Bem vindo ao blog do Osvaldo

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quarta-feira, 11 de junho de 2014

Réquiem para um incerto maldito.



Não tenho medo do frio, não tenho medo de nada
Não tenho medo da vida e com ela me sinto forte,
Minha vida é tristonha, talvez a chuva molhada
Lembra-me do meu pavor, o choro da madrugada
Só a solidão me apavora, por isto não tenho sorte
E repito mil vezes se preciso, eu não tenho medo da morte
Osvaldo, um escoteiro

Réquiem para um incerto maldito.

                  Eu tinha 16 anos quando matei meu pai. Não se assustem. Ele merecia. A morte para ele foi até um bálsamo. Eu devia tê-lo capado como se capa uma porca no chiqueiro quando o matei. Não sei se éramos uma família feliz. Não sei mesmo. Eu minha irmã mais velha e a minha mãe estávamos sempre juntas. Quando meu pai vinha da lida na roça, nós ficávamos apavoradas. Meu pai estuprou minha irmã quando ela fez onze anos. Minha mãe não pode fazer nada. Ele a amarrou no pé do Juazeiro que tinha em frente de casa. Eu ele não se preocupou. Tinha apenas seis anos.

                 Dizem que tudo tem uma primeira vez, depois a culpa não mais existe. Torna-se uma rotina. Meu pai fez de minha irmã, uma puta particular. O ódio começou a tomar conta de mim já com meus sete anos. Minha mãe tentou tudo, mas não conseguiu nada. Só perder todos os dentes da boca, devido à sova que levava todos os dias. Minha irmã ficou prenhe e quando nasceu seu menino, ela não aguentou e morreu ao dar a luz. Meu pai pegou o bebê e o jogou nas águas do rio Curimataú. Nem soube se ele estava vivo. Se estava às piranhas o comeram vivo.

                 Nosso vizinho mais próximo ficava a mais de vinte quilômetros. Meu pai plantava mandioca, abobora na barranca do rio, tínhamos um pouco de feijão que ele cultivava na larga do capão redondo. Ali também tinha milho e um pouco de arroz. Soltas em no pasto, oito vacas nos dava o leite do dia. Ovos não faltavam, as galinhas ciscavam em volta da casa. O rio era piscoso. Não passávamos fome, mas ele tinha outra fome. Insaciável. Não dava sossego a Barbara. Era de manhã, de tarde e de noite. Um dia pegou uma vara grossa de marmelo e bateu em minha mãe até ela morrer implorando perdão. Perdão não sei de que.

                 Nessa época tinha feito 10 anos. Meu ódio já existia e eu o olhava como se olhava um monstro. Não sabia que monstro era. Eu não conhecia nenhum, mas tinha ouvido falar.  Não aprendi a ler e nem escrever. Meu pai enterrou mamãe junto a Barbara, lá bem próximo à curva das cinco pontes. Não, claro que não havia pontes. Nem sei por que esse nome. Ninguém estranhou. Ninguém deu falta de mamãe e da minha irmã. Não recebíamos visita. Todos tinham um enorme medo de papai.

                 Na primeira noite que fiquei sozinha com ele, ele se embebedou de cachaça. Pegou-me pelos cabelos, rasgou minhas roupas e me comeu como se comesse uma franguinha no mato. Gritei de dor. O maldito nem aí. Quando ele entrou em mim, que dor dos infernos! Filho da Puta eu penso até hoje. Dez anos. Violentada pelo próprio pai. Virei daí em diante, a nova puta de papai. Onze anos, doze, treze e engravidei. Meu neném nasceu e ele o pegou ainda sujo do meu útero. O pobre ainda chorava quando meu pai o jogou no rio. Implorei para não fazer isso. Mas ele nem ligou. Deu-me um chute no rosto. Parei de chorar. Agora não falava mais nada. Não valia a pena.

                  Quando fiz dezesseis anos, resolvi acabar com a vida dele. Chegou da lida, pegou a garrafa de cachaça e bebeu feito um porco. Eu sabia como era. Todos os dias a mesma coisa. Se embebedava e vinha me comer. Sem banho, sujo fedendo feito macaco prego do peito amarelo. Naquele dia fingi que gostava, ele estranhou. Disse-me até umas palavras carinhosas. Trouxe mais cachaça. Ele bebeu e ria babando no seu corpo nu. Ficou desfalecido na cama. O arrastei até o pé de Juazeiro e coloquei óleo e querosene que usávamos para as lamparinas, e risquei o fósforo com prazer.

                 Ele berrava de dor, tentou levantar, mas estava muito bêbado e eu tinha um pau enorme e grosso nas mãos. Dei nele uma cacetada e ele desmaiou queimando como se queima a roça abandonada. Ele ainda gemia e eu sorria. Por minha mãe, por Barbara dizia. Pelos bebês que você jogou para as piranhas. Quando o fogo se apagou ele ainda não tinha morrido. Peguei a faca de cozinha e cortei o membro dele. Ainda deu um grito estridente. Agora sim, estava morto. O joguei no rio para as piranhas. Não merecia um enterro decente.

                 A vida mudou para mim. Estava agora sozinha. Não tinha idéia do que devia fazer. Meu nome é Branca, minha mãe dizia que significava luminosa, brilhante e eu era uma moça receptiva e otimista. Não sei. Não era nada disto. Eu nunca tive vida própria. Fui até a roça de papai e vi que podia colher muita coisa. Não sabia plantar, mas eu iria aprender. Aprender? Afinal será que ia ficar ali sozinha de novo? Cheguei à conclusão que devia partir. Para onde não sabia. Mesmo assim fiquei mais oito meses sem saber aonde ir.

                Modesto apareceu pela manhã, assim, como se não quisesse nada. Disse que estava de passagem. Perguntou pelo meu pai e minha mãe. Disse mentindo que tinham ido a Lázaro Feliz fazer compras. Lázaro ficava a vinte e dois quilômetros e a pé, quando meu pai ia até lá, demorava dois dias para voltar. Ele apeou do cavalo mesmo sem eu o convidar. Pediu-me um gole d’água. Eu já sabia no que ia dar. Afinal ainda era bonita. De pele clara, cabelos castanhos, seios desenvolvidos, um belo corpo para os meus dezessete anos.

                Ele entrou em casa sem me pedir e me chamou dizendo que ia me comer. Eu podia dar para ele sem reclamar ou a forma, a decisão era minha. Outra vez? Pensei. Modesto era forte, muito. Eu não tinha como lutar com ele. Fingi aceitar. Fui até a cama da cozinha, ele tirou a roupa, ficou nu com um membro enorme balançando. Sorri para ele, e comecei a tirar a roupa, disse que antes tinha de lavar o que ele queria. Ele riu. Fui até o gaveteiro, tirei uma enorme faca de capar e limpar porco. Tirei a roupa e com a faca escondida nas costa com a mão me aproximei dele sorrindo. Ele ria, agora sim deve ter pensado. Vou comer essa linda menina!

                 Modesto Foi comer a mulher do capeta. Lá nas profundas do inferno! Enfiei a faca nele sem dó. Cortei seu pescoço como cortava as galinhas quando eram preparadas para o almoço. Ele deu um grito só e o sangue espirrou para todo o lado. O arrastei até o rio. Coitado do rio Curimataú. Não fazia nada só nos ajudava e tinha que aguentar aquelas “porqueiras’ que eu jogava em suas águas”.

