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segunda-feira, 27 de maio de 2013

Doutor Freed D’olison, o Capo de tutti i capi.



O mafioso.
Perdido nessa trama de mentiras
Nessa rede de intrigas

Tua estrada é sem fim
Tua existência é suja

Mais uma carta
Uma aposta
Um tiro como resposta
Treze cigarros jogados ao chão
Cinco garrafas quebradas na mão

Tarde demais, tarde demais
Sete corpos deixados p'ra trás
Foi longe demais, longe demais
Dezessete vidas que seguem sem paz

Por ruas desertas
Cantando pneus
Enredos que não são teus
São teu filme em preto-e-branco
Manchados de sangue, manchados de espanto
Manchados de cifra$

Mas onde vai?
Vão te encontrar
Calma, calma...!
Vão assassinar a tua alma.

Nanda_Vamp

Doutor Freed D’olison, o Capo de tutti i capi.

Dias de hoje.

                Doutor Freed D’olison não esperava visita, isto é não esperava ninguém. Nunca foi procurado em sua casa a não ser pelos casos especiais. Olhou de soslaio pela janela. Quatro homens carregando outro. Seu coração bateu forte. Nunca recusou ajudar ninguém. Abriu a porta e foi empurrado por um homem com o triplo de sua altura. Gritou para ele – Chame o Doutor urgente anão aleijado! Doutor Freed D’olison não se sentiu ofendido. Quantas e quantas vezes tinham dito isto para ele. – Eu sou o Doutor Freed D’olison – disse. O que vinha mais atrás foi mais educado. – Precisamos de você. Meu irmão foi baleado. Um tiro na barriga. – Doutor Freed D’olison sabia que  eram bandidos caso contrário teriam ido a um hospital. Sabiam quem ele era. Um ano antes socorrera um jovem de dezessete anos com uma bala bem perto do coração. Atiraram nele em frente sua casa. Ninguém o socorreu. Só ele. Operou ali mesmo no quartinho que tinha nos fundos da casa.

                 O jovem ficou bom. Agradeceu ao Doutor Freed D’olison e ele nada disse. Sabia que o jovem devia pertencer a alguma gang do bairro. Começou então uma busca frenética por seus conhecimentos médicos. Dificilmente olhavam para ele, mas o respeitavam como profissional. Nunca perdeu um paciente para o demônio. Isto mesmo. Todos que apareciam eram bandidos. Uma vez a policia bateu em sua porta. O empurrou entrando a força. Ele não disse nada. Dizer o que? Colocaram nele as algemas. Na saída mais de trinta bandidos armados até os dentes. Soltaram-no. Um dos bandidos disse aos policias que nunca mais fizessem aquilo. Se fizerem vai correr sangue. Não os seus e sim de seus filhos da sua mãe, do seu pai! Deixaram o Doutor Freed D’olison em paz por muitos anos.

Dias de ontem.

                 Sua mãe fazia tudo por ele. Nunca escondeu nada. Disse que ele nasceu em um beco sujo. Uma travessa da São João. Parto normal e ela ria quando contava. Ele nasceu com uma enorme corcunda. – Não dá para operar dona. – Disseram os médicos. O levou para casa. A principio tinha raiva dele. Um toquinho feio, uma corcunda que parecia mais ser filho do Diabo. Aos cinco anos ele não falava. Aos sete balbuciava. Foi para a escola. Ridicularizado mas as professoras ficaram impressionadas com sua inteligência. Aprendia tudo com rapidez. Tinha dificuldade não fala e pela sua aparência ninguém deu muita bola para ele. Sua mãe que o odiava passou a amá-lo. Jurou que ia fazer dele alguém. Aprendeu a mendigar na esquina da Paulista. Levava um pedaço de carne estragada, amarrava na perna e se fazia de coitada doente.

