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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O rocambolesco escândalo da virgem Rebecca e o famoso Senador X.



Soneto do Prazer maior.

Amar dentro do peito uma donzela;
Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela:

Faze-la vir abaixo, e com cautela.
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Aperta-la nos braços casta e bela:

Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:

Vê-la rendida enfim a Amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que ha no mundo.
Bocage

O rocambolesco escândalo da virgem Rebecca e o famoso Senador X.

          Foram anos a procura dela. Anos que gastei o que tinha e fiz o que podia para saber seu paradeiro. Rebecca era única. Eu sabia que não ia amar a mais ninguém pois sem ela a vida para mim não tinha valor. Apesar de tudo eu não importava o que ela fez e a receberia de braços abertos. As notícias sobre ela deixaram de virar manchetes mas ninguém sabia onde ela foi parar. Dizem que as paixões nos levam a cometer erros e que o amor nos faz cometer desatinos que mais cedo ou mais tarde iremos nos arrepender. Um poeta anônimo escreveu que a cada dia que se passa você vai subindo um degrau dessa imensa escada algumas vezes você perde a força e cai depois se levanta e continua a subir essa escada de cabeça erguida. Pode ser. Eu não desisti e não vou desistir.

         Como fomos felizes juntos em nossa infância. De mãos dadas nunca iriamos saber o que o nosso futuro nos reservaria. Lembro-me de vê-la sorrindo na beira do Lago das borboletas, correndo entre elas, brincando sem as machucar. Apesar dos seus oito anos a cena merecia ser filmada e passada em todas as telas de cinema que existissem neste mundo. Eu fiquei ali inebriado com seu balé em meio às flores silvestres e a revoada das borboletas das mais variadas cores. Você se foi e eu voltei lá diversas vezes e não a vi. Sentado na Praça do soldado onde repassava a prova de história que teria no dia seguinte vi você parada na minha frente a dizer oi. Olhe quase cai do banco de madeira ao ver você. Sei que você sempre disse que foi o início de uma grande amizade. Para mim nunca foi.

        Alguém um dia me disse que a mais nobre paixão humana é aquela que ama a imagem da beleza em vez da realidade material. O maior prazer está na contemplação. Pode ser verdade. Eu nunca me cansava de olhar para você. Foram anos de juventude contemplativa e poucas vezes senti sua pele morena em minhas mãos. Nunca beijei você. Nunca. Quer saber? Nem sonhos eróticos eu tinha. Eu dizia para mim que poderia não ser hoje, poderia não ser amanhã mas algum dia eu iria realizar o meu grande sonho de ter você junto a mim para sempre. Quando tudo aconteceu você ia fazer dezesseis anos. Todos os anos que brincamos juntos, que cantamos e como sua voz era maravilhosa, como passeamos pelas ruas de Campos Dourados e eu sabia que ninguém duvidava que um dia iriamos fazer o par perfeito, nos casar, ter uma família e viver feliz para sempre. Mas isto só na minha mente. Ninguém nunca aceitaria estarmos casados. Sociedade hipócrita.

      Maldito Senador. Maldito mil vezes. Eu era uma pulga, um mosquito que ele com um simples bater de mão me destruiria. Porque foi a nossa cidade? Era pequena e ele que queria conquistar o mundo não precisava ter ido lá. Seu discurso em frente à Matriz de Santo Antonio foi arrebatador. As moçoilas da cidade estavam em estado de êxtase. Quando ele jogava seu topete já embranquecido de um lado ao outro elas suspiravam. Fizeram fila na porta do seu hotel. Diziam que ele era solteiro e aspirante a Presidente da Republica. Como foi bajulado. A cidade inteira ficou aos seus pés. Porque seu pai o convidou a sua casa? Não precisava. Mas ele foi só era uma das famílias mais conceituadas e como médico seu pai seria um cabo eleitoral dos mais perfeitos.

       Eu fiquei em frente sua casa, junto a uma multidão enquanto o Senador X se refastelava com o almoço cinco estrelas que sua mãe fazia. Você chegava à janela, me dava adeus, sorria e voltava para dentro. Os erros são os rascunhos da vida. E foi naquele dia que eu descobri uma coisa fantástica, talvez a mais fantástica de todas: Quando a gente para de procurar desesperadamente por um amor, a gente percebe que não pode amar qualquer coisa. Eu amava só você e mais ninguém. Fiquei feliz com a partida do Senador X. Mas o que me contou a noite me deixou atordoado. Seu pai autorizou você a ir morar na capital na casa do Senador X. Ele tinha prometido que você iria estudar no melhor colégio. Iria aprender a viver na melhor sociedade brasileira, prometeu mundos e fundos. E o pior, disse que a trataria como se fosse à filha que nunca teve. Eu gostaria de ter lhe dito que nunca acredite em uma lágrima, acredite na pessoa que derramou esta lágrima por você.

          Ele mandou sua limusine para sua viagem. Tentei me aproximar mas seu pai não deixou. Pediu-me que não atrapalhasse seu futuro brilhante. Eu perdi o sentido da vida. Sem você ela para mim não tinha mais valor. Pensava como estava vivendo, se sorria como outrora, e se deixou que o maldito Senador X a tocasse. Isto me embrulhava o estomago. Nunca podia imaginar ele acariciando seu rosto, seus seios, todo seu corpo que pensei que um dia seria meu. Sei que você não sabe, mas pense, pense que existe alguém que sorri só a ouvir o teu nome? Mas o mundo não para de girar, a vida segue sua rotina e o tempo foi passando, passando, e eu não me interessando por ninguém. O que aconteceu me deixou atabalhoada. Os jornais estamparam em letras garrafais – O Senador X quase foi morto por um jovem de nome Rebecca.

           Aquilo era impossível. Seus pais não me diriam nada. Com os parcos recursos que um dia guardei para nós parti para a capital. Eu sabia que não seria recebido pelo Senador X. Mas eu precisava saber onde você estava. Eu não ia deixar você sozinha. Eu jurei que éramos um só antes e seriamos sempre a mesma pessoa. Não iria condenar o que fizeste. Nunca. Perdoar é libertar alguém da culpa e descobrir que o prisioneiro era você! Fiquei vários dias no portão tentando saber de alguém onde você estava. Um jardineiro sorriu para mim. Era novo, me achou bonita. Sorri para ele. Deixei que me acariciasse apesar de sentir asco. Contou-me que por ser menor você foi para a Fundação Casa. Onde internam os menores infratores. Disse-me mais que você iria ficar lá por dois anos até fazer 18 anos. Eu não iria deixar. Combinei com o jardineiro de voltar à noite e deixar que ele me possuísse. Maldito que se masturbasse a vontade, pois ali nunca mais voltaria.

