa porque ela cortou seu saco! Que isso, não foi assim. Jacinto cortou o saco de Vadico e matou Maysa.
              Vadico saiu do hospital e foi preso. Julgado foi condenado por quinze anos de um crime que não cometeu. Mas na cidade todos ficaram aliviados. Enfim deram um sumiço no “Ricardão”. Os maridos sorriram. As mulheres iriam sentir falta. Os pais de Jacinto venderam sua sapataria. O delegado desconfiou que eles soubessem onde ele estava. Juraram não saber. Ficou sabendo que Jacinto fez uma Poupança para Maysa. O gerente disse que tudo foi retirado. Não tinha mais um “tostão’.
              Seis anos depois, Miguezinho um vendedor de utensílios de alumínio da capital, em uma roda de sinuca no bar do Peixoto Pinto Morto, jurou que tinha visto Jacinto em Pacaraima. Uma cidade fronteiriça com a Venezuela. Aproximou-se, mas Jacinto disse que seu nome era Alberico das Flores. Miguezinho disse que não discutiu. Jacinto tinha na cintura um parabellum e seu olhar não era de bons amigos. Na pensão disseram que ele era o maior fazendeiro da região. Plantador de soja. Tinha mulher e quatro filhos. Quem diria.
              É vida. Hoje uma amanhã outra. Se Jacinto ganhou claro que Maysa e Vadico perderam. Mas quem tudo quer tudo perde não é assim que se fala? O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada, o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções. Aconteceu na cidade de Jacinto. Ninguém lembrava mais dele, mas os homens nunca esqueceram Maysa e sua “bunda” de ouro. Enfim, tudo que existe existe. Talvez porque outra coisa existe. Nada e tudo coexistem: talvez assim seja o certo...
Enterro de Maysa

Morreu, vai a dormir, vai a sonhar, deixai-a!
(Fale baixinho, agora mesmo se ficou...)
Como padres orando, os choupos foram ala,
Nas margens do ribeiro onde ela se afogou...

Toda de branco vai, n’esse hábito de opala,
Para um convento: Não o que Hamlet lhe indicou,
Mas para um outro horror! Que em por nome Vala,
De onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!...

O lindo pôr-do-sol, que era doido por ela,
Que a perseguia sempre, em palácio e na rua,
Vede-o, coitado! Mal pode sustar a vela...
Como damas de honra, ninphas seguem-lhe os rastros,
E assomando no céu, sua Madrinha, a Lua,
Por ela vai desfiando as suas contas, Astros!

Antonio Nobre

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Um poema escoteiro - Quem são eles?


Quem são eles?

Ei você, por favor, me diga, quem são eles?
Estes sorrisos cantorias são mesmo deles?
Aonde vão com essa tralha no costado,
Partem em bandos nem parecem assustados
Dizem que vão para os campos e montes,
Cheios de esperanças a beber água na fonte.

Sei que são meninos cheios de esperanças
A correr com bandeiras nas andanças,
No regato águas límpidas e formosas,
Contam casos contam prosas.
No lusco fusco do sol da tarde
Armam barracas sem fazer alarde.

Usam mochilas, distintivos e chapéu.
Usam lenço amarrados ao arganéu.
Na ravina eles gostam das flores
Orgulham da promessa, dos seus valores.
Armam barracas, arvoram bandeiras.
A moeda da boa ação está na algibeira.

Ei jovem, me diga quem são?
Vejo vocês fazendo boa ação,
Moço, sou menino, sou faceiro,
Olhe bem, sou um Escoteiro.
Amo a Deus, amo meus amigos,
Amo a pátria e da lei os seus artigos.

Pensei que eram simples meninos
Enganei-me, eram divinos.
Batutas, energia que consomem,
Sem duvida em breve serão homens.
Nunca seriam esquecidos forasteiros
Pois ali estavam verdadeiros Escoteiros.

Se um dia perguntarem aonde vão
Diga com calma com amor no coração.
Eles? Meu amigo são alegres são faceiros
São meninos, eles são Escoteiros.
Vivem de sonhos correndo neste céu cor de anil,

São sinceros, são Escoteiros do Brasil!   

sábado, 26 de setembro de 2015

A sombra do medo





Não tenho medo do frio, não tenho medo de nada.
Não tenho medo da vida e com ela me sinto forte,
Minha vida é tristonha, talvez a chuva molhada.
Lembra-me do meu pavor, o choro da madrugada.
Só a solidão me apavora, por isto não tenho sorte.
E repito mil vezes se preciso, eu não tenho medo da morte.
Osvaldo

A sombra do medo

                  Eu tinha 16 anos quando matei meu pai. Não se assustem. Ele merecia. A morte para ele foi até um bálsamo. Eu devia tê-lo capado como se capa uma porca no chiqueiro quando o matei. Não sei se éramos uma família feliz. Não sei mesmo. Eu minha irmã mais velha e a minha mãe estávamos sempre juntas. Quando meu pai vinha da lida na roça, nós ficávamos apavoradas. Meu pai estuprou minha irmã quando ela fez onze anos. Minha mãe não pode fazer nada. Ele a amarrou no pé do Juazeiro que tinha em frente de casa. Eu ele não se preocupou. Tinha apenas seis anos.

                 Dizem que tudo tem uma primeira vez, depois a culpa não mais existe. Torna-se uma rotina. Meu pai fez de minha irmã, uma puta particular. O ódio começou a tomar conta de mim já com meus sete anos. Minha mãe tentou tudo, mas não conseguiu nada. Só perder todos os dentes da boca, devido à sova que levava todos os dias. Minha irmã ficou prenhe e quando nasceu seu menino ela não agüentou e morreu ao dar a luz. Meu pai pegou o bebê e o jogou nas águas do rio Curimataú. Nem soube se ele estava vivo. Se estava às piranhas o comeram vivo.

                 Nosso vizinho mais próximo ficava a mais de vinte quilômetros. Meu pai plantava mandioca, abobora na barranca do rio, tínhamos um pouco de feijão que ele cultivava na larga do capão redondo. Ali também tinha feijão. Soltas em no pasto, oito vacas nos dava o leite do dia. Ovos não faltavam, as galinhas ciscavam em volta da casa. O rio era piscoso. Não passávamos fome, mas ele tinha outra fome. Insaciável. Não dava sossego a Barbara. Era de manhã, de tarde e de noite. Um dia pegou uma vara grossa de marmelo e bateu em minha mãe até ela morrer implorando perdão. Perdão não sei de que.

