Poema Quem é Ela?
-Você sabe quem é ela...
Que de todas é a mais bela?
Umas dicas vou lhe dar:
Ela é meiga e feminina.
É morena e é linda!
Alegre, carismática também!
Sorridente e gentil.
Bondosa, muito charmosa!
Educada, estudiosa,
É amiga e companheira,
Faceira,
Brejeira,
- Será arteira?
Hoje é seu aniversário!
A Deus venho pedir
Para que seja muito feliz!
Que ame muito a seus pais
Seus amigos e família.
Que da vida sempre tenha
Muitas, muitas alegrias!
Você já sabe quem é ela?
Ela é a bela...
- Sarah Janaína Leibovitch.
O trem expresso noturno para Vitória.
Não era um ato, não estava em um
palco e nem tinha alguém a me olhar pela coxia. A plateia vazia, bem lá no
fundo um ar de mistério uma voz rouca me incentivava a continuar. Não tinha
piedade e nem eu a pedi. Mas insistia em chamar-me de frívolo, inocente, pateta
tacanho e tolo. Como podia representar assim? Claro se eu fosse ator o que não
sou. A voz misteriosa dizia coisas que nunca fui. Sim eu sei, deixei-a ir sem
um gesto ou dizer – Não vá! Mas poderia interromper sua partida? A dor doida me
machucava internamente. Deixei tudo para trás deixei minha vida meus amigos,
não disse nada aos meus patrões se um dia ia voltar. Para dizer a verdade nem
disse adeus. Fiz o mesmo que ela me fez naquela tarde de primavera. Um dia
lindo, as flores no parque, as borboletas azuis, alguns pássaros cantantes e o
lago aonde dezenas de pequenos barquinhos iam e vinham com a meninada vibrando,
ou mesmo um casal apaixonado beijando-se ternamente. – Não posso mais ficar. Eu
não amo você. Preciso partir e nem outro tenho – ela me dizia. – Não quero
magoar você, mas entre nós não existe mais nada. – Ela me devolveu a aliança de
noivado, nem um beijo na face ela me deu. Seguiu beirando o lago por entre as
árvores centenárias e desapareceu na curva do caminho.
Era um domingo qualquer de
setembro. O dia para mim não importava mais. Sentado no banco de madeira não me
levantei. Não fui atrás dela, mas deveria ter ido. Sonhava dia e noite quando
iriamos adentrar na igreja de Santo Antonio, colocar em seu dedo o anel para
selar uma vida para sempre, tinha comprado com enormes dificuldades um pequeno
apartamento no Padre Eustáquio, gastei o que não podia para comprar os móveis
que ela escolheu e agora não me explica, não diz o porquê, só fala monossílabos
dizendo que não me ama mais vai embora sem mais nem menos? Sempre fui calmo.
Detesto brigar gritar então nunca mais e acabou? Mas me deu sim uma vontade
enorme de gritar – Volte! Você me deve uma explicação. Não se termina assim o
sonho de vida a dois como você está fazendo! Mas calado estava calado fiquei.
Eram dez horas da noite e um guarda me disse que iriam fechar o parque. Saí sem
rumo e me deu uma vontade de me embebedar. Seria certo? Não dizem que os
corações partidos se curam com um pileque? Não sei, nunca fiz isto. Melhor é
voltar para meu lar.
O apartamento de dois quartos sala
e cozinha estava nu. Esperava que ela desse o brilho que faltava, mas ela se
foi e com ela meu coração. Mas eu estava tão apaixonado assim? Quem sabe foi
porque sonhei com tudo aquilo? Sempre quis ter um lar diferente do que eu tive
um dia. Minha mãe e meu pai não se entendiam até que ele se foi também sem
dizer adeus. Minha mãe chorava pelos cantos da casa e tanto chorou que um dia
foi para o céu. Resolvi partir e dar um novo rumo em minha vida. Estudei muito
quase não tive amigos e um emprego me deu a tranquilidade que esperava. Empresa
boa, pessoas educadas e nunca reclamei. Quando a vi pela primeira vez
adentrando na sala do escritório meu coração bateu forte. Todos se assanharam
para ela. Mas eu fui o escolhido. Namoro, beijos, carinhos e juras de amor.
