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terça-feira, 30 de abril de 2013

A história de Mel que não é mais virgem e virou mulher!




Que mulher é essa
que não se cansa nunca,
que não reclama nada 
que disfarça a dor?
Que mulher é essa
que contribui com tudo,
que distribui afeto, 
tira espinhos do amor!
Que mulher é essa
de palavras leves,
coração aberto, 
pronta a perdoar?
Que mulher é essa? 
Que sai do palco,
ao terminar a peça,
sem chorar!
Essa mulher existe,
sua doçura resiste,
às dores da ingratidão,

Resiste à saudade imensa,
resiste ao trabalho forçado,
resiste aos caminhos do não!
Essa mulher é MÃE,
linda, como todas são.


A história de Mel que não é mais virgem e virou mulher!

                        Vale da Lua estava em polvorosa. Alguém comprou o Sítio do Coronel Gerônimo. Ele jurou que nunca o venderia. Era um belo Sitio. No final da Avenida Sonhos Dourados.  Muitos passavam em frente e ficavam horas olhando. Não havia muros. O jardim imenso. A casa do estilo renascentista era imensa. Dizem poucos sabiam ao certo que atrás da casa existia uma enorme piscina em forma de coração que fazia as delicias dos moradores. Eram para muitos a casa dos sonhos. Quem comprou? Como o Coronel Gerônimo resolveu vender? De boca em boca o assunto do dia na cidade. Vale da Lua era pequena, não mais que vinte e cinco mil habitantes e todos se conheciam. Caras novas que apareciam na Pensão de Dona Dilva ou no Hotel do Seu Francisco todos já sabiam que eram caixeiros viajantes.

                        No dia seguinte chegou uma Nissan preta, com quatro homens que nem pararam na cidade e foram direito para o Sitio do Coronel. No segundo dia chegou um ônibus cheio de operários. O povo todo de porta em porta atrás de uma novidade. Nada. Ninguém sabia de nada. O Coronel Gerônimo passou a morar em sua mansão da Avenida Sonhos Dourados próximo a matriz. Ninguém ousou perguntá-lo nem mesmo seus companheiros das soturnas noites jogando pôquer com o prefeito Santino, o delegado Javier, o juiz Doutor Prazeres e o Padre Thomaz. Algumas vezes valendo altas somas. Em menos de um mês uma reforma foi feita no sítio do Coronel. Cinco caminhões baús enormes despejaram a nova mobília e os especuladores em volta quase nada viam. As comadres corriam aqui e ali. Nada. Ninguém sabia de nada. Um mês e dez dias e os carros rarearam. Chegou sim uma Van, com oito homens de terno, desceram com suas malas. Daquele dia em diante sempre tinha um em cada parte do Sitio.

                         Mel tinha treze anos quando tudo aconteceu. Mel não era linda, era sim uma menina magrinha, cabelos loiros encaracolados e uns olhos azuis que pareciam sair faísca quando se olhava para ela. Era filha única. Sua mãe a adorava, mas seu pai nem tanto assim. Parecia que Mel não era sua filha. Um dia ela viu pelo buraco da fechadura seu pai olhando para vê-la tomar banho. Assustou-se. Por quê? Passou mais dois meses até que um dia ele entrou em seu quarto quando ela trocava de roupa. Gritou com ela. Fique como está. Quero saber se ainda é virgem. Um susto enorme. O que era aquilo? Mel não sabia de nada. Começou a acariciar seu corpo magro. Seu pai emitia sons que a assustaram. Seus dedos passavam em todo parte do seu corpo. Quando levou a mão em seu sexo ela gritou. Ele assustou e saiu do quarto. Não foi a primeira vez. Ele entrava e exigia que ela ficasse só de calcinha enquanto ele se masturbava. Mel chorava de cabeça baixa.

                        Mel passou a ter medo do próprio pai. Esperava ele sair para tomar banho e trocar de roupa. Sabia que não podia contar para sua mãe. Ela nunca acreditaria. Pela janela Mel namorava Nonô, um rapazinho que aprendia a fazer pão na Padaria do Seu Ernesto. Ela gostava dele. Ficava na janela e ele em pé no muro da casa do Seu Antenor bem em frente. Ele fazia sinais e ela ria. Um dia sentiu uma lambada nas costas. Doeu muito. Era seu pai. “Vagabunda!” – Ela correu para seu quarto. Ele foi atrás. – Gritou alto – Tire a roupa, fique só de calcinha em cima da cama – Já! Se não vou te moer de pancada! – Ela começou a chorar, mas obedeceu. Ele não se aproximou dela. Ficou olhando. Tirou seu sexo enorme, e latente e de novo se masturbou na frente da filha.

                           Mel tentou falar com sua mãe. Ela gritou mais alto. Mentirosa! Seu pai é um santo! O que fazer? Procurou o Padre Thomaz. No confessionário contou tudo. O padre a mandou rezar padres nossos e ave Marias e depois procurá-lo na sacristia. A igreja estava vazia. Ela entrou. O padre mandou que ela sentasse em seu colo. Ela acreditou que ia ser consolada e o padre iria conversar com seu pai. Não era assim. Nunca foi. Ela sentiu o membro do Padre entumecendo. Sentiu as mãos do padre acariciando seu corpo. Ele pegou em sua mãozinha e colocou em volta do seu membro. Um susto, nunca pensou que isto pudesse acontecer. Saiu correndo. Agora passou a ficar com medo de estar em casa sozinha. Não tinha amigas para onde ir. Esperou Nonô sair do serviço na padaria. Ele se assustou. Contou para ele tudo. – Resolveram fugir da cidade. Ir para onde? Ela disse que preferia morar no inferno. Qualquer lugar serve. Ela não entendia o que queriam com ela. No dia seguinte ela fugiu de casa e partiu com Nonô.

                          Andaram por muitas léguas pela estrada. Ninguém dava carona. Parou um caminhão. Uma carreta, enorme. O Motorista moreno, forte um grande bigode parou e deu carona. Não deu um sorriso. Só olhou de soslaio para Mel. O que vinha a seguir seria a morte para qualquer um. Foi à primeira vez de Mel. Maldito. A possuiu com força na cabine. Doeu de mais. Ela gritou pediu pelo amor de Deus que parasse. Nonô não podia socorrer. Levou um soco e foi jogado fora da cabine. Ela nem sabia se ele estava morto. Mel desmaiou. O maldito depois de horas abusando dela a jogou na estrada e se foi. Mel ensanguentada se arrastava no asfalto. Muitos passaram e assustados não pararam para socorrer. Uma Mercedes preta parou. Desceu um homem pequeno. De terno. Seu rosto tinha uma enorme cicatriz. Pegou Mel no colo e a levou para seu carro.

                         Passaram não menos que seis anos. Mel agora estava com dezenove. Se sorrisse podia se dizer que era linda. Mas Mel nunca mais sorriu desde que foi estuprada covardemente pelo caminhoneiro. Até hoje ela se sentia suja. Nenhum banho a limpava. Morava em uma mansão nos arredores de Paris. Seu novo protetor tentou de tudo para vê-la sorrir. Mel gostava dele. Foi o pai que ela não teve. Apesar da cicatriz ele não era feio. Rico, riquíssimo. Tentou colocar Mel em uma escola famosa para moças na Basileia. Mel não quis. Mel não queria nada. Achava que devia ter morrido. Roodney tentou de tudo. Fez de Mel uma filha que não teve. Sentiu uma enorme revolta quando a encontrou caída na estrada.

                       Nunca contou para Mel, mas ele mesmo fez questão de castigar o caminhoneiro. Naquela tarde parou em um posto de gasolina para abastecer e ver se Mel queria alguma coisa. Ela agora não chorava mais e nem mostrava sentir suas dores. Antes pararam em uma clinica em uma pequena cidade a beira da estrada. Fizeram tudo para ela ficar internada. Não quis. Jurou que ia fugir. Roodney tinha compromisso em Belgrado. Não podia ficar. No posto de gasolina viu um caminhoneiro grande, enorme dando gargalhadas em uma mesa com os outros amigos. Ouviu dele o que tinha feito a uma menina na estrada. Contava como se fosse tudo natural. Roodney o matou com dois golpes mortais de caratê. Ele era um mestre. Não precisou de ajuda. Ele não estava sozinho. Seu motorista e o segurança estavam com ele a mais de dez anos e sabiam manejar qualquer arma.

                        Ficaram um dia em São Paulo. Roodney disse que ia partir para a Europa. Não gostaria de deixa-la ali sozinha sem proteção. Ela o encarou e disse – Me leve com você. Nasceu daí uma grande amizade. Roodney a considerava a filha que não teve. Deu tudo que podia dar. Mas nunca conseguiu um sorriso. Nestes seis anos Mel aprendeu muito. Roodney viajava muito. Mel ia junto a não ser em alguns lugares que ele achava perigoso. Ela já sabia que ele era um grande traficante de armas pesadas. Chegou a armar diversos países sul africanos e americanos. Todas as policias do mundo gostariam de colocar a mão nele, mas não tinham provas. Mel gostava de ficar na Mansão de Paris. Ele tinha também um chalé na Suíça. Ela ia pouco. Não gostava de frio. Um dia sentiu saudades de sua cidade. Chorou porque sentia saudades também de sua mãe. De seu pai não. Comentou com Roodney. Ele sorriu. Deixe comigo, vou comprar a melhor casa de Vale da Lua.