                 Nessa época tinha feito 10 anos. Meu ódio já existia e eu o olhava como se olhava um monstro. Não sabia que monstro era. Eu não conhecia nenhum, mas tinha ouvido falar. Não aprendi a ler e nem escrever. Meu pai enterrou mamãe junto a Barbara, lá bem próximo à curva das cinco pontes. Não, claro que não havia pontes. Nem sei por que esse nome. Ninguém estranhou. Ninguém deu falta de mamãe e da minha irmã. Não recebíamos visita. Todos tinham um enorme medo de papai.

                 Na primeira noite que ficamos sozinhos, ele se embebedou de cachaça. Me pegou pelos cabelos, rasgou minhas roupas e me comeu como se comesse uma franguinha no mato. Gritei de dor. O maldito nem aí. Quando ele entrou em mim, que dor dos infernos! Filho da Puta eu penso até hoje. Dez anos. Violentada pelo próprio pai. Virei daí em diante, a nova puta de papai. Onze anos, doze, treze e engravidei. Meu neném nasceu e ele o pegou ainda sujo do meu útero. O pobre ainda chorava quando meu pai o jogou no rio. Implorei para não fazer isso. Mas ele nem ligou. Me deu um chute no rosto. Parei de chorar. Agora não falava mais nada. Não valia a pena.

                  Quando fiz dezesseis anos, resolvi acabar com a vida dele. Chegou da lida, pegou a garrafa de cachaça e bebeu feito um porco. Eu sabia como era. Todos os dias a mesma coisa. Se embebedava e vinha me comer. Sem banho, sujo fedendo feito macaco prego do peito amarelo. Naquele dia fingi que gostava, ele estranhou. Disse-me até umas palavras carinhosas. Trouxe mais cachaça. Ele bebeu e ria babando no seu corpo nu. Ficou desfalecido na cama. O arrastei até o pé de Juazeiro e coloquei óleo e querosene que usávamos para as lamparinas, e risquei o fósforo com prazer.

                 Ele berrava de dor, tentou levantar, mas estava muito bêbado e eu tinha um pau enorme e grosso nas mãos. Dei nele uma cacetada e ele desmaiou queimando como se queima a roça abandonada. Ele ainda gemia e eu sorria. Ele queimando se preparando para ir para inferno. Por minha mãe, por Barbara dizia. Pelos bebês que você jogou para as piranhas. Quando o fogo apagou ele ainda não tinha morrido. Peguei a faca de cozinha e cortei o pau dele. Ainda deu um grito estridente. Agora sim, estava morto. O joguei no rio para as piranhas. Não merecia um enterro decente.

                 A vida mudou para mim. Estava agora sozinha. Não tinha idéia do que devia fazer. Meu nome é Branca, minha mãe dizia que significava luminosa, brilhante e eu era uma moça receptiva e otimista. Não sei. Não era nada disto. Eu nunca tive vida própria. Fui até a roça de papai e vi que podia colher muita coisa. Não sabia plantar, mas eu iria aprender. Aprender? Afinal será que ia ficar ali sozinha de novo? Cheguei à conclusão que devia partir. Para onde não sabia. Mesmo assim fiquei mais oito meses sem saber aonde ir.

                Modesto apareceu pela manhã, assim, como se não quisesse nada. Disse que estava de passagem. Perguntou pelo meu pai e minha mãe. Disse mentindo que tinham ido a Lázaro Feliz fazer compras. Lázaro ficava a vinte e dois quilômetros e a pé, quando meu pai ia até lá, demorava dois dias para voltar. Ele apeou do cavalo mesmo sem eu o convidar. Me pediu um gole d’água. Eu já sabia no que ia dar. Afinal ainda era bonita. De pele clara, cabelos castanhos, seios desenvolvidos, um belo corpo para os meus dezessete anos.

                Ele entrou em casa sem me pedir e me chamou dizendo que ia me comer. Outra vez? Pensei. Modesto era forte, muito. Eu não tinha como lutar com ele. Fingi aceitar. Fui até a cama da cozinha, ele tirou a roupa, ficou nu com um membro enorme balançando. Sorri para ele, e comecei a tirar a roupa, disse que antes tinha de lavar o que ele queria. Ele riu. Fui até o gaveteiro, tirei uma enorme faca de capar e limpar porco. Tirei a roupa e com a faca escondida nas costa me aproximei dele sorrindo. Ele ria, agora sim deve ter pensado na foda que ia dar. Vou comer essa linda menina!

                 Modesto Foi comer a mulher do capeta. Lá nas profundas do inferno! Enfiei a faca nele sem dó. Cortei seu pescoço como cortava as galinhas quando eram preparadas para o almoço. Ele deu um grito só e o sangue espirrou para todo o lado. O arrastei até o rio. Coitado do rio Curimataú. Não fazia nada só nos ajudava e tinha que aguentar aquelas “porqueiras’ que eu jogava em suas águas”.

                  Eu já sabia onde papai guardava suas reservas financeiras. Tinha mais de oito mil reais. Um dinheirão. O filho da mãe não gastava e vendia sempre uma vaquinha, um boizinho e nunca nos deu nenhum conforto. Parti em uma manhã de junho. Cheguei à noitinha em Lázaro feliz. Soube que um ônibus partiria às onze da noite para Salvador. Uma viagem gostosa, nunca tinha andado de ônibus. Dez horas de viagem e amanhecemos na capital da Bahia.

                  Me espantei com a cidade, linda, casas e prédios. Procurei uma pensão e me instalei. Meu dinheiro guardei a sete chaves. Debaixo da cama abri um buraco, enterrei numa lata de doce vazia. Fiquei só com duzentos reais. Dormi até tarde. Para dizer a verdade não lembrava mais de nada do que me tinha acontecido. Aqueles dois que matei mereciam. Se tivesse de prestar contas, seria a Deus o meu protetor. O diabo que fosse para os infernos. Risos esqueci que ele morava lá.

                   Seis meses de Salvador, já conhecia a cidade e muitos homens me procuravam, mas eu não me interessei por ninguém. Arrumei um emprego de Gari. Foi ótimo. Fiz muita amizades. Uma noite Marcelinha me convidou para uma festa de aniversário próximo a casa dela. Fui apesar de que não gostava muito de festas. Um homem loiro, até bonito não tirava os olhos de mim. Marcelinha me disse que era Frances. Falava mal o português. Estava de férias e ia voltar para a França daí a uma semana.