                  Eu já sabia onde papai guardava suas reservas financeiras. Tinha mais de oito mil reais. Um dinheirão. O filho da mãe não gastava e vendia sempre uma vaquinha, um boizinho e nunca nos deu nenhum conforto. Parti em uma manhã de junho. Cheguei à noitinha em Lázaro feliz. Soube que um ônibus partiria às onze da noite para Salvador. Uma viagem gostosa, nunca tinha andado de ônibus. Dez horas de viagem e amanhecemos na capital da Bahia.

                  Espantei-me com a cidade, linda, casas e prédios. Procurei uma pensão e me instalei. Meu dinheiro eu guardei a sete chaves. Debaixo da cama abri um buraco, enterrei numa lata de doce vazia. Fiquei só com duzentos reais. Dormi até tarde. Para dizer a verdade não lembrava mais de nada do que me tinha acontecido. Aqueles dois que matei mereciam. Se tivesse de prestar contas, seria a Deus o meu protetor. O diabo que fosse para os infernos. Risos, me esqueci de que ele morava lá.

                   Seis meses de Salvador, já conhecia a cidade e muitos homens me procuravam, mas eu não me interessei por ninguém. Arrumei um emprego de Gari. Foi ótimo. Fiz muita amizades. Uma noite Marcelinha me convidou para uma festa de aniversário próximo a casa dela. Fui apesar de que não gostava muito de festas. Um homem loiro, até bonito não tirava os olhos de mim. Marcelinha me disse que era Frances. Falava mal o português. Estava de férias e ia voltar para a França daí a uma semana.

                 Aceitei seu convite para sair. Gerard era educado. Muito. Nunca vi ninguém assim. Dizia estar apaixonado por mim. Eu não sabia o que sentia. Uma tarde antes de ele partir me levou a um motel. Foi calmo, amoroso, acho que até gostei do que fizemos. As dores que sentia de meu pai desapareceu. Quando saímos do motel disse que queria casar comigo. Eu iria com ele para a França.               Não devia ter aceitado, mas minha amiga tanto insistiu, dizia que eu seria uma Lady ou uma Mademoiselle. Eu nem sabia o que era isso. Mas lá fui eu com Gerard. Que viagem. Uma maravilha. Adorei a viagem de avião. Primeira classe, as moças sempre perguntando o que eu queria. Em París ele me levou a diversos lugares lindos. O Museu do Louvre, o Chateau de Versailles, A Torre Eiffel, o Arco do triunfo, a Basílica de Sacre Coeur. Mas o que mais me encantou foi o Jardim de Luxembourg, um dos mais bonitos de Paris. As flores, as cores delas estavam lindas. Tudo florido. Muita gente sentada nas cadeiras observando. Fiquei ali estática, sem nada dizer.

                 Uma moça ignorante, analfabeta, vivendo aquilo sem saber o que era, foi como um conto de fadas as avessas. Ficamos em Paris uma semana e partimos para Colmar. Seria onde iríamos morar. É uma pitoresca cidadezinha francesa, situada na alsácia bem pertinho da divisa com a Alemanha. Não merecia aquilo. Deus me deu o que eu não podia ter. Gerard me tratava como uma princesa. Sabia que eu era analfabeta e me prometeu ensinar a ler. Claro, seria em Frances.

                 Mas nem tudo que é doce dura para sempre. No segundo mês de casada Gerard foi até Stuttgart na Alemanha a serviço. Gerard era advogado e sempre tinha coisas a resolver fora de Colmar. Ah! Destino. Ele me persegue. Não quer que eu seja feliz. De novo um vizinho gordo, feio e claro, bêbado bateu a porta da minha casa. Abri e ele entrou sem pedir. Eu já o conhecia e educadamente o cumprimentava. Acho que ele não entendeu.

                 Tirou o membro para fora e disse para eu pegar. Fazia gesto, eu horrorizada tentei sair pela porta correndo. Ele não deixou. Apesar de gordo era forte. Só sabia dizer - Puta brasileira. Puta brasileira. Arrastou-me até o quarto, era no andar de cima. Um lance de escada, ele escorregou e caiu com a cabeça no piso. Morreu na hora. Sai gritando chamando os vizinhos. A polícia chegou. Levaram-me presa.

                   Eu estava em minha casa, me defendi e fui presa. Mas acho que merecia, matei meu pai e o homem que tentou me estuprar pela segunda vez. Agora não. Eu sabia que era inocente. Nem encostei-me ao “leitão bêbado Frances” Ele caiu de bebida no bucho. Gerard tentou entender. Mas não sei se entendeu. Acho que ele acreditava que eu queria alguma coisa com o vizinho, pois só assim ele entraria na casa. Ele até que foi condescende. Pagou um advogado, pois ele não queria me defender.

                    Fui condenada a 18 anos de cadeia. Sem direito a sair mesmo com bom comportamento. Estou aqui há 15 anos. Falta somente três. Fiz muitas amigas aqui na prisão. Todas elas me disseram que poderiam me ajudar quando eu saísse. Eu não sabia se ia voltar para o Brasil. Acho que lá o passado poderia voltar. Gerard nunca me visitou. Uma amiga de cela ficou marcada em meu coração. Rosália era natural de San sebastian, uma cidade localizada a beira mar no golfo de Vizcaia, no norte da Espanha. Ela dizia que era linda. Lembrei-me de Salvador.

                    Quando sair, irei morar lá com Rosália. Ela nunca me disse o que fazia e nem perguntei. Mas acredito que depois de tudo que passei, mereço uma vida melhor e vou lutar por isto. Sei que não será fácil, mas eu vou conseguir. As lembranças do passado já estão sendo esquecidas. Meu pai e Modesto devem estar juntos se abraçando com o demônio, pois nunca mais voltaram a me importar com pesadelos. Não posso dizer que Deus os tenha. Mas digo com prazer, que o tinhoso, o maldito, o coisa-ruim e o lúcifer das trevas proteja-os para nunca mais sair deste fogo dos infernos.

Futuro?
Uma palavra muito difícil de dizer diante do presente, pois não sabemos o que vai acontecer diante dele para existir esse tal de futuro. Pode ser que tenha planejado ele, mas de uma hora prá outra todas suas idéias podem mudar.
Quem já não pensou como vai ser? Se realmente vai ser do jeito que pensou? Mas isso só Deus sabe, não é a gente que decide.
Existem várias formas de fazer um futuro, como pensar o que vai ser da minha vida profissional, meu casamento, filhos e por aí vai...
Sendo que primeiro na nossa vida temos que ter o presente, para depois termos um futuro, e isso não é uma vidente que vai descobrir. Você mesmo pode fazê-lo e também escolher quem vai estar nele junto com você.
Para isso é só ter força de vontade e ser feliz, para que seu esperado futuro seja tranqüilo e seguro. E pensar que o futuro sempre está começando agora.

Eliene – blog – Vejo o mundo de outra maneira.

sábado, 17 de maio de 2014

O estupro de Mary Jane.


O estupro.
A tarde consumida nojenta
Hipócrita mal servida deixa
No ar sensação de culpa.

Sexo abrupto perverso, mal feito!
Corpo lacerado humilhado, caído
Na sarjeta da indignação!

Dignidade ferida agonizante
Ato apavorante! À tarde segue
Consumada deitada morta-viva
Chorosa. Nas pernas da noite
O covarde, saindo escondido
Impune e sorrindo!
P. Coelho.

O estupro de Mary Jane.