Agora aguardar o casamento. A história termina aqui. Não minha sina de idiota a
chorar pelos cantos e até pensei em terminar minha vida abruptamente.
Fiz uma mala com roupas e parti sem
rumo. Retirei umas economias se fosse gastar. Não sabia aonde ir. Não avisei
ninguém e nem tinha ninguém para avisar. Naquela noite cheguei sem perceber na
Praça da Estação. Sentei em um banco e olhei a Gare. Enorme. Nunca tinha
entrado. Entrei, no guichê parei. – O senhor vai até onde? Olhei para ela – Até
o final. – Vitória? Se for o final sim. Primeira ou segunda classe? Primeira. –
O trem parte em vinte minutos. Fui para a plataforma. Parecia um autômato no
andar e pensar. Esquecia-me de tudo. Queria fugir e não sabia para onde.
Deveria ligar para alguém do meu trabalho e dizer que estava partindo e não
liguei. O primeiro apito o aviso de embarcar. Embarquei. Procurei meu número e
sentei. Vagão vazio. O trem partiu rumo a João Monlevade. Muitas paradas. Não
era um trem expresso? Tudo bem, não tinha pressa. Resolvi ir até o vagão
restaurante. Duas da manhã um café quente iria me fazer bem.
Vazio. Só uma moça olhando sua bebida na
mesa ao lado e nem sequer levantou os olhos quando cheguei. Tudo bem não
esperava boa vizinhança de ninguém. Pedi meu café. Senti que alguém me
observava. Era ela. Linda, olhos incrivelmente verdes. Pareciam duas esmeraldas
lapidadas. Ela abaixou a cabeça e saiu. Atrás dela dois homens de terno. Quem seria?
Ouvi um grito. Assustei. Seria ela? Não sou um cavaleiro andante mesmo assim me
levantei e fui até o vagão da frente. Era um vagão com diversas cabines. Ela gritou
de novo. Bati na porta mandando abrir. Um dos homens de terno abriu com uma
Pistola Glock calibre novemm. Sabia que era uma arma reservada as forças
armadas e a policia federal. Ele me bateu na testa com a lateral da arma. Vi
que sangrou. Obrigou-me a ir em frente e no final do vagão abriu a porta e
jogou-me escada abaixo. Cai rolando sobre um monte de capim. Ainda bem que o
trem estava em baixa velocidade, pois aproximava de uma estação.
Estava fervendo de raiva. Nunca
gostei de ser tocado daquele jeito. Corri estrada a fora e o trem já estava
saindo. Na porta da estação um taxi. A cidade era um lugarejo pequeno que
chamavam de Periquito. O taxista me disse que poderia pegar o trem em Coronel
Fabriciano. Quanto? Trezentos reais. Paguei. Ele saiu a toda. Vinte e cinco
minutos e chegamos em Fabriciano. Vi o trem na curva do rio. Na estação esperei
e quando chegou subi. Era esquentado e sabia que não iria ficar assim. Fui ao
carro dormitório. A porta onde ouvi os gritos estava fechada. Fiquei de lado e
bati. O mesmo “merda” apareceu com a arma na mão. Quando me viu era tarde
demais. Tomei dele a arma. Empurrei para dentro da cabine. Ninguém lá – Onde
está a moça? Ele riu. - Cara não sabe com quem está se metendo. Ele falou.
Senti que alguém me bateu de novo com outra arma. Era o seu comparsa. Arrastaram-me
até a escada e de novo me jogaram porta a fora. Desta vez cai de mau jeito e me
machuquei bastante, mas nada quebrado.