             Precisava conhecer alguém que trabalhava ali. Ninguém iria me deixar entrar. Afinal estava com meus dezessete anos e o que poderia acontecer é ser presa também. Uma mocinha magrinha muito simpática estava saindo do prédio. Aproximei-me. Disse que uma prima estava ali se ela conhecia. Ao dar o nome ela sorriu. – Olhe sua prima não está mais aqui. Ficava o dia inteiro gritando, dizendo que ia se matar. Foi levada para o Hospital psiquiátrico de Sorocaba. Meu dinheiro estava acabando. Comia quase nada. Um Cachorro quente aqui outro ali, mas deu para comprar uma passagem de ônibus até Sorocaba. Não foi difícil encontrar o hospital. Difícil era entrar lá e descobrir onde estava Rebecca. O jeito era me prostituir com um guarda. Não seria fácil. Era virgem, mas por Rebecca eu faria qualquer coisa.

            Antonio foi uma bela surpresa. Quando me aproximei dele ele sorriu para mim. Quando disse o que queria ele se assustou, quando ofereci meu corpo ele fechou a cara e disse que aquilo ele nunca faria. Era evangélico e respeitava todas as mulheres que um dia apareceram em sua vida. Disse que iria ajudar. Que eu voltasse no dia seguinte e ele iria se informar onde Rebecca estaria internada. Arrumou-me um uniforme de faxineira. Entrei sem problemas junto com ele. Quase chorei quando vi Rebecca. Estava um trapo. Aquela menina linda e formosa era sombra do agora. Ela não me reconheceu e só no segundo dia um lampejo passou em sua mente. Antonio me ajudou a fugir com ela. Deu-nos uma carona até Campinas. Não poderia voltar a nossa cidade. Ela seria presa novamente. O dinheiro acabou. Tive que me prostituir. Um rufião me fez uma proposta para trabalhar em São João da Barra. Estavam construindo o grande porto e era um ótimo local para fazer dinheiro se prostituindo.

              Rebecca me seguia onde fosse. Não era dona de si mais. Não tinha domínio sobre si e era mais um robô humano a me seguir. Faz onze anos que estamos morando em São João da Barra. Compramos a Boate Nostradamus. Ela não é a melhor, mas não nos deixou na miséria. Falta pouco para irmos embora daqui e quem sabe abrir um pequeno comercio em alguma cidade. Rebecca dorme comigo na mesma cama. Não fazemos sexo. Ela não sente nada. Mas eu durmo abraçado com ela. Eu a amo mais que tudo na vida. Nunca me perguntou pelos seus pais e pelo Senador X. Não contei para ela que ele e a família tinham morrido em um acidente aéreo. Não importava para ela. Eu e ela já temos mais de dezoito anos. Sei que seremos felizes, pois eu vou cuidar dela por toda minha vida. Como disse Shakespeare, é muito melhor viver sem felicidade do que sem amor. E eu amo muito a minha querida Rebecca. Sei que não disse, mas me chamo Monalisa e não sou bonita. Mas importa?  

Soneto do Monge caluniado.
 [anônimo]
Língua mordaz, infame e maldizente,
Não ouses murmurar do bom prelado:
Ainda que o vejas com Alcippe ao lado.
Amigo não será, será parente:

Geral da Ordem, pregador potente,
No jogo padre-mestre jubilado,
E também caloteiro descarado
Pode ser que o repute alguma gente:

E que te importa que fornique a moça?
Que pregue o evangelho por dinheiro? [pé quebrado]
Que em vez de andar a pé ande em carroça?

Talvez que disso seja um verdadeiro
Dos monges exemplar, da Serra d'Ossa,

Pois que dos monges é hoje o primeiro. (anônimo)

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Eu lhe ofereci minha vida e um buque de margaridas amarelas, porque não aceitou?



Onde está você margarida?
Flor mais bela do jardim
Com seus olhos tão profundos
Que expõem minha alma
Me tirando da solidão

Não me abandones margarida
Pois preciso do teu ser para ser
Do teu perfume embriagando manhãs
Me fazendo perder os sentidos

De tua voz acalentando meu coração
Do teu corpo entrelaçando o meu
Do teu sorriso arredio e corrediço
Do teu amor para libertar-me.

Eu lhe ofereci minha vida e um buque de margaridas amarelas, porque não aceitou?

               Não dá para esquecer. Nunca. Os versos de Clarice batem no fundo dentro de mim. Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la. “Enquanto escrevo, vou ter que fingir que alguém está segurando a minha mão.” Mas isto não é real. Ela foi tudo para mim e eu não fui nada para ela. Porque o destino sempre protege aqueles que não precisam? Meu irmão Javel sempre teve tudo que quis. E a vida sempre lhe sorriu. Deu-lhe todas as benesses que alguém pode alcançar. Será que ele merecia? Quem sou eu para julgar. As pessoas achavam que éramos gêmeos. Eu era um ano mais novo e nunca nos vestimos iguais. Eu nunca o invejei. Nunca. Sei que ele era mais perfeito que eu, mas até quanto à perfeição influi no caráter? – Gill, ele dizia, cada dia é um dia. O seu vai chegar. Nunca chegou. Ele faculdade eu Escola Técnica. Ele ótimo emprego e eu com um que mal dava para viver.

                Aceitei tudo normalmente. Nunca me revoltei. Até os poucos amigos que me conheciam diziam que eu devia mudar. Mesmo não sendo não deveria aceitar ser o segundo. Juro que eu tentei tudo para ser um bom irmão, mas não deu. Palavra que não deu. De quem foi à culpa? Disseram que foi dela. Não sei. Mas Javel sabia que eu a amava. Ele sabia que eu a conheci antes dele, ele sabia que a vida sem ela era nada para mim. Eu sei que mesmo lhe oferecendo Margaridas Amarelas suas preferidas ela evitava aceitar. Aquilo me machucava, doía uma espada entrando em meu corpo. Ela agora preferia beber o néctar do veneno com meu irmão. Todos poderão dizer que a escolha foi dela. Mas por quê? Eu disse a ela que daria minha vida para fazê-la feliz. Ela abaixava a cabeça e não dizia nada.