                 Aceitei seu convite para sair. Gerard era educado. Muito. Nunca vi ninguém assim. Dizia estar apaixonado por mim. Eu não sabia o que sentia. Uma tarde antes de ele partir me levou a um motel. Foi calmo, amoroso, acho que até gostei do que fizemos. As dores que sentia de meu pai desapareceu. Quando saímos do motel disse que queria casar comigo. Eu iria com ele para a França.

                 Não devia ter aceitado, mas minha amiga tanto insistiu, dizia que eu seria uma Lady ou uma Mademoiselle. Eu nem sabia o que era isso. Mas lá fui eu com Gerard. Que viagem. Uma maravilha. Adorei a viagem de avião. Primeira classe, as moças sempre perguntando o que eu queria. Em París ele me levou a diversos lugares lindos. O Museu do Louvre, o Chateau de Versailles, A Torre Eiffel, o Arco do triunfo, a Basílica de Sacre Coeur. Mas o que mais me encantou foi o Jardim de Luxembourg, um dos mais bonitos de Paris. As flores, as cores delas estavam lindas. Tudo florido. Muita gente sentada nas cadeiras observando. Fiquei ali estática, sem nada dizer.

                 Uma moça ignorante, analfabeta, vivendo aquilo sem saber o que era, foi como um conto de fadas as avessas. Ficamos em Paris uma semana e partimos para Colmar. Seria onde iríamos morar. É uma pitoresca cidadezinha francesa, situada na alsácia bem pertinho da divisa com a Alemanha. Não merecia aquilo. Deus me deu o que eu não podia ter. Gerard me tratava como uma princesa. Sabia que eu era analfabeta e me prometeu ensinar a ler. Claro, seria em Frances.

                 Mas nem tudo que é doce dura para sempre. No segundo mês de casada Gerard foi até Stuttgart na Alemanha a serviço. Gerard era advogado e sempre tinha coisas a resolver fora de Colmar. Ah! Destino. Ele me persegue. Não quer que eu seja feliz. De novo um vizinho gordo, feio e claro, bêbado bateu a porta da minha casa. Abri e ele entrou sem pedir. Eu já o conhecia e educadamente o cumprimentava. Acho que ele não entendeu.

                 Tirou o pinto para fora e disse para eu pegar. Fazia gesto, eu horrorizada tentei sair pela porta correndo. Ele não deixou. Apesar de gordo era forte. Só sabia dizer - Puta brasileira. Puta brasileira. Me arrastou até o quarto, era no andar de cima. Um lance de escada, ele escorregou e caiu com a cabeça no piso. Morreu na hora. Sai gritando chamando os vizinhos. A polícia chegou. Me levaram presa.

                   Eu estava em minha casa, me defendi e fui presa. Mas acho que merecia, matei meu pai e o homem que tentou me estuprar pela segunda vez. Agora não. Não encostei no “leitão bêbado Frances” Ele caiu de bebida no bucho. Gerard tentou entender. Mas não sei se entendeu. Acho que ele acreditava que eu queria alguma coisa com o vizinho, pois só assim ele entraria na casa. Ele até que foi condescende. Pagou um advogado, pois ele não queria me defender.

                    Fui condenada a 18 anos de cadeia. Sem direito a sair mesmo com bom comportamento. Estou aqui há 15 anos. Falta somente três. Fiz muitas amigas aqui na prisão. Todas elas me disseram que poderiam me ajudar quando eu saísse. Eu não sabia se ia voltar para o Brasil. Acho que lá o passado poderia voltar. Gerard nunca me visitou. Uma amiga de cela ficou marcada em meu coração. Rosália era natural de San sebastian, uma cidade localizada a beira mar no golfo de Vizcaia, no norte da Espanha. Ela dizia que era linda. Me lembrei de Salvador.

                    Quando sair, irei morar lá com Rosália. Ela nunca me disse o que fazia e nem perguntei. Mas acredito que depois de tudo que passei, mereço uma vida melhor e vou lutar por isto. Sei que não será fácil, mas eu vou conseguir. As lembranças do passado já estão sendo esquecidas. Meu pai e Modesto devem estar junto se abraçando com o demônio, pois nunca mais voltaram a me importar com pesadelos. Não posso dizer que Deus os tenha. Mas digo com prazer, que o tinhoso, o maldito, o coisa-ruim e o lúcifer das trevas proteja-os para nunca mais sair deste fogo dos infernos.

Futuro?
Uma palavra muito difícil de dizer diante do presente, pois não sabemos o que vai acontecer diante dele para existir esse tal de futuro. Pode ser que tenha planejado ele, mas de uma hora prá outra todas suas idéias podem mudar.
Quem já não pensou como vai ser? Se realmente vai ser do jeito que pensou? Mas isso só Deus sabe, não é a gente que decide.
Existem várias formas de fazer um futuro, como pensar o que vai ser da minha vida profissional, meu casamento, filhos e por aí vai...
Sendo que primeiro na nossa vida temos que ter o presente, para depois termos um futuro, e isso não é uma vidente que vai descobrir. Você mesmo pode fazê-lo e também escolher quem vai estar nele junto com você.
Para isso é só ter força de vontade e ser feliz, para que seu esperado futuro seja tranqüilo e seguro. E pensar que o futuro sempre está começando agora.

Eliene – blog – Vejo o mundo de outra maneira.               

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Martinha Trambiqueira e sua morte por encomenda.



Epitáfio.
Ainda correm lágrimas pelos
Teus grisalhos, tristes cabelos,
Na terra vã desintegrados,
Em pequenas flores tornados.

Todos os dias estás viva,
Na soledade pensativa,
Ó simples alma grave e pura,
Livre de qualquer sepultura!

E não sou mais do que a menina,
Que a tua antiga sorte ensina.
E caminhando de mão dada,
Pelas praias da madrugada.
Cecília Meireles.

Martinha Trambiqueira e sua morte por encomenda.

