Bem vindo ao blog do Osvaldo

Seja bem vindo a este blog. Espero que aqui você encontre boas historias para passar o tempo, e claro, que goste.

Honrado com sua presença. Volte sempre!

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Quando e preciso ser homem.



Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Quando e preciso ser homem.

            Eu queria esquecer. Esquecer-se de tudo que meu passado insistia em trazer para o presente. Colocar bem no fundo do baú tudo que eu gostaria de esquecer e tirar da minha memória. Sempre tentei ser honesto, homem honrado e nunca esqueci aquele poeta desconhecido que um dia escreveu – Você não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo ouvir. Tem que gostar de poesia, da madrugada, de pássaros, de sol, da lua, do canto da Cotovia, dos ventos e das canções da brisa. Não sou bonito, nunca fui, mas tive algumas aventuras que para mim não passaram de tempos perdidos. Minha família tentou tudo para que eu fosse um doutor, mas não deu. Até que me esforcei e quase cheguei lá, mas a bebida tomou conta e por mais que me esforçasse não conseguia parar. Eu tinha hora para começar e não para parar. Nos bares que frequentava amigos ainda pagavam uma dose ou outra, mas aos poucos isto foi rareando. Sem dinheiro, sem emprego nada mais me restava do que viver à custa dos meus pais.

           Um dia assisti a um crime bem na minha frente quando voltava para casa. Não vi que deu as facadas, pois estava embriagado e meus olhos nada enxergavam. Uma nevoa espessa parecia flutuar em minha mente. Tentei socorrer a vitima, mas socorrer como? Alguém passava na hora e me viu ajoelhado junto a ela com a faca na mão. Chamou a policia, fui preso, julgado e condenado há trinta anos em regime fechado. Não reclamei. Merecia por ser tão idiota, pois se não tivesse bebido isto não teria acontecido. Na prisão não bebi mais e nem me tornei um viciado em drogas. Graças a Deus. Achei que a prisão seria meu castigo e se um dia saísse seria outro homem. Tentaram me convencer a participar das reuniões que os pastores faziam. Não me interessei não porque não acreditasse em Deus. Eu acreditava. Naquele momento achava que seria falsidade me arrepender só por acreditar em Jesus.

           Cinco anos depois fui solto. Disseram que o verdadeiro assassino foi preso. Ninguém me procurou para se desculpar. Não me importei com isto. Foram cinco anos de abstinência. Na saída não vi meus pais. Depois fui saber que foram embora para sua terra. Interior do Maranhão. Não deviam saber de mim. Resolvi ser outro homem, estudar, trabalhar mostrar que a sociedade poderia acreditar em mim. Assim fiz e em oito anos me formei em engenharia civil. Mais três anos e já era um diretor de uma grande empresa construtora. Como era sozinho me entregava de corpo e alma ao meu novo sonho de me tornar dono de uma empresa como aquela. Não sei o que deu em mim em uma noite quando cheguei a minha casa. Encontrei deitada no sofá a Dona Josefa, faxineira que vinha três vezes por semana fazer limpeza. Ela estava com a saia levantada e sua calcinha deixava transparecer a sua penugem. Fiquei tonto. Um calor enorme no corpo. Havia mais de oito anos sem sexo. Meu membro endureceu. Fechei os olhos, tirei sua calcinha e entre nela sem pedir licença.

          Vi que ela acordou e não disse nada. Deixou que eu a possuísse sem reclamar. Nem camisinha usei. Jorrei tudo que tinha direito e não parei por ai. Parecia ensandecido por sexo. Estava insaciável. Exausto fui para minha cama e dormi o sono dos justos. Durante uma semana ela fingiu que não houve nada e eu também. Não era uma mulher jovem, devia ter seus trinta anos ou mais e até que era simpática, mas muito magra. Baixa, morena carnuda, cabelos crespos uns olhos castanhos profundos e sempre que me via abaixava a cabeça e nada dizia. Não pediu favores, não pediu nada. Seu salário continuou o mesmo. Durante três semanas minha mente matutava sobre o que fazer. Não fui homem para ela. Usei-a como se fosse uma lata de lixo, sem pedir licença e como se fosse o capitão do engenho. Se arrependimento matasse eu estaria morto.

          Passou um mês, dois e ela calada claro, trabalhando e executando a função que competia. No quarto mês notei que sua barriga crescera. Fiquei pasmo. Boquiaberto. Passei uma noite em claro. Ela engravidara? Um maldito eu era. Tinha de tomar uma atitude. Mas qual? Oferecer-lhe dinheiro? Casamento? Eu? Afinal ela uma simples faxineira e eu um executivo de sucesso. Naquela tarde sai mais cedo do trabalho. - Dona Josefa, falei, poderíamos conversar? Só eu falei. Ela nada dizia e só de cabeça baixa. No dia seguinte trouxe sua mudança. Duas malas e mais nada. Passou a morar no quarto de hospedes. Continuou executando suas tarefas, mas dificilmente trocávamos uma palavra. Eu a respeitava e nunca tentei fazer sexo com ela novamente. Nunca perguntei o que ela sentia e sabia se perguntasse ela não responderia. Não era minha esposa, não era uma faxineira, mas afinal ao que ela era? Quem sabe uma concubina, mas sem formalização de corpos. Todo seu pré-natal foi custeado por mim. Ficou em um quarto especial quando deu a luz.

           Nancy nasceu com três quilos e meio. Linda. Nunca vi uma criança como ela. Achava que era a mais linda da face da terra. Josefa teve um parto normal, mas no segundo dia sofreu uma parada cardíaca e não se recuperou. Morreu uma semana depois. Chorei como se ela fosse minha esposa. Acredito que tinha por ela um amor diferente, fechado, preso no coração e que não se soltava. Nunca soube se ela tinha parentes, nunca me contou sua vida. Agora nada mais importava. Eu tinha Nancy, eu faria dela a rainha do mundo! Cerquei-a de tudo. Contratei uma babá, quando ela fez cinco anos fiz questão de contratar uma governanta trilíngue. Ela ia cursar a melhor escola, teria as melhores roupas, tudo dela seria como de uma princesa. O que ganhava era para ela. Minha empresa crescia a olhos vistos, eu era outro homem. Não tinha olhos para outras mulheres e olhe que muitas faziam de tudo para me conquistar. Agora só via minha filha. Amava-a mais que tudo.