              Por toda minha vida fui um perdedor. Queria jogar e ganhar, mas não conseguia. Meu irmão era meu fantasma. Para ele tudo em primeiro lugar. As sobras eu podia utilizar. Foram anos assim e até achei que tudo era natural. A melhor roupa, o melhor calçado, a melhor mesada, os direitos que lhe davam e para mim nenhum. Erro do meu pai? Da minha mãe? Não dizem que os primogênitos tem mais direitos? Afinal ao nascer primeiro os direitos não são deles? Posso dizer que a principio concordei com tudo isso. Concordei de ele estar sempre em primeiro lugar. Eu sei também que onde a esperança falta, onde um amor se transforma em mal, onde quem mata se esconde em si mesmo nada e nem nunca pode dar certo. Há o amor... que nasce não sei onde e vem não sei como, e dói não sei por que (Camões).

               Foi o destino que me jogou naquela marquise para fugir do vento forte e da chuva que caiu como uma tromba d’água naquela tarde tão benfazeja. Foi quando a vi pela primeira vez. Meu Deus! Como era linda. Não vi mais a chuva nem mesmo ouvi trovões. Os raios que caiam eram flores de margaridas amarelas que iluminavam aquele rosto de uma deusa do Olimpo. Ela suspirava forte. A corrida até ali a deixou cansada. Alguns segundos ela me olhou. Sorriu. Que sorriso maravilhoso! - Oi, ela disse. Eu tremia, minha voz saiu rouca – Oi para você também. Ela riu mais. – Que chuva eim? Ela continuou falando. Eu só ouvindo. Se ela quisesse eu ficaria todo o tempo do mundo ali só a ouvi-la. Que linda voz, que sorriso maravilhoso e sua expressão? Impossível descrever. A chuva começou a amainar. Maldita chuva. Assim ela iria embora. – Olhe, ela disse, sou sua vizinha, saio de madrugada e volto à noite para o trabalho. Casa 132, amanhã sábado estou em casa, se quiser apareça para tomar um café!

                 Ela se foi. Eu fiquei ali esperando seu vulto desaparecer na esquina. Porque não fomos juntos? Até hoje me pergunto por quê não. Levantei cedo. Um banho vesti minha melhor roupa. Meu irmão perguntou o que houve para ficar assim tão elegante. Não respondi. Bati na casa dela. – Entre ela disse quando chegou à porta. Sem palavras para descrever aquela tarde. Não pense mal. Ela contava histórias, me serviu café, depois chocolate, um delicioso bolo de baunilha. A noite chegou. A mãe dela uma simpatia. Mas vi que precisava ir. – Posso convidar você para um cinema? Perguntei. Naquele noite mesmo saímos. Segurei em sua mão. A minha tremia de emoção. Foi o começo de tudo. Eu a amava. Mais que tudo na vida. Meu irmão cismado. Não deu para esconder. – Um dia nos encontrou no portão da casa dela – Não vai me apresentar? Ele disse. Vontade de mandar ele para o diabo que o carregue. Não devia, mas ela me perguntou quem ele era. Foi o começo do fim de tudo.

              Meu inferno começou. Por ela minha vida já não era mais a mesma. Aceitei tudo do meu irmão, mas agora eu o odiava. Cheguei a maldizer ter nascido do mesmo sangue. Vi que ele não me respeitava. Ele sabia que eu a amava, que estávamos namorando e mesmo assim insistiu com ela. Foi ela quem me disse que ele seria o homem de sua vida. Um ódio mortal tomou conta de mim. A única coisa importante na minha vida ele me roubava sorrindo. Nem sequer me procurou para justificar. Passei a beber e juro que até hoje não sei por quê. Eu nunca bebi. Tornei-me um alcoólatra e me mandaram embora da fábrica. Nenhum dos dois sequer me procuraram. Não houve explicações, nunca houve. Começou a germinar na minha mente a ideia de matá-los. Meu Deus, a que ponto estava chegando.

               No dia do casamento deles resolvi acabar com meu sofrimento. Quando o Padre fosse perguntar se tinha alguém contra, eu daria um tiro em cada um e sorrindo para os convidados diria – Eu sou contra este casamento. Que eles sejam felizes no meio do inferno! Que o demônio os abençoe. Mas não ia ficar só por aí. Com a própria arma daria um tiro em minha cabeça. Claro, eu seria companhia deles junto aos demônios naquela caldeira do diabo onde iriamos morar. – Vesti minha melhor roupa. Um terno que guardei para quando fosse casar com ela. Consegui de um conhecido um Taurus 45. Na hora marcada entrei na igreja. Todos olharam para mim. Quando o Padre começou a perguntar dei um tiro no meu irmão e outro nela. Ri quando ambos caíram ao chão. Virei para os convidados sorrindo – Eu a amava, disse. Ele o meu irmão sabia. Roubou-me como sempre o fez em toda nossa vida. Alguém correu para me tomar a arma. Dei um tiro por bairro do queixo e a bala saiu do outro lado do cérebro.

                 Fiquei vagueando em um lugar fétido, gemidos por todo lado e pessoas passando e me desejando que fosse para o inferno. Tudo escuro e eu não via nada. O tiro que dei em mim toda hora entrada em minha cabeça e saia do outro lado. Doía horrivelmente. Pessoas horrendas riam de mim. Eu me chafurdava na lama. Não conseguia sair. Onde estava? Queria agora mesmo ir para o inferno. Lá era meu lugar e não aqui no meio desta podridão. Eu não via nada. Em uma parede invisível sempre aparecia uma tela, sempre com as mesmas imagens. Na primeira vez o que passava me assustou. Ele e ela vivos em um hospital. Não estavam mortos. Eu errei o tiro e um acertou a perna dela e o outro o ombro do meu irmão. Eles sorriam para mim. Malditos! Mil vezes malditos. – Alguém me tocou o ombro. Um bicho enorme. Vermelho como se estive em fogo, chifres brancos na cabeça. – Olá meu jovem, vim te buscar. Segurou-me com força. Jogou-me em um despenhadeiro. Lá no fundo lavas quentes onde cai com um estrondo. Gritava de dor, tentava pensar e não conseguia, foram anos e anos assim. Meu Deus me ajude! Não aguentava mais aquilo. Eu sentia muita falta. Não só dela como dele também.