                      Não foi difícil. Tinha um amigo que conhecia o Coronel Jerônimo. Ele estava devendo muito a este amigo. Quando viu a quantia que ofereciam vendeu logo. Comprometeu-se a não dizer para quem vendeu. Roodney depositou para ela uma grande quantia no banco. Um cartão de crédito sem limites. Colocou lá seis seguranças escolhidos a dedo entre seus homens. Lastimer ficou responsável por ela. Era seu braço direito. A acompanhava sempre aonde ela ia. A cidade em peso um dia a viu descer da Mercedes azul sem capota. Ninguém a reconheceu. Um frenesi geral. Fez algumas compras na loja do Turco e no Mercadinho do Zuzinha. Todo mundo nas janelas. - Quem era? Parece linda! Uma princesa? – Mel não conversou com ninguém. Entrou na igreja. O padre Thomaz veio correndo subserviente. Mel olhou para ele – Lembra-se de mim? – Não senhorita! Ele disse. Eu vou te amaldiçoar o resto da minha vida, seu sacana filho da puta!  Ela disse. Você não perde por esperar.

                     O Padre Thomaz passou uma tarde pensativo, preocupado e com medo. Quem era ela? Dormiu e acordou afoito. Mel! Era Mel! Meu Deus! Ela não tinha se esquecido do que eu quis fazer com ela. – Comentou com Matilde que fazia limpeza. Em menos de uma hora a cidade inteira sabia quem era a madona da mansão. Os pais de Mel ficaram sabendo. Correram até a mansão. No portão foram barrados. Mel só deixou sua mãe entrar. Falou pouco. Não contou nada de sua vida. Mel chorou aquele dia. Ela não tinha mais ódio de seu pai e sua mãe, mas achou que ainda não estava preparada para contar sua história. Um dia pela janela avistou um jovem moreno fazendo a entrega de pães. Meu Deus! Era Nonô! Estava vivo. Foi correndo ao portão. Ele quando a viu ficou com medo. Ela o abraçou. Ele tremeu ao ver os guarda-costas olhando sério para ele.

                     Mel ficou amigo de Nonô. Nada mais que isto. Não era mais o homem de sua vida. Mandou chamar seus pais. Comprou uma nova casa para eles. Seu pai sempre a olhava de cabeça baixa. O Padre Thomaz nunca mais apareceu. Pediu transferência para o Bispo. O medo grande de ser espancado pelos guarda- costas. Mel não deu satisfação para ninguém. Uma tarde Roodney chegou à cidade. Junto com ele mais de cem homens. Disse para Mel que ela devia ir embora. Aqueles homens eram mercenários. Iriam se entrincheirar no sitio fazer barricadas, pois uma guerra iria começar. Tudo que impedisse a entrada seria válido – Mas por quê? Disse Mel. – Querida filha, estou cansado de fugir. Vendi para um general fajuto no país pequeno da África diversas armas. Quando eram entregues o exercito do imperador atacou e matou quase todo mundo. Ele acha que fui eu quem deletou. Já tentou me matar em vários países. Agora chega. Não vou fugir mais.

                     Mel se recusou a sair. Ela não acreditava que alguém de outro pais fosse atacar Roodney ali. Afinal ainda havia leis no Brasil. Um exército em atividade. – Vou ficar – Se não fosse você eu teria morrido! Você me devolveu a vida! Quatros meses aquela movimentação de guerra no sitio. O delegado via tudo assustado e comunicou as autoridades na capital. Um general foi enviado para ver o que seria. Ficou estarrecido. Tentou conversar com Roodney e nada. Mandou avisar que traria um unidade do exército. Ou ele conversava por bem ou por mal. Não deu tempo. Zito Mobutu entrou na cidade com mais de trezentos homens. Vale da Lua virou uma praça de guerra. A população corria para o mato, para os morros e quem tinha carro sumia pelas estradas vicinais, estaduais e federais.

                   Cinco dias depois o Exército federal chegou. Mais de cinco mil homens. O General Afonso deu um ultimato para encerrar a luta. Ninguém ouviu o Exército. Uma ordem do presidente e aviões da força aérea bombardearam o sitio e arredores. Em volta centenas de repórteres de jornais, revistas rádios e TVs. Até a CNN estava lá. O Exército invadiu. Uma matança. Dois dias. Cadáveres e cadáveres. A paz voltou. Mais de duzentos mortos. Ninguém se entregou. Uma carnificina. O sitio destruído. Não encontram Roodney e Mel. Sumiram. Ninguém sabia onde teriam ido. Tornou-se o homem mais procurado do mundo. A Interpol tentou em todos os países onde podia agir. Dois anos depois a imprensa já tinha esquecido o acontecido em Vale da Lua. Acharam que Roodney tinha morrido na luta pois vários mortos ficaram irreconhecíveis por causa do bombardeiro.

                     Era uma fazendinha no sul do Pará. Umas oitocentas cabeças de gado, uma boa aguada, o Rio Corrente atravessando a fazenda e Seu Honório e sua filha Larissa viviam uma nova vida. Nonô estava na mansão quando o tiroteio chegou ao auge. Mostrou um caminho onde fugir. Roodney Mel e cinco dos seus homens seguiram Nonô. Compraram o caminhão do Senhor Joelmir, dono de uma serralheria. Nonô foi com eles. Não havia militares na estrada. Compraram a fazenda. Roodney e Mel ou melhor Seu Honório e Larissa viveram ali para sempre. Mel não se casou. Nunca mais foi de ninguém. A sequela do estupro marcou para sempre. Nonô ficou trabalhando na fazenda. Roodney ou melhor Seu Honório dava uma ou outra escapulida até Nova Fonte. Lá se abastecia de algum dinheiro no banco. Sempre fazia transferência de bancos suíços. Não muito. Não queria dar a vista.

                      Mandou fazer um aeroporto na fazenda. Não possuía nenhuma aeronave. Alugava. Um simples telefonema e em menos de duas ou três horas ela estava à disposição. Viajavam muito pela Europa. Deixou crescer a barba. Fez uma operação no nariz e Mel usava lente escura. Não ficavam nos melhores hotéis para não dar na vista, mas não deixaram de viajar por todos os lugares que desejavam. Viveram por muitos e muitos anos, dizem que morreram já na velhice de “morte morrida”.  Os pais de Mel morreram sem ter a presença dela. O padre Thomaz foi encontrado enforcado um dia no quintal igreja. Ninguém nunca soube o porquê. E assim terminada a história. A história de Mel que não é mais virgem e virou mulher!

Soneto da mulher inútil

De tanta graça e de leveza tanta
Que quando sobre mim, como a teu jeito
Eu tão de leve sinto-te no peito
Que o meu próprio suspiro te levanta.

Tu, contra quem me esbato liquefeito
Rocha branca! Brancura que me espanta
Brancos seios azuis, nívea garganta
Branco pássaro fiel com que me deito.

Mulher inútil, quando nas noturnas
Celebrações, náufrago em teus delírios
Tenho-te toda, branca, envolta em brumas.

São teus seios tão tristes como urnas
São teus braços tão finos como lírios
É teu corpo tão leve como plumas.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Seja bem vindo ao inferno Malaquias!




Este Inferno de Amar!

Este inferno de amar – como eu amo!
Quem me pôs aqui n’alma... Quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que a vida – e que a vida destrói.
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei não me lembro: o passado,
A outra vida que dantes vivi.
Era um sonho talvez... – Foi um sonho.
Em que paz tão serena eu dormi!
Oh! Que doce era aquele sonhar...
Quem me veio ai de mim! Despertar?

Só me lembra que um dia formoso,
Eu passei... Dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez el? Eu que fiz? – não não sei;
Mas nessa hora a viver comecei...

Almeida Garret.  

Seja bem vindo ao inferno Malaquias!

                       - Você soube do Cassandro? Não soube? Fugiu com a mulher do Nequinha. Coitado do Nequinha, em vez de ir atrás dele ou dar risadas o coitado senta na porta da sua casa e chora feito uma mulher! – Eu soube, mas é sempre assim. Já foram épocas que ser macho mesmo era ir atrás e sapecava uns dois tiros na testa do filho da puta! – Mas será que eles merecem mesmo? Afinal não foi a mulher que resolveu fugir com ele? – Malaquias sentado na ponta da mesa nada dizia. Sempre fora assim. Caladão. Sorriso? Ninguém viu. De onde veio e o que fazia para sobreviver era um mistério. Nunca disse uma palavra quando estavam ali em volta da mesa do boteco do Virgílio.  Milico Barbeiro é quem contava que ele chegou uma tarde com uma mochila nas costas e perguntou na Barbearia se alguém sabia de uma casa para vender. – Ali? No Martelo? Um povoado de merda onde Judas perdeu as botas? Milico vendeu seu barraco no fim da rua. A única do povoado.