           O tempo foi passando, Nancy crescendo e cada dia mais linda ficava. Adorava sair com ela, teatros, cinema, melhores restaurantes e entrava de braços dados. Todos olhavam abismados. Lembro quando fomos a Paris e entramos no L’ambroisie um dos meus restaurantes prediletos e todos os olhos masculinos se viraram para ela. Um porte de princesa um sorriso encantador e eu sabia que se ela mandasse todos eles ficarem de joelhos em frente a ela eles obedeceriam. Uma noite de gala fui convidado para um espetáculo que se apresentava ano Teatro ala Scala em Milão na Itália. Eu sabia que era uma das mais famosas casas de ópera do mundo. Don Fagundes um conde bem considerado em Roma fez o convite. Fiquei sabendo que iriam apresentar “Die Walküre, e como não conhecia lá fui eu de braços dados com Nancy”. Ela nos seus dezesseis anos parecia uma jovem de vinte e um. Qual não foi a surpresa que ela sem perceber foi até o balcão onde estávamos e o teatro em peso deu um sussurro de admiração. Logo uma salva de palmas. Ela ficou vermelha de vergonha e sentou sem levantar mais.

            A levei para as mais lindas cidades do mundo. Eu a amava como um pai amoroso ama sua filha. Mas como dizem por aí, tudo que é bom dura pouco. Minha sina nunca foi marcada de felicidade para sempre. Eu mesmo estava espantado por ter tido a sorte que tive. Fiquei riquíssimo, uma linda filha, uma mansão na Côte d’Azur na França. Sempre passava as férias lá. Nancy era loira, naturalmente loira com cabelos amarelos cor de palha, olhos azuis um lindo corpo que atraiam homens que davam tudo para ficar ao lado dela. Estudava em um colégio feminino e Gustavo seu guarda costa já passava dos sessenta anos. Um dia Nancy desapareceu do colégio. Fiquei petrificado. Um medo grande de perdê-la. A polícia dizia para esperar vinte e quatro horas. – Moças desta idade sempre dão um passeio mais longo e davam risadinhas nada agradáveis. Passaram mais de vinte dias e nada. Contratei uma agencia de detetives, a melhor da cidade. Disse que pagaria oque fosse para encontrarem-na.

           Moreno o Chefe dos detetives me procurou no escritório em uma terça feira. Mostrou-me fotos dela. De braços dado com Anthony Pergiano. Um mafioso contrabandista dos mais perigosos. Não disse nada. Saí correndo e ele atrás dizendo que não era o melhor caminho. Na Vinte e Cinco de Março subi correndo o prédio do mafioso. Barraram-me no terceiro andar. Pelo celular mandaram deixar-me entrar. Minha linda filha, a quem eu mais amava sentada no colo daquele filho da puta mafioso foi como uma facada no coração. Ele devia ter uns trinta anos no máximo. – Porque Nancy, por quê? – Ela abaixou a cabeça e balbuciando disse que o amava. Não me disse nada, pois sabia que seria contra. – E porque não deu notícias? – Anthony proibiu. Disse que eu era dele e de mais ninguém. Olhei nos seus olhos e parecia que chorava as escondidas. Não me deixaram falar mais nada. Escorraçaram-me e ela nada fez para impedir.

            Maldito mafioso. Filho de uma puta descarado. Não ia ficar assim. Sabia que ela estava sofrendo uma pressão enorme. Moreno o detetive contratado me disse que a policia nada ia fazer. Ele mandava na policia. Lembrei-me de Parafuso. Um negro enorme que conheci na prisão. Sempre conversava comigo mesmo sabendo que não teria resposta. Precisava encontrá-lo a todo custo. Não foi difícil. Moreno o levou em minha casa uma semana depois. – Preciso de um favor. Preciso que consiga alguém para matar um homem poderoso. Um mafioso que tem a polícia nas mãos. Parafuso não perguntou o nome. Só disse onde ele morava e se tinha uma foto. Mostrei-o com minha filha abraçados. – A moça não eu disse. Ela é minha filha. Dei a ele trinta mil reais. – Faça o serviço e recebe mais duzentos mil. Ele calado saiu. Um mês depois os jornais em letras garrafais anunciavam a morte do mafioso – O senhor Anthony Pergiano morreu hoje. Deram nele onze tiros. Ele achava que tinha o corpo fechado. Não tinha guarda costas. A policia jurou que o crime não ia ficar impune.

           Ninguém sabia onde andava Nancy. Eu sabia que a tinha perdido. Se ela amava o mafioso não ia me perdoar nunca. Um mês depois recebi a noticia. Notícia não foi um coice de multa no rosto. Forte, marcou. E como marcou. Encontraram-na morta num Beco da Rua Augusta. Foi morta com onze tiros. A mesma quantidade que recebera seu amado. O mafioso filho da puta. Chorei e como chorei. O mundo desabou sobre mim. Eu sabia que em minha vida nunca seria feliz. Onde colocava as mãos o sangue derramava. Um ano depois vendi tudo que tinha. Já havia pago os duzentos mil ao parafuso que sumiu da cidade. Não me disse aonde ia. – Olhe seu Freedy, não fique por aqui ele me disse. Esta quadrilha não vai perdoá-lo. Mais cedo ou mais tarde o senhor vai receber o mesmo que sua filha. Eles já sabem que fui eu e olhe, nunca disse nada para ninguém que o senhor foi o mandante. Estou indo para Bolívia e de lá sem destino.

         Cheguei a Matões do Norte onde meus pais moravam uma semana depois. A cidade é considerada uma das quatro mais pobres do Brasil. O sitio onde estavam meus pais fazia pena. Um casebre de pau a pique. Com as próprias mãos fiz uma puxadinha de um quarto. Minha morada. Com as próprias mãos também construí minha mesa e uma cadeira. Ia a pé até a cidade para fazer uma feira. Uma feira pobre. Não podia chamar a atenção. Quer saber? Eu vivia feliz ali. Consegui esquecer tudo que fui e tudo que eu era. Só não dava para esquecer Nancy. Nem lembrava mais de Josefa. Que Deus a tenha. Foram quatro anos labutando no campo, onde fiquei “maneiro” com uma enxada e um enxadão e de olho na estrada. Nunca mais ouvi falar nos mafiosos. Deixaram-me em paz. Casei com uma rapariga nova que não conhecia. Seus pais ofereceram para mim por cem reais. Aceitei mas disse a ela que não teríamos filhos. Não poderia sofrer de novo a sede de vingança dos mafiosos filho da puta.