               Não sei quanto tempo fiquei ali. Queria falar com ela e meu irmão. Pedir perdão. Sei que eles iriam me perdoar. Tentei tudo, mas cansei de procurar, de insistir, é difícil e ficava cada dia mais cansado. Meu corpo doía e melhor é deixar o tempo agir. O que deve ser será. Se existe um Cristo um Deus sei que um dia eles irão me perdoar. Sei que aquele sofrimento um dia terá fim. Agora uma nevoa a minha frente. Um pequeno raio de sol apareceu. Pessoas chegaram vestidos de branco. Uma jovem sorrindo me trouxe flores. Margaridas amarelas. Lindas, as flores que eu amava e que sempre dei a ela. Alguém me abraçou. Fui elevado no ar e levado para um céu onde existia tudo. Hoje vivo ali, ajudando e trabalhando. Dizem que eu vou voltar. Voltarei com filho dela e de meu irmão. Será sublime. Uma alegria. Não sei se mereço isto. Mas Deus sabe o que faz!  

              Hoje na cidade dos sonhos onde moro, eu vivo sorrindo, não tenho mais ódio no coração e nas minhas horas vagas depois de minhas orações eu faço poemas e no meu jardim eu cultivo margaridas amarelas. Sempre quando me lembro deles lagrimas caem e mesmo com voz não tão bonita eu canto: - £São duas flores unidas, são duas rosas nascidas, talvez do mesmo arrebol. Vivendo, no mesmo galho, da mesma gota de orvalho, do mesmo raio de sol. Ah! Unidas... Ai quem pudera, numa eterna primavera, viver qual vive esta flor. Juntar as rosas da vida, na rama verde e florida, na verde rama do amor!£ – Que eles sejam muito felizes. Para sempre... (Castro Alves)

Saudade

Não tenho percebido cores;
Não tenho sentido mais o néctar das flores;
Não sei mais o que é real e nem abstrato.
Talvez neste exato momento, não sonhasse com o futuro,
Nem vivesse no passado;

Há dias tenho vagado na mente distante, incessante,
Mas exatamente neste instante, tenho sido incoerente e não só com opiniões diferentes,
Mas também com pouca e muita gente.
Sou assim... Naturalmente!
“O que fazer?”.

Tenho medo da dor, tenho medo de sofrer,
Tenho medo de brigar com meu amor, de matar, de morrer...
Será que todos são assim?
Não sei mais quem sou!
Não tenho estado mais aqui comigo.

A saudade, engrandece a tristeza,
Que mesmo sendo de nossa natureza,
Não consigo aceitar!

Sinto falta de tudo, sinto falta de você!
Na memória, a lembrança tardia de um sorriso e um olhar de uma triste alegria, que glorifico!
É o que me faz despertar!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Alice, que nunca esteve no país das maravilhas.



Ao perseguir o coelho branco
Alice caiu num buraco
Que a levou a um lugar encantado,
Com maravilhas por todos os lados.
Animais ali falavam como gente
Comemoravam o desaniversário.
E a Rainha Vermelha com destreza
Arrancava a cabeça
Daqueles que a desagradavam.
Alice inventava palavras,
Sempre procurando rimá-las.
Com  elas em suas andanças
Encantava adultos e crianças.
No País das Maravilhas,
Flores lindas eram orgulhosas
De seus perfumes e cores.
Enquanto que a Lagarta Azul
Enigmática em seus dizeres
Fumava horrores.
E a pobre Alice em seu caminho
Conheceu a luta da Rainha Branca,
Que teve seu trono usurpado
Por irmã vil e invejosa.
Luta sangrenta por justiça
Onde com a espada vortal
Pôde mostrar que era a tal.
Alice, menina que cresceu,
Sem lembrar da viagem maravilhosa,
Pensava que enlouqueceu!
Mas ao lembrar-se de toda a verdade,
Que não era sonho, mas realidade,
Alice conformou-se com seu papel:
Tornou-se heroína e lutou contra o inimigo,
Devolvendo o trono à bondosa amiga branca rainha.
06/11/2012
Postado por Guacira Maffra. 

Alice, que nunca esteve no país das maravilhas.

             Nunca desejei ser além do que sou. Sou feliz. Tenho tudo que preciso. Um emprego, bons amigos, um ótimo patrão e um homem que preenche tudo aquilo que preciso. Estamos noivos. Não é um amor louco nem um amor apaixonado. Não sei o que seria da minha vida sem ele. Não esqueço o dia que nos conhecemos. Foi no lotação Centro/Mauá. Não havia lugares vagos. Ele me olhou sorriu e disse – Moça, ninguém com sua beleza pode viajar em pé. – Fiquei encabulada. Sentei e ele em pé não tirava os olhos de mim. Desci na Praça Ontário e ele ficou da janela me dando adeus. Que sensação maravilhosa eu sentia. Na loja Pentecostes até seu Norberto o proprietário me perguntou o que houve. Claro que não contei. Era um segredo meu. Uma paixão enorme que se abria em meu coração. Mas será que eu o viria de novo?

             Durante vários dias fiquei entre o céu e a terra. Não podia esquecê-lo. Nunca. Corria para o ônibus e ele não estava lá. Ia dormir pensando nele, pois tinha medo de que o esquecesse. Estava absorta pensando em minha sorte que nunca foi boa para mim. – Moça, tem um Mocassim número 42? Levantei os olhos. Um susto! Quase desmaiei, era ele, Deus não tinha me abandonado. Sorri, um sorriso apressado mas verdadeiro. – Claro, sente-se aqui. Vou buscar várias cores para o senhor escolher. – Senhor? Ele riu. Chame-me de Balty, o nome real é Baltazar, mas gosto mais do apelido. – Muito prazer Balty, eu sou Alice. Foi o melhor dia da minha vida. Minhas amigas da loja sorriram e disseram que era o homem mais bonito que tinham visto. Moreno, bronzeado, cabelos negros lisos e bem penteados, dois enormes olhos castanhos que brilhavam e a boca? A mais perfeita que já vi.