                        O Zé Povinho ficou de olho em Malaquias que não deu bola para ninguém e meteu a cara no seu barraco. Sozinho deu uma melhorada. Comprou umas taboas e fez seus móveis. Claro ninguém tinha visto, pois ele nunca convidou ninguém para ir lá. As tardes costumava ir ao Bar, melhor ao boteco do Virgílio e tomava uma ou duas cervejas. Não bebia cachaça. Mal escurecia ia embora. As comadres diziam que ele ficava sentado na porta do barraco com um lampião a gás lendo. O que ele lia? Ninguém sabia. Interessante de vez em quando ele desaparecia. Cinco ou dez dias fora. Sumia e ninguém via quando ele ia ou chegava. Parecia um fantasma. E se ele fosse um? – Cruz credo, diziam. Martelo era um povoado, ou melhor, município de Lagoa Grande. Ficava a mais de setenta quilômetros de distância. Nunca recebeu nenhum beneficio, mas se orgulhavam de nunca terem pagado o imposto da prefeitura.

                     - Por favor, Malaquias, não me mate! Eu juro por Deus que lhe pago o dobro! – Malaquias o olhou bem nos olhos. Não tinha volta, não tinha perdão. Quando Zózimo pedia e pagava Malaquias não discutia. Nem conversou com Bodoin. Não tinha o que falar. Meteu-lhe dois balaços entre os olhos. Morreu na hora. Ele gostava disto. Morte sem dor dizia para sim mesmo. Nunca perguntava o que o outro fez. Não lhe interessava. Contrato é contrato e tem de ser respeitado. Para falar a verdade não gostava do Zózimo. Homem falso, sem palavra, sorriso de idiota, mas não era nada disto. Malaquias sabia que ele cumpria ordens do Bicheiro Castanha. Homem rico. Dono de todas as bancas no Estado. Quando alguém resolvia entrar sem ser convidado ou então falasse o que não devia Malaquias era chamado.

                       Malaquias não gostava do seu passado. Nasceu num puteiro. Sua mãe morreu jovem de doença venérea. Dona Marquesa foi quem o criou. A dona da boate. Aos quinze anos se mandou. Caiu no mundo. Sofreu poucas e boas. Com dezesseis matava para roubar. Fora preso algumas vezes. Sendo menor de idade era sempre solto. Resolveu crescer no mundo do crime. Ficar matando atrás de uma esquina por cem ou trezentos reais era muito pouco para ele. Foi Zózimo que lhe ofereceu o primeiro contrato. Não escrito é claro. – Olhe Malaquias já dizia a Amanda Rodrigues que ninguém transforma um demônio em um anjo, mas um anjo pode virar demônio facilmente e deu belas gargalhadas. – Malaquias não entendeu. Mas ele sabia que um dia teria de matar o Zózimo. Ele sabia demais de sua vida. Seu primeiro trabalho lhe rendeu dez mil. A partir daí não aceitava nada por menos de vinte. Matou um cara na divisa com o Paraguay por cem mil reais. O cara era o delegado de lá.

                       Não podia morar na capital. Seria perigoso para ele. Um dia passou por Martelo. Era o lugar ideal. Disse ao Zózimo que quando precisasse dele enviasse uma cartinha para sua caixa postal. Bastava escrever: - Saudades de você amigo! - Caixa Postal? Disse o Zózimo. – Isto mesmo, em Lagoa Grande. – É lá que você mora? - Não, mas passo lá uma vez por semana. Zózimo não perguntou. Sabia que Malaquias não ia dizer mais nada. Malaquias podia ter feito uma casa enorme. Nada disto. Se fizesse despertaria suspeita. Ele lembrou-se de um matador que conheceu que disse para ele – Malaquias, um poeta Charles Caneia disse um dia - O que você chama de coincidência, sorte e azar é à maneira de Deus ou do Demônio se manifestar. Lembre-se a vida é um demônio disfarçado de um lindo anjo mal! Malaquias entendeu o recado.

                          Teve uma tarde que a mesa no Boteco do Virgílio tinha mais de oito cachaceiros. Até o Neco o padeiro da cidade metido a santo apareceu. Encheu Malaquias de pergunta. Malaquias não disse nada. Saiu do boteco e foi embora. Todos em volta da mesa se assustaram. – Neco! Não se faz perguntas assim! – Porque não? Porque você não o conhece! – Neco foi para sua casa preocupado. Caralho! Porque não fiquei de boca fechada? A rua estava deserta. Era assim o Martelo. Fazer o que a noite? A luz fraquinha nem iluminava onde passava. Não tinha cinema nada. Só o boteco do Virgílio. Uma sombra passou por ele. Sentiu um cano de revolver na nuca. – Se você um dia me perguntar mais alguma coisa, vai fazer companhia ao Demônio nas prefundas dos infernos! Neco se borrou todo. Gemeu baixinho pedindo a Deus que o socorresse. Não viu ninguém perto dele. O cara era uma alma do outro mundo.

                           Ele estava ali na sala onde ela morava. Nunca tinha visto, nem sabia quem era e nem queria saber. Zózimo lhe dera o dinheiro e o endereço.  Só pediu que cortasse sua garganta e lhe disse para nunca tentar um homem como o Bicheiro Castanha. Malaquias não gostava de matar mulher. Matou algumas para roubar, mas achava que estava se defendendo. Não discutiu com Zózimo. Não era do seu feitio. Matador é assim. Recebe o pagamento, mata e esquece. Chegou cedo a casa dela. Vazia. Só a noite ela chegou. Ficou preocupado. Parecia ser uma menina. Não tinha mais do que dezesseis anos. Cabelos dourados. Raquítica, um metro e meio no máximo. O que Zózimo esperava de uma menina como essa? O que ele fez para ser apunhalada no pescoço? Ele sabia que não devia perguntar e nem fazer conjecturas. Um matador não faz isto. – Ela o viu com um punhal na mão. Seus olhos arregalaram. – Foi o Zózimo quem mandou?  Pelo amor de Deus! Não me mate. Juro que farei tudo que você quiser!

                             Pela primeira vez em sua vida Malaquias não soube o que fazer. Devia meter-lhe logo o punhal no pescoço, ver o sangue espirrar e ela berrar de dor e dar o recado de Zózimo. Foi pago para isto. Pegou-a pelos cabelos. Ela não gritou mais. As lagrimas secaram seus olhos.  – Só disse o seguinte: Vou me encontrar com você no inferno! Espero você lá! – Malaquias sentado na porta de seu barraco não sabia se estava arrependido ou não. Ela chegou à porta e disse que o jantar estava pronto. Morava com ele, mas não era sua mulher. Não deitava com ele. Uma menina. Isto ele não faria nunca. Sabia que agora estava marcado para morrer. Zózimo não iria perdoar. Iria remover céus e terras até encontrá-lo. Não estava arrependido. Poderia ter fugido dali e se embrenhado em matas do Mato Grosso ou do Pará. Quem sabe algumas das Guianas seria um paraíso para ele morar.

                             Sabia que tinha uma boa reserva financeira. Mais de oito milhões de reais. Uma fortuna para ele viver bem o resto da vida. Mas iria ficar ali e esperar o Zózimo. Ele viria pessoalmente. Seria sua “vendeta” ele sabia que era normal. Matador cumpre ordens caso contrário outro matador acaba com ele. – Uma tarde falou com a menina dos cabelos dourados: - Zózimo vai vir atrás de nós. Não vou fugir. Se você quiser ir embora fique a vontade. – Ela nada disse. Continuou ali ao lado dele. O Povoado de Martelo notou a presença dela. Mesmo não saindo de casa. Os comentários e buchichos se multiplicaram. – Uma menina! Uma menina! Ele é um pedófilo! – Mas ninguém dizia isto para ele. Sabiam o que acontecera com o Padeiro Neco. O cara era um perigo. Carne de pescoço! Alguns diziam que ele era o Demônio escondido ali para pegar um ou outro do povoado.

                              Era cedo quando uma BMW 760 LI entrou no povoado. Parou em frente ao boteco do Virgílio. Um homem atarracado de terno preto desceu e perguntou se alguém conhecia o Malaquias. Virgílio tremeu. Fazer o que? Mostrou onde era a casa. O carro foi em frente e parou no local indicado. Desceram quatro homens de terno. Chapéu atolado na cabeça para ninguém ver seus rostos. Ficaram lá uns dez minutos e saíram. Voltaram. No boteco Virgílio disse não saber onde ele tinha ido. Costumava pescar na curva do rio. Lá foram eles. Duas ou três horas se passaram. Ouviram barulhos de tiros. Muitos. Meia hora depois o carro passou na rua principal de Martelo. A menina loira dos cabelos dourados dirigia. Mais ninguém. O que houve? Ninguém sabia e ninguém nunca perguntou. Dois dias depois eles viram Malaquias e a moça novamente na casinha.

                                O sossego durou pouco. O que aconteceu ali seus oitocentos habitantes tiveram mil histórias para contar. Eram mais de quinze veículos. Eram Ranger Rover, Toyota, SUV de todos os tipos. Cheias de homens de terno e mal encarados. Fecharam as portas da cidade. Ninguém sai ninguém entra. Já sabiam onde Malaquias morava. Nem bem dois desceram de uma SUV e cada um recebeu uma condecoração no peito. Balaços sangrentos sem retorno. Passaporte para o inferno! Um tiroteio infernal. Ao amanhecer a rua cheia de mortos. Os engravatados jaziam ali na poeira do Martelo, como se fossem festejar o maior baile funk de todos os tempos. Claro junto aos capetas e demônios no lugar merecido. Um silêncio enorme abateu sobre todos. Ninguém se mexia. Lá no inicio da rua vinha Malaquias e a moça dos cabelos dourados.