         Lena não sabia que seu marido era bilionário. Nunca iria saber até minha morte. Um advogado em São Luiz providenciou tudo. Não disse tudo. Só que tinha cinco mil em poupança e se morresse era dela. Risos. Eram mais de um bilhão e quatrocentos milhões de reais. Dinheiro suficiente para transformar aquela cidade em um paraíso. Eu? Eu continuei pobre. Tirava minha comida da lida diária aqui e ali. Do feijão plantado, do pequeno arrozal e da horta que fez inveja a muitos vizinhos. Lena foi à mulher que não tive. Gostava de mim e fazia tudo por mim. Ela não sabia que seria a mulher mais rica do brasil. O que iria fazer com tanto dinheiro? Iria casar novamente? Quase não pensava nisto. Não precisava pensar. O dinheiro muitas vezes é uma desgraça e só quem o tem sabe explicar melhor. Eu esperava que ela fosse feliz, que tivesse tudo que quisesse apesar de que nunca me pediu nada.

         Fiz setenta e cinco anos ontem. Os cabelos brancos aparecendo em quantidades. Apesar de ter uma aparência magérrima me sentia bem. Nunca senti dores e peço a Deus para não demorar em me levar. Sempre penso o porquê não morri até hoje. Aprendi a gostar de todas as tardes ficar cochilando em um banco na Praça de Matões do Norte. Fiz muitos amigos, até me convidaram para me candidatar a prefeito. Dei boas risadas. Minha vida era outra. Só esperava a hora de partir para o céu e pedir perdão a Josefa e Nancy. Não sabia se iriam me perdoar. Oscar Wilde já disse que o amor deveria perdoar todos os pecados, menos um pecado contra o amor. O amor verdadeiro deveria ter perdão para todas as vidas, menos para as vidas sem amor!

Fim.

Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho

Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O rocambolesco escândalo da virgem Rebecca e o famoso Senador X.



Soneto do Prazer maior.

Amar dentro do peito uma donzela;
Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela:

Faze-la vir abaixo, e com cautela.
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Aperta-la nos braços casta e bela:

Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:

Vê-la rendida enfim a Amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que ha no mundo.
Bocage

O rocambolesco escândalo da virgem Rebecca e o famoso Senador X.

          Foram anos a procura dela. Anos que gastei o que tinha e fiz o que podia para saber seu paradeiro. Rebecca era única. Eu sabia que não ia amar a mais ninguém pois sem ela a vida para mim não tinha valor. Apesar de tudo eu não importava o que ela fez e a receberia de braços abertos. As notícias sobre ela deixaram de virar manchetes mas ninguém sabia onde ela foi parar. Dizem que as paixões nos levam a cometer erros e que o amor nos faz cometer desatinos que mais cedo ou mais tarde iremos nos arrepender. Um poeta anônimo escreveu que a cada dia que se passa você vai subindo um degrau dessa imensa escada algumas vezes você perde a força e cai depois se levanta e continua a subir essa escada de cabeça erguida. Pode ser. Eu não desisti e não vou desistir.

         Como fomos felizes juntos em nossa infância. De mãos dadas nunca iriamos saber o que o nosso futuro nos reservaria. Lembro-me de vê-la sorrindo na beira do Lago das borboletas, correndo entre elas, brincando sem as machucar. Apesar dos seus oito anos a cena merecia ser filmada e passada em todas as telas de cinema que existissem neste mundo. Eu fiquei ali inebriado com seu balé em meio às flores silvestres e a revoada das borboletas das mais variadas cores. Você se foi e eu voltei lá diversas vezes e não a vi. Sentado na Praça do soldado onde repassava a prova de história que teria no dia seguinte vi você parada na minha frente a dizer oi. Olhe quase cai do banco de madeira ao ver você. Sei que você sempre disse que foi o início de uma grande amizade. Para mim nunca foi.

        Alguém um dia me disse que a mais nobre paixão humana é aquela que ama a imagem da beleza em vez da realidade material. O maior prazer está na contemplação. Pode ser verdade. Eu nunca me cansava de olhar para você. Foram anos de juventude contemplativa e poucas vezes senti sua pele morena em minhas mãos. Nunca beijei você. Nunca. Quer saber? Nem sonhos eróticos eu tinha. Eu dizia para mim que poderia não ser hoje, poderia não ser amanhã mas algum dia eu iria realizar o meu grande sonho de ter você junto a mim para sempre. Quando tudo aconteceu você ia fazer dezesseis anos. Todos os anos que brincamos juntos, que cantamos e como sua voz era maravilhosa, como passeamos pelas ruas de Campos Dourados e eu sabia que ninguém duvidava que um dia iriamos fazer o par perfeito, nos casar, ter uma família e viver feliz para sempre. Mas isto só na minha mente. Ninguém nunca aceitaria estarmos casados. Sociedade hipócrita.

      Maldito Senador. Maldito mil vezes. Eu era uma pulga, um mosquito que ele com um simples bater de mão me destruiria. Porque foi a nossa cidade? Era pequena e ele que queria conquistar o mundo não precisava ter ido lá. Seu discurso em frente à Matriz de Santo Antonio foi arrebatador. As moçoilas da cidade estavam em estado de êxtase. Quando ele jogava seu topete já embranquecido de um lado ao outro elas suspiravam. Fizeram fila na porta do seu hotel. Diziam que ele era solteiro e aspirante a Presidente da Republica. Como foi bajulado. A cidade inteira ficou aos seus pés. Porque seu pai o convidou a sua casa? Não precisava. Mas ele foi só era uma das famílias mais conceituadas e como médico seu pai seria um cabo eleitoral dos mais perfeitos.