                     Todo o dinheiro que ganhou foi para pagar a escola do filho. Sorriu sem gritar quando ele foi o terceiro classificado no vestibular para medicina na USP. Formou-se como o primeiro da turma. Não foi chamado por nenhum hospital. Tentou residência em vários. Com muito custo a troco de um salario de fome achou um humilde próximo a São Paulo. Ficou lá três anos. Era um médico com uma facilidade grande de curar e operar. Tinha as mão de seda. Mas sua aparecia não ajudava. Agora com trinta e dois anos seu rosto era cheio de espinhas. Quase não tinha nariz e o cabelo caiu todo. Usava uma peruca velha quando andava na rua, mas quem olhava para ele dava voltas.

Dias de hoje.

                     Sua fama cresceu no mundo do crime. Dom Pergoto de Cassiole era um Capo de tutti i capi. Todos o reverenciavam. Sua filha vivia tossindo. Passou a cuspir sangue. Os melhores médicos da capital disseram não saber o que fazer. Não era tuberculose. Mas Chiquita de Cassiole a cada dia definhava mais. Foi Bate Volta quem sugeriu o Doutor Freed D’olison. Dom Pergoto de Cassiole mandou buscá-lo. Assustou quando ele chegou. Afinal o que viu foi um anão mais feio que o diabo e com uma corcunda enorme. Bate Volta disse para acreditar nele. Chefe, o homem é feio, mas é bom demais. – Tudo bem disse. Se este anão filho duma égua não curar minha filha, vou encher ele de mel e jogar para as formigas lá na grota do capeta. Foi amor à primeira vista. O Doutor Freed D’olison se apaixonou pela paciente. Ficou na mansão de Dom Pergoto de Cassiole por dois meses. A cada dia a Chiquita de Cassiole ficava mais formosa. Sua tosse sumiu.

                 O Doutor Freed D’olison foi convidado e passou a morar na mansão de Dom Pergoto de Cassiole. Gentileza dele como explicou. Foi feito um quarto especial. Dom Pergoto não fazia nada sem consultá-lo. O Doutor Freed D’olison um dia pediu a mão de Chiquita de Cassiole. – Nem morto meu caro Doutor. Nem morto. Ela a minha linda filha casar com você? Se ponha no seu lugar! – O Doutor Freed D’olison não se sentiu ofendido, pois era comum ser tratado assim. Mas o tempo pensava vai modificar tudo. Ele sabia que Chiquita de Cassiole um dia seria sua esposa. Junto com o capo ele viajou o mundo. Ficou conhecido como o maior médico cirurgião da terra. Claro isto no meio dos homens sem caráter e sem alma. Sua fama foi tanta que Reis e Rainhas, grandes empresários passaram a procurá-lo. Tirou um câncer terminal do primeiro ministro russo. Seu nome ficou famoso. Ricaços o procuravam. Criminosos famosos desciam todos os dias em seus jatinhos em Congonhas. A policia paulista estava de prontidão, mas as ordens para prendê-lo não vinham nunca. Pudera, o governador e o prefeito lhe deviam favores. Sem contar centenas de vereadores, deputados e senadores.

                 Diziam que o melhor hospital de Brasília era a ponte aérea para São Paulo. Agora não. Era mandar um jatinho buscar o Doutor Freed D’olison. Dom Pergoto de Cassiole morreu de causas desconhecidas. Ninguém nunca soube o que acontecera. Começou a definhar, definhar até que um dia apareceu morto em sua cama. Deixou o Doutor Freed D’olison em seu lugar. Ninguém disse nada. Havia uma espécie de medo por parte dos outros capos. Tudo estava mudando. O Doutor Freed D’olison mostrou outra face. Trouxe sua mãe velhinha para a mansão. Disse para Chiquita de Cassiole que se não casasse com ele seria colocada na rua. Não foi um casamento suntuoso. Casou-se na igrejinha de São Judas Tadeu. Convidados só os oito capos que ainda achavam que mandavam. Chiquita de Cassiole tremeu quando foi para a cama com ele. Fechou os olhos de medo e horror. Mas incrível, ele deu a ela orgasmos que ela nunca antes experimentou.