                              Nenhum deles falou nada. Malaquias com a mesma mochila que chegou ali um dia. A moça sem nada na mão. Quando sumiram na curva da estrada foram contabilizar os mortos. Mais de vinte e uns dez ainda vivos precisando de socorro médico. Ninguém se mexeu. Era como estivessem mancomunados com Malaquias. Deixaram-nos morrer a mingua ali no meio da rua sob um sol escaldante e inclemente. Martelo ficou famoso. Repórteres, televisões, jornais até gente do exterior. – O que foi? Como foi? Como era Malaquias? E a moça dos cabelos dourados? Ninguém abriu a boca. Delegados, detetives, homens do serviço secreto e nada. Não conseguiram arrancar um naco deles. Todos juravam que não sabiam de nada. 

                              Naquela azáfama todo um homem parecia estar misturado à multidão. Ninguém o reconheceu. O Bicheiro Castanha era assim. Invisível para todo mundo. Olhou seus homens mortos. Paciência. Não tinha amizade com ninguém. Para isto foram bem pagos. Agora mais de trinta homens morrerem nas mãos de um só? Uns bostas isto sim! Quem era Malaquias? Tinha parte com o demônio? Bem ele agora não podia fazer nada. Sabia que dificilmente os encontraria novamente. Esta história que mundo é pequeno para nos dois é balela.  Tudo bem para Malaquias. Ele foi mais esperto, mais valente, mas não sabe com quem se meteu. Ele sabia que mais cedo ou mais tarde Vanessinha iria cortar sua garganta como fez com sua filha Naná. Não conseguiu a vingança que queria, mas tudo bem. Vanessinha um dia ia ter o que merecia. Seus quinze anos não iriam enganar por muito tempo e o tempo? Ah! O tempo. Ele sempre foi o aliado dos calmos, pois os apressados não sabem que o melhor é comer devagar, deixar a carne na brasa até ficar no ponto.

                             Como era mesmo o que dizia Abraham Lincoln? Ah! Sim, ele dizia que você pode enganar uma pessoa por muito tempo; algumas por algum tempo; mas não consegue enganar a todas por todo o tempo. As surpresas da vida estão em cada esquina. E olhem ninguém nunca mais soube de Malaquias e Vanessinha. A loira dos cabelos dourados. Nem mesmo aqueles jacarés do Lago do Suplicio na divisa com a Venezuela souberam de quem era as carnes pudentas e brancas que foram jogadas para eles. Nem repararam nos cabelos dourados cor de mel!                

Quando eu morrer.

Quando eu morrer e no frescor de lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixa-me em paz na minha quieta rua...
Nada mais quero com nenhum de vós!

Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em vão...
Que lindo a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Expressão!...

Eu levarei comigo as madrugadas,
Pôr de sóis, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas...

E um dia a morte há de fitar com espanto
Os fios de vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra do seu negro manto...

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O doce sorriso da Primavera.



Quero apenas cinco coisas... 
Primeiro é o amor sem fim 
À segunda é ver o outono 
A terceira é o grave inverno 
Em quarto lugar o verão 
A quinta coisa são teus olhos 
Não quero dormir sem teus olhos. 
Não quero ser... Sem que me olhes. 
Abro mão da primavera para que continues me olhando.


O doce sorriso da Primavera.

                    Não sei como fui aparecer ali. Acho que foi o acaso. "Nada acontece por acaso. Não existe a sorte. Há um significado por detrás de cada pequeno ato. Talvez não possa ser visto com clareza imediatamente, mas sê-lo-á antes que se passe muito tempo." Dizem que os acasos são importantes em nossas vidas. Lá estava ela, um sorriso que me conquistou na hora. Não era linda, nada disto, nem alta nem baixa. Cabelos castanhos nos ombros ondulados. Duas mechas insistiam em cair em seus olhos e ela os fazia voltar ao lugar de uma maneira encantadora. Ela brincava com seu irmãozinho de dois ou três anos. Era um parque de diversões. Nunca o vi na cidade. Também nunca fui de ir a parques de diversão. Ela não teria mais que catorze anos. Vestia simplesmente uma saia de cambraia, chinelos de dedo, nem um colar nem um anel. Fiquei paralisado. Ela era um ímã que me atraia. Nunca uma jovem me atraiu assim.

                     Nunca fui um bom conquistador. Nunca. Era reservado. Sempre tinha medo das moças da minha idade ou não. Com quinze anos ainda não tinha namorada. Olhava uma ou outra, mas aproximar? Chegar perto? Nunca. Diferente do meu primo Cesar que diziam ser um “Don Juan”. Nenhuma mocinha da cidade deixou de lhe dar um “beijo”. – Olhe Vadico, dizia ele, existem quatro questões na nossa vida. (Um) O que é sagrado? (Dois) De que é feito a alma? (Três) O que vale a pena ser vivido e qual o motivo pelo qual vale a pena morrer? (Quatro) A resposta meu amigo é a mesma para todas as questões – O amor! Se um dia você amar uma mulher tudo isto vai valer a pena. Assim quando acontecer você vai ver que essa seria uma boa ocasião para mentir, mas não esqueça, a verdade é um hábito terrível.

                    De onde ele tirava estas palavras? Afinal estávamos com quinze anos e eu mal lia um livro por ano. Lembro que na Praça Doutor Gervásio quando ele chegava à moçada ficava prá lá e prá cá se mostrando para ele. Mas sabia que se ele escolhesse alguma seria apenas um beijinho e mais nada. Afinal uma época onde a palavra “sexo” era tabu. Nenhuma moça deixaria que seu namorado desse mais que um beijinho. Sabia que se fosse diferente os comentários logo iriam surgir e ela ficaria falada. Fiquei ali olhando para ela. Vontade de me aproximar, mas e o medo? Olhe, eu me considerava corajoso. Enfrenta nas minhas brigas de juventude os mais valentes da cidade. Mas mulheres? Estas me faziam tremer.

                  Enquanto ela ficou ali com seu irmãozinho eu também fiquei. Na minha mente lá estava ela com seu sorriso e esta foto invisível ficou gravado em minha mente para sempre. Uma hora eu fiquei ali e só um dia para saber que estava apaixonado. Sei que por toda a minha vida nunca mais iria esquecê-la. Quando ela se foi deveria ter ido atrás para saber onde morava. Não fui. Voltei no parque nos dias seguintes. Ela não mais apareceu. Que dor eu sentia no meu coração! Seria isto o amor? Com quinze anos não seria a ilusão que nunca tive? Eu não era um bom católico, mas o colégio nos obrigava a uma vez por ano confessar e comungar. Confessei com o Padre Nonato. No domingo lá estava eu. Meus colegas de classe achavam aquilo chatíssimo, eu não. Afinal não precisamos lembrar-nos de Deus? Não digo que gostava de perder a manhã de domingo das peladas do campinho do Seu Nonô.

                 A missa começou e então eu a vi novamente. Um véu sobre a cabeça. Um vestido branco e uma sapatilha cinza. Os cabelos presos por um lacinho verde e meu Deus! Mais linda ainda. Meu coração batia forte. Quando chegou a hora da comunhão ela estava na minha frente. Ela me olhou e sorriu. Minhas pernas ficaram bambas. Queria ficar olhando para ela o tempo todo, mas ali na igreja? O que Deus iria pensar? Quando a missa terminou não mais a vi. Passou-se um ano quando a encontrei novamente. Na fila do Cine Marrocos. Estava em cartaz os Dez Mandamentos. Uma fila enorme. Todos na cidade querendo assistir, pois seriam duas sessões por dia e o filme ficaria só por uma semana. De novo não consegui meu intento. Falar com ela. Ela entrou e a porta do cinema fechou. Lotação esgotada. Só amanhã! Fiquei sentado na calçada esperando a sessão terminar. Quase três horas. Todos saindo e eu olhando. Desta vez iria segui-la e saber onde morava. Perda de tempo. Ela parecia fumaça a correr com o vento.

                 Desta vez ela sumiu para sempre. Fiz dezesseis, dezessete, dezoito, vinte e fui trabalhar na cidade grande. Durante todo este tempo ela não saia da minha mente. Caramba! Pelo menos eu devia saber seu nome. Mas sempre receoso de um “fora” não me aproximei dela. Conheci algumas garotas, saía com elas, mas nenhum compromisso. Nenhuma fez o meu coração bater. Não tinha jeito. Quatro anos se passou desde a última vez que a vi. Nunca em tempo algum há esqueci. Não riam, por favor, mas fiz um desenho dela em uma folha de papel cartolina. Nunca fui desenhista. Mas demorou seis meses para terminar. Comprei uma linda moldura. A pendurei na saleta do pequeno apartamento onde morava com mais dois amigos. Quando chegava do serviço olhava o quadro e dizia – “Boa tarde amor da minha vida”, quando saia dizia – “Até mais tarde amor da minha vida”. Calma, não sou um psicopata. Nada disto. Apenas um homem apaixonado.