              Convidou-me para sair à noite. Um cinema. Super-respeitoso. Levou-me em casa e só um beijo na minha mão. Estava nas nuvens. Eu dormi sonhando ser a verdadeira Alice nos pais das maravilhas. Quem sabe ela caiu na toca do coelho? Quem sabe a lógica do absurdo do filme não seria sua lógica? Eu tinha assistido o filme varias vezes. Adoro a história de Lewis Carroll. Um mês de namoro. Nunca pedi nada. Ele tinha um velho fusca 74. Nunca abri a porta. Ele corria para abrir. Levou-me algumas vezes em restaurantes. Simples é claro. Ele contou-me que não ganhava muito. Era gerente de uma Banca de Verduras no Ceasa. Pediu-me em casamento quatro meses depois. O dia mais feliz de minha vida. Mandei um telegrama para a Vovó. Queria compartilhar minha alegria, meus pais haviam falecido há tempos.

                Naquela mesma noite dormirmos juntos. Uma experiência incrível, pois eu era virgem. Nunca tinha sido de nenhum homem. Ele calmo e ponderado me levou nas nuvens. Quando fiquei nua na sua frente senti um enorme calafrio e fiquei vermelha de vergonha – Pensei comigo – Vai ser meu marido, não tenho de envergonhar. Ele me acariciou de uma maneira que tremia dos pés a cabeça. Na ponta do dedo de uma mão começava nos pés, ia subindo pelas pernas e com o outro dedo vinha ao contrario, descendo pelo seu rosto, na ponta dos seios e ambos se encontravam lá, na sua gruta escondida que ninguém a tinha visto antes. Ele foi o primeiro. Pediu-me para acariciar sem membro. Grande. Duro mas macio. Ele me possuiu devagar, eu tremia e gemia. Nunca tinha passado por aquilo. Era lindo e maravilhoso. Pela primeira vez tive um orgasmo que eu mesma fiquei admirada.

                Nosso casamento seria em novembro. Dia 12 na Igrejinha de Santo Antônio do meu bairro. Eu acreditava ser a pessoa mais feliz do mundo. Engraçado. Não sabia onde ele morava. Ele nunca me disse e nunca perguntei. Lembro que foi em uma tarde ao sair do trabalho que passei em frente a uma lotérica. Uma enorme fila. Nativa uma amiga do trabalho perguntou se não ia jogar na loto. Ri e disse que nunca joguei. Não tinha sonhos de riqueza. – Mas jogue Alice, uma vez só. Quem sabe isto vai trazer a maior felicidade entre você e o Balty? – Entrei com ela na lotérica, fiz um jogo sem pensar e guardei a cartela dentro da bolsa. – Oito dias depois nem lembrava dela. – Vi a noite em um jornal da TV que o ganhador do premio de cento e setenta milhões ainda não aparecera. Puxa! É muito dinheiro para ninguém procurar.

                 Em casa nem pensei no assunto. Morava com Dona Madalena em um quartinho que ela me alugou. Grande amiga. Muitos conselhos. Ao procurar a chave vi bem lá no fundo da bolsa à cartela. Sorri. Não podia ser eu. No dia seguinte passei na lotérica. Tremia quando vi o resultado do meu jogo. Era a ganhadora. Liguei para Balty pedindo socorro. Não sabia o que fazer. Meia hora depois ele chegou. Abraçou-me e disse que não precisava me preocupar. Falei para o senhor Norberto sobre o prêmio – Alice ele disse – É muito dinheiro. Você não tem pais, irmãos alguém que possa lhe ajudar? Expliquei que Balty já oferecera. – Não sei não Alice, eu sei que vão casar, mas não seria melhor ver isto sozinha? Soube que na Caixa tem gente especializada. – Calma seu Norberto. Tenho a maior confiança em Balty.

                  Confiança. Linda palavra. O que o amor não faz entre dois amantes que juram viver juntos para sempre. Balty abriu uma poupança. Conta conjunta. O gerente ficou conosco horas nos orientando. – No mesmo dia sai do emprego e junto com ele fomos para o melhor hotel do Rio de Janeiro. – Depois veremos onde vamos morar e o que vamos fazer. Agora precisamos ter um tempo nosso. Só nosso. Eu ria de felicidade. Balty no segundo dia saiu cedo. Disse que ia encontrar um amigo e que eu devia descansar. Balty sumiu. Não voltou ao hotel naquele dia e nem no outro. Não o encontrei em nenhum hospital, delegacia e fui até no IML.  Nada. Estava desesperada. Não sabia o que fazer. O gerente do hotel me cobrou as diárias atrasadas. Mais de oito mil reais. Meu Deus! Na minha conta só duzentos reais. Na poupança nada. Vazia!

                   Não estava acreditando. Impossível. Balty nunca faria isto. Ele me amava. Qual a explicação? Quem sabe foi sequestrado e os bandidos o obrigaram. Procurei o gerente. Disse que não tinha como pagar. Oferecia trabalhar para eles até a conta ser liquidada. Fiquei três meses no hotel e voltei para São Paulo. Voltei à velha rotina. Minhas amigas e seu Norberto e Dona Madalena inconformada. O dinheiro para mim não era tudo. Eu o amava. Ele podia ter ficado com tudo se eu estivesse do seu lado. Passaram-se cinco meses. Meses sofrendo, mas aos poucos estava esquecendo dele. – Um dia sentado no Bar do Tadeu onde almoçava um homem pediu licença para sentar. Dizer o que? – Moça, soube do seu caso. Sou advogado e detetive. Se quiser encontro o desgraçado que te roubou e vou lhe ensinar como recuperar seu dinheiro. Se concordar e tudo dando certo quero quarenta por cento.

                     Não disse nada. Peguei um cartão dele. Um mês depois vi uma noticia no jornal que me revoltou. Ele cercado de mulheres numa casa cinematográfica em Búzios. Liguei na mesma hora para Osmar. O advogado detetive. Disse que continuasse trabalhando. Ele ia investigar tudo. Passou mais de um mês quando ele me procurou. – Tenho um plano. Não vai ser difícil. Explicou-me tudo. Balty tinha uma fazenda no interior de Goiás. Na cidade de Morro Agudo próxima a sua fazenda. Ele ia quase semanalmente no puteiro da cidade. Era o rei da Boate da Margarida. Dava grandes festas. Osmar sabia como eu devia agir. Transformou-me de morena para loura. Pagou do próprio bolso a um cirurgião em plástica e estética operar os lábios, o nariz, a orelha e deixar minhas bochechas mais firmes. De olhos castanhos transformou-se em verdes. Tornei-me uma prostituta. Fui aceita na Boate de Dona Margarida sem problemas.