                  Para que lembrar o que eu fui no passado? Interessa a você em saber que meu pai tentou varias vezes me violentar? Interessa a você saber que minha mãe não estava nem aí e nunca se interessou por mim? Claro que não. Meu passado é meu e não interessa a ninguém. Até o Delegado Jokito um dia achou que seria meu pai meu patrão e meu amante. Eu tinha quinze anos e já era mestre em bater carteiras e dar golpes. Adorava ver a cara de um otário se achando. Risos. Mas voltemos ao delegado Jokito ele me prendeu e me levou para sua casa. – Martinha, disse ele – Você vai trabalhar aqui, vou lhe dar um salario e em troca vai fazer a limpeza da casa. – Maldito eu sabia o que ele queria. Mas não iria esperar a noite chegar. Ele fez muitos elogios e ameaças antes de sair para trabalhar. Limpei a casa dele. Descobri no armário do fundo do quarto que ele guardava roupa de mulheres e cinco perucas. Então o valente Delegado era bicha? Vi tantas coisas na vida que mais essa serviu para não acreditar em ninguém. Ainda bem que um vestido me serviu. Eu tinha um belo corpo e jurei que ninguém iria me tocar sem eu autorizar. Sumi de Sumidouro das Vertentes naquele dia e nunca mais voltei. Ria a mais não poder em pensar naquele delegado filho da mãe. O maldito deve ter ficado uma fera.

      Cheguei a Belo Horizonte de carona com um caminhoneiro. Outro palhaço que achou que eu ia dar para ele em troca da sua boa vontade em me levar. Quando tentou tirei da bolsa um pequeno 32 que roubei do delegado e mostrei a ele. – Se tentar vai ganhar tantas balas no bucho quem vai alegrar as buchudas elas saberão fazer de você seu regalo. Irás servir de pasto para as formigas. O moço fechou a cara e na entrada de BH me mandou descer. Ir para onde? Próximo à rodovia avistei um bar. O lugar preferido dos otários. É neles que os bebuns rezam para serem roubados. O dono se arreganhou todo quando entrei. Deve ter pensado que ali tinha carne nova. – Veio com uma conversa que logo manjei ser conversa fiada. – Fiquei viúvo cedo. Preciso de uma mulher para me ajudar aqui no bar e em casa. Só esqueceu-se de dizer que eu iria dividir a cama com ele. Novinha e bonitinha, cabelos negros longos, seios fartos e pernas lindas eu seria um prato feito para ele. Eu precisava do emprego e naquele momento não falei nada. A noite ele chegou. Fiz um jantar caprichado. Sentei com ele a mesa e botei o revolver em cima. – Nestor! Eu disse. Preciso trabalhar até arrumar um lugar para ficar. Se você se portar como um cavalheiro serei sua cozinheira e ajudarei no bar. Todos os dias quero ser liberada às cinco da tarde. Sábado meio dia, domingo folga. Pode me pagar um salario mínimo e me arrumo.

       Nestor nunca mais sorriu para mim, mas ficamos juntos no bar e em sua casa por pouco tempo. No domingo na Praça Sete no Bar do Piaba encontrei um parceiro. Dos bons. Ele me olhou e sabia quem eu era e eu também sabia quem se tratava. Fizemos uma dupla de dar água na boca. Jojoca era bom no que fazia e coloca bom nisto. O cara era demais. Ensinou-me truque do arco da velha. Não perdoava ninguém e mesmo com o coração doendo por enganar aposentados velhinhos eu precisava da grana. Ganhamos uma dinheirama com o golpe do bilhete premiado. Meu Deus quanta gente otária. Pareciam pedir para serem roubados. Foram muitos golpes o maior foi com um fazendeiro otário de Teófilo Otoni. Gabava-se de ser um grande minerador de pedras preciosas e volta e meia ia para os States. Levou-me para o motel e disse que sem banho minhas pernas não se abririam. Ele foi correndo se lavar e quando voltou deve ter visto que eu tinha me mandado com sua carteira o dinheiro e o cartão de crédito. É como dizia minha avó, enquanto houver cavalo São Jorge não anda a pé. Jojoca meu novo parceiro de golpes sempre foi respeitador. Nunca me pediu para dormir comigo e nunca me relou. Não era bonito e seu bigodinho não enganava ninguém. Não sei por que tive uma queda por ele. Se tivesse pedido teria “dado” para ele. Não pediu e com dois meses juntos desapareceu. Procurei em todo lugar e nada. Não ia desaparecer assim como o vento. Nada disto. Ele tinha sido desovado em algum lugar por um figurão que perdeu dinheiro com ele.

             Nestor se esqueceu de mim. Aparecia de vez em quando só para dormir no quartinho dos fundos. Um ano se passou e estava aproximando a data do meu aniversário de 17 anos. Ainda era virgem. Encostar-se a mim era encostar-se ao capeta. Sabia que era gostosinha e apetitosa, mas meu “negócio” não tinha dinheiro que pudesse pagar. Juramento jurado não ia voltar atrás, só se for por amor. Amor? Amar quem? Bem Jojoca se foi e nem sei se iria aparecer outro. Tinha juntado no Banco do Brasil mais de trinta mil reais e guardado a sete chaves cinco mil dólares americanos. Resolvi alugar um apartamento proximo a Praça Raul Soares. Foi difícil subornar alguém para seu minha avalista. Tudo estava indo a mil maravilhas. Mas tudo que é bom dura pouco. Um “bosta” de um investigador começou a dar em cima de mim. Ria e dizia que sabia quem era eu. Uma tarde quase escurecendo me levou em seu carro em um Motel na Pampulha. Nem entrei. Proximo ao Cassino pedi para parar que ia dar um beijo nele. Ficou super “tesado” quando peguei no “troço duro” dele. Tirei da minha bolsa o 32 e dei um só tiro na testa do meganha. Nem gritou. Ficou deitado em cima do volante parecendo estar dormindo. Saí e fui a pé até proximo ao Aeroporto da Pampulha. Peguei o ônibus de volta a cidade e ninguém até hoje sabe quem matou aquele filho da puta.

          Acham que me arrependi? Que me estressei? Que fiquei com dor na consciência? Necas e necas. O mundo não merecia um merda como ele. Fiz um favor ao santo protetor dele. Mesmo assim resolvi sair de BH. Fui para São Paulo. Achei que lá grande demais eu sumiria na multidão. Aconteceu mesmo, mas com seis meses a merda entornou. Nunca na vida ninguém me enganou. Achava que eu sabia reconhecer o santo do velhaco, o sabido do idiota. Não sabia. Na São João eu só ia de passagem. Lá tinha era muito lobo e quase nenhuma ovelha. Policiais aos montes querendo dinheiro e cafetão valente para me colocar na vida e comer meu dinheiro e algum mais. Cai na asneira de ir até próximo ao vale do Anhangabaú. Que bosta, pela primeira vez fui enganada. São Paulo prometia e meus trinta mil já haviam se transformado em cento e vinte mil. Dos cinco mil dólares agora eram dezoito mil. Sempre sonhei em dar golpe em Nova Iorque. Seria o máximo, pois milionários de todo o mundo faziam pic nic lá. Tony Marcoso era bonitão. Lindo mesmo. Um homem para toda mulher se apaixonar. Conversa mole, sabia usar as palavras que eu não conhecia.