       Eu fiquei em frente sua casa, junto a uma multidão enquanto o Senador X se refastelava com o almoço cinco estrelas que sua mãe fazia. Você chegava à janela, me dava adeus, sorria e voltava para dentro. Os erros são os rascunhos da vida. E foi naquele dia que eu descobri uma coisa fantástica, talvez a mais fantástica de todas: Quando a gente para de procurar desesperadamente por um amor, a gente percebe que não pode amar qualquer coisa. Eu amava só você e mais ninguém. Fiquei feliz com a partida do Senador X. Mas o que me contou a noite me deixou atordoado. Seu pai autorizou você a ir morar na capital na casa do Senador X. Ele tinha prometido que você iria estudar no melhor colégio. Iria aprender a viver na melhor sociedade brasileira, prometeu mundos e fundos. E o pior, disse que a trataria como se fosse à filha que nunca teve. Eu gostaria de ter lhe dito que nunca acredite em uma lágrima, acredite na pessoa que derramou esta lágrima por você.

          Ele mandou sua limusine para sua viagem. Tentei me aproximar mas seu pai não deixou. Pediu-me que não atrapalhasse seu futuro brilhante. Eu perdi o sentido da vida. Sem você ela para mim não tinha mais valor. Pensava como estava vivendo, se sorria como outrora, e se deixou que o maldito Senador X a tocasse. Isto me embrulhava o estomago. Nunca podia imaginar ele acariciando seu rosto, seus seios, todo seu corpo que pensei que um dia seria meu. Sei que você não sabe, mas pense, pense que existe alguém que sorri só a ouvir o teu nome? Mas o mundo não para de girar, a vida segue sua rotina e o tempo foi passando, passando, e eu não me interessando por ninguém. O que aconteceu me deixou atabalhoada. Os jornais estamparam em letras garrafais – O Senador X quase foi morto por um jovem de nome Rebecca.

           Aquilo era impossível. Seus pais não me diriam nada. Com os parcos recursos que um dia guardei para nós parti para a capital. Eu sabia que não seria recebido pelo Senador X. Mas eu precisava saber onde você estava. Eu não ia deixar você sozinha. Eu jurei que éramos um só antes e seriamos sempre a mesma pessoa. Não iria condenar o que fizeste. Nunca. Perdoar é libertar alguém da culpa e descobrir que o prisioneiro era você! Fiquei vários dias no portão tentando saber de alguém onde você estava. Um jardineiro sorriu para mim. Era novo, me achou bonita. Sorri para ele. Deixei que me acariciasse apesar de sentir asco. Contou-me que por ser menor você foi para a Fundação Casa. Onde internam os menores infratores. Disse-me mais que você iria ficar lá por dois anos até fazer 18 anos. Eu não iria deixar. Combinei com o jardineiro de voltar à noite e deixar que ele me possuísse. Maldito que se masturbasse a vontade, pois ali nunca mais voltaria.

             Precisava conhecer alguém que trabalhava ali. Ninguém iria me deixar entrar. Afinal estava com meus dezessete anos e o que poderia acontecer é ser presa também. Uma mocinha magrinha muito simpática estava saindo do prédio. Aproximei-me. Disse que uma prima estava ali se ela conhecia. Ao dar o nome ela sorriu. – Olhe sua prima não está mais aqui. Ficava o dia inteiro gritando, dizendo que ia se matar. Foi levada para o Hospital psiquiátrico de Sorocaba. Meu dinheiro estava acabando. Comia quase nada. Um Cachorro quente aqui outro ali, mas deu para comprar uma passagem de ônibus até Sorocaba. Não foi difícil encontrar o hospital. Difícil era entrar lá e descobrir onde estava Rebecca. O jeito era me prostituir com um guarda. Não seria fácil. Era virgem, mas por Rebecca eu faria qualquer coisa.

            Antonio foi uma bela surpresa. Quando me aproximei dele ele sorriu para mim. Quando disse o que queria ele se assustou, quando ofereci meu corpo ele fechou a cara e disse que aquilo ele nunca faria. Era evangélico e respeitava todas as mulheres que um dia apareceram em sua vida. Disse que iria ajudar. Que eu voltasse no dia seguinte e ele iria se informar onde Rebecca estaria internada. Arrumou-me um uniforme de faxineira. Entrei sem problemas junto com ele. Quase chorei quando vi Rebecca. Estava um trapo. Aquela menina linda e formosa era sombra do agora. Ela não me reconheceu e só no segundo dia um lampejo passou em sua mente. Antonio me ajudou a fugir com ela. Deu-nos uma carona até Campinas. Não poderia voltar a nossa cidade. Ela seria presa novamente. O dinheiro acabou. Tive que me prostituir. Um rufião me fez uma proposta para trabalhar em São João da Barra. Estavam construindo o grande porto e era um ótimo local para fazer dinheiro se prostituindo.

              Rebecca me seguia onde fosse. Não era dona de si mais. Não tinha domínio sobre si e era mais um robô humano a me seguir. Faz onze anos que estamos morando em São João da Barra. Compramos a Boate Nostradamus. Ela não é a melhor, mas não nos deixou na miséria. Falta pouco para irmos embora daqui e quem sabe abrir um pequeno comercio em alguma cidade. Rebecca dorme comigo na mesma cama. Não fazemos sexo. Ela não sente nada. Mas eu durmo abraçado com ela. Eu a amo mais que tudo na vida. Nunca me perguntou pelos seus pais e pelo Senador X. Não contei para ela que ele e a família tinham morrido em um acidente aéreo. Não importava para ela. Eu e ela já temos mais de dezoito anos. Sei que seremos felizes, pois eu vou cuidar dela por toda minha vida. Como disse Shakespeare, é muito melhor viver sem felicidade do que sem amor. E eu amo muito a minha querida Rebecca. Sei que não disse, mas me chamo Monalisa e não sou bonita. Mas importa?  

Soneto do Monge caluniado.
 [anônimo]
Língua mordaz, infame e maldizente,
Não ouses murmurar do bom prelado:
Ainda que o vejas com Alcippe ao lado.
Amigo não será, será parente:

Geral da Ordem, pregador potente,
No jogo padre-mestre jubilado,
E também caloteiro descarado
Pode ser que o repute alguma gente:

E que te importa que fornique a moça?
Que pregue o evangelho por dinheiro? [pé quebrado]
Que em vez de andar a pé ande em carroça?

Talvez que disso seja um verdadeiro
Dos monges exemplar, da Serra d'Ossa,

Pois que dos monges é hoje o primeiro. (anônimo)

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Eu lhe ofereci minha vida e um buque de margaridas amarelas, porque não aceitou?