               O Doutor Freed D’olison demonstrou para ela como um amante nunca antes imaginado. Tudo mudou para ela depois desta noite. Não sabia como, mas estava se apaixonando por aquele anão corcunda feio de doer. Impossível dizia para sí própria, mas a cada noite mais e mais ansiava pelo seu corpo.  O Doutor Freed D’olison satisfazia a ela varias vezes a noite. Mas a medita que o tempo foi passando o desejo foi diminuindo. Chiquita Cassiole viu que tudo desmoronava. Seu esposo não era mais o mesmo. A tratava com displicência, não ligava mais para ela. Agora só se preocupava pelos negócios. Sem ele perceber começou a transar com um segurança da casa. Mal ela sabia que Parquito era um agente federal infiltrado.

               O Doutor Freed D’olison tinha um plano para desaparecer com todos os capos do estado. Na última reunião deles sentiu um ar de deboche para com sua figura. Eles não perdem por esperar disse para si. Ele sabia que não podia confiar em ninguém. Bate Volta até que se mostrava fiel, mas a traição está escondida na sua pessoa. Você não sabe até ver que foi traído. Desconfiou de Parquito, o segurança. Ninguém sabia o nome dele e nem quando foi admitido. Quando passava perto dele sentia o perfume de Chiquita. Uma tarde o convidou para tomar um café com ele. Parquito ficou de olhos abertos. Aquele Anão filho da puta não era de confiança. Bebeu devagar para sentir o gosto. Não adiantou. Sentiu seu corpo endurecer. Sua mente fervilhava, mas o corpo não obedecia. Tentou falar e não conseguiu.

            Viu quando o Anão desgraçado o arrastou até a sala de operações. Sentiu o bisturi cortando seus braços. Ele cortava devagar, rindo e dizendo para Parquito – Vais sentir dor Parquito. Muito e não poderá mexer com o corpo e nem falar. Quero que você sinta meu ódio. Você não sabe como me sinto sendo traído pela minha mulher. O dia dela vai chegar. - A dor era tremenda. Ele cortou cada braço e cada perna com maestria. Jogou tudo em uma banheira que estava cheia de acido. Depois se sentiu carregado e jogado na banheira. O acido queimava. Doía horrivelmente. Morreu lentamente a gritar e pedir pelo amor de Deus que parasse. Ninguém ouvia. Seu corpo estava mudo. Chiquita desconfiou do desaparecimento de Parquito. Nunca desconfiou que seu marido o tivesse matado.

           O Doutor Freed D’olison planejou tudo. A reunião seria feita em um galpão abandonado próximo a Guarulhos. Sabia que todos os Chefões iriam aparecer. Sabia que eles se sentiam ameaçados e levariam o maior número de seguranças possíveis. Não importava. Não ia sobrar ninguém. A bomba já estava armada para explodir cinco minutos depois do horário do encontro. Ele mesmo a fez. Toda a área do galpão seria explodida. Ele não iria. Estaria na hora assistindo o maestro alemão Helmuth Rilling no Teatro Municipal se deliciando com Bach, que prometia uma apresentação soberba da Missa em Si Menor. Ninguém poderia dizer que ele estaria envolvido. O Doutor Freed D’olison era um aficionado por opera. Muitas vezes ia a Europa só para ver um grande regente.  Chiquita de Cassiole estava ao lado dele. Quando o espetáculo terminou ouviu um zum zum no salão. Ele já sabia o que seria. Que fossem para o inferno, pois antes eles do que eu.

           Os jornais no outro dia se divertiam com suas manchetes sensacionalistas. Não sobrou ninguém no galpão. A polícia disse que foi uma explosão criminosa. Já sabiam quem seria o responsável, mas como provar? Porque ele o capo mais temido não estava lá? Chiquita de Cassiole definhava a olhos vistos. Dona Manfred D’olison mãe do Doutor Freed D’olison passou a gostar de Chiquita. Temia por ela, pois conhecia seu filho. Quando ela começou a emagrecer e tossir sem parar ela pediu ao filho que perdoasse Chiquita. Ela precisava viver. Ela nunca teve uma filha e a considerava como uma. Ele mal levantou a cabeça. Nem piscou. Não disse nada. Ela sabia que não haveria perdão. Chiquita de Cassiole morreu um mês depois. Ninguém soube por quê. Não ouve nenhuma investigação. Foi enterrada no mausoléu da família Cassiole no Cemitério da Consolação. Menos de vinte pessoas presente.