        A cidadela amanheceu sorrindo. Mary Jane tinha sido estuprada. Todos chegavam as porta para celebrar o acontecido. Nos bares e restaurantes não se falava outra coisa. As lavadeiras de plantão que jogaram pragas agora estavam satisfeitas. Até mesmo o padre achou que estava na hora. Afinal Ela não foi culpada? Na prefeitura só se falava no estupro. O prefeito cancelou uma reunião para se reunir com Dona Santinha sua secretária para saber de tudo. Queria saber como foi, quem foi se ela gostou e Dona Santinha alimentava a mente depravada do prefeito. Pudera ela sabia como ele era. Sabia que quanto mais ela contasse mais sua excitação aumentava. E quem sabe eles ali naquele escritório enorme não poderiam simular um cena de estupro? A mente do prefeito fervilhava, Dona Santinha contava e gemia baixinho. Seria o máximo. Nunca fizeram aquilo no escritório.

           O barbeiro Elizeu contava para seu freguês Dionísio. - Você não acha que ela sempre quis? Dionísio ria e babava de lado com o acontecido. Pensava como ela era “gostosa”, provocante e sensual. Uma “bunda” sem igual. Devia ter sido uma “trepada” dos infernos. Manolo na praça dizia saber quem foi o estuprador, uma turma enorme se formou em sua volta. Inventou tantas mentiras que a maioria resolveu ir embora. Seu Geraldo Nicodemos não participava daquela farra. Ele tinha uma filha da idade dela. Nunca desejou isto para mulher nenhuma. Quem mais sentia era Valdinho da venda do Chico. Ele sempre sonhava com Mary Jane. Eram sonhos bons, sonhos onde ambos passeavam nos jardins das Camélia, atrás do parque São Judas Tadeu. Era o lugar preferido dos namorados que iam ali fazer juras de amor. Ela nunca ligou para ele e se ela o quisesse lhe daria todas as estrelas do céu.

          O estupro foi o fato do dia da semana e do mês. Cidade pequena gente fuxiqueira isto serviu para que os dias fossem mais diferentes que os outros. Todos se assustaram quando ficaram sabendo que Mary Jane foi encontrada amarrada na Árvore do Sonho da Rua do Esplendor as seis da manhã. Ela estava desmaiada e nua. Muito machucada, manchas e sangue seco espalhavam-se pelo seu corpo. Em cima dela, pregado na árvore um aviso preso por papelão – “E assim que tratamos as prostitutas”! Fartei-me, mas ela não é tanto o que dizem! – Foi Zózimo soldado quem a desamarrou. Ela gemeu quando caiu ao chão. Ele mesmo chamou a ambulância, mas uma centena de moradores que ficaram sabendo correram para ver. Ninguém tinha pena todos queriam ver o corpo dela. Uns prestavam atenção em suas nádegas outros queriam ver mais entre suas pernas. Ninguém acorreu para lhe dar um cobertor ou lençol para se cobrir. Estava exposta para todos.

          Mary Jane ficou cinco dias internada. Ninguém foi visitá-la. Parecia que suas amigas fugiam dela como o diabo foge da cruz. Ela morava sozinha desde que sua mãe morreu. Na escola atraia os olhares e na rua todos ficavam estupefatos com um rosto de anjo, os cabelos dourados cacheados, um busto sem igual. Com seu andar rebolado, com sua saia curtinha, com seu decote na blusa não tinha nenhum homem quem deixava de olhar para ela, dizer “hô! Gostosa”! Assovios eram aos montes. Ela ria baixinho. Todos diziam que ela dormia com a rapaziada toda. Na verdade Mary Jane não tinha namorado e era virgem apesar de que muitos viviam correndo atrás dela. Uma vez Jonny Bonito fez uma aposta alta. - Cem mil que eu a “como” em uma semana. E vou passear com ela por toda a praça de braços dados e beijando sua nuca! O dinheiro rolou no bar do Grilo. Mesmo falando alto com todos, ele garantiu que passou ela no papo várias vezes e ninguém acreditou. O caso da aposta foi parar na policia. Jonny Bonito teve que entregar o dinheiro. Dinheiro que não era dele e sim do seu Avô Comandante Sampaio.                     

           Quando saiu do hospital Seu Geraldo Nicodemos aconselhou que ela desse “parte” na polícia. – Não vale a pena Seu Geraldo. Eu conheço os praças e o sargento. Eles vão é rir quando chegar lá e o que o delegado vai dizer? Ele sempre me cantou por onde me via ou me encontrava. Achava que era por ser um homem da lei e eu devia ir para cama com ele. Nunca me viu como uma filha, um Velho nojento e sabia que eu era menor de idade. Eu tinha certeza que se fosse lá ele ia ficar olhando para minhas pernas me pedir para mostrar onde o estuprador bateu. Mary Jane caminhou seis quarteirões até sua casa. Não aceitou carona de ninguém. Conseguiu com a enfermeira Josiane uma saia e blusa para vestir porque nenhuma de suas amigas ousou lhe visitar e oferecer para ajudar. O povo como sempre estava nas janelas, nas portas e nos bares os olhares gulosos queriam ver onde o “felizardo” passou a mão.

          Não se sabe como dois dias depois chegou uma Delegada Federal na cidade. Parece que um jornal da capital publicou e ela uma feminista e defensora das mulheres não queria deixar passar de “barato” aquele fato. – Chega de dizer que a mulher é culpada. Se ela gosta de usar saia curta, se anda rebolando ou se tem blusa decotada é seu direito. Ninguém pode julgar que ela quer atrair os homens. Delegada Fabíola era famosa na capital. Prendeu um mundão de gente principalmente os “salafraios” como ela dizia. Foi ela quem sugeriu que as mulheres usassem uma agulha nos metrôs e ônibus. – Sem alguém te quiser “enconchar” mete a agulha no troço dele. Deixa-o gritar e berrar de dor e o resto deixa comigo! Era valente a danada da delegada. Chegou com o carro da policia cantando pneu. Entrou direto na delegacia. Ninguém soube dizer explicar o que ela queria e um praça a levou até a casa de Mary Jane. Esta a recebeu com um pé atrás. Por mais que ela tentasse mostrar que era amiga de Mary Jane não conseguiu nenhuma pista que levasse ao estuprador. Ela calou-se e a delegada desistiu.

        - Se ela não quer paciência. Doutora Fabíola retornou a capital não antes de prevenir o Delegado que ele era responsável. Se ele não descobrisse quem fora o culpado e se houvesse outro caso ele seria exemplarmente punido. Depois da visita da Delegada e quando souberam o que ela disse ao delegado os machões da cidade se calaram. Mary Jane não recebia mais assovios e ninguém gritava “gostosa”! Foi um período de calmaria até que de novo todos ficaram em polvorosa. Ninguém acreditava no que via. Nada mais nada menos que Jonny Bonito amarrado em uma árvore, de cabeça para baixo, totalmente nu, e dava para ver um punhal enfiado no seu anus, diversas agulhas enormes atravessadas em seu membro, um lado do seu escroto cortado à faca e sem a língua. Ela foi cortada em fatias e colocadas junto com seus dedos em um papel jornal na calçada.