          Quando o vi pela primeira vez achei que poderia ganhar uns tostões a mais. Ele estava no Bar do Girafa e metia a mão no bolso para pagar a conta. Tirava dezenas de notas de cem. Pensei comigo – Este está no papo! Pagou-me uma coca cola duas coxinhas e duas empadas. Convidou-me para conhecer seu sítio. – Não é longe disso, proximo a Itu. Podemos ir amanhã durante o dia. Sou respeitador não vou fazer mal a você, pode contar com minha discrição e honestidade. Deus do céu! O filho de uma égua me enganou direitinho. Tinha já dezenove anos e seis de trambicagem e cai na conversa de um “lagarto” verde? Quem sabe foram os seus dentes bem colocados e sua língua pequena, seus lábios molhados e seu penteado para trás com os cabelos caindo na testa que me encantou? Tudo bem pensei comigo. Vamos lá e junto meu inseparável amigo de todas as horas, meu trinta e dois.

          Nunca tinha passado na Castelo Branco, uma estrada para ninguém botar defeito. Ele me mostrou Alphaville e disse que tinha uma vivenda lá. Disse que era linda e um dia iria me mostrar. O desgraçado se portava como um conquistador, querendo me impressionar e a “besta” que sou eu estava caindo em sua lábia. Antes de Itu ele entrou em uma estrada próxima a São Roque. Rodamos mais de seis quilômetros até o sitio. Sitio? Um castelo isto sim. Bonito demais. Por dentro a casa era um sonho e logo coloquei meu biquíni e fui para a piscina. Maravilhoso, que gostosura, uma vida que nunca tive. Até pensei que se ele esperasse um dia poderia “dar” para ele. Seria o primeiro e nem sei se arrependeria. Ele com seu jeito de conquistador e educado, apareceu de sunga e seu “negócio” quase saltava para fora. Veio com um copo de limonada natural e pedras de gelo boiando. Que vidão eu estava tendo. Nadamos, e antes do anoitecer senti uma sonolência enorme. Devo ter desmaiado, pois acordei com um gosto de urina na boca e presa por uma corrente e um cadeado próximo a um beliche de pedra. Meu corpo doía horrivelmente. Abri os olhos e dei de cara com outra jovem morena, nova amarrada como eu. Ela me olhava com olhos arregalados e estava quase nua. Seu corpo estava cheio de hematomas.

          Tentei falar com ela e ela só grunhia. Abriu a boca e me mostrou que sua língua fora cortada e ainda mostrava sinal de feridas em toda a boca. Estava estupefata e com um medo enorme de tudo aquilo. Nunca pensei passar por isto. Olhei melhor o buraco que estava. Ela junto à janela gradeada e no chão ao seu redor fezes e poças de urina. Que monstro estava fazendo tudo aquilo? Nem deu tempo de pensar mais, pois a porta rangeu e ele entrou. Nu em pelo. Seu membro estava duro como pedra. Chegou perto da outra e se masturbou jorrando todo seu néctar no corpo da jovem todo maltratado e fedido. Veio para mim e o xinguei de tudo. Filho da Puta, Viado, Filho da mãe, de uma égua e ele ria. Um sorriso idiota. Pegou um alicate na mesa e chegou perto de mim dizendo – Pegue nele, se morder ou apertar de mais vou lhe arrancar uma unha. Gritou para a outra: - Pietra mostre suas mãos para esta cadela! Ela não disse nada e me mostrou. Quase todas suas unhas arrancadas a alicate. Estava horrorizada.

      Peguei no seu membro e logo ele gozou. Acho que ficou satisfeito, pois foi embora. Onde estava? O que estava fazendo ali? Que diabo estava acontecendo? Comecei a chorar e convulsivamente sentei e passei as mãos no joelho em posição fetal deitei. Acho que fiquei horas ali sem saber o que fazer. Não sabia se era noite ou dia. Olhei melhor a menina que estava comigo. Estava deitada. Branca, não se mexia. Só podia estar morta. Quanto tempo demorou tudo aquilo para ela? No dia seguinte ele voltou. Viu que ela não se mexia. Tirou a chave do bolso e a soltou. Pegou-a pelos cabelos e saiu pela porta arrastando o cadáver da menina. Algumas horas depois voltou. Um arroz fedido e farinha e jogou no chão para mim. Chão sujo, urinado, mas tinha dois dias que estava ali, não tive outro jeito senão usar as mãos que ainda tinha e comer aqueles restos. Sabia que se ficasse sem em breve também morreria.

            Ele ainda não havia me tocado, em nenhuma parte do corpo. Só gostava de se masturbar e pedir para eu fazer para ele. Não havia como fugir, a corrente era forte e o cadeado enorme. Vi próximo à porta um grampo. Pequeno, quase escondido no meio da sujeira. Quando ele saiu tentei pegá-lo com os pés. Custou mas consegui. Nem tentei abrir o cadeado por a porta rangeu e ele entrou. Nu como sempre. Levou aquele “troço” duro e sujo na minha boca. Meu Deus que vontade de esganá-lo. Cortar sua língua aprisioná-lo ali como ele fez com a outra e comigo. Não tinha como reagir. Precisava sobreviver para matá-lo. Comia no chão os restos de comida que ele deixava para mim. Um buraco proximo ao catre que dormia ele jogava agua. Bebia como se fosse um animal. Fiquei vários dias tentando abrir o cadeado com o grampo. Nada. Ele nem traque dava. Mas não desisti. Meus lábios estavam inchados. Sentia em meu corpo comichão mordido por larvas que se divertiam comigo. Era um trapo. Não entedia porque ele fazia tudo isto. Não o xinguei mais. Não adiantava. Meu plano era me soltar e aí ele iria pagar tudo aquilo.

             Um dia como sempre a porta rangiu. Ele entrou com uma menina nos braços. Prendeu seu pulso a corrente do cadeado. Cabelos loiros, não mais de que uns dezoito anos ou menos. Ela acordou apavorada e gritando. Pedia sua mãe, seu pai seus irmãos. Ele correu até ela e a esbofeteou varias vezes. Tanto que ela desmaiou. Ele suava e colocou a mão no coração. Ficou branco, gemeu alto de dor e caiu feito um dormente de estrada de ferro no chão. Sua cabeça se esborrachou. Bem feito eu sorria. A menina não parava de gritar. Tentei chegar proximo a ele para pegar a chave do cadeado. Mais de um metro de distância. Ele estava morto. Que o capeta leve sua alma e a enterre no fundo dos infernos. Agora precisava me libertar. Só tinha o grampo e minhas forças estavam se esvaindo. Mais um dia e nada. A menina parou de gritar e me olhava de olhos esbugalhados. Ainda iria aguentar algum tempo não muito. Fiquei bem próximo a ela e expliquei que se eu morresse ela devia tentar. Não haveria mais água e comida. Ele iria apodrecer ali na nossa frente.