             De novo aconteceu. Na Avenida Angélica ao esperar o sinal abrir lá estava ela. Do outro lado da rua. Não era mais um menino. Não era mais aquele que tinha medo das meninas. Desta vez não iria me escapar pensei. Fui atravessar a rua correndo e quase fui atropelado. Passou cinco ônibus. Quando consegui atravessar ela tinha sumido. De novo! Que coisa meu Deus! Era meu destino? Fui para casa triste e pensando o que a vida me reservara. Tinha um bom emprego. Se não fosse tão novo já podia ser um gerente. Isto foi meu Chefe quem disse. Pediu-me se podiam ficar uns quinze dias na filial. Teria que dormir lá. Em Campinas. Mais de uma hora da capital. Não dava para ir e voltar. O gerente da filial ia sair em férias. Claro que sim. Alem dos dois amigos do apartamento não tinha mais ninguém. Campinas não era uma pequena cidade. Quase três milhões de habitantes. Alojei-me em um pequeno hotel próximo onde trabalhava. Era a empresa que iria pagar.

              Cinco dias depois fui chamado pelo diretor. Gente boa. Educado. Pediu-me se eu podia entrevistar algumas candidatas para a vaga de almoxarife na fábrica. Iria entrevistar homens e mulheres. Deveria escolher três. Ele iria decidir o melhor. Achei interessante. Nunca pensei em fazer isto. Agora com vinte e três anos seria uma nova experiência. Olhei pela janela o pátio da fábrica. Uma multidão na fila. Mais de cem pessoas. Fiquei maluco. Não pensei que fosse assim. Chamei três funcionários do escritório. Separem só quem tem a última série e disponibilidade para horário noturno. Sobraram vinte cinco. Pedi à funcionária que levasse um de cada vez na sala de reuniões. No inicio ainda motivado por ser a primeira vez depois cansado. As mesmas coisas. As mesmas promessas. O mesmo olhar havido e choroso para conseguir a vaga.

               - Quantos ainda têm? Perguntei. Só uma. Graças a Deus! Estava soberbamente cansado. Já sabia quem seriam os escolhidos. Separei cinco e depois iria reduzir para três. Iria entrevistar o ultimo só pró-forma. – A candidata entrou. Não era possível! Meu Deus! Era ela. Ali a menos de dois metros. Linda. Aqueles cabelos cacheados. Transformara-se em uma bela mulher. Perdi a fala. Perdi o rumo. Tentei falar. A voz não saia. Parecia o jovenzinho do passado. Vergonhoso com seu primeiro amor. Engasguei. Ela sorria. Não dizia nada. Não podendo falar peguei sua Carteira Profissional. Comecei a folhear. Mas estava tremendo. Acho que ela tinha percebido. Levantei os olhos. Os dela fixos no meu. Falou com voz doce, voz de anjo. Mais encantado fiquei – Preciso trabalhar. Tenho um filho para cuidar!

               Filho? Não era seu irmão? E agora? Fazer o que? Tinha que ajudá-la, mas não conseguia entrevistar. Pedi para voltar no dia seguinte. Pela manhã. Bem cedo. Ela aquiesceu. Levantou-se. De cabeça baixa agradeceu e foi saindo. Não resisti. Perguntei se poderia acompanhá-la até o portão. Ela estranhou. Não disse nada. Fui com ela ao seu lado. Uma pequena brisa trouxe para mim o seu perfume. Ficou para sempre em meu corpo. No portão dei adeus. Ela riu. Não é até amanhã? Ri sem jeito. Claro que sim. Fiquei ali olhando até ela desaparecer na esquina. No outro dia não apareceu. Fiquei andando de um lado a outro esperando. Olhando o pátio pela janela. Fui varias vezes ao portão nada. Ela desapareceu como uma sombra na escuridão da noite. Fiquei desnorteado. Fizera planos. Seria admitida. Iria convidá-la a jantar. Sair, passear. Fazer uma pic nic com ela e seu filho. E depois casar...

             Planos que nunca se cumpriram. Sonhava com ela. Rezava para ela voltar à fábrica. Não voltou. Voltei para São Paulo triste e acabrunhado. A menina, ou melhor, a mulher tinha me enfeitiçado. Como achá-la em Campinas? Quase três milhões de habitantes. Todo sábado e domingo ia para lá. Rodava rua por rua. Nada. O tempo passou. Muito tempo. Acho que cinco anos. Pediram-me para fechar uma compra de uma pequena mercearia no Bairro Vila das Mercês em São Paulo. Era bem considerado nesta área. Precisavam do terreno da mercearia. Iriam construir um grande Shopping ali. A mercearia ficava bem no meio do terreno já comprado. Disseram-me que iria enfrentar o maior desafio da minha vida.

             Quarta feira. Meio de semana. Melhor dia para fechar negócio. Deram-me um valor máximo. O dobro do que ela valia. Precisavam do terreno. Mas devia começar por baixo. Parei o carro bem em frente. A mercearia vazia. Um terreno pequeno, mas atrapalhava em muito os planos da empresa. Entrei. Só um cliente. Perguntei pelo proprietário. Disseram-me para aguardar. Estava vendo um livro que estava à venda. Um Amor de Verdade. Da escritora Zibia Gasparetto. Já tinha ouvido falar na escritora. Espiritualista. Diziam ser médium. Conhecia pouco da nova doutrina. O livro me chamou a atenção pelas poucas linhas que li. O livro versava sobre viver uma verdadeira experiência amorosa. Dizia que seria um dos maiores prazeres da vida. Explicava que gostar é sentir com a alma, mas expressar os sentimentos depende das ideias de cada um. Condicionamos o amor as nossas necessidades neuróticas e acabamos com ele. Deus meu! Seria eu?

             Alguém atrás de mim me cumprimentou. Boa tarde Senhor! Era a voz dela. Impossível. Virei rápido. Ainda linda. Ainda com aquele sorriso encantador. – Ah! É o Senhor? – Sim sou eu. Esperei você no dia seguinte – Não pude ir. Meu filho adoeceu. Corremos para o pronto socorro. Ficou entre a vida e a morte por dois meses. Estava desesperada. Quando melhorou desisti de voltar. Sabia que a vaga não iria mais existir. Voltei para São Paulo. Minha Tia me acolheu. Era dona desta mercearia. Morreu ano passado. Deixou tudo para mim. E agora? E agora? Negociar com ela? Eu a amava e ela não sabia disto. A amei desde o primeiro dia da minha infância nos meus inocentes quinze anos. Nunca a esqueci. Agora em caminhos opostos. Tentei ser delicado. Apresentei-me. Antonio Marcus, gerente da Rede de Super Mercados Brasil.

             Senhor Antonio Marcus, sei de sua pretensão. Não quero vender. É tudo que tenho. Meu filho logo vai para a faculdade. Não tenho outros ganhos. – Seu nome? Perguntei. – Renata. Renata Ambrosio. – Renata. Que lindo nome. Quase quinze anos para saber. Quinze anos imaginando como devia ser. Pode me dar à honra de ir jantar comigo hoje? Quem sabe poderemos nos entender. Garanto que não vai se arrepender. Ela ficou em duvida, mas aceitou. Oito e meia da noite. Morava nos fundos da mercearia. Oito e vinte. Estava na porta. Desta vez ela não iria me escapar. Alí estava o sonho da minha vida. Esperei muitos anos. Minha chance agora. Oito e meia, nove, nove e meia. Desci do carro. Bati no portão ninguém atendeu. Tudo escuro. Meu Deus! De novo? De novo não. Esperei dar dez horas, onze, meia noite. Se necessário iria passar a noite ali.

              O dia clareou. A mercearia não abriu. Liguei para a empresa. Expliquei. Deram-me carta branca. Dez da manhã. Onze duas da tarde. Alguém chegou ao portão. Era uma senhora. Corri. Perguntei. – Dona Renata levou correndo seu filho ao Hospital das Clinicas. Ele ficou ruim de uma hora para outra. Tem uma doença no pulmão. Sem cura disseram aos médicos. Sai em desabalada carreira para as Clinicas. Grande. Um hospital enorme. Seria como achar uma agulha no palheiro. Procurei uma enfermeira. Foi educada. Encaminhou-me a secretaria. Tinha um sistema de som. Mas não precisou. Achou no computador onde ela estava. Fui correndo. A encontrei no corredor chorando. Seu filho estava mal. Liguei para o diretor. Expliquei. Ele conhecia o Diretor do Hospital. Ligou para ele. Dois dias depois ele saiu da UTI.

          Ela vendeu a mercearia. Nunca mais sai do lado dela. Com o dinheiro recebido da venda da mercearia Levou o filho para um tratamento no Hospital Johns Hopkins em Baltimore. Diziam ser o melhor para Neurologia e Neurocirurgia. Tirei férias. Fui com ela. Lá a pedi em casamento. Ela riu. Há tempos que não ria. Voltamos vinte e cinco dias depois. Seu filho fora operado e passava bem. Se tratasse como foi explicado poderia viver por muitos e muitos anos. Casei com Renata. Sou feliz. Acredito que ela também. Robertinho eu o considerava como meu filho. Nunca perguntei quem era o pai dele. Não era importante para mim. Dezesseis anos e eu o amava. Não sou rico. Ainda tenho responsabilidade na empresa. Agora sou Diretor Comercial. Renata nunca mais vai sair de perto de mim. Não precisa trabalhar. Mas dei inteira liberdade se ela quisesse. Eu a amo e sempre a amei em todas as minhas vidas passadas. O nosso amor era um amor de verdade. Quando chegava a primavera eu me lembrava sempre do primeiro dia que a vi. Eu chamava aquele dia como o doce sorriso da primavera.