        Claro que em cima tinha também um aviso pregado em papelão e que dizia – “Esta é a sina do estuprador”. Ele sempre mereceu! Desta vez o delegado se mexeu, afinal Jonny Bonito tinha família importante. Se ele não tomasse providencias iria pagar o pato sem duvida. Quem poderia ser? Seria ele o estuprador de Mary Jane? Mas ela uma menina de 16 anos, magrinha nunca podia nem ao menos segurar Jonny Bonito um homenzarrão de um e noventa com mais de cem quilos. E que de lá fazer o que fez! Mesmo assim ele foi até a casa de Mary Jane. Bateu e bateu e nada. A porta estava aberta. Ele entrou e não viu ninguém. As roupas de Mary Jane tinham sumido. Ele deduziu que ela partiu da cidade. Para onde? Ninguém nunca soube. Seu destino, o que fazia onde morava ficou guardado a sete chaves. Só uma mulher sabia, Dona Valdete. Todos diziam que ela era um fantasma, uma vampira que saia a noite para beber sangue humano. Claro era um folclore e ela gostava quando a chamavam de feiticeira do mal. Tinha todo o aspecto. Só faltava o chapéu cônico.

           Nas poucas vezes que andava pela rua e sempre à noite, usava um vestido longo preto, os olhos pintados de negro, cabelos enormes presos atrás. Poucas pessoas a visitavam há não ser aqueles que queriam fazer alguma maldade ou bruxaria com alguém. Ninguém viu quando Mary Jane entrou em sua casa depois da meia noite. Ficou por lá mais de duas horas. Mary Jane saiu com um embrulho pequeno e uma porção de um remédio que diziam lhe dobrar as forças. Dizem as almas do outro mundo que ela no dia seguinte sorriu para Jonny Bonito. Este um idiota perfeito a seguiu de novo. Não acreditou quando ela no quarto ficou nua, e começou a dançar em sua frente. Jonny Bonito com os olhos esbugalhados não queria acreditar. Ele sabia que ela o tinha reconhecido como seu estuprador. Jonny Bonito achou que desta vez ela ia gostar, adorar e não gemer de dor como fez antes. Ele não queria ter dado uma surra nela. Achou que não precisava, bastava ela abrir as pernas e colaborar. Mas não, ela se fez de virgem, gritou cuspiu nele e Deus sabe quer ele precisava comer aquela maldita.

             Agora era outro momento, um momento sublime. Ela deitou na cama de pernas abertas. Não tinha jeito ele correu e a abraçou. Sentiu uma picada no braço e em questão de segundos seu corpo ficou paralisado. Nada se mexia. Ele via tudo e sentia dores terríveis quando ela começou a “trabalhar” em seu corpo. Quando ela cortou sua língua ele deu um urro tremendo, mas não saiu nenhum som. Quando ela cortou dedo por dedo das duas mãos com um alicate grande ele achou que ia morrer. Quando ela cortou uma parte do seu escroto e viu um ovo saído ele implorou a tudo neste mundo e no outro que o salvasse. Depois calmamente ela enfiava em seu membro uma enorme agulha. De um lado a outro. Ele perdeu a conta de quantas agulhas foram e perdeu o sentido. Ainda bem que estava desacordado quando ela o transpassou com um punhal em seu anus. Ninguém a viu arrastando o filho da mãe pela calçada. Eram duas da manhã. Com uma corda o prendeu pelo pé e com muito sacrifício o levantou até uma altura considerada.

               Ela já tinha previsto tudo. Saiu da cidade por volta das três da manhã com uma mala e uma mochila. Tinha um bom dinheiro, pois sua mãe quando morrera lhe deu uma boa quantia e a senha e o banco estava anotado em um caderninho. Andou por onze quilômetros até a estrada federal. Lá pegou o primeiro ônibus para Vitória e de lá embarcou em um navio cruzeiro pelo Caribe. Já tinha comprado às passagens. Nunca mais voltou. Em Curaçao resolveu fazer seu novo lar. Comprou uma pequena loja de presentes e dizem os que por lá passam que ela se casou com um dinamarquês loiro lindo de morrer e viveram felizes para sempre!  

“O estupro juntamente com os maus tratos das crianças constituem os atos de maiores perversidades da espécie humana e somente cabíveis, na mente doente dos covardes”.

Estupro
Vivia sempre alegre pelos cantos da cidade
Todos que a viam se contagiavam com sua felicidade
De onde viria toda aquela alegria?
Qual seria o motivo pelo qual ela sorria?
Era quando fazia sol e também quando chovia
Os seus sonhos sempre alegre perseguia
E o sorriso de seu rosto nunca desaparecia
Até que um dia triste surgiu
E fui capaz de ver algo que vindo dela ninguém jamais viu
Eu a vi chorando e aquilo me assustou
Fui logo perguntando o que a amedrontou
Com uma voz distante ela mencionou
Uma história triste que me emocionou
Segunda ela um homem estranho a abordou
E daqui pra frente é o que ela me falou:
“Tirou de mim o que eu guardava
Para o amor que esperava
Levou com ele a minha esperança
De formar somente com um único homem a aliança
De dois corpos unidos que se amam
E que de amor até morrerem os dois se chamam”
O meu mundo desabou com tamanha crueldade
Como pode um ser humano ser capaz de tal maldade?
Destruiu daquela moça toda a sua dignidade
Levou seus sonhos, esperanças e também a felicidade.

Rafael Muniz. 

Pacto de sangue. O sonho de um grande amor.


É brando o dia, brando o vento 

É brando o sol e brando o céu. 
Assim fosse meu pensamento! 
Assim fosse eu, assim fosse eu!


Mas entre mim e as brandas glórias 

Deste céu limpo e este ar sem mim 
Intervêm sonhos e memórias... 
Ser eu assim ser eu assim!


Ah, o mundo é quanto nós trazemos. 

Existe tudo porque existo. 
Há porque vemos. 
E tudo é isto, tudo é isto!


Fernando Pessoa

Pacto de sangue.
O sonho de um grande amor.

                 A noite chegava calma e silenciosa. Não sabia se haveria luar. Agora não me importava com mais nada. Ali naquele banco tosco daquele parque a vida perdera o sentido. Rosa parecia dormitar em meu colo. Devia fechar suas pálpebras, mas não fiz. Era o único elo que me mantinha ali a olhar para aqueles olhos azuis turquesa que nas últimas oito horas me mostraram um outro sentido da vida. Já sentia a rigidez do seu corpo. Uma bala no pescoço a levara para longe de mim. A vida estava se esvaindo. Eu sabia que também ia morrer. Era questão de tempo. Com a bala que passou próximo ao meu coração ou pela própria policia que fizera um cerco em minha volta. Sorria de leve. Minha arma? Um cabo de guarda chuva marrom. Eles? Dezenas gritando para sair com as mãos para cima. Deram-me cinco minutos. Cinco minutos que me fizeram voltar no tempo. Meu grande amor partiu e eu queria partir com ela. Se aguentasse eu sairia correndo com a “arma” a gritar e assim minha vida seria riscada do mapa por centenas de tiros. Lembrei-me do filme Butch Cassidy. Que morte gloriosa. Minha mente procurou no tempo os momentos mais felizes da minha vida. Momentos que não se apagarão na historia. Oito horas. Oito horas sublimes que valeram toda uma vida sem sentido. 