Se eles estavam gostando do jogo eu
também estava. Não tinha nada a perder, morava só, quem eu amava me deu um
chute e se foi. Nunca fui um herói porque não ser um agora? Precisava de uma
arma. Eles iam ver com quantos paus se faz uma canoa. Vi uma estrada, uma
camionete vindo. Corri e dei sinal sorte ela parou. Ofereci mil reais para me
levar até a próxima cidade desde que pegasse o trem expresso para vitória. Ele
riu e se prontificou. Contei por alto o que acontecia. - Tem uma arma? Tudo por
três mil reais. Feito. O trem parava doze minutos em Governador Valadares.
Chegamos com ele saindo. Deu tempo para correr na plataforma e pular em um
vagão. Sentia bem com aquele aço preso no peito. Estava carregada, uma pequena
Smith & Wesson, mas eu conhecia. Treinei muito com arma de fogo. O barulho
me fazia bem.
Fui direto ao vagão
restaurante. Passava das duas da tarde. A fome apertou. Se ia entrar na briga
tinha de encher a barriga. Risos. Ela estava lá. Sozinha. Com um lindo vestido
verde claro que com seus olhos ficavam muito bem. Linda! Adorável. Aproximei-me
e ela escreveu em um guardanapo – Fique longe de mim se queres viver! Não sabe
o perigo que está correndo. – Fingi que não li. Não me meteu medo. Sentei ao
seu lado. Logo um dos engravatados apareceu. Mostrei a ele o que tinha
desabotoando a blusa de frio. Ele olhou e riu. – Você está morto e não sabe. O
restaurante do trem só tinha dois passageiros. Levantei-me. Tirei a arma e bati
forte em sua cabeça. O empurrei até a porta de saída. Dei nele um chute no
traseiro e ele rolou escada abaixo. Não teve sorte. Passávamos por um
pontilhão. Seu grito de horror ficou gravado. Quando voltei ela não estava lá
mais. Tudo bem. Se entrei na chuva era para me molhar.
Fui a sua cabine. Não ia correr
nem me amedrontar. Ela estava aberta. Olhos verdes estava lá, deitada na cama
seminua. Senti uma vontade enorme de possuí-la. Tranquei a porta. Ela de olhos
fechados. Minha ex-noiva sempre dizia que eu era um bom amante. Vamos ver se
sou, pois sou homem de poucas mulheres. Fiz amor devagar, sem pressa,
beijando-a, acariciando e penetrando aos poucos sem forçar. Senti que ela me
apertava, passou as pernas em volta do meu corpo, uma verdadeira chave da
morte. Ela gemia, gania, chorava e pedia mais. Não me senti morto e sim mais e
mais com uma vontade enorme de repetir, de ficar ali sem sair, de esquecer que
o mundo é mundo e a vida é feita para ser vivida. Terminamos juntos. Ela
chorava. – Você vai morrer! Porque insistiu? Quem é você? Policial? – Ri do que
ela dizia. Melhor não contar que era um simples gerente de uma empresa de
cosméticos. Ela ia rir de mim se contasse.
Fiquei com ela até onze da noite.
Repeti o sonho real por várias vezes. Ela sabia posições que me deixaram louco.
O Kama Sutra com suas posições e fotos perdiam a larga pelo que ela me fazia. Convidei-a
para jantar. Ela riu. Nem pensar. Yuri
ainda está no trem. O que você fez com Mikhail? Nomes estranhos. Pareciam
russos. Não disse nada. Peguei-a pelo braço e disse – Vista-se vamos jantar.
Estava rindo de mim mesmo. De gangster eu só sabia o que tinha visto nos
filmes. Mas não tinha medo. Ainda estávamos no restaurante quando o trem rápido
noturno adentrou na gare da Estação de Pedro Nolasco em Vitória. Ela abaixou a
cabeça me beijou e disse – Corra o mais que puder, sei que Pavlov está a me
esperar. Já deve saber de você. - Sabe eu gostei de você. Mas sei que é um
homem morto. Não corri, nunca fui homem de correr. Ela me fez um homem que
nunca fui. Perguntei seu nome – Latasha gritou e saiu correndo descendo as
escadas do trem.