        Minhas forças estavam sumindo. Enquanto aguentei contei tudo para ela da minha vida. Fui enganada por um Don Ruan do mal. Ela contou o mesmo. Acreditou que ele a amava. O convite ao sitio foi um pulo. Seus pais não deviam procurá-la tão cedo. Era estudante de engenharia, morava na USP e eles no interior. Ela passava meses sem dar notícias. Estava aterrorizada, pois nunca pensou em passar por aquilo. Ficamos amigas enquanto me mantive alerta. A comida e a água não existia. Sabia que iria morrer em breve. Ouvi um estalo. O cadeado se abriu do nada. Achei que era de tanto tentar. Sorri um sorriso azedo. Soltei a corrente e tentei levantar. Não consegui. Fui até o bolso do maldito e nada. Não havia chave. Seu corpo já estava em decomposição. Disse a ela que iria buscar socorro. Ela me pediu pelo amor de Deus para ficar. Estava com medo de ficar só. Volto logo eu disse. Vou tentar achar comida e um martelo. Se ali tiver um telefone melhor, pois logo iriamos sair. Fui me arrastando até a porta. Custei a ficar em pé. Na cozinha muitos biscoitos mortadela e salame. Pão Velho que adorei.

          Achei uma machadinha pequena. Já estava me recuperando e enchi um prato de pão com mortadela para ela e água fresca. Ela riu e chorou quando me viu. Achou que não ia voltar mais. Demorou mais de duas horas para arrebentar o cadeado. Ela não ficava em pé. Fomos para a sala e não tinha telefone. Deixei-a comer com calma. Coma eu disse, quando estiver melhor vamos embora daqui. Lá fora escurecia. Ela me pediu para irmos embora. Pensei em dormir ali aquela noite. Estava escuro. Mas o medo era grande e peguei uma sacola que achei, coloquei comida e água. A porta da sala não abria. Forcei. Dei para ela o bornal com a comida. Custei a abrir a porta. Saí por ela recebendo o fluxo do ar frio, gostoso, que coisa boa pensei! Vi um zunido, não entendi, era um facão preso por molas que havia se soltado e ele em circulo cortou minha cabeça. Só a senti rolando escada abaixo e meu corpo caindo estrebuchando na varanda. Martinha Trambiqueira estava morta. De uma maneira estúpida e preparado por um filho da puta caso alguma de nos fugisse.

Se a menina loira escapou não sei. Para onde fui me proibiram de contar. Pelo menos aqui me tratam com respeito, me chamam de Martinha a virgem dos lábios de mel!                 

Soneto do amor e da morte.
Quando eu morrer murmura esta canção,
Que escrevo para ti. Quando eu morrer
Fica junto de mim, não queiras ver
As aves e pardais do anoitecer.
A revoar na minha solidão.

Quando eu morrer segura a minha mão,
Põe os olhos nos meus se puder ser,
Se inda neles a luz esmorecer,
E diz do nosso amor como se não

Tivesse de acabar, sempre a doer,
Sempre a doer de tanta perfeição,
Que ao deixar de bater-me o coração
Fique por nós o teu inda a bater,
Quando eu morrer segura a minha mão.
Vasco Graça Moura.





quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O expresso do Rio Selvagem.



Fluir de um rio.

Correm as águas do rio

Passam na agulheta do tempo

A mesma água não volta, nem pelo fio
Não repete a sua passagem, observo, lembro
A vida é como esse rio
Na superfície a velocidade instantânea
No fundo as correntes pesadas
As pedras roladas, as plantas prezadas
O que se esconde e funde no leito
Escorregadio que com os tempos feitos
Pouco mudam, pouco nadam
A vida de um rio, não é só a agua que passa
É as margens descoladas, divididas
São quem passa quem refresca
É a vida num todo que se compõe
É quem mergulha, quem acha
Quem muda, leva ou põe
É quem toca no fundo
Traz a vida que mergulha num rio também


O expresso do Rio Selvagem.

            Carmem olhava pela janela do trem, as belas paisagens que iam ficando para trás. Sua mente rebuscava timidamente sua vida. Ela não sabia se era feliz, se tinha alegrias, tristezas, se sua vida estava valendo a pena. Achou que era hora de pensar. Com calma. Merecia umas férias. Quinze dias bastavam. Falou com seu diretor que autorizou na hora. Afinal ela tinha já duas férias vencidas. Trabalhava muito. Arduamente. Começou do nada e hoje era gerente na área de montagem. Telas de computador. Lembrava-se do seu passado. Não foi bom mas o que passou, passou não volta mais. Lembrou-se quando chegou em Santa Fé. Não era uma cidade pequena. As margens daquele rio caudaloso ela se destacava pela sua beleza selvagem e pela sua competência. Não sabia por que dissera selvagem quando lá chegou. Talvez pelo seu frenesi de homens e mulheres que andam sem saber aonde ir. Queria esquecer tudo. Não lembrar. Passar uma esponja em sua mente. Sabia que não dava. Esquecer não é fácil.

             Nasceu em Cidade Santa. Pequena. As margens do rio onde a ferrovia passava e morava com sua Vó. Ali viveu boa parte da sua vida. Ali viu seus pais serem enterrados. Mortos por nada. Uma peste? Assim disseram. Morreu muita gente. Ela não, sua Vó também não. Precisava de um emprego. Lá não conseguiria. Estava com dezenove anos, terminou o segundo grau. Difícil estudar mais. Queria ser alguém se formar, quem sabe ser professora ou então outra profissão que não fosse aquelas famosas que seria impossível de conseguir. Achou que uns dias em Cidade Santa para rever sua Vó e alguns amigos bastavam. Depois iria para Vitória. Procurar uma boa pousada em frente ao mar. Aí sim, iria colocar sua vida em ordem. Nada tão estranho. Era comedida. Tinha uma boa quantia na poupança. Poderia ter um carro mas achou que morava a duas quadras do trabalho e não precisava.