          Desculpem. Tenho que ir. Renata me espera. Combinamos de ir passar o fim de semana no litoral. Tenho uma casinha lá em Ilhabela. Desta vez iremos em quatro. Quatro? Sim Robertinho pediu para levar sua namorada. Agora seria assim. Eu, Renata, Robertinho e Alessandra. Quatro felizes e quatros amores naquela primavera que chegava. “Um amor de verdade para sempre”.

Nunca eu tivera querido
Dizer palavra tão louca
Bateu-me um vento na boca
E depois no teu ouvido
Levou somente a palavra
Deixou ficar o sentido

O sentido está guardado
No rosto com que te miro
Nesse perdido suspiro
Que te segue alucinado
No meu sorriso suspenso
Como um beijo malogrado

Nunca ninguém viu ninguém
Que o amor pusesse tão triste
Esta tristeza não viste
E eu sei que ela se vê bem
Só se aquele mesmo vento
Fechou teus olhos também
Cecília Meireles

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Hacienda Rosa... de Cimarron.



Que Amor Fez sem Remédio, o Tempo, os Fados? 

Depois de tantos dias mal gastados, 
Depois de tantas noites mal dormidas, 
Depois de tantas lágrimas vertidas, 
Tantos suspiros vãos vãmente dados, 

Como não sois vós já desenganados, 
Desejos, que de cousas esquecidas 
Quereis remediar mortais feridas, 
Que amor fez sem remédio, o tempo, os Fados? 

Se não tivéreis já longa exp'riência 
Das sem-razões de Amor a quem servistes, 
Fraqueza fora em vós a resistência. 

Mas, pois por vosso mal seus males vistes, 
Que o tempo não curou, nem larga ausência, 
Qual bem dele esperais, desejos tristes?


Hacienda Rosa... de Cimarron.

                 - Deveria ser o nome que eu coloquei quando meu pai morreu e eu assumi a fazenda. De onde vim? Não importa. Não é isto que vais escrever. Coloquei Fazenda Santo Eulálio. Mas ele com aquela alegria, com aquele olhar que me conquistou no primeiro minuto que nos conhecemos, pediu para mudar. Eu ria dele. Mudar para que meu amor? Para ficar igual a você. Hacienda Rosa... de Cimarron. Porque não? Pensei. Afinal ele era o homem da minha vida. O amei no dia que o conheci e até hoje nunca deixei de amá-lo. Não tive outro e nunca terei. Ele não tem substituto. Foi único. Uma paixão que durou muito tempo mas ele se foi. Chorar hoje não choro mais. Ele era um amante perfeito. Vivia sorrindo, cantava e olhe tinha uma linda voz. – Hacienda e Cimarron disse, foi de um livro que tinha lido.

                  Disse-me que Cimarron significava Cavalo selvagem. Eu sou assim? Ria dele. Melhor completou quem sabe os valentes selvagens que fugiram para a montanha dos pássaros dourados? Comprou uma cópia do livro Cimarron e me trouxe para ler. Uma história que me emocionou muito. Quando à placa foi colocada no novo pórtico que ele mesmo fez com as próprias mãos, olhou de todos os ângulos, deu um belo sorriso e tirou a foto do século com aquela máquina que dava um apito e uma luz forte pipocando. Claro, em preto e branco. Em 1921 poucos tinham uma melhor que aquela. Eu já estava com vinte e um anos. – Não se assuste. Claro que tenho mais de cento e dez anos. E ela ria. E como ria!

                    Eu estava com ela a mais de dois meses. Não sei como me descobriu no meu escritório diminuto no Bairro da Penha em São Paulo. Eu publiquei no meu jornal que fazia trabalhos de biografia e como “Biógrafo” já tinha escrito a vida de muita gente. Ela queria escrever sua história. A principio ir para aquele fim de mundo não me entusiasmou muito. Mas o que me ofereceu não era de se jogar fora. Aceitei. Pedi demissão do meu emprego no Jornal A Voz do Brasil e parti. Lembro que quando cheguei a Vale Feliz todos se assustaram comigo. Claro, cheguei de terno cinza, uma gravata vermelha com bolinhas azuis e somente uma valise de mão, pois achei que não ficaria mais que dez dias. Fui de ônibus. Tinha um carrinho mas não resolvi arriscar. Uma mulher como ela não teria muito a contar. Claro não foi ela quem me contratou. Foi através da firma Astolpho Advogados da capital. Eu já sabia quem eram. Famosos e reconhecidos como um dos melhores escritórios de advocacia do país. Disseram que seria por dois meses. Mais de cem mil reais para escrever a história dela. Puxa! Valia tanto assim?

                   Na cidade fiquei surpreso. Poucos a conheciam de perto. Fiz dela uma fazendeira bronca e pé de chinelo. Seu nome era conhecido de norte a sul da cidade e redondezas. Mas só o nome. De perto poucos tiveram esta honra. Diziam que seus avós já a conheciam antes de morrer. Não ia a cidade desde 1946. Desde que marido faleceu. Mais de sessenta anos. O farmacêutico Nando me disse que ela tinha ido lá com ele nesta data para assistir um foguetório da virada do ano. Foi uma festa na cidade a presença dela. Sempre foi motivo de especulação. Todos não tiravam os olhos dela e o padre nunca se queixou. Na igreja não faltava nada. Disseram-me também que era riquíssima. De onde veio o dinheiro ninguém sabia. No banco da cidade não tinha nada. Não criava gado e nem tinha nenhuma plantação. Sabiam que lá na Hacienda havia jagunços prá todo lado. Ninguém entrava sem permissão. Nicodemos um "Velho" que encontrei na praça me disse que ela era linda. Uma mulata para ninguém botar defeito Não soube descrevê-la. – Faz tempo meu amigo, muito tempo.

                  Especulei o máximo que pude a respeito dela na cidade. Mas quase não sabiam de nada. Não entendia como uma mulher que morava ali há tantos anos ninguém a conhecia? Para dirimir dúvidas fui à delegacia.
Dr. Manuel o delegado, um homem educado pouco me contou. Falou-me que há quinze anos quando chegou foi fazer uma visita. De cortesia. Não passou da porta. Não há viu. Um jagunço de nome Dente Cariado não o deixou entrar. Nunca mais voltou. Procurei um taxi que me levasse até a Hacienda. Ninguém quis me levar. Pio XII soube que queria ir lá. Ofereceu-me sua charrete. Disse-me que o chamavam assim por se parecer com o “papa que morreu” Necas. Nem passava perto. Risos. Viajamos por mais de quatro horas. Estrada poeirenta. Tão logo ao passarmos pelas corredeiras do Bom Pastor ele me disse que já eram terras dela. Agora sentia que tudo mudou. A estrada era forrada de pedras bem postadas. Sem poeira, dos dois lados plantaram Ipês de todas as cores. Achei que quando florissem seriam um espetáculo digno de se ver. Andamos quase duas horas e meia até chegar ao pórtico da entrada.

                     Era lindo o pórtico. Enorme. Cavaram um fosso para parecer um castelo. Cortaram a mão duas toras enormes. Escrito a fogo – Hacienda Rosa... De Cimarron. Dezenas de casinhas pequenas que deveriam ser dos colonos começaram a aparecer. Limpas, com cercas brancas e a maioria com muitas flores. As crianças eram educadas. Não se viam nenhuma delas sem camisa, sujas ou descalças. Corriam de um lado ao outro para me ver. Os colonos tiravam o chapéu com minha passagem. Parecia que estava entrando em outro mundo. Já estive uma vez nos Urais, atravessei as cordilheiras e ao norte do Cazaquistão fiquei dois dias na ilha de Nova Zembla. Lembrei que lá os habitantes abaixavam a cabeça com nossa passagem e as crianças corriam para beijar as mãos. Mas não trago boas lembranças de lá. Principalmente quando atravessei ao sul dos Urais o rio Samara. Mas esta é outra história que não vou contar aqui.

                     Ao aproximarmos da Hacienda dois pistoleiros vieram me receber. Quem os visse não iriam dizer ser pistoleiros. Todos vestidos a caráter de terno e gravata e o indefectível quarenta e cinco na cintura. Já sabiam da minha chegada. A Hacienda era linda. Enorme. Parecia uma daquelas onde viviam os donos de Capitanias Hereditárias com todo luxo e conforto como se estivessem em algum palácio europeu. Era tão grande que calculei ter mais de vinte quartos e muitas salas. Na escada de acesso a varanda da casa um homem enorme, cabelos longos prateados, botas de cano longo, um vasto bigode e sem barba, mas com uma quarenta e cinco pendurada no quadril veio me receber. Também a caráter. Os ternos pareciam iguais. Bem vindo Senhor. Vamos entrar. Eu sou o Dente Cariado. Dona Rosa logo que puder vai encontrar com o Senhor. Deixe-me acompanhá-lo até os seus aposentos. Dente Cariado? Só se ele tivesse dentadura, pois seus dentes eram brancos e alvos.