Onde está você margarida?
Flor mais bela do jardim
Com seus olhos tão profundos
Que expõem minha alma
Me tirando da solidão

Não me abandones margarida
Pois preciso do teu ser para ser
Do teu perfume embriagando manhãs
Me fazendo perder os sentidos

De tua voz acalentando meu coração
Do teu corpo entrelaçando o meu
Do teu sorriso arredio e corrediço
Do teu amor para libertar-me.

Eu lhe ofereci minha vida e um buque de margaridas amarelas, porque não aceitou?

               Não dá para esquecer. Nunca. Os versos de Clarice batem no fundo dentro de mim. Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la. “Enquanto escrevo, vou ter que fingir que alguém está segurando a minha mão.” Mas isto não é real. Ela foi tudo para mim e eu não fui nada para ela. Porque o destino sempre protege aqueles que não precisam? Meu irmão Javel sempre teve tudo que quis. E a vida sempre lhe sorriu. Deu-lhe todas as benesses que alguém pode alcançar. Será que ele merecia? Quem sou eu para julgar. As pessoas achavam que éramos gêmeos. Eu era um ano mais novo e nunca nos vestimos iguais. Eu nunca o invejei. Nunca. Sei que ele era mais perfeito que eu, mas até quanto à perfeição influi no caráter? – Gill, ele dizia, cada dia é um dia. O seu vai chegar. Nunca chegou. Ele faculdade eu Escola Técnica. Ele ótimo emprego e eu com um que mal dava para viver.

                Aceitei tudo normalmente. Nunca me revoltei. Até os poucos amigos que me conheciam diziam que eu devia mudar. Mesmo não sendo não deveria aceitar ser o segundo. Juro que eu tentei tudo para ser um bom irmão, mas não deu. Palavra que não deu. De quem foi à culpa? Disseram que foi dela. Não sei. Mas Javel sabia que eu a amava. Ele sabia que eu a conheci antes dele, ele sabia que a vida sem ela era nada para mim. Eu sei que mesmo lhe oferecendo Margaridas Amarelas suas preferidas ela evitava aceitar. Aquilo me machucava, doía uma espada entrando em meu corpo. Ela agora preferia beber o néctar do veneno com meu irmão. Todos poderão dizer que a escolha foi dela. Mas por quê? Eu disse a ela que daria minha vida para fazê-la feliz. Ela abaixava a cabeça e não dizia nada.

              Por toda minha vida fui um perdedor. Queria jogar e ganhar, mas não conseguia. Meu irmão era meu fantasma. Para ele tudo em primeiro lugar. As sobras eu podia utilizar. Foram anos assim e até achei que tudo era natural. A melhor roupa, o melhor calçado, a melhor mesada, os direitos que lhe davam e para mim nenhum. Erro do meu pai? Da minha mãe? Não dizem que os primogênitos tem mais direitos? Afinal ao nascer primeiro os direitos não são deles? Posso dizer que a principio concordei com tudo isso. Concordei de ele estar sempre em primeiro lugar. Eu sei também que onde a esperança falta, onde um amor se transforma em mal, onde quem mata se esconde em si mesmo nada e nem nunca pode dar certo. Há o amor... que nasce não sei onde e vem não sei como, e dói não sei por que (Camões).

               Foi o destino que me jogou naquela marquise para fugir do vento forte e da chuva que caiu como uma tromba d’água naquela tarde tão benfazeja. Foi quando a vi pela primeira vez. Meu Deus! Como era linda. Não vi mais a chuva nem mesmo ouvi trovões. Os raios que caiam eram flores de margaridas amarelas que iluminavam aquele rosto de uma deusa do Olimpo. Ela suspirava forte. A corrida até ali a deixou cansada. Alguns segundos ela me olhou. Sorriu. Que sorriso maravilhoso! - Oi, ela disse. Eu tremia, minha voz saiu rouca – Oi para você também. Ela riu mais. – Que chuva eim? Ela continuou falando. Eu só ouvindo. Se ela quisesse eu ficaria todo o tempo do mundo ali só a ouvi-la. Que linda voz, que sorriso maravilhoso e sua expressão? Impossível descrever. A chuva começou a amainar. Maldita chuva. Assim ela iria embora. – Olhe, ela disse, sou sua vizinha, saio de madrugada e volto à noite para o trabalho. Casa 132, amanhã sábado estou em casa, se quiser apareça para tomar um café!

                 Ela se foi. Eu fiquei ali esperando seu vulto desaparecer na esquina. Porque não fomos juntos? Até hoje me pergunto por quê não. Levantei cedo. Um banho vesti minha melhor roupa. Meu irmão perguntou o que houve para ficar assim tão elegante. Não respondi. Bati na casa dela. – Entre ela disse quando chegou à porta. Sem palavras para descrever aquela tarde. Não pense mal. Ela contava histórias, me serviu café, depois chocolate, um delicioso bolo de baunilha. A noite chegou. A mãe dela uma simpatia. Mas vi que precisava ir. – Posso convidar você para um cinema? Perguntei. Naquele noite mesmo saímos. Segurei em sua mão. A minha tremia de emoção. Foi o começo de tudo. Eu a amava. Mais que tudo na vida. Meu irmão cismado. Não deu para esconder. – Um dia nos encontrou no portão da casa dela – Não vai me apresentar? Ele disse. Vontade de mandar ele para o diabo que o carregue. Não devia, mas ela me perguntou quem ele era. Foi o começo do fim de tudo.

              Meu inferno começou. Por ela minha vida já não era mais a mesma. Aceitei tudo do meu irmão, mas agora eu o odiava. Cheguei a maldizer ter nascido do mesmo sangue. Vi que ele não me respeitava. Ele sabia que eu a amava, que estávamos namorando e mesmo assim insistiu com ela. Foi ela quem me disse que ele seria o homem de sua vida. Um ódio mortal tomou conta de mim. A única coisa importante na minha vida ele me roubava sorrindo. Nem sequer me procurou para justificar. Passei a beber e juro que até hoje não sei por quê. Eu nunca bebi. Tornei-me um alcoólatra e me mandaram embora da fábrica. Nenhum dos dois sequer me procuraram. Não houve explicações, nunca houve. Começou a germinar na minha mente a ideia de matá-los. Meu Deus, a que ponto estava chegando.