                Tinha sido demitido. Assim sem mais nem menos. Eu sabia do meu câncer no pulmão. Meus chefes não. Não contei. Para que? Para sentirem piedade de mim? Poderia mostrar meus exames. Eles não poderiam me demitir. Mas nunca fui de pedir nada. Aceitava o que vinha sem reclamar. Se não me queriam mais paciência. Sessenta e seis anos, sem conseguir me aposentar. Chorar? Acho que não vale a pena. Nunca casei me uni a uma jovem há muitos anos atrás. Tivemos um filho. Ela conheceu outro e se foi. Foi melhor assim. Para mim e para ela. Nunca fui de ficar revoltado. Todos diziam que eu era calmo, nunca me viram zangado e eu acho que era assim mesmo. Não reclamava da vida. Para que? Pagaram meu Aviso Prévio. Certo. Vá à agência do Banco do Brasil na Avenida Paulista. Lá você recebe seu Fundo de Garantia. Peguei um ônibus da Paulista. Avistei próximo ao Parque Trianon a agencia bancária. Dei o sinal e ao descer pisei em falso. Caí em cima de uma senhora que passava. Pedi desculpas. Perdão. Ela levantou e me vi diante dos mais belos olhos azuis turquesa que já tinha visto na vida.
         
                Os cabelos brancos, um rosto ainda jovem, mas devia ter mais de sessenta anos. Um corpo bem feito. A convidei para um café para me redimir. Aceitou. Sentamos num barzinho em uma galeria que nunca tinha entrado. Afinal passei anos e anos sem ir à Avenida Paulista. Fiquei olhando aquela bela mulher. Seus olhos me hipnotizavam. Meu coração batia. Caramba! Nunca bateu assim por mulher nenhuma. Seu sorriso era confortador, me traziam paz e tranquilidade. Falamos banalidades. Disse que estava desempregado. Ia retirar meu Fundo de Garantia. Ela deu um sorriso maroto. Dinheiro! Para que serve? Nunca me serviu para nada. Vi uma pequena lágrima furtiva naqueles belos olhos azuis turquesa. A convidei para ficarmos umas horas no Parque Trianon. Ela sorriu e aceitou de pronto.

                Olhe, nunca senti em minha vida o que estava sentindo. Nossa! Nesta idade me apaixonar? Toda vez que ela sorria mexia por dentro. Para dizer a verdade não a desejava sexualmente. Nem me passou pela cabeça. Mas meus olhos não saiam dos dela. Chegamos ao parque vazio àquela hora da manhã. Achamos uma sombra gramada, tirei meu paletó para ela sentar-se. Ficamos ali conversando sem ver as horas passar. Parecia que já éramos íntimos de muitos e muitos anos. Eu não tinha pressa. Não tinha ninguém a me esperar. O barracão que morava era alugado. Não tinha quase nada lá. Na periferia. Bem longe. Gostaria que àquelas horas ali com ela não passassem nunca. Contei pouca coisa de minha vida. Nunca tinha casado e a mulher que tive ao meu lado me abandonou. Expliquei que achei melhor assim. Não havia amor entre nós. Meu filho? Tinha seis meses quando ela partiu. Deveria estar agora homem feito.

                  Ela ficou calada por algum tempo. Eu também não disse mais nada. Não deixava de olhar para ela. Uma brisa gostosa acariciava seu rosto e o meu. O sol de vez em quando se escondia entre as nuvens. Estávamos muito perto um do outro. Levei meus lábios a sua face. Ela não se afastou. Beijei de leve seus lábios. Meu corpo tremia de emoção. Ela não esboçou nenhum abraço, mas deixou que a beijasse. Deitei na grama e ela também. Ambos olhando para o céu através das árvores. Uma borboleta pousou em um galho próximo. Ela começou a falar. Eu gostava de sua voz, suave, calma, sem impostação. Contou-me parte de sua vida. Diferente da minha. Bem diferente. Vi que ela era uma mulher de fibra, estudada e eu quem sabe um perdedor. Não seria mulher para viver ao meu lado se tivesse nos conhecido antes.

                  Tivera uma infância atribulada. Seu pai um político conhecido. Quase não dava atenção para a mãe. Colocaram-na em um colégio interno. Mesmo nas férias ela viajava com a mãe e o pai nunca aparecia. Conheceu a Europa, nunca foi aos Estados Unidos. Não tinha interesse. Não que desgostasse dos americanos nada disto, mas ela gostava de ver e sentir a história de perto. E a história está na Europa ela disse. Roma, Veneza, Paris, Madrid, Berlim, Lisboa, tantas que ela perdeu a conta. Quando fez vinte e um anos recebeu uma parte da fortuna do pai. Mais de oitenta milhões de reais. Uma fábula. Não sabia o que fazer com o dinheiro. Encontrou um homem. Lindo, parecia um artista de cinema. Uma paixão avassaladora. Casaram com uma festa de arromba. Seu pai convidou dezenas de políticos. O casamento durou seis meses. Ele fugiu com outra e boa parte de sua fortuna.
                 
                    Ela era simples na sua maneira de contar. Que coisa meu Deus! Estava enfeitiçado por uma mulher da minha idade e eu não tinha nada para oferecer. Deu fome. Convidei-a para um lanche. Voltamos novamente ao barzinho. Local sossegado. Não comi quase nada. Ela mal e mal engoliu alguma coisa. Tomei um uísque e ela também. Vi que chorava. Não perguntei o porquê. Afaguei os seus cabelos brancos. Ela me olhou nos olhos. Quando olhava eu me desmanchava. Voltamos ao parque. Ainda vazio. Era uma terça feira. Agora umas duas da tarde. Ela ainda chorava. Olhou-me e disse que ia morrer. Assustei. Porque? Perguntei. – Rosa sorria agora. Posso pedir para não ter pena de mim? – Claro disse. Tenho leucemia. O médico disse que seria um ou dois meses no máximo. Não quero morrer entubada em um hospital.

                   Pensei comigo que dupla estávamos fazendo. – Contei para ela que também tinha um câncer. Não tinha medo de morrer. Que a morte viesse quando chegasse a hora. Eu ia saber enfrentar. – Ela me perguntou assim sem mais nem menos – Já ouviu falar no casal Bonnie e Clyde? Sim disse. Morreram felizes fazendo o que gostavam. Não entendi – Quer morrer comigo? Ela me olhava com um sorriso zombeteiro. Nunca pensei isto. Morrer como? – Nós dois como Bonnie e Clyde – Continuo não entendo. Explique melhor. – Você não tem de ir ao banco? – sim! – Pois então, entramos você recebe e anunciamos um assalto. Levamos uma quantia, tomamos as armas dos vigilantes e esperamos a policia chegar. Jogaremos o dinheiro para o ar, sairemos rindo e gritando e morreremos crivados de balas!

                 Que ideia estapafúrdia! Morrer assim? Mas ela me olhou com aqueles olhos azuis turquesa que fiquei sem o que dizer. – Olhe, serrei um cabo de guarda chuva, engana bem como uma arma. Entramos você recebe seu dinheiro e eu anuncio o assalto. Tomamos a arma do vigilante, damos uns tiros para cima para assustar e saímos correndo, não antes que eu jogue todo o dinheiro roubado para cima. Será uma festa! – Minha mente estava a mil por hora. Morrer agora? Assim? Ao lado dela? – Ela me beijou. Ali naquele banco do parque, senti seus lábios colados ao meu. Se morresse agora morreria feliz. Um beijo que nunca tive. Lábios macios, molhados, que sensação incrivelmente deliciosa. Olhou-me. Lindos seus olhos azuis turquesa. – Não precisa ter medo - disse. Eu protegerei você lá no céu!