             Dona Manfred D’olison evitava comer junto ao filho. Tinha medo de também se envenenada. Ela sabia que ele nunca a amou como mãe. Deve ter sabido que ele foi rejeitado por ela no hospital. Vivia pelos cantos da mansão desvencilhando dele de cômodo em cômodo. O viu matar muita gente e curar outros tantos. Ele não tinha amigos e ninguém se aproximava dele. Um segurança jura tê-lo visto uma noite com um tridente soltando rajadas de fogo na varanda da mansão. Jurava também que ele estava com dois chifres e ria como louco. Saiu em desabalada carreira pela rua e nunca mais voltou. Doutor D’olison viveu muitos e muitos anos. Sua mãe tentou matá-lo um dia. Achou que ele estava dormindo. Engano. Ele a aprisionou num sótão da mansão e ninguém deu falta dela. Claro que ninguém a conhecia direito. Ele não recebia visitas e nunca a apresentou a ninguém. Dos vintes seguranças ninguém mais deu noticia dela. Se morreu se foi embora ninguém sabia de nada.

                 Os capos da Unione Siciliana evitavam vir ao  Brasil. Ninguém sabia como enfrentar o Doutor Freed D’olison. Muitos deles usaram de seu serviço e tinham uma admiração por ele como médico. Eles sabiam que no Brasil tudo funcionava diferente. Não havia os soldati, os caporegimes, os capos ou capitães e nem tampouco o sotocapo e o principal deles o consigliere. Para eles aqui não havia máfia. Nunca ouve. Mas uma enorme quantia em dinheiro corria por todos os lados. Sabendo explorar seria uma mina de ouro. Só que ninguém conseguia montar nada semelhante aqui. Morriam um atrás do outro. Um dia desceu no aeroporto de Cumbica pelo voo 354 da Alitália um homem baixo, com uma enorme corcunda e sumiu em meio à multidão. Dois dias depois embarcou de volta para a Itália. O que veio fazer aqui ninguém soube.  Só souberam que o Doutor Freed D’olison desapareceu sem deixar rastros. A policia com um mandato revistou peça por peça de sua casa. Encontraram varias ossadas enterradas. O IML ia ter muito serviço para identificar.

                  A vida dá a uns o que merecem e a outros o que não mereciam. A cada um de cada um. Só sei quem muitos reis, rainhas, presidentes e presidentas, sem considerar uma infinidade de senadores e deputados e os participantes fixos e honorários da Lista de Bilionários da Forbes também sentiram falta das mãos mágicas do Doutor Freed D’olison. Mas tudo tem o seu final. Ele também teve o dele. Que foi que contratou e quem foi quem executou nunca saberemos. A Máfia, os Ufos, O Vaticano e a Cia quem sabe poderiam ter em seus arquivos alguma história parecida. Mas nós simples mortais morreremos na esperança de que todos são inocentes perante a lei!

Eu te amo!


Ela gritou!
Tinha conhecimento do que se passava no coração
Era difícil conter a voz
Abandona essa ira
Chuta o pessimismo
Não existe amor impossível
Desculpe se costumo agir sem pensar
Quero tudo que deseje compartilhar
Deleta o nada
Dá um sinal
Emite um som
Mesmo que seja: 
Menina chata, me deixa em paz!
Aproveita a Lua Nova
Perdoa-me vai!



Jmattos

terça-feira, 30 de abril de 2013

A história de Mel que não é mais virgem e virou mulher!