             Seria umas férias onde se daria ao luxo do bom e melhor. Nada de economias. Carmem não era linda. Bonita sim, simpática sim. Uns cabelos negros, olhos negros, um rosto muito simpático. Sua voz era calma. Cativante. Teve alguns pretendentes. Mas nenhum deles lhe interessou. Seu corpo era bem feito e ela cuidava bastante. Mesmo trabalhando de sol a sol não deixava de frequentar a academia. Conheceu um Engenheiro Espanhol que iniciou um trabalho na mesma empresa que ela. Era simpático, alegre, despretensioso. Saíram diversas vezes. Nunca dormiram juntos. Carmem jurou a sua Vó que só iria fazer amor depois de casada.

              Gostava de viajar de trem. Quanto tempo não fazia isto. Muitas saudades. A janela enorme, a vista linda, o verde, o amarelo, o rio caudaloso, uma fazenda aqui outra casinha ali, uns dados adeus e a meninada correndo ao lado do trem. Sentiu fome e viu que não tinha almoçado. Levantou-se pegou sua bolsa e se dirigiu ao vagão restaurante. Não notou um homem mal encarado que a acompanhou até lá. Sentou-se duas mesas atrás dela. Carmem almoçou devagar. Não tinha pressa. Só chegaria em Cidade Santa lá pelas quatro e meia da tarde. Pelo visto o expresso estava no horário. Bebeu uma cerveja pequena. Deu-se ao luxo. Não fazia isto mas agora podia. Quando voltasse a sua poltrona iria cochilar até chegar ao seu destino.

              Pagou sua despesa e voltou calmamente. Ao atravessar um vagão para o outro, onde fica a porta de saída do trem, um braço a agarrou pelo pescoço. – Não grite. Se gritar enfio-lhe uma faca nas costelas. Tomou dela sua bolsa. Começou a forçar sua calça para baixo. Ele queria estuprá-la! Meu Deus! Isto não! Proteja-me. Ela gritou e mordeu com força as mãos do maníaco. Ele gemeu alto e a chamou de puta. Abriu a porta e a jogou do trem. Carmem não sentiu nada. Rolou em cima de algumas pedras e foi parar próximo a uma moita de capim colonião. Ficou desacorda. O trem sumiu no horizonte.

             Carmem acordou quase à noitinha. Não lembrava de nada. De nada mesmo. Quem era o que fazia ali nada. Sentia uma dor tremenda na testa passou a mão e viu que tinha um corte enorme. Deve ter sangrado muito mas agora já tinha coagulado. Não conhecia onde estava. Porque estava ali também não sabia. Levantou-se com dificuldade. Suas roupas rasgadas. Uma sede terrível. Começou a andar junto à linha do trem. Ouviu um barulho. Um barulho que achava que já tinha ouvido antes. Era um carro de boi. Atravessou um bosque e viu uma estradinha de terra. O carro de boi seguia devagar com duas juntas de dois bois cada uma. O carreiro era um menino de uns quinze anos. Correu para ajudá-la. Pediu para subir no carro pois ele estava indo para casa. Não era longe.

              Chegaram uma casinha de Sapé, pequena, apenas dois cômodos. Uma cozinha e um quarto. Feita de bambu com barro. Chão de terra. Carmem não estranhou. Não conheceu outra casa ou se conheceu não lembrava. Lico o menino disse que morava ali com seu pai. Não conhecera sua mãe. Ia sempre a Cidade de Manto Azul levar verduras e frutas para vender. Viviam disto. Seu pai ainda pescava alguns peixes e quando dava ele vendia também. À noitinha seu pai chegou. Assustou-se com Carmem. Lico explicou o que acontecera. Ele chamou Lico em um canto – Olhe filho, ela parece ser uma mulher fina. Não é daqui. Suas roupas mostram isto. – Pai, ela não trouxe nada. Não tem nenhuma muda de roupa extra. Nem documentos!

                Manuel não sabia ao que fazer. Não tinha ideias. Era homem da roça. Entendia tudo dela. De mulher não. A única lhe dera um filho e sumiu no mundo. Dificilmente ia a cidade para dar uma “fisgada” em alguma na Rua do Taichim. Agora soubera da tal AIDS. Evitava tudo. Não podia morrer enquanto Lico não fosse maior de idade. Lico sugeriu que ela ficasse ali por uns tempos. Quem sabe recuperava a memória. Pensaram em levá-la a Manto Azul mas lá não tinha delegado e nem prefeito. Era um arraial simplesmente.

                 Carmem ficou lá por muito tempo. Os dias passavam céleres. A noite sentava na porta da casinha e olhava as estrelas pensava quem era de onde era e o que fazia ali. Aos poucos acostumava a nova vida. Ajudava na horta, a colher jabuticabas, goiabas, laranjas, mangas tudo quando era época. Um dia foi com Lico a Manto Azul. Todo mundo veio para a porta. O pequeno arraial se assustou. Era uma mulher jovem e bonita. Vestia um short e uma camisa velha. Devia ser de Manuel. Ninguém sabia que ele estava com mulher. Ela fez algumas compras de roupas para ela. Roupas simples. A lojinha ficou cheia de olheiros.
                Carmem sem perceber começou a gostar de Manuel. Olhava para ele e sentia que o amava. Mas seria amor mesmo? Não sabia. O que era o amor? Também não sabia. Uma noite ele a beijou. Sentiu que ele não sabia beijar. Segurou sua língua e ele assustou mas deixou. Fizeram um amor louco. Ele não sabia como ela também não. Ela era virgem ele não mas não tinha nenhuma experiência. Foi gostoso. Ambos gostaram. Não parou por ai. Passaram a dormir juntos. Lico não se incomodou. Passou a gostar também de Carmem. Quem sabe ela poderia ser sua mãe? Manuel disse que queria casar com ela. Carmem achou melhor esperar para saber quem era.

               Passaram-se quase um ano. Carmem ao seu modo era feliz. Alí naquela casinha junto a Manuel não pensava em mais nada. Não tinham luz, TV, geladeira e o fogão a lenha dava tudo que precisavam para fazer a alimentação. Ela mesma fazia. Lavava e passava. Uma verdadeira dona de casa. Não engordou, seu corpo até ficou mas esguio. Cuidava dos seus cabelos. Suas roupas simples para ela bastavam. Manuel era calado. Falava pouco. Conversava com ela em monossílabos. Não sabia ler e nem Lico também sabia. Ela passou a ensinar aos dois. Compraram em Manto Azul, cadernos, lápis canetas e uma tabuada.