                  Interessante. Entrei no banco sem medo. Cheio. Fui até o caixa. Disseram que tinha de esperar. Ela anunciou o assalto. Todos deitaram no chão. O vigilante levou a mão à arma. Eu disse não. Se tirar morre na hora. Nossa! Eu agora era o Boniee? E a Clyde o que fazia? Pegava o dinheiro do caixa. Ria a mais não poder. As pessoas deitadas no chão não entendiam. Ouvi um tiro, vi o sangue saindo do pescoço dela. Ela me olhou e disse vamos – Jogou o dinheiro para cima. Uma algazarra de todos querendo pegar. Saímos do banco. Outro tiro entrou nas minhas costas passou perto do coração e saiu perto do ombro esquerdo. Não senti dores. Ela não aguentava andar. Carreguei-a. Nenhum policial na porta. Atravessei a avenida sem o sinal abrir. Carros frearam. Batidas, uma algazarra. Ela queria sorrir, uma golfada de sangue saiu de sua boca.

                   Entrei no parque. Ninguém atrás de mim. Fomos para o nosso banco preferido. Um casal estava lá. Gritei para saírem e vendo o sangue correram alameda acima. Deitei-a no meu colo. Ela sorria. Queria falar, mas o sangue não deixava. Com os dedos fez sinal de positivo. Sentia agora uma dor tremenda. Ela tremeu e parou de se mexer. Acho que tinha morrido. Olhava seus olhos azuis de turquesa que permaneciam abertos. Minha mente não pensava em nada agora. Só em olhar para ela. A noite chegou de leve, comportada. A polícia começou o cerco. Achavam que estávamos bem armados. Queria gritar, sair correndo como fez Butch Cassidy. Queria morrer logo crivado de balas para encontrá-la no céu. Minhas pernas não me obedeciam. Uma nuvem começou a se formar. Fechei os olhos dela, dei o último beijo. Meu corpo caiu sobre o dela. Não vi mais nada. Acho que tinha morrido.

                   Os jornais deram a notícia em letras garrafais – Casal de idosos assaltam banco e morrem no Parque Trianon. Mais embaixo dizia – Rosa Allions, filha do senador Norberto Allions já falecido e sua esposa Nair Allions também falecida, e Ramon Silva, endereço desconhecido morreram ontem no Parque Trianon, após fazerem um assalto inexplicável na agência do Banco do Brasil. Não levaram nada, pois jogaram o dinheiro para o alto. Clientes disseram que pareciam loucos, pois ficaram sorrindo o tempo todo. A polícia os cercou no parque e não foi preciso dar um tiro. Encontraram os dois abraçados mortos e sorrindo um para o outro. Uma história de amor? Ele tinha sessenta e seis anos e ela sessenta e cinco. Para ela não havia motivos de assalto. Descobriram que em sua conta corrente tinha mais de cem milhões de reais.

                    A verdade, a história verdadeira nunca seria contada. O porque de um assalto infeliz e claro sujeito a morrer. O porque se ela era rica e não precisava disto. A autópsia mostrou que ela e ele estavam marcados para morrer. Ambos com câncer avançado. Seria este o motivo? Dizem a boca pequena que toda terça à tarde no Parque Trianon um perfume de rosas uma aroma com uma fragrância desconhecida percorre todas as suas dependências. Muitos foram lá para ver, mas poucos amantes tiveram a sorte de sentir aquele perfume sublime! Rosas com amor!

Ela ia, tranquila pastorinha, 

Pela estrada da minha imperfeição. 
Segui-a, como um gesto de perdão, 
O seu rebanho, a saudade minha...


"Em longes terras hás de ser rainha 

Um dia lhe disseram, mas em vão... 
Seu vulto perde-se na escuridão... 
Só sua sombra ante meus pés caminha...


Deus te dê lírios em vez desta hora, 

E em terras longe do que eu hoje sinto 
Serás,  rainha não, mas só pastora  _.


Só sempre a mesma pastorinha a ir,  

E eu serei teu regresso, esse indistinto 
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir...


Fernando Pessoa

quarta-feira, 9 de abril de 2014

A lenda dos beijos perdidos



Em cada dia, um ato
Em cada ato, um pensamento
Em cada pensamento, uma saudade
Em cada saudade... Você

Em cada vida, um livro
Em cada livro, uma história
Em cada história, uma lembrança
Em cada lembrança... Você

Em cada momento, um instante
Em cada instante, um saber
A cada saber, uma certeza
A certeza de amar Você!