                  Passei por duas salas, e vi com espanto duas enormes escadarias que brilhavam ali naquele lusco fusco da manhã. O chão de mármore era ou pelo menos parecia cravejado de pedras preciosas. Os moveis deu para ver eram no estilo Luiz XV. Como tinha algum conhecimento de móveis antigos só uma estante que ali estava tinha certeza que precisaria trabalhar por mais de vinte anos para comprar uma. E os quadros que vi na parede? Sem parecer esnobe mas lá estava um Van Gogh, Retrato de Dr. Gachet. Vi também um Cézanne que não lembro o nome, O Bau au moulin de la galete de Reonir. Mar au Chat de Picasso e para completar o Le massacre des innocents de Rubens. Incrível os poucos que vi valeriam milhões e milhões de dólares.

                  Meu quarto caberia tranquilamente cinco casas iguais a que eu morava. Enorme. Uma cama no estilo renascentista italiana, enorme gigante mesmo e muito macia com decoração e paredes forradas de tecido. Nossa nunca vi tanto luxo. Como uma mulher teria condições financeiras para manter uma Hacienda como aquela? Para que? Não recebia visitas e pelo que soube eu fui um dos poucos que adentrou ali nos últimos quarenta anos.                      Fiquei dois dias perambulando pela fazenda. Ela não apareceu. Tinha livre acesso a tudo. Adorei a Capela ao lado da Casa Sede. Parecia ter sido forrada a ouro e cheia de pedras preciosas. As refeições fazia sozinho. Sempre acompanhado de longe por Dona Nair e um jovenzinho vestido a caráter que servia como os melhores garçons do mundo. Deliciosas as sopas que ela fazia. Dona Nair cozinhava divinamente. Quase não via Dente Cariado, mas sabia que ele me observa o tempo todo. Já estava me cansando daquilo. Fui ali para trabalhar e até agora nada.

                 Na manhã do sexto dia bateram na porta do meu quarto. Abri. Dente Cariado solenemente me disse que Madame Rosa iria me receber as onze em ponto no Salão de Cristal. Ufa! Parece que iria começar minhas tarefas para qual fui contratado. Tomei um banho, coloquei meu melhor terno e pus uma gravatinha borboleta com desenhos de flor de lis. Desci as escadarias e logo Dente Cariado me pediu para segui-lo. Atravessamos duas salas e adentrei em outra enorme. Uma verdadeira biblioteca. Teria ali no mínimo trinta mil livros. Que mulher é essa? Como poderia encontrar tanto luxo e tanta riqueza em uma fazenda do sertão de Goiás? Dente Cariado me pediu para sentar em uma poltrona no canto da parede, de frente a outra bem menor, ambas de madeira de lei pura, forrado com cetim escarlate. Uma musica suave adentrava ao Salão de Cristal. Tentei saber qual seria mas era tão linda que não a identifiquei de imediato.

                  Estava ali inebriado com tudo. Dente Cariado interrompeu minha “mise-en-scène” para anunciar solenemente a Senhora Rosa de Cimarron. Cimarron? Tinha adotado este sobrenome? Levantei-me, olhei para ela, meu Deus! Nunca tinha visto uma mulher assim. Deveria ter mais de um metro e setenta e cinco. Linda e olhe me disse ter mais de cento e dez anos. Não podia acreditar. Seu rosto não tinha rugas, seu cabelo avermelhado estava embranquecendo o que deva um aspecto maravilhoso a todo o seu corpo. Seus lábios grossos e seus olhos negros me colocavam em frente a uma estátua de alguma deusa grega que nunca tinha visto, mas que sem sombra de duvida eu se pudesse a levaria ao Olimpo para ficar junto às demais. Vestia simplesmente. Uma camiseta branca com gola, um lenço azul celeste amarrado ao pescoço e um jeans azul desbotado. Não daria para ela mais que uns cinquenta ou sessenta anos.

                  Cumprimentou-me simplesmente com um sorriso encantador. Quando apertei suas mãos vi uma mão macia sem rugas. Entrou logo no assunto do motivo de me ter contratado. Queria fazer sua biografia. Disse-me que um Diretor de cinema uma vez se encantou com ela. Ele queria por que queria conhecer minha Hacienda. Estávamos em um barco a vapor descendo o Rio Mississipi. Chegou a me pedir em casamento. Ficamos juntos por alguns meses. Em Nova York o deixei. Queria mandar em mim. Não me conhecia. Antes de partir insistiu que escrevesse sobre minha vida. Ia fazer um filme. Achei a ideia interessante. Mando minha biografia. Mas o filme só depois de minha morte. E olhe completou. Acreditando em você, farei um deposito em seu nome de quarenta milhões de dólares que só pode ser retirado após minha morte e com fins específicos para o filme. Não disse mais nada. Não tinha o que dizer. Ela estava me pagando cem mil reais para escrever. E fui ali para isto. Assim começou meus dias com Madame Rosa. Dias que até hoje não esqueço e acredito que nunca mais vou esquecer.

                     Resumindo. Era filha de uma índia com um Capitão português da Bandeira de Borba Gato. Ela foi aprisionada e feita escrava dele. Uma época que ninguém discutia estes atos. Sua mãe morreu quando ela tinha dois anos. Seu pai resolveu deixar a bandeira. Arranchou em Jaciara no sul de Goiás e ali tomou algumas terras para sí. Ela cresceu. Ficou moça. Ainda sem conhecer rapazes e nenhuma cidade próxima. Seu pai a prendia muito. Sua vida mudou depois que ele morreu. Então me contou um segredo que me fez jurar de não contar para ninguém. Deveria constar em sua biografia. Só iriam saber depois de sua morte. Ela deu um lindo sorriso e me disse – Se alguém souber meu amigo, você estará morto no outro dia. E riu novamente. Eu não duvidava.

                   - Meu pai tinha morrido e eu já estava com dezenove anos. Moça ainda sem saber o que fazer. Nossa casa era humilde. Tinha dois quartos uma sala e uma cozinha, mas era uma tapera. Uma noite um trovão anunciou uma enorme tempestade. Sempre tive medo e corri para meu quarto. Um raio entrou pela janela e abriu um enorme buraco no chão. Eu gritava e pedia a Deus para me ajudar. Assim como começou a chuva parou. Olhei o buraco. Enorme. Uma escada apareceu. Isto mesmo. E agora? Chamar quem? Morava sozinha. Não tinha vizinhos próximos. Meu pai me ensinou a plantar, caçar e pescar. Vivíamos assim. Tomei coragem. Com um lampião enorme que tínhamos desci as escadas. Acredito ter descido por meia hora ou mais. Nem sei onde tive aquela coragem. A escada terminou em um enorme salão. Estava iluminado. Luz elétrica? Já tinha ouvido falar mas não conhecia.

                     Notei uma serie de máquinas esquisitas. Sem querer toquei em uma. Uma mulher apareceu na minha frente. Era um fantasma só podia ser. Só depois de muito tempo fiquei sabendo que era uma holografia. Aos poucos ela foi me explicando tudo. Mandou-me colocar uns fios na cabeça. Aprendia rápido. Em pouco tempo aqueles computadores não tinham segredo. Não vou dizer para você tudo que fiquei sabendo deles. Ou seja de onde vieram e para onde foram. Mostrou-me um pequeno túnel. Disse que estava cravejado de diamantes. Sabia o que era um. Meu pai passou uma vida correndo atrás deles. Em alguns meses retirei uns dez. Não precisava de mais. Só aqueles valeriam milhões e milhões de reais. Assim começou tudo. Sem ninguém me ver fui a cavalo até Jaciara. Peguei um ônibus até Goiânia. De lá um avião para São Paulo. Claro que conhecia tudo e sabia de tudo através dos fios que coloquei em minha cabeça e em pouco tempo dominava sem problemas os conhecimentos de muitos e muitos anos que outros precisavam para saber o que eu sabia.

                 Vendi os diamantes. Em Goiânia conheci Dente Cariado. Fiz dele meu confidente e meu administrador. Ajudou-me em tudo para fazer desta fazenda uma que não tinha igual em todo o país. Mandei vir da França todos os móveis. Tudo que tem aqui veio de avião direto. Você ainda não viu mas tenho um pequeno aeroporto atrás das Colinas do Caçador. Ele está preparado para receber aviões até de médio porte. Aprendi através dos fios na cabeça como viver mais. O que comer, como tratar meu corpo. Estou agora com cento e doze anos. Pelo que eu saiba ainda posso viver mais uns vinte. Vamos ver. Foi então que ela me levou até uma sala pequena com uma porta de aço. Pediu-me para ficar afastado. Olhava a porta e ela se abriu como um passe de mágica. Se fosse pelos olhos ninguém nunca abriria aquela porta. A escadaria levava ao salão dos sonhos. Fiquei embasbacado. Um salão enorme. Cheio de parafernálias e fios. Um computador central não muito grande ocupava boa parte do salão. Vi que ele se matinha sempre ligado. Ela agora não teclava mais. Conversava com ele e ele obedecia a suas ordens.