                     Quando ele me viu me chamou. Fez todo tipo de arrasta-pé, jogou nota de cem na mesa dizendo que era minha. Bem tarde, já madrugada ele completamente alcoolizado me levou para sua fazenda. Fiquei com ele por quinze dias. O plano era ver papeis que ele tinha assinado e guardar comigo. Quando já tinha oito folhas de papel fugi de lá. Eu e Osmar ficamos dois meses treinando a sua assinatura. Eu consegui uma noite que ele estava quase dormindo sua senha. Retiramos todo o dinheiro que ainda existia nos bancos. Cento e quarenta e dois milhões. A casa em Búzios e a Fazenda não deu. Entreguei a parte do Osmar. Sessenta e cinco milhões. Bem empregado. Ainda sobrou mais de setenta milhões. No segundo mês voltei lá. Minha vingança só começou. De novo na Boate da Margarida. Ele me viu e desconfiou. Levou-me de novo para a fazenda.

                   Tentou tudo para saber o que eu era. Inventei uma história. Naquela noite ele totalmente alcoolizado e a fumar maconha desmaiou na cama. O amarrei melhor que pude. Fui na cozinha. Peguei uma faca de açougueiro. Sem dó e sem piedade cortei seu pênis e seu saco escrotal. Ele gritou e gemeu fundo. Estava amarrado. Gritei com ele – Agora seu filho da puta, vais comer e desgraçar mulher no inferno! Gritando perguntou quem eu era. Dei uma risada. Alice seu filho de uma égua, Alice que nunca foi no país das maravilhas. Sai de lá correndo. Peguei um Taxi até Goiana. Lá aluguei um jatinho que me levou ao Uruguai. Tinha lá uma bela casa. Mas não ia ser minha moradia. Hoje tenho casa em Malibu próximo a Los Angeles de frente a praia, outra em Paris próximo a Torre Eiffel. Um grande apartamento situado ao longo dos jardins um bairro dos mais elitistas da capital. Em Mônaco mais precisamente em Monte Carlos comprei outra. Minha Avó mora comigo. Nativa minha amiga da loja também.

                   Não tenho namorados. Vivo com minha renda. Passeamos eu e Nativa pela Europa. Nunca mais voltei ao Brasil. Tinha receio que o filho da mãe do Balty pudesse fazer alguma vingança ou mesmo que estivesse sendo procurada pela policia. Osmar de vez em quando aparecia. Deixou seu escritório de Detetive e ria quando perguntava se estava fazendo alguma coisa. Eu sou rica. Não sei se sou feliz. O dinheiro é a minha esperança de independência. Mas sei que a única segurança verdadeira para a felicidade é fazer uma reserva de sabedoria, de experiência e competência. Aprendi a lidar com o dinheiro. Eu sei que o dinheiro é o sonho dos pobres. Eles não conseguem pensar em mais nada. Bem que o Dalai Lama um dia comentou que o que mais surpreende é o homem, vive perdendo a saúde para juntar dinheiro, depois perde o dinheiro para recuperar a saúde. Ele também vive pensando ansiosamente no futuro, de tal forma que acaba por não viver nem o presente nem o futuro. Vive como se nunca fosse morrer e morre como se nunca tivesse vivido!

                      Mas querem saber a verdade? Nunca esqueci Balty. Eu o amava e ainda o amo. Poderíamos ter sido felizes. O maldito dinheiro não deixou. Agora eu Alice só penso em encontrar o meu País das Maravilhas.

Eu amo cada milímetro da minha vida.
 “Na riqueza ou na pobreza, na saúde ou na doença...”
O importante é saber que iremos envelhecer,
Ricos ou pobres, se você estiver doente cuidarei
De você e tenho certeza que se eu estiver doente
Você irá cuidar de mim.
E isso é o que importa, a lembrança de um passado,
A segurança de um futuro e a alegria do presente.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Doutor Freed D’olison, o Capo de tutti i capi.



O mafioso.
Perdido nessa trama de mentiras
Nessa rede de intrigas

Tua estrada é sem fim
Tua existência é suja

Mais uma carta
Uma aposta
Um tiro como resposta
Treze cigarros jogados ao chão
Cinco garrafas quebradas na mão

Tarde demais, tarde demais
Sete corpos deixados p'ra trás
Foi longe demais, longe demais
Dezessete vidas que seguem sem paz

Por ruas desertas
Cantando pneus
Enredos que não são teus
São teu filme em preto-e-branco
Manchados de sangue, manchados de espanto
Manchados de cifra$

Mas onde vai?
Vão te encontrar
Calma, calma...!
Vão assassinar a tua alma.

Nanda_Vamp

Doutor Freed D’olison, o Capo de tutti i capi.

Dias de hoje.

                Doutor Freed D’olison não esperava visita, isto é não esperava ninguém. Nunca foi procurado em sua casa a não ser pelos casos especiais. Olhou de soslaio pela janela. Quatro homens carregando outro. Seu coração bateu forte. Nunca recusou ajudar ninguém. Abriu a porta e foi empurrado por um homem com o triplo de sua altura. Gritou para ele – Chame o Doutor urgente anão aleijado! Doutor Freed D’olison não se sentiu ofendido. Quantas e quantas vezes tinham dito isto para ele. – Eu sou o Doutor Freed D’olison – disse. O que vinha mais atrás foi mais educado. – Precisamos de você. Meu irmão foi baleado. Um tiro na barriga. – Doutor Freed D’olison sabia que  eram bandidos caso contrário teriam ido a um hospital. Sabiam quem ele era. Um ano antes socorrera um jovem de dezessete anos com uma bala bem perto do coração. Atiraram nele em frente sua casa. Ninguém o socorreu. Só ele. Operou ali mesmo no quartinho que tinha nos fundos da casa.

                 O jovem ficou bom. Agradeceu ao Doutor Freed D’olison e ele nada disse. Sabia que o jovem devia pertencer a alguma gang do bairro. Começou então uma busca frenética por seus conhecimentos médicos. Dificilmente olhavam para ele, mas o respeitavam como profissional. Nunca perdeu um paciente para o demônio. Isto mesmo. Todos que apareciam eram bandidos. Uma vez a policia bateu em sua porta. O empurrou entrando a força. Ele não disse nada. Dizer o que? Colocaram nele as algemas. Na saída mais de trinta bandidos armados até os dentes. Soltaram-no. Um dos bandidos disse aos policias que nunca mais fizessem aquilo. Se fizerem vai correr sangue. Não os seus e sim de seus filhos da sua mãe, do seu pai! Deixaram o Doutor Freed D’olison em paz por muitos anos.