Que mulher é essa
que não se cansa nunca,
que não reclama nada 
que disfarça a dor?
Que mulher é essa
que contribui com tudo,
que distribui afeto, 
tira espinhos do amor!
Que mulher é essa
de palavras leves,
coração aberto, 
pronta a perdoar?
Que mulher é essa? 
Que sai do palco,
ao terminar a peça,
sem chorar!
Essa mulher existe,
sua doçura resiste,
às dores da ingratidão,

Resiste à saudade imensa,
resiste ao trabalho forçado,
resiste aos caminhos do não!
Essa mulher é MÃE,
linda, como todas são.


A história de Mel que não é mais virgem e virou mulher!

                        Vale da Lua estava em polvorosa. Alguém comprou o Sítio do Coronel Gerônimo. Ele jurou que nunca o venderia. Era um belo Sitio. No final da Avenida Sonhos Dourados.  Muitos passavam em frente e ficavam horas olhando. Não havia muros. O jardim imenso. A casa do estilo renascentista era imensa. Dizem poucos sabiam ao certo que atrás da casa existia uma enorme piscina em forma de coração que fazia as delicias dos moradores. Eram para muitos a casa dos sonhos. Quem comprou? Como o Coronel Gerônimo resolveu vender? De boca em boca o assunto do dia na cidade. Vale da Lua era pequena, não mais que vinte e cinco mil habitantes e todos se conheciam. Caras novas que apareciam na Pensão de Dona Dilva ou no Hotel do Seu Francisco todos já sabiam que eram caixeiros viajantes.

                        No dia seguinte chegou uma Nissan preta, com quatro homens que nem pararam na cidade e foram direito para o Sitio do Coronel. No segundo dia chegou um ônibus cheio de operários. O povo todo de porta em porta atrás de uma novidade. Nada. Ninguém sabia de nada. O Coronel Gerônimo passou a morar em sua mansão da Avenida Sonhos Dourados próximo a matriz. Ninguém ousou perguntá-lo nem mesmo seus companheiros das soturnas noites jogando pôquer com o prefeito Santino, o delegado Javier, o juiz Doutor Prazeres e o Padre Thomaz. Algumas vezes valendo altas somas. Em menos de um mês uma reforma foi feita no sítio do Coronel. Cinco caminhões baús enormes despejaram a nova mobília e os especuladores em volta quase nada viam. As comadres corriam aqui e ali. Nada. Ninguém sabia de nada. Um mês e dez dias e os carros rarearam. Chegou sim uma Van, com oito homens de terno, desceram com suas malas. Daquele dia em diante sempre tinha um em cada parte do Sitio.

                         Mel tinha treze anos quando tudo aconteceu. Mel não era linda, era sim uma menina magrinha, cabelos loiros encaracolados e uns olhos azuis que pareciam sair faísca quando se olhava para ela. Era filha única. Sua mãe a adorava, mas seu pai nem tanto assim. Parecia que Mel não era sua filha. Um dia ela viu pelo buraco da fechadura seu pai olhando para vê-la tomar banho. Assustou-se. Por quê? Passou mais dois meses até que um dia ele entrou em seu quarto quando ela trocava de roupa. Gritou com ela. Fique como está. Quero saber se ainda é virgem. Um susto enorme. O que era aquilo? Mel não sabia de nada. Começou a acariciar seu corpo magro. Seu pai emitia sons que a assustaram. Seus dedos passavam em todo parte do seu corpo. Quando levou a mão em seu sexo ela gritou. Ele assustou e saiu do quarto. Não foi a primeira vez. Ele entrava e exigia que ela ficasse só de calcinha enquanto ele se masturbava. Mel chorava de cabeça baixa.

                        Mel passou a ter medo do próprio pai. Esperava ele sair para tomar banho e trocar de roupa. Sabia que não podia contar para sua mãe. Ela nunca acreditaria. Pela janela Mel namorava Nonô, um rapazinho que aprendia a fazer pão na Padaria do Seu Ernesto. Ela gostava dele. Ficava na janela e ele em pé no muro da casa do Seu Antenor bem em frente. Ele fazia sinais e ela ria. Um dia sentiu uma lambada nas costas. Doeu muito. Era seu pai. “Vagabunda!” – Ela correu para seu quarto. Ele foi atrás. – Gritou alto – Tire a roupa, fique só de calcinha em cima da cama – Já! Se não vou te moer de pancada! – Ela começou a chorar, mas obedeceu. Ele não se aproximou dela. Ficou olhando. Tirou seu sexo enorme, e latente e de novo se masturbou na frente da filha.