                 Por favor, não riam de mim. Sei que dirão que em termos de ficção eu ultrapassei as raias da sanidade. E o túnel dos diamantes? Incrível! Centenas ou milhares deles. Brilhavam tanto que não precisava de nenhum tipo de energia. Tudo aquilo para mim era fantástico. Poderia ficar aqui horas discorrendo de tudo que estava vendo, mas não quero fugir do tema principal. Durante dois meses só falamos no salão dos sonhos onde poderia ser sem sombra de duvida uma cidade dos sonhos. Quem sabe ali seria uma replica de Xangri-lá. Pelo menos a Senhora Rosa de Cimarron tinha descoberto a fonte da juventude. Todos os dias ela mandava me chamar e passeando pela Hacienda conversando percorríamos grandes distancias do enorme jardim que havia atrás da casa sede. Olhe jardim imenso. Ela riu de meu espanto e disse que mandou fazer uma réplica dos jardins de Versalhes na França. Mandei um arquiteto lá só para isto. Treinei posseiros fora da Hacienda só para o jardim. Era lindo mesmo.

                - Riosvaldo, amanhã vamos viajar. – Onde? Perguntei – Vamos percorrer meio mundo. Quero que conheça algumas propriedades que tenho por aí. – Bem eu estava ali para isto. Já tinha preenchido bem umas trinta paginas em uma pequena maquina de escrever que ela me deu. Sairemos cedo. É melhor que saiba antes. Não tenho carro e nem aviões em lugar nenhum. Não quero, se os tivesse sempre teria pessoas que poderiam de uma forma ou outra bisbilhotar como vivo e o que faço. Para isto sempre alugo os veículos que preciso. Não eram nove da manhã e um Jatinho pousou no aeroporto da Hacienda. Parecia que os pilotos já a conheciam. – Ela deu suas ordens – Vamos para Aguascalientes, no México. Algumas horas de viagem. Um luxo meu Deus! Uma aeromoça nos servia o que quiséssemos. Não descemos em Aguascalientes. Mais adiante na Estancia Alfonso.  – É minha. Comprei depois que Alfonso morreu. – E quem foi Alfonso? – O homem que amei e que jurei nunca mais amar outro.

                     Então este era o grande amor de Rosa de Cimarron. A estancia era linda. Vieram recebê-la com honras. Não eram muitos. Um mordomo de Nome Delito, uma cozinheira e duas arrumadeiras. Nem entramos e ela me levou até o pé de uma montanha. Que coisa maravilhosa. Toda florida de Ipês de todas as cores. – Foi aqui que o vi pela primeira vez. Ele estava filmando. Fiquei estarrecida. Não era o homem mais lindo que conheci, mas seu olhar! Meu corpo tremeu. Perdi a voz. Apresentou-se e olhe uma voz de barítono. Não vou entrar em detalhes, mas em dois dias nos casamos em Aguascalientes. Casamento simples. Durou enquanto durou. Ele foi um homem que me disse coisas lindas e nunca tinha ouvido dos lábios de outro homem. – Sabes Rosa, queria ser uma lágrima para nascer em seus olhos. Rolar entre suas faces e teus lábios beijar. – Difícil você resistir. – Um dia ele me disse: - Fale comigo sempre que você estiver triste. Mesmo que eu não consiga lhe trazer a felicidade eu lhe darei o meu amor!

                  Aqui nesta encosta do Morro Das Flores ele me beijou. Meu primeiro beijo. Não resisti. Possuiu-me ali no chão, entre as pétalas dos ipês roxo, amarelo e não sei mais quantas cores. Andei com Rosa de Cimarron por todo o vale. Vi lágrimas em seus olhos. Não chorou, mas um pequeno soluço deixou escapar. Não ficamos muitos dias em sua instância. Novo destino: Suíça, mais precisamente na Basileia. Um helicóptero nos levou até os Alpes e conheci mais uma de suas propriedades. Um chalé enorme. Também com quatro funcionários. Todos a reverenciavam. Sentamos na varanda com uma enorme lareira acesa. Contou como ali viveu por cinco anos com Alfonso. Alí aprendeu a esquiar. Mais uma viagem, desta vez em Orleans, uma pequena cidade francesa as margens do Rio Loire. Um castelo! Isto mesmo! Um enorme castelo era dela. Não sei por que comprou tamanha propriedade. Lá tinha mais de dez funcionários. Estava intacto. Também me disse que morou ali seis anos com Alfonso. Acho que ela queria lembrar-se do passado e me levou para conhecer suas propriedades no mundo.

                   Ela mesma me disse que possuía propriedades em Portugal, Espanha, Itália, e em São Petersburgo na Rússia. A que ela mais gostava de ficar era nos Estados Unidos. Voamos para lá. Sempre foi o amor de Alfonso. Um grande rancho no Texas. Mais precisamente próximo a El Paso. Suas terras banhavam mais de seis quilômetros do Rio Grande. Enorme. Alí ela criava gado nelore. Dizia ter mais de vinte mil cabeças. Não precisava disto. Não pretendia em nenhuma de suas propriedades ter retorno financeiro. Mas foi Alfonso quem quis. Ele adorava ver o mar de chifres pelos campos. Todos os anos eles passavam pelo menos quatro meses ali no Rancho Cimarron. Ele assim também o chamou. Fiquei pensando que amor era este. Um amor de entrega total. Ela comprava tudo e podia ter quantos homens quisesse, mas se apaixonou por um homem que só podia dar ela muito amor e mais nada.

                 Ficamos fora quatro meses. Nunca a vi telefonar para ninguém. Parecia que ela sabia quem contratava. Não faziam perguntas. Quando vem e quando vai. Em Nova Yorque ela tinha um enorme apartamento de cobertura de frente para o Central Park. Ficamos lá um mês. Na viagem de volta ficou calada até chegar a Hacienda Rosa... De Cimarron. Durante dois meses não me procurou. Dente Cariado quando perguntei me disse – Quando ela quiser te chama. E mais não disse. Pensei em ir até Vale Feliz para dar uns telefonemas. Já estava fora de São Paulo há mais de seis meses. Para uns amigos disse que ficaria por dois meses. Não me deixaram sair. Entendi que era um prisioneiro com direitos de ir e vir, mas dentro da Hacienda. Em um domingo Dente Cariado me chamou. – Madame Rosa de Cimarron vai falar com o Senhor. Por volta de seis horas da tarde. Na capela da Hacienda. Por favor, não atrase. Faltando cinco minutos para as seis já estava lá. Pretendia dizer que precisava ir embora. Tudo que precisava saber dela já tinha escrito. Mais de quatrocentas folhas.

                   Entrei e sentei. As seis em ponto ela entrou. Vestida de preto com um véu sobre seu rosto. Sentou bem à frente. Apareceu um padre que nunca tinha visto. Celebrou uma missa. Após ela sentou ao meu lado. – Sei que você quer ir embora. Disse. Não pode e não vai. Sabe muito de mim. Vais morar aqui até minha morte. Quando morrer lhe darei uma sacola de diamantes uma fortuna que você nunca viu em sua vida. Terás aqui tudo que quiser. É só pedir e em quarenta horas será colocado em seu quarto. Inclusive um telefone, mas lembre-se ele será monitorado pela minha máquina. Não pode dizer onde estás. Uma Televisão também será instalada. Peço que não tente fugir. Meus homens tem ordem de atirar para matar. – E agora? O que faria? Não tinha saída. Sabia que a fortuna em diamantes era incalculável e ela mesma me disse que viveria no máximo uns dez ou quinze anos.

                    Ela mandou para seus advogados o esboço do livro que fiz de sua autobiografia. Tinha ordens expressas de publicar somente quando morresse. Já tinha feito seus planos. Dente Cariado tomaria conta de tudo com o auxilio dos advogados. Toda sua fortuna seria direcionada para instituições de caridade. Fiquei calado. Durante um ano fiquei calado sem nada dizer. Sempre que ela viajava para suas propriedades no exterior me levava consigo. Era a única diversão que me era dada. Eu e ela nunca tivemos nada. Claro, ela não fez qualquer menção em ter algum comigo. São coisas que nunca entendi. Até seu amor doentio por Alfonso, pois via em seus olhos que não o esquecia.

                     Estou "Velho" e cansado. Muito. Fiz cento e cinco anos no mês passado. Ela continuava como se fosse à mesma quando a conheci. Ela me ajudou com sua fonte da juventude. Agora quase não consigo andar. Dente Cariado me ajuda. Milagrosamente ele continua o mesmo. Não mudou nada. Então este será meu destino. Morrerei antes dela. Sei tudo de sua vida, sei tudo de seu amor por Alfonso. Não entendi e nem entendo o que ela queria ou quer agora. Não mudou suas atitudes, sua maneira de ser. Costuma ficar meses sem falar comigo. Porque não me deixou ir embora? Afinal sua vida se contasse para alguém ninguém iria acreditar. Se este é meu destino que assim o seja. O mundo um dia vai conhecer sua história. Sei que será um belo filme. Será conhecida no mundo inteiro e todos saberão quem foi Rosa... de Cimarron. Sua história está escrita. Quando isto vai acontecer não sei. Até me pergunto se ela não tem parte com o Demônio. Acho que não. Estou perdendo a noção de tudo. A vida vai se esvaindo de mim. Acho que é o meu fim. Vejo-me no céu olhando Rosa... de Cimarron. Eu conheci sua história, eu vivi ali, junto a Rosa. Aquela que amava Alfonso, aquela que morava na Hacienda Rosa... De Cimarron! 
                    
"Leia o texto abaixo e depois leia de baixo para cima” 

Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...