Dias de ontem.

                 Sua mãe fazia tudo por ele. Nunca escondeu nada. Disse que ele nasceu em um beco sujo. Uma travessa da São João. Parto normal e ela ria quando contava. Ele nasceu com uma enorme corcunda. – Não dá para operar dona. – Disseram os médicos. O levou para casa. A principio tinha raiva dele. Um toquinho feio, uma corcunda que parecia mais ser filho do Diabo. Aos cinco anos ele não falava. Aos sete balbuciava. Foi para a escola. Ridicularizado mas as professoras ficaram impressionadas com sua inteligência. Aprendia tudo com rapidez. Tinha dificuldade não fala e pela sua aparência ninguém deu muita bola para ele. Sua mãe que o odiava passou a amá-lo. Jurou que ia fazer dele alguém. Aprendeu a mendigar na esquina da Paulista. Levava um pedaço de carne estragada, amarrava na perna e se fazia de coitada doente.

                     Todo o dinheiro que ganhou foi para pagar a escola do filho. Sorriu sem gritar quando ele foi o terceiro classificado no vestibular para medicina na USP. Formou-se como o primeiro da turma. Não foi chamado por nenhum hospital. Tentou residência em vários. Com muito custo a troco de um salario de fome achou um humilde próximo a São Paulo. Ficou lá três anos. Era um médico com uma facilidade grande de curar e operar. Tinha as mão de seda. Mas sua aparecia não ajudava. Agora com trinta e dois anos seu rosto era cheio de espinhas. Quase não tinha nariz e o cabelo caiu todo. Usava uma peruca velha quando andava na rua, mas quem olhava para ele dava voltas.

Dias de hoje.

                     Sua fama cresceu no mundo do crime. Dom Pergoto de Cassiole era um Capo de tutti i capi. Todos o reverenciavam. Sua filha vivia tossindo. Passou a cuspir sangue. Os melhores médicos da capital disseram não saber o que fazer. Não era tuberculose. Mas Chiquita de Cassiole a cada dia definhava mais. Foi Bate Volta quem sugeriu o Doutor Freed D’olison. Dom Pergoto de Cassiole mandou buscá-lo. Assustou quando ele chegou. Afinal o que viu foi um anão mais feio que o diabo e com uma corcunda enorme. Bate Volta disse para acreditar nele. Chefe, o homem é feio, mas é bom demais. – Tudo bem disse. Se este anão filho duma égua não curar minha filha, vou encher ele de mel e jogar para as formigas lá na grota do capeta. Foi amor à primeira vista. O Doutor Freed D’olison se apaixonou pela paciente. Ficou na mansão de Dom Pergoto de Cassiole por dois meses. A cada dia a Chiquita de Cassiole ficava mais formosa. Sua tosse sumiu.

                 O Doutor Freed D’olison foi convidado e passou a morar na mansão de Dom Pergoto de Cassiole. Gentileza dele como explicou. Foi feito um quarto especial. Dom Pergoto não fazia nada sem consultá-lo. O Doutor Freed D’olison um dia pediu a mão de Chiquita de Cassiole. – Nem morto meu caro Doutor. Nem morto. Ela a minha linda filha casar com você? Se ponha no seu lugar! – O Doutor Freed D’olison não se sentiu ofendido, pois era comum ser tratado assim. Mas o tempo pensava vai modificar tudo. Ele sabia que Chiquita de Cassiole um dia seria sua esposa. Junto com o capo ele viajou o mundo. Ficou conhecido como o maior médico cirurgião da terra. Claro isto no meio dos homens sem caráter e sem alma. Sua fama foi tanta que Reis e Rainhas, grandes empresários passaram a procurá-lo. Tirou um câncer terminal do primeiro ministro russo. Seu nome ficou famoso. Ricaços o procuravam. Criminosos famosos desciam todos os dias em seus jatinhos em Congonhas. A policia paulista estava de prontidão, mas as ordens para prendê-lo não vinham nunca. Pudera, o governador e o prefeito lhe deviam favores. Sem contar centenas de vereadores, deputados e senadores.

                 Diziam que o melhor hospital de Brasília era a ponte aérea para São Paulo. Agora não. Era mandar um jatinho buscar o Doutor Freed D’olison. Dom Pergoto de Cassiole morreu de causas desconhecidas. Ninguém nunca soube o que acontecera. Começou a definhar, definhar até que um dia apareceu morto em sua cama. Deixou o Doutor Freed D’olison em seu lugar. Ninguém disse nada. Havia uma espécie de medo por parte dos outros capos. Tudo estava mudando. O Doutor Freed D’olison mostrou outra face. Trouxe sua mãe velhinha para a mansão. Disse para Chiquita de Cassiole que se não casasse com ele seria colocada na rua. Não foi um casamento suntuoso. Casou-se na igrejinha de São Judas Tadeu. Convidados só os oito capos que ainda achavam que mandavam. Chiquita de Cassiole tremeu quando foi para a cama com ele. Fechou os olhos de medo e horror. Mas incrível, ele deu a ela orgasmos que ela nunca antes experimentou.

               O Doutor Freed D’olison demonstrou para ela como um amante nunca antes imaginado. Tudo mudou para ela depois desta noite. Não sabia como, mas estava se apaixonando por aquele anão corcunda feio de doer. Impossível dizia para sí própria, mas a cada noite mais e mais ansiava pelo seu corpo.  O Doutor Freed D’olison satisfazia a ela varias vezes a noite. Mas a medita que o tempo foi passando o desejo foi diminuindo. Chiquita Cassiole viu que tudo desmoronava. Seu esposo não era mais o mesmo. A tratava com displicência, não ligava mais para ela. Agora só se preocupava pelos negócios. Sem ele perceber começou a transar com um segurança da casa. Mal ela sabia que Parquito era um agente federal infiltrado.

               O Doutor Freed D’olison tinha um plano para desaparecer com todos os capos do estado. Na última reunião deles sentiu um ar de deboche para com sua figura. Eles não perdem por esperar disse para si. Ele sabia que não podia confiar em ninguém. Bate Volta até que se mostrava fiel, mas a traição está escondida na sua pessoa. Você não sabe até ver que foi traído. Desconfiou de Parquito, o segurança. Ninguém sabia o nome dele e nem quando foi admitido. Quando passava perto dele sentia o perfume de Chiquita. Uma tarde o convidou para tomar um café com ele. Parquito ficou de olhos abertos. Aquele Anão filho da puta não era de confiança. Bebeu devagar para sentir o gosto. Não adiantou. Sentiu seu corpo endurecer. Sua mente fervilhava, mas o corpo não obedecia. Tentou falar e não conseguiu.