               No dia do casamento deles resolvi acabar com meu sofrimento. Quando o Padre fosse perguntar se tinha alguém contra, eu daria um tiro em cada um e sorrindo para os convidados diria – Eu sou contra este casamento. Que eles sejam felizes no meio do inferno! Que o demônio os abençoe. Mas não ia ficar só por aí. Com a própria arma daria um tiro em minha cabeça. Claro, eu seria companhia deles junto aos demônios naquela caldeira do diabo onde iriamos morar. – Vesti minha melhor roupa. Um terno que guardei para quando fosse casar com ela. Consegui de um conhecido um Taurus 45. Na hora marcada entrei na igreja. Todos olharam para mim. Quando o Padre começou a perguntar dei um tiro no meu irmão e outro nela. Ri quando ambos caíram ao chão. Virei para os convidados sorrindo – Eu a amava, disse. Ele o meu irmão sabia. Roubou-me como sempre o fez em toda nossa vida. Alguém correu para me tomar a arma. Dei um tiro por bairro do queixo e a bala saiu do outro lado do cérebro.

                 Fiquei vagueando em um lugar fétido, gemidos por todo lado e pessoas passando e me desejando que fosse para o inferno. Tudo escuro e eu não via nada. O tiro que dei em mim toda hora entrada em minha cabeça e saia do outro lado. Doía horrivelmente. Pessoas horrendas riam de mim. Eu me chafurdava na lama. Não conseguia sair. Onde estava? Queria agora mesmo ir para o inferno. Lá era meu lugar e não aqui no meio desta podridão. Eu não via nada. Em uma parede invisível sempre aparecia uma tela, sempre com as mesmas imagens. Na primeira vez o que passava me assustou. Ele e ela vivos em um hospital. Não estavam mortos. Eu errei o tiro e um acertou a perna dela e o outro o ombro do meu irmão. Eles sorriam para mim. Malditos! Mil vezes malditos. – Alguém me tocou o ombro. Um bicho enorme. Vermelho como se estive em fogo, chifres brancos na cabeça. – Olá meu jovem, vim te buscar. Segurou-me com força. Jogou-me em um despenhadeiro. Lá no fundo lavas quentes onde cai com um estrondo. Gritava de dor, tentava pensar e não conseguia, foram anos e anos assim. Meu Deus me ajude! Não aguentava mais aquilo. Eu sentia muita falta. Não só dela como dele também.

               Não sei quanto tempo fiquei ali. Queria falar com ela e meu irmão. Pedir perdão. Sei que eles iriam me perdoar. Tentei tudo, mas cansei de procurar, de insistir, é difícil e ficava cada dia mais cansado. Meu corpo doía e melhor é deixar o tempo agir. O que deve ser será. Se existe um Cristo um Deus sei que um dia eles irão me perdoar. Sei que aquele sofrimento um dia terá fim. Agora uma nevoa a minha frente. Um pequeno raio de sol apareceu. Pessoas chegaram vestidos de branco. Uma jovem sorrindo me trouxe flores. Margaridas amarelas. Lindas, as flores que eu amava e que sempre dei a ela. Alguém me abraçou. Fui elevado no ar e levado para um céu onde existia tudo. Hoje vivo ali, ajudando e trabalhando. Dizem que eu vou voltar. Voltarei com filho dela e de meu irmão. Será sublime. Uma alegria. Não sei se mereço isto. Mas Deus sabe o que faz!  

              Hoje na cidade dos sonhos onde moro, eu vivo sorrindo, não tenho mais ódio no coração e nas minhas horas vagas depois de minhas orações eu faço poemas e no meu jardim eu cultivo margaridas amarelas. Sempre quando me lembro deles lagrimas caem e mesmo com voz não tão bonita eu canto: - £São duas flores unidas, são duas rosas nascidas, talvez do mesmo arrebol. Vivendo, no mesmo galho, da mesma gota de orvalho, do mesmo raio de sol. Ah! Unidas... Ai quem pudera, numa eterna primavera, viver qual vive esta flor. Juntar as rosas da vida, na rama verde e florida, na verde rama do amor!£ – Que eles sejam muito felizes. Para sempre... (Castro Alves)

Saudade

Não tenho percebido cores;
Não tenho sentido mais o néctar das flores;
Não sei mais o que é real e nem abstrato.
Talvez neste exato momento, não sonhasse com o futuro,
Nem vivesse no passado;

Há dias tenho vagado na mente distante, incessante,
Mas exatamente neste instante, tenho sido incoerente e não só com opiniões diferentes,
Mas também com pouca e muita gente.
Sou assim... Naturalmente!
“O que fazer?”.

Tenho medo da dor, tenho medo de sofrer,
Tenho medo de brigar com meu amor, de matar, de morrer...
Será que todos são assim?
Não sei mais quem sou!
Não tenho estado mais aqui comigo.

A saudade, engrandece a tristeza,
Que mesmo sendo de nossa natureza,
Não consigo aceitar!

Sinto falta de tudo, sinto falta de você!
Na memória, a lembrança tardia de um sorriso e um olhar de uma triste alegria, que glorifico!
É o que me faz despertar!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Alice, que nunca esteve no país das maravilhas.



Ao perseguir o coelho branco
Alice caiu num buraco
Que a levou a um lugar encantado,
Com maravilhas por todos os lados.
Animais ali falavam como gente
Comemoravam o desaniversário.
E a Rainha Vermelha com destreza
Arrancava a cabeça
Daqueles que a desagradavam.
Alice inventava palavras,
Sempre procurando rimá-las.
Com  elas em suas andanças
Encantava adultos e crianças.
No País das Maravilhas,
Flores lindas eram orgulhosas
De seus perfumes e cores.
Enquanto que a Lagarta Azul
Enigmática em seus dizeres
Fumava horrores.
E a pobre Alice em seu caminho
Conheceu a luta da Rainha Branca,
Que teve seu trono usurpado
Por irmã vil e invejosa.
Luta sangrenta por justiça
Onde com a espada vortal
Pôde mostrar que era a tal.
Alice, menina que cresceu,
Sem lembrar da viagem maravilhosa,
Pensava que enlouqueceu!
Mas ao lembrar-se de toda a verdade,
Que não era sonho, mas realidade,
Alice conformou-se com seu papel:
Tornou-se heroína e lutou contra o inimigo,
Devolvendo o trono à bondosa amiga branca rainha.
06/11/2012
Postado por Guacira Maffra. 