Lisa Marie

A lenda dos beijos perdidos.
               Estava atrás do balcão quando ela entrou. Nem me olhou e nem cumprimentou. Dirigiu-se a mesinha do canto da parede e se sentou. Ficou de olhos baixos. Não dava para ver seu rosto. Ficou de costas para mim e de frente para a porta da rua. Meu bar era pequeno. Detestava o bar. Herança de meu pai. Só cachaceiros e arruaceiros. Devia ter vendido e sumido desta cidade maldita.
               Ouvi sua voz, meiga, macia, deliciosa. Um rouxinol cantando ao nascer do sol. Mas não era o que esperava – Traga-me qualquer lanche quente que tiver e uma dose de Martine. Depois um suco de laranja. Não me olhou, continuou com a cabeça baixa. Pronto, fui a sua mesa. Ela me olhou pela primeira vez. Incrível! Linda! Impossível descrever tamanha beleza. Sorriu, quase caí de costa. Morena jambo, olhos verdes, grandes, cabelos presos em coque, seu rosto liso como a pele de um bebê, uma boca de lábios grossos, vermelhos, deliciosos.
               Mastigava com educação. Via-se que era uma mulher de classe. Agora olhando a rua. Quase ninguém. Cedo ainda, cidade pequena. Um buraco perdido no fim do mundo. Fiquei ali olhando para ela e pensando. Chamou-me, pagou. Perguntou onde era a toalete. Mostrei. Uma privada imunda. Limpava só à noite. Ouvi a descarga, olhava a rua e ela veio de mansinho. Deu-me um beijo. Não um beijo comum. Um beijo que nunca na vida experimentei.
                Colou seus lábios ao meu. Senti seus dentes mordendo de leve minha língua. Forçou sua língua na minha, passeou em minha boca. Voltava para a língua, forçava. Eu comecei a tremer. Encostou-se a mim seu corpo escultural. Forçou. Gemia baixinho. O desejo a posse seria natural ali. Não tinha coragem. Não estava pronto para o assalto. Ela gemeu alto. Deixou-me. Saiu sem dizer adeus.
               Continuei ali por muito tempo. A respiração ofegante. O membro duro. Suava. Uma experiência que nunca tive. Afinal só conhecia algumas putas da cidade. Poucas. Não podia dar esse luxo. O dinheiro era pouco. As moças eram casadoiras. Minha mãe se foi há muito tempo. Fugiu com outro homem. Meu pai nunca disse nada até morrer vomitando sangue. Tuberculoso. Triste destino.
                Nasci ali. Agora com vinte e cinco anos. Só o segundo grau. Ir pra onde? Bonito não era. Dinheiro não tinha. Algumas jovens se interessavam por mim, eu não interessava por elas. Chico Negro Monte me ofereceu uma ninharia pelo bar. Fiquei de pensar. Afinal o que faria depois? Em meus pensamentos não vi dois homens de terno e gravata se adentrarem. Sentaram na mesma mesa da moça dos lábios de mel.
                 Pediram-me duas cachaças. Quando me aproximei um me agarrou pelos cabelos. O outro me forçou contra o tampo da mesa. Socou-me forte nela. Senti uma dor tremenda. Falaram baixinho no meu ouvido. Conte tudo ou vai encontrar seu pai no inferno. Não sabia o que contar. A morena que entrou aqui hoje disseram. O que dizer? Expliquei o que sabia. Um me deu um tremendo soco, o outro me encheu de pontapés. Arrastei-me até o balcão cheio de sangue. Eles nem me olharam mais. Acharam-se os tais. Peguei a faca de cozinha. Enfiei na garganta de um. O outro sacou um revolver. Deu-me um tiro. Pegou no braço esquerdo de raspão. Com o direito cravei a faca no seu coração.
                 A cidade em peso agora em frente ao meu boteco. O delegado Idelfonso fazia perguntas. Achou-se o máximo com o crime. Nunca isto aconteceu ali. Expliquei tudo e ele sempre insistindo na mesma tecla. Assistia muito o detetive Columbo na TV. Na semana seguinte me chamou de novo a delegacia. Disse que eu devia sumir. Eles eram bandidos da capital. Uma espécie de máfia. Viriam outros com certeza. E desta vez era para me liquidar.
                Vendi o bar para o Chico Negro Monte por dois mil reais. Valia muito mais. A casa era minha, mas tranquei tudo e parti em um sábado a noite. Fui para Campinas. Lá iria decidir o que fazer. Já conhecia a cidade. Nem bem desci do ônibus e vi dois homens em um opala preto me seguindo. Dei a volta no quarteirão e retornei a rodoviária. Comprei passagem para Belo Horizonte. Minha vida agora estava se tornando um inferno.
                 Cheguei a Belo Horizonte e prestando muita atenção fui até a Estação Ferroviária. Tinha tudo planejado. Comprei passagens de trem para Vitória. Vinte e quatro horas de viagem. Achava estar livre deles.  Uma linda viagem. Primeira classe. Dormia quando senti alguém ao meu lado. Impossível! Era ela. Aquele sorriso maroto, sensual. Não falava nada e nem eu. A mulher que me condenou para sempre estava ali ao meu lado. Ela aproximou os lábios de mim de novo, me beijou o mesmo beijo, sensual, forte, cheio de tesão, língua com língua. Eu tremendo, ela gemendo. Ela me dominava. Eu não sabia o que fazer. Sem ação. Mulher incrível!
                 Muita gente no vagão. Muitos nos olhando, ela nem se importava. E nem eu para falar a verdade. Se ela quisesse faríamos amor ali mesmo na presença de todos. Ouvimos a voz do chefe do trem. Ela se levantou. Tirou da bolsa uma pequena beretta e mandou o chefe do trem sumir. – Se na próxima estação falar com alguém sobre nós, te mato e mais uns cinco aqui no vagão. Deus meu! Com quem eu tinha me metido? Ela me pegou pela mão e me levou até o último vagão. Vazio, cinco pessoas. Ela mandou todos embora.
                   No que eu estava entrando? Numa fria? Não tive tempo de pensar. Possuiu-me como uma gazela faminta. Sim ela me possuiu. Comandava tudo. Nem tiramos a roupa. Ela levantou a saia e entrou em mim com força. Perdí a respiração. Explodí em um gozo tremendo! Ela não me deu folga. Continuava e não parava. Enfim não agüentei mais e dormi. Acordei com a policia me puxando. Ela tinha sumido. Descemos em Aimorés. Fiquei preso por trinta dias. Soltaram-me numa quarta feira pela manhã. Devolveram-me meus pertences e meu dinheiro.
                   Resolvi ficar ali naquela cidade. Arrumei uma pensão barata. Não demorou dois dias. Pegaram-me no meu quarto a noite. Uma tremenda surra. Eram cinco desta vez. Arrastaram-me até um buick negro. Viajamos por horas. Eu estava todo machucado. Chegamos a Vitória. Direto ao aeroporto. Um jatinho nos esperava. Dentro o chefão. Eles o chamavam de “Casco Duro”. Conversa mole, falando feito um homossexual. Não fazia perguntas, só ria com os lábios entortados. Não me olhava. Dizia que eu tinha escolhido o meu destino. Levaram-me para um banco nos fundos da aeronave. Chegamos ao Rio de Janeiro pela manhã.
                   Em um carro preto que nem vi a marca, fomos para a Barra da Tijuca. Uma bela mansão a beira mar. Entramos. Levaram-me a um casinha com dois guardas. Deixaram-me lá por cinco dias a pão e água. Que “Diabos” era tudo aquilo? Em que me metí? Quando abriam à porta eu me enroscava em um canto com medo de apanhar. E sempre apanhava. Mas naquele dia entrou um dos vigias com ela atrás e sua famosa beretta. Que mulher! Uma coronhada, duas, três e o vigia caiu desmaiado. Fez um sinal com a cabeça para segui-la. Não falou mais nada.
                   Não havia ninguém de vigia, saímos pela porta dos fundos. Ela tinha um pequeno corsa wagon, cinza. Saiu em desabalada carreira. Nada falou. Deixamos o Rio de Janeiro rumo a Petrópolis. Parou em uma pequena saída e uma vista linda mesmo a noite. Agarrou-me de novo. Deus meu! Que mulher é essa? Mesmo todo ferido, ainda com sangue no rosto ela chupava minha língua com força. Fizemos amor à noite toda. Dormimos. Acordei com ela fora do carro olhando a vista que era realmente espetacular.
                  Saí, tentei uma conversa. Nada. Ela me olhou e apontou para o carro. Viajamos por quatro horas. Passamos por Juiz de Fora e muitos quilômetros depois entramos rumo a Ponte Nova. Almoçamos nesta cidade. Ficamos pouco tempo. Logo embarcamos. Não me disse aonde íamos. Nunca dizia nada. Parou logo na saída da cidade. De novo me possuiu com violência. Não tinha como recusar. Estava louco de paixão por ela. Ficamos horas fazendo sexo. Nunca vi nada em minha vida.