Máfia russa? Li uma vez um conto
sobre isto. Não deu tempo para pensar mais. Uma pancada na cabeça e acordei em
um galpão vazio. Um gordo barrigudo me olhou – Teve a coragem de comer minha
Latascha seu merda? Cortem o pinto dele. Uma dor tremenda. Gritei feito um
porco sendo capado, já não era o valente de antes. Ele ria. Filho da puta,
agora vais direto ao inferno. Peça a Dona Capeta para dar para você nas
profundezas dos infernos! Só então que notei que estava com os pés atolados em
um cimento já curado. Pegaram-me pelos braços e me jogaram em uma caminhonete.
Pararam nas cinco pontes sobre o braço de mar. Jogaram-me a mais de trinta
metros de altura. Cai feito um pedaço de aço na água e afundei logo. Deus meu!
O que fui fazer? Á agua entrava pelas narinas. Senti as pernas soltas, o pedaço
de cimento partiu. Caramba, que sorte! Nadei até a margem. Dois moleques
pescavam e se assustaram. Fui parar em um pronto socorro. Polícia, detetives
todos a me interrogar. Fiquei oito dias lá. Dois enfermeiros me disseram que eu
nasci de novo. Nasci de novo? Sem membro? Agora só um eunuco?
Diverti-me bastante nesta viagem
no trem expresso para vitória. Melhor voltar. O corte onde existia um pênis já
se curava. Peguei o trem expresso noturno
de volta. Em Belo Horizonte voltei a minha velha lida. Meu Chefe sorriu quando
adentrei em sua sala para explicar. – Tudo bem Norberto. Não se preocupe. Volte
ao trabalho. Olhe, Noêmia te procurou ela me disse que está arrependida. Noêmia
minha noiva? Eu deveria aceitá-la de volta? Que ela morresse para sempre. Agora
sonhava com Latascha e sabia que tudo terminara. O que ela queria não podia
mais dar. Doutor Douglas à tarde mandou-me
chamar. Norberto, temos um cliente especial, ele é um dos homens mais ricos do
Brasil e da Rússia. Disse que só seria nosso cliente se fosse atendido por você.
Fiquei branco, era ele, Pavlov em carne e osso, nada mais nada menos que o gordo
filho da puta, o chefão que me capou. Meu destino foi servi-lo para sempre. Dizem
que quem perde sua virilidade perdeu sua vida. Eu perdi muito mais. Levou-me
para sua mansão no Rio de Janeiro. Aceitei ir. Sabia que ia matá-lo mais dias
menos dias. Latascha estava lá. Linda
como sempre. Nem me olhava afinal agora era um empregado de luxo, um eunuco que
só poderia lembrar os prazeres que ela me deu. Vida danada, mas fazer o que?
Continuar vivo valia a pena? Quem sabe a sonhar com a vingança. Não posso
reclamar. Sei não, mas tive minha liberdade sem cerceamentos. Nunca mais vi
Noêmia, mas via Latascha todos os dias. Que fosse assim. Não escolhi este
destino?
Encontraram o gordo Pavlov
com a garganta cortada dois meses depois. Estava sem a língua e sem seu pênis. Eu estava ao seu lado com um furo de bala na
testa. Eu mesmo dei cabo de minha vida. Não nasci para eunuco e nem para adorar
Latascha em pensamento. Diabo de vida. De quem foi culpa? De Noêmia eu sei que
não foi. Quem sabe o culpado sou eu?
Os versos que te fiz
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem para te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim para te oferecer
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!
Mas, meu Amor, eu não te digo ainda.
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz
Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem para te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim para te oferecer
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!
Mas, meu Amor, eu não te digo ainda.
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz
Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!
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