Alice, que nunca esteve no país das maravilhas.

             Nunca desejei ser além do que sou. Sou feliz. Tenho tudo que preciso. Um emprego, bons amigos, um ótimo patrão e um homem que preenche tudo aquilo que preciso. Estamos noivos. Não é um amor louco nem um amor apaixonado. Não sei o que seria da minha vida sem ele. Não esqueço o dia que nos conhecemos. Foi no lotação Centro/Mauá. Não havia lugares vagos. Ele me olhou sorriu e disse – Moça, ninguém com sua beleza pode viajar em pé. – Fiquei encabulada. Sentei e ele em pé não tirava os olhos de mim. Desci na Praça Ontário e ele ficou da janela me dando adeus. Que sensação maravilhosa eu sentia. Na loja Pentecostes até seu Norberto o proprietário me perguntou o que houve. Claro que não contei. Era um segredo meu. Uma paixão enorme que se abria em meu coração. Mas será que eu o viria de novo?

             Durante vários dias fiquei entre o céu e a terra. Não podia esquecê-lo. Nunca. Corria para o ônibus e ele não estava lá. Ia dormir pensando nele, pois tinha medo de que o esquecesse. Estava absorta pensando em minha sorte que nunca foi boa para mim. – Moça, tem um Mocassim número 42? Levantei os olhos. Um susto! Quase desmaiei, era ele, Deus não tinha me abandonado. Sorri, um sorriso apressado mas verdadeiro. – Claro, sente-se aqui. Vou buscar várias cores para o senhor escolher. – Senhor? Ele riu. Chame-me de Balty, o nome real é Baltazar, mas gosto mais do apelido. – Muito prazer Balty, eu sou Alice. Foi o melhor dia da minha vida. Minhas amigas da loja sorriram e disseram que era o homem mais bonito que tinham visto. Moreno, bronzeado, cabelos negros lisos e bem penteados, dois enormes olhos castanhos que brilhavam e a boca? A mais perfeita que já vi.

              Convidou-me para sair à noite. Um cinema. Super-respeitoso. Levou-me em casa e só um beijo na minha mão. Estava nas nuvens. Eu dormi sonhando ser a verdadeira Alice nos pais das maravilhas. Quem sabe ela caiu na toca do coelho? Quem sabe a lógica do absurdo do filme não seria sua lógica? Eu tinha assistido o filme varias vezes. Adoro a história de Lewis Carroll. Um mês de namoro. Nunca pedi nada. Ele tinha um velho fusca 74. Nunca abri a porta. Ele corria para abrir. Levou-me algumas vezes em restaurantes. Simples é claro. Ele contou-me que não ganhava muito. Era gerente de uma Banca de Verduras no Ceasa. Pediu-me em casamento quatro meses depois. O dia mais feliz de minha vida. Mandei um telegrama para a Vovó. Queria compartilhar minha alegria, meus pais haviam falecido há tempos.

                Naquela mesma noite dormirmos juntos. Uma experiência incrível, pois eu era virgem. Nunca tinha sido de nenhum homem. Ele calmo e ponderado me levou nas nuvens. Quando fiquei nua na sua frente senti um enorme calafrio e fiquei vermelha de vergonha – Pensei comigo – Vai ser meu marido, não tenho de envergonhar. Ele me acariciou de uma maneira que tremia dos pés a cabeça. Na ponta do dedo de uma mão começava nos pés, ia subindo pelas pernas e com o outro dedo vinha ao contrario, descendo pelo seu rosto, na ponta dos seios e ambos se encontravam lá, na sua gruta escondida que ninguém a tinha visto antes. Ele foi o primeiro. Pediu-me para acariciar sem membro. Grande. Duro mas macio. Ele me possuiu devagar, eu tremia e gemia. Nunca tinha passado por aquilo. Era lindo e maravilhoso. Pela primeira vez tive um orgasmo que eu mesma fiquei admirada.

                Nosso casamento seria em novembro. Dia 12 na Igrejinha de Santo Antônio do meu bairro. Eu acreditava ser a pessoa mais feliz do mundo. Engraçado. Não sabia onde ele morava. Ele nunca me disse e nunca perguntei. Lembro que foi em uma tarde ao sair do trabalho que passei em frente a uma lotérica. Uma enorme fila. Nativa uma amiga do trabalho perguntou se não ia jogar na loto. Ri e disse que nunca joguei. Não tinha sonhos de riqueza. – Mas jogue Alice, uma vez só. Quem sabe isto vai trazer a maior felicidade entre você e o Balty? – Entrei com ela na lotérica, fiz um jogo sem pensar e guardei a cartela dentro da bolsa. – Oito dias depois nem lembrava dela. – Vi a noite em um jornal da TV que o ganhador do premio de cento e setenta milhões ainda não aparecera. Puxa! É muito dinheiro para ninguém procurar.

                 Em casa nem pensei no assunto. Morava com Dona Madalena em um quartinho que ela me alugou. Grande amiga. Muitos conselhos. Ao procurar a chave vi bem lá no fundo da bolsa à cartela. Sorri. Não podia ser eu. No dia seguinte passei na lotérica. Tremia quando vi o resultado do meu jogo. Era a ganhadora. Liguei para Balty pedindo socorro. Não sabia o que fazer. Meia hora depois ele chegou. Abraçou-me e disse que não precisava me preocupar. Falei para o senhor Norberto sobre o prêmio – Alice ele disse – É muito dinheiro. Você não tem pais, irmãos alguém que possa lhe ajudar? Expliquei que Balty já oferecera. – Não sei não Alice, eu sei que vão casar, mas não seria melhor ver isto sozinha? Soube que na Caixa tem gente especializada. – Calma seu Norberto. Tenho a maior confiança em Balty.