            Viu quando o Anão desgraçado o arrastou até a sala de operações. Sentiu o bisturi cortando seus braços. Ele cortava devagar, rindo e dizendo para Parquito – Vais sentir dor Parquito. Muito e não poderá mexer com o corpo e nem falar. Quero que você sinta meu ódio. Você não sabe como me sinto sendo traído pela minha mulher. O dia dela vai chegar. - A dor era tremenda. Ele cortou cada braço e cada perna com maestria. Jogou tudo em uma banheira que estava cheia de acido. Depois se sentiu carregado e jogado na banheira. O acido queimava. Doía horrivelmente. Morreu lentamente a gritar e pedir pelo amor de Deus que parasse. Ninguém ouvia. Seu corpo estava mudo. Chiquita desconfiou do desaparecimento de Parquito. Nunca desconfiou que seu marido o tivesse matado.

           O Doutor Freed D’olison planejou tudo. A reunião seria feita em um galpão abandonado próximo a Guarulhos. Sabia que todos os Chefões iriam aparecer. Sabia que eles se sentiam ameaçados e levariam o maior número de seguranças possíveis. Não importava. Não ia sobrar ninguém. A bomba já estava armada para explodir cinco minutos depois do horário do encontro. Ele mesmo a fez. Toda a área do galpão seria explodida. Ele não iria. Estaria na hora assistindo o maestro alemão Helmuth Rilling no Teatro Municipal se deliciando com Bach, que prometia uma apresentação soberba da Missa em Si Menor. Ninguém poderia dizer que ele estaria envolvido. O Doutor Freed D’olison era um aficionado por opera. Muitas vezes ia a Europa só para ver um grande regente.  Chiquita de Cassiole estava ao lado dele. Quando o espetáculo terminou ouviu um zum zum no salão. Ele já sabia o que seria. Que fossem para o inferno, pois antes eles do que eu.

           Os jornais no outro dia se divertiam com suas manchetes sensacionalistas. Não sobrou ninguém no galpão. A polícia disse que foi uma explosão criminosa. Já sabiam quem seria o responsável, mas como provar? Porque ele o capo mais temido não estava lá? Chiquita de Cassiole definhava a olhos vistos. Dona Manfred D’olison mãe do Doutor Freed D’olison passou a gostar de Chiquita. Temia por ela, pois conhecia seu filho. Quando ela começou a emagrecer e tossir sem parar ela pediu ao filho que perdoasse Chiquita. Ela precisava viver. Ela nunca teve uma filha e a considerava como uma. Ele mal levantou a cabeça. Nem piscou. Não disse nada. Ela sabia que não haveria perdão. Chiquita de Cassiole morreu um mês depois. Ninguém soube por quê. Não ouve nenhuma investigação. Foi enterrada no mausoléu da família Cassiole no Cemitério da Consolação. Menos de vinte pessoas presente.

             Dona Manfred D’olison evitava comer junto ao filho. Tinha medo de também se envenenada. Ela sabia que ele nunca a amou como mãe. Deve ter sabido que ele foi rejeitado por ela no hospital. Vivia pelos cantos da mansão desvencilhando dele de cômodo em cômodo. O viu matar muita gente e curar outros tantos. Ele não tinha amigos e ninguém se aproximava dele. Um segurança jura tê-lo visto uma noite com um tridente soltando rajadas de fogo na varanda da mansão. Jurava também que ele estava com dois chifres e ria como louco. Saiu em desabalada carreira pela rua e nunca mais voltou. Doutor D’olison viveu muitos e muitos anos. Sua mãe tentou matá-lo um dia. Achou que ele estava dormindo. Engano. Ele a aprisionou num sótão da mansão e ninguém deu falta dela. Claro que ninguém a conhecia direito. Ele não recebia visitas e nunca a apresentou a ninguém. Dos vintes seguranças ninguém mais deu noticia dela. Se morreu se foi embora ninguém sabia de nada.

                 Os capos da Unione Siciliana evitavam vir ao  Brasil. Ninguém sabia como enfrentar o Doutor Freed D’olison. Muitos deles usaram de seu serviço e tinham uma admiração por ele como médico. Eles sabiam que no Brasil tudo funcionava diferente. Não havia os soldati, os caporegimes, os capos ou capitães e nem tampouco o sotocapo e o principal deles o consigliere. Para eles aqui não havia máfia. Nunca ouve. Mas uma enorme quantia em dinheiro corria por todos os lados. Sabendo explorar seria uma mina de ouro. Só que ninguém conseguia montar nada semelhante aqui. Morriam um atrás do outro. Um dia desceu no aeroporto de Cumbica pelo voo 354 da Alitália um homem baixo, com uma enorme corcunda e sumiu em meio à multidão. Dois dias depois embarcou de volta para a Itália. O que veio fazer aqui ninguém soube.  Só souberam que o Doutor Freed D’olison desapareceu sem deixar rastros. A policia com um mandato revistou peça por peça de sua casa. Encontraram varias ossadas enterradas. O IML ia ter muito serviço para identificar.

                  A vida dá a uns o que merecem e a outros o que não mereciam. A cada um de cada um. Só sei quem muitos reis, rainhas, presidentes e presidentas, sem considerar uma infinidade de senadores e deputados e os participantes fixos e honorários da Lista de Bilionários da Forbes também sentiram falta das mãos mágicas do Doutor Freed D’olison. Mas tudo tem o seu final. Ele também teve o dele. Que foi que contratou e quem foi quem executou nunca saberemos. A Máfia, os Ufos, O Vaticano e a Cia quem sabe poderiam ter em seus arquivos alguma história parecida. Mas nós simples mortais morreremos na esperança de que todos são inocentes perante a lei!

Eu te amo!


Ela gritou!
Tinha conhecimento do que se passava no coração
Era difícil conter a voz
Abandona essa ira
Chuta o pessimismo
Não existe amor impossível
Desculpe se costumo agir sem pensar
Quero tudo que deseje compartilhar
Deleta o nada
Dá um sinal
Emite um som
Mesmo que seja: 
Menina chata, me deixa em paz!
Aproveita a Lua Nova
Perdoa-me vai!



Jmattos