                   Estava escurecendo quando chegamos a um sitio perto de Barra Longa pequena cidade de 12.000 habitantes. Uma casa pequena, mas aconchegante. Foram dois meses de amor. Dois meses que ela não me dirigiu a palavra nenhuma vez. O sitio tinha uma senhora que vinha diariamente fazer a limpeza e as refeições. Um dia levantei e ela tinha sumido. O carro não estava na garagem. Dona Matilde chegou para a limpeza. Perguntei.
                 Francesca era o nome dela. Italiana. Mal falava português. Seu pai a vendeu ainda moça para “Casco Duro”. Moravam em uma pequena cidade na região da Sicilia. Na cidade de Palermo. Em uma semana fugiu. Foi pega. Apanhou muito. Matou cinco deles. Fugiu de novo. Casco Duro nunca mais a encontrou. Comprou este sitio ano passado. Sabia da conta bancária de Casco Duro e a senha. Roubou mais de vinte milhões de reais. Passou tudo para a conta dela em um banco europeu. Sabia como fazer.
                   No sitio ela praticava todo tipo de exercícios. Gastava com balas a mais não poder. Acertava com sua beretta um lata de cerveja a mais de trinta metros. Estava apaixonado por uma Rambo de saias! Meu Deus! Um jovem do interior, sem eira nem beira, agora vivendo esta aventura sem fim? Mas olhe, a paixão era enorme. Não tinha como sair dali. Ela demorava dois três meses para voltar. Depois desaparecia de novo. Como o vento levado para qualquer lugar.
                  Quando ficava só, sentava a beira de uma lagoa e ficava a pescar, mas com a mente voando para o passado e pelo presente. Futuro? Creio que nada. Sou um homem dominado pelo medo. Nunca tomei decisões e quando as tomei escolhi as armas erradas. Nunca tive o que quero e o que aprendi em meus sonhos. Acredite não sou cego de orgulho, mas o que sonhei me escorregou pelos dedos. Não me considero um jovem velhaco. Não. Até sou meio religioso. Ia à missa todos os domingos em minha cidade.
                   Dizem que o amor de mãe por seu filho é diferente de qualquer coisa no mundo. Ele não obedece à lei ou piedade. Ele ousa todas as coisas e extermina sem remorso tudo o que ficar em seu caminho. Seria isto verdade? Não. Para mim não. Minha mãe me deixou com oito anos. Nunca mais me procurou. Eu não sabia o que era amar uma mãe. Foram vinte anos sem ela. Mas agora minha vida tinha mudado. Uma paixão avassaladora. Uma pistoleira de saias. Meu coração explodindo a cada dia que ela chegava.
                   Ficávamos dias e dias juntos. Ela não dizia nada. Eu não podia acreditar que depois de tantos anos não falasse nossa língua. Porque então? Não sei. Nunca soube. Varias vezes ao dia ela me possuía. Não ria. Por favor. Era assim mesmo. Ela dirigia tudo. Subjugou-me. Transformou-me em seu escravo. Aprendi a aceitar e seu silencio agora era por mim compartilhado. Ninguém ousa dizer adeus aos seus hábitos. Muitos se detiveram no limiar da morte ao pensar no amanhã sem saber o que esta fazendo hoje.
                    Assim como chegava desaparecia. O que estaria fazendo? Onde andaria? Um mistério. Um mistério que nunca resolvi. Nunca. Um dia ela não voltou mais. Dois meses, três, seis um ano. Meu coração insistia em me machucar. Uma dor imensa.  Sabia que estava morta. Não haveria outro motivo para seu sumiço. Se assim fosse sabia que seria daqui para frente um homem sem alma. Um ser ignóbil e perverso. Não haveria mais motivo para viver.
                    Um ano e seis meses. Resolvi ir embora. Uma dúvida cruel. Ir para onde? Voltar a minha cidade? Será que “Casco Duro” tinha me esquecido? Não sei. Não me importei se ele me encontrasse e acabasse com minha vida. Resolvi ir ao Rio de Janeiro. Iria enfrentar o bandido cruel. Quem sabe ela estaria lá? Sabia onde morava. Fiz uma campana de cinco dias. Surpresa, meu grande amor estava lá. Ele a mantinha a sete chaves. Agora vi que não estava tão bela. Estava tristonha. Olhos fundos Devia ter apanhado muito.
                    Esperei a noite. Peguei duas enormes pedras. Pulei o muro. O primeiro vigia caiu como abobora partida. O segundo nem teve tempo para respirar. Tirei suas armas. Entrei pela casa atirando. Ria. Um riso de idiota suicida. Ela estava no quarto. Não acreditou. Saiu comigo pela frente. “Casco Duro” nos esperava. Dei vários tiros nele. Levei outros tantos, mas não cai. Francesca atirava com precisão. Conseguimos chegar a um volvo velho. Mas bom de corrida. Por sorte só um tiro entrou próximo ao joelho e saiu do outro lado.
                  Chegamos a Ponte Nova à tardinha. Um lanche e fomos para nosso esconderijo. Vivemos um romance que ninguém e nunca haverá alguém que poderá ter. Um romance de amor que não sei como descrever. Os anos passaram. Francesca não saiu mais do sitio. Dona Matilde se encarregava de tudo. Francesca a pagava bem. Deu até um carrinho para ela. Quando fiz cinqüenta anos, a maldita tuberculose me alcançou. Assim como meu Avô e meu pai. Sabia que ia morrer. Não queria que Francesca tivesse o mesmo destino que o meu.
                   Comecei a me afastar dela. Não adiantou. Ela me possuía quando queria e eu não sabia recusar. Não tinha como. Francesca era minha paixão. Agora muito mais, meu único e grande amor. Ela também ficou doente. Cuspíamos sangue, mas nunca deixamos de nos beijar. Quando estávamos melhor ela me beijava, como se fosse aquele dia, no meu bar, um beijo ardente, forte, incrivelmente cheio de paixão.
                   Ela morreu uma semana antes de mim. Foi uma morte sorrindo. Seus olhos tinham pequenas lágrimas e não chorava. Eu também não. Fiquei ali olhando para ela toda a noite. A enterrei no quintal do sitio, a beira da lagoa que apelidei de Solidão. Ficava horas e horas sentado em seu leito de morte. Conversava com ela. Sabia que ela estava ali me esperando.
                  Morri uma semana depois. Não senti e nem vi como meu corpo se separou do meu espírito. Uma luz forte apareceu e nela Francesca. Linda, com o mesmo vestido que tinha enterrado seu corpo. Só vi quando ela me abraçou e me beijou. A mesma Francesca. O mesmo beijo, o mesmo gosto, a língua quente na minha. Forçando seu corpo ao meu. Onde estávamos? Será certo o que fazíamos? Não sei. Nunca me preocupei com isso. Eu e Francesca nos amamos em todos os lugares da terra. Em lugares lindos onde as flores são mais belas, onde os pássaros gorjeiam músicas maravilhosas. Onde os sonhos são realidade.
                   Confesso que não sabia o tempo. O tempo agora para nós não existia. O amanhã era hoje e o ontem era agora. Não nos preocupávamos com nada. Só mesmo nosso grande amor. Francesca mesmo ali, na eternidade nunca falou. Nunca me disse nada, nunca me contou sua vida. Eu aprendi a respeitar. Nunca perguntei. Bastava sua presença e com ela eu me completava. Ah, universo. Eu sei que muitas vezes sou levado por uma série de pensamentos. Bons e ruins. Mas não importava e sim o amor que eu e ela estávamos vivendo.
                 Talvez eu não conhecesse a força da perfeição. Eu não conhecia o melhor de mim. Agora eu me entrego me comprometo comigo mesmo, vou manter minha mente aberta, e a luz que irradia em mim será para sempre ao lado de Francesca! Os espíritos que nos viam na eternidade sorriam e nos cumprimentavam prazerosamente. Soubemos depois, muitos anos depois que ficamos conhecidos por muitos. Tornamo-nos uma lenda. A lenda dos beijos perdidos! Os amantes e seus beijos apaixonados na terra e no céu!
Meu nome? Eu sou Ninguém. Na terra procurado por crimes de amor. Extremamente perigoso. PROCURADO VIVO OU MORTO! Risos. Estou morto e ninguém sabe...                                    

Olhos Assim

 

Seus olhos lindos
São como espelhos
Me vejo refletida neles.
Eles me olham
Me partem ao meio
Como uma espada
Transpassasse meu corpo
Seus olhos...
Seus olhos dizem tanta coisa
Dizem da sua saudade
Dizem da minha saudade
Dizem tudo que você quer dizer
E não pode dizer
Seu olhar é minha vida
Minha vida é seu olhar.
Através dele consigo sentir
Tudo que vivi
Tudo que sinto saudade.
Mas, agora tenho a absoluta certeza
Nada acontece por acaso
Seu olhar é meu!
Meu olhar é seu!
Lisa Marie