                  Confiança. Linda palavra. O que o amor não faz entre dois amantes que juram viver juntos para sempre. Balty abriu uma poupança. Conta conjunta. O gerente ficou conosco horas nos orientando. – No mesmo dia sai do emprego e junto com ele fomos para o melhor hotel do Rio de Janeiro. – Depois veremos onde vamos morar e o que vamos fazer. Agora precisamos ter um tempo nosso. Só nosso. Eu ria de felicidade. Balty no segundo dia saiu cedo. Disse que ia encontrar um amigo e que eu devia descansar. Balty sumiu. Não voltou ao hotel naquele dia e nem no outro. Não o encontrei em nenhum hospital, delegacia e fui até no IML.  Nada. Estava desesperada. Não sabia o que fazer. O gerente do hotel me cobrou as diárias atrasadas. Mais de oito mil reais. Meu Deus! Na minha conta só duzentos reais. Na poupança nada. Vazia!

                   Não estava acreditando. Impossível. Balty nunca faria isto. Ele me amava. Qual a explicação? Quem sabe foi sequestrado e os bandidos o obrigaram. Procurei o gerente. Disse que não tinha como pagar. Oferecia trabalhar para eles até a conta ser liquidada. Fiquei três meses no hotel e voltei para São Paulo. Voltei à velha rotina. Minhas amigas e seu Norberto e Dona Madalena inconformada. O dinheiro para mim não era tudo. Eu o amava. Ele podia ter ficado com tudo se eu estivesse do seu lado. Passaram-se cinco meses. Meses sofrendo, mas aos poucos estava esquecendo dele. – Um dia sentado no Bar do Tadeu onde almoçava um homem pediu licença para sentar. Dizer o que? – Moça, soube do seu caso. Sou advogado e detetive. Se quiser encontro o desgraçado que te roubou e vou lhe ensinar como recuperar seu dinheiro. Se concordar e tudo dando certo quero quarenta por cento.

                     Não disse nada. Peguei um cartão dele. Um mês depois vi uma noticia no jornal que me revoltou. Ele cercado de mulheres numa casa cinematográfica em Búzios. Liguei na mesma hora para Osmar. O advogado detetive. Disse que continuasse trabalhando. Ele ia investigar tudo. Passou mais de um mês quando ele me procurou. – Tenho um plano. Não vai ser difícil. Explicou-me tudo. Balty tinha uma fazenda no interior de Goiás. Na cidade de Morro Agudo próxima a sua fazenda. Ele ia quase semanalmente no puteiro da cidade. Era o rei da Boate da Margarida. Dava grandes festas. Osmar sabia como eu devia agir. Transformou-me de morena para loura. Pagou do próprio bolso a um cirurgião em plástica e estética operar os lábios, o nariz, a orelha e deixar minhas bochechas mais firmes. De olhos castanhos transformou-se em verdes. Tornei-me uma prostituta. Fui aceita na Boate de Dona Margarida sem problemas.

                     Quando ele me viu me chamou. Fez todo tipo de arrasta-pé, jogou nota de cem na mesa dizendo que era minha. Bem tarde, já madrugada ele completamente alcoolizado me levou para sua fazenda. Fiquei com ele por quinze dias. O plano era ver papeis que ele tinha assinado e guardar comigo. Quando já tinha oito folhas de papel fugi de lá. Eu e Osmar ficamos dois meses treinando a sua assinatura. Eu consegui uma noite que ele estava quase dormindo sua senha. Retiramos todo o dinheiro que ainda existia nos bancos. Cento e quarenta e dois milhões. A casa em Búzios e a Fazenda não deu. Entreguei a parte do Osmar. Sessenta e cinco milhões. Bem empregado. Ainda sobrou mais de setenta milhões. No segundo mês voltei lá. Minha vingança só começou. De novo na Boate da Margarida. Ele me viu e desconfiou. Levou-me de novo para a fazenda.

                   Tentou tudo para saber o que eu era. Inventei uma história. Naquela noite ele totalmente alcoolizado e a fumar maconha desmaiou na cama. O amarrei melhor que pude. Fui na cozinha. Peguei uma faca de açougueiro. Sem dó e sem piedade cortei seu pênis e seu saco escrotal. Ele gritou e gemeu fundo. Estava amarrado. Gritei com ele – Agora seu filho da puta, vais comer e desgraçar mulher no inferno! Gritando perguntou quem eu era. Dei uma risada. Alice seu filho de uma égua, Alice que nunca foi no país das maravilhas. Sai de lá correndo. Peguei um Taxi até Goiana. Lá aluguei um jatinho que me levou ao Uruguai. Tinha lá uma bela casa. Mas não ia ser minha moradia. Hoje tenho casa em Malibu próximo a Los Angeles de frente a praia, outra em Paris próximo a Torre Eiffel. Um grande apartamento situado ao longo dos jardins um bairro dos mais elitistas da capital. Em Mônaco mais precisamente em Monte Carlos comprei outra. Minha Avó mora comigo. Nativa minha amiga da loja também.

                   Não tenho namorados. Vivo com minha renda. Passeamos eu e Nativa pela Europa. Nunca mais voltei ao Brasil. Tinha receio que o filho da mãe do Balty pudesse fazer alguma vingança ou mesmo que estivesse sendo procurada pela policia. Osmar de vez em quando aparecia. Deixou seu escritório de Detetive e ria quando perguntava se estava fazendo alguma coisa. Eu sou rica. Não sei se sou feliz. O dinheiro é a minha esperança de independência. Mas sei que a única segurança verdadeira para a felicidade é fazer uma reserva de sabedoria, de experiência e competência. Aprendi a lidar com o dinheiro. Eu sei que o dinheiro é o sonho dos pobres. Eles não conseguem pensar em mais nada. Bem que o Dalai Lama um dia comentou que o que mais surpreende é o homem, vive perdendo a saúde para juntar dinheiro, depois perde o dinheiro para recuperar a saúde. Ele também vive pensando ansiosamente no futuro, de tal forma que acaba por não viver nem o presente nem o futuro. Vive como se nunca fosse morrer e morre como se nunca tivesse vivido!

                      Mas querem saber a verdade? Nunca esqueci Balty. Eu o amava e ainda o amo. Poderíamos ter sido felizes. O maldito dinheiro não deixou. Agora eu Alice só penso em encontrar o meu País das Maravilhas.

Eu amo cada milímetro da minha vida.
 “Na riqueza ou na pobreza, na saúde ou na doença...”
O importante é saber que iremos envelhecer,
Ricos ou pobres, se você estiver doente cuidarei
De você e tenho certeza que se eu estiver doente
Você irá cuidar de mim.
E isso é o que importa, a lembrança de um passado,
A segurança de um futuro e a alegria do presente.