              Um ano e meio. Dois anos. Nada de Carmem voltar a lembrar. Ela não se preocupava mais com isto. Vivia feliz muito feliz ao lado de Manuel e para ela Lico era como se fosse um filho. Pensava que se um dia recordasse quem era não iriam deixa-los nunca. Uma tarde voltada da mata onde tinha muitos pês de jabuticaba e não abaixou a tempo de evitar uma galhada grossa de uma jabuticabeira. Bateu a cabeça tão forte que ficou zonza e caiu ao chão. Estava só mas meu Deus! Ela voltou a se lembrar. Tudo veio assim do nada e ela agora sabia tudo de sua vida. Voltou correndo. Chamando alto Manuel e Lico – Lembrei-me! Agora sei o que fui! Mas ao olhar o semblante deles ficou triste também. O medo de perdê-la era grande. E ela não sabia que atitude tomar.

               Dormiu abraçado a Manuel. Disse que nunca iria abandoná-los. Mas tinha de voltar em Cidade Santa para saber de sua Avó e depois iria a Santa Fé. Tinha lá um apartamento, roupas, móveis e dinheiro no banco. Precisava ver se tudo estava lá. Lico chorou quando ela partiu. Manuel abraçou-o e ambos choraram quando ela pegou o trem de volta a Santa Fé em Derribadinha. Carmem também chorou. Mas prometeu voltar. Manuel e Lico não acreditaram. Sabia que ela era uma moça de cidade grande, estudada e porque voltaria?

              Na janela do expresso Carmem olhava o rio, as casas as fazendas e o seu passado. Desceu sem pressa na estação de Santa Fé. A cidade pouco mudou. Um taxi a levou em seu apartamento. Fechado. O porteiro a reconheceu e sorriu quando ela contou por partes o que tinha acontecido. Disse que a policia, o diretor e muitos da empresa que ela trabalhava lá estiveram. Ele tinha copia da chave. Ela entrou. Olhou, não sentiu saudades. Saudades sim de sua tapera de barro com telhas de folha de coco e capim seco. Foi até a empresa. Uma surpresa de todos. O diretor pediu a ela para ir a sua sala. Uma festa. Era muito bem quista. Dois anos e meio fora e todos compreenderam o que aconteceu com ela.

                O diretor disse que sua vaga estava em aberto. Ela podia começar a trabalhar quando quisesse. O salario seria aumentado. Não disse nada. Iria pensar e depois dar uma resposta. Ele não entendeu. Não quer mais o seu lugar? Vai voltar para a tapera onde morou muitos anos? Ela não sabia o que fazer. Duvidas e mais duvidas. Pediu um prazo. Duas semanas. O diretor riu. Claro que sim. Você não vai deixar isto aqui para morar lá no mato em uma casinha de barro. Carmem foi para o apartamento não antes de passar no banco. Estava tudo lá e até mais com os juros. Quase um milhão e meio.

               Dormiu mal em sua cama de casal. Grande, colchão de mola, caro que comprou há muitos anos. Estava novo ainda. Ficou ali olhando para o teto e pensando. Dormiu sonhando com Lico e Manuel. Pela manhã já sabia o que fazer. Publicou no jornal local a venda de tudo. Apartamento mobiliado. Separou as roupas que precisava as demais doou para uma instituição de caridade. Deixou o dinheiro da poupança lá no mesmo banco. Tirou cem mil para despesas. Foi à empresa e agradeceu ao Diretor pela confiança. Abraçou a todos os seus amigos e ao espantado engenheiro espanhol que tinha namorado.

              Pegou o expresso novamente rumo a Cidade Santa. Precisava ver sua Avó. Desta vez prestou atenção a tudo no vagão de primeira classe e quando foi ao vagão restaurante ficou de olho. Nada aconteceu. Sorriu quando viu sua Avó viva. Foi uma festa o encontro das duas. Contou tudo. Ela compreendeu e a motivou a continuar com sua tomada de decisão. Deixou um cheque com ela de cinquenta mil reais.  Disse que voltaria daí a um ano e daria mais a ela. Em oito dias estava de volta. Desceu em Derribadinha. Uma maleta com poucas roupas. Nenhuma joia. Só com o saldo do dinheiro que tirou. Agora uns quarenta mil reais. Poderia ter comprado um carro, chegar lá de carro novo. Não era o que desejava.

               Comprou uma pequena charrete de três lugares. Um cavalo baio bom para trotar. Saiu de Derribadinha às duas da tarde. Às quatro e meia chegou a Manto Azul. O povo todo veio à porta. Nunca acreditaram que ela ia voltar. Já sabiam de sua história. Ela cumprimentou a todos. Sorria. Às seis e meia da tarde avistou a Casinha. Avistou de longe Lico que veio correndo e gritando chamando seu pai. Desceu da charrete e o abraçou com força. Era seu filho. Não de “barriga” mas de direito de mulher do seu pai. Manuel a olhou. Sorriu sem jeito. Pensou em abraçá-la. Estava bonita. Roupas novas. Sapatos novos. Um brinco de ouro. Teve medo. Achou que ela foi ali para despedir para sempre. Ela o abraçou. Disse – Manuel sou sua mulher. Nunca mais me separarei de você. Abraçaram-se ali, um beijo enorme. A lua brotou no céu. “Bunita, que nem um queijo redondo”.

               Ela de vez em quando voltava a Santa Fé. Levava Manuel e Lico juntos. Tirava dinheiro do banco, não muito, faziam umas comprinhas e voltavam ao seu lar, sua casinha de barro de chão de terra com um banquinho na porta para ver as estrelas e a lua quando estava cheia. Acertou em cheio. Nunca se arrependeu. O que sei é que viveram felizes por toda a vida. Um amor simples, uma aceitação de ambos que só podia ser de almas gêmeas!      

Não escrevas aos meus olhos.

Não me iludas se não

tens a intenção

de entregar-me 

o teu coração! 
Não escrevas aos meus olhos
lindas palavras de amor
se pensas fazê-lo
chorar de dor!
Não grites que me amas
se o teu silêncio 
revela que apenas 
me enganas!
Não quero mais 
os teus beijos...
Quero apenas um pouco de paz!
Vou ardendo de desejo
quando lembro
das tuas mãos deslizando
no meu corpo gélido
nas madrugadas 
que fui inocente
entregando-me a ti
Poeta indecente,
de corpo, alma 
e coração.
Mas agora basta!
Não viverei mais de ilusão.
Já sofri demais
nessa vida madrasta!