                           Mel tentou falar com sua mãe. Ela gritou mais alto. Mentirosa! Seu pai é um santo! O que fazer? Procurou o Padre Thomaz. No confessionário contou tudo. O padre a mandou rezar padres nossos e ave Marias e depois procurá-lo na sacristia. A igreja estava vazia. Ela entrou. O padre mandou que ela sentasse em seu colo. Ela acreditou que ia ser consolada e o padre iria conversar com seu pai. Não era assim. Nunca foi. Ela sentiu o membro do Padre entumecendo. Sentiu as mãos do padre acariciando seu corpo. Ele pegou em sua mãozinha e colocou em volta do seu membro. Um susto, nunca pensou que isto pudesse acontecer. Saiu correndo. Agora passou a ficar com medo de estar em casa sozinha. Não tinha amigas para onde ir. Esperou Nonô sair do serviço na padaria. Ele se assustou. Contou para ele tudo. – Resolveram fugir da cidade. Ir para onde? Ela disse que preferia morar no inferno. Qualquer lugar serve. Ela não entendia o que queriam com ela. No dia seguinte ela fugiu de casa e partiu com Nonô.

                          Andaram por muitas léguas pela estrada. Ninguém dava carona. Parou um caminhão. Uma carreta, enorme. O Motorista moreno, forte um grande bigode parou e deu carona. Não deu um sorriso. Só olhou de soslaio para Mel. O que vinha a seguir seria a morte para qualquer um. Foi à primeira vez de Mel. Maldito. A possuiu com força na cabine. Doeu de mais. Ela gritou pediu pelo amor de Deus que parasse. Nonô não podia socorrer. Levou um soco e foi jogado fora da cabine. Ela nem sabia se ele estava morto. Mel desmaiou. O maldito depois de horas abusando dela a jogou na estrada e se foi. Mel ensanguentada se arrastava no asfalto. Muitos passaram e assustados não pararam para socorrer. Uma Mercedes preta parou. Desceu um homem pequeno. De terno. Seu rosto tinha uma enorme cicatriz. Pegou Mel no colo e a levou para seu carro.

                         Passaram não menos que seis anos. Mel agora estava com dezenove. Se sorrisse podia se dizer que era linda. Mas Mel nunca mais sorriu desde que foi estuprada covardemente pelo caminhoneiro. Até hoje ela se sentia suja. Nenhum banho a limpava. Morava em uma mansão nos arredores de Paris. Seu novo protetor tentou de tudo para vê-la sorrir. Mel gostava dele. Foi o pai que ela não teve. Apesar da cicatriz ele não era feio. Rico, riquíssimo. Tentou colocar Mel em uma escola famosa para moças na Basileia. Mel não quis. Mel não queria nada. Achava que devia ter morrido. Roodney tentou de tudo. Fez de Mel uma filha que não teve. Sentiu uma enorme revolta quando a encontrou caída na estrada.

                       Nunca contou para Mel, mas ele mesmo fez questão de castigar o caminhoneiro. Naquela tarde parou em um posto de gasolina para abastecer e ver se Mel queria alguma coisa. Ela agora não chorava mais e nem mostrava sentir suas dores. Antes pararam em uma clinica em uma pequena cidade a beira da estrada. Fizeram tudo para ela ficar internada. Não quis. Jurou que ia fugir. Roodney tinha compromisso em Belgrado. Não podia ficar. No posto de gasolina viu um caminhoneiro grande, enorme dando gargalhadas em uma mesa com os outros amigos. Ouviu dele o que tinha feito a uma menina na estrada. Contava como se fosse tudo natural. Roodney o matou com dois golpes mortais de caratê. Ele era um mestre. Não precisou de ajuda. Ele não estava sozinho. Seu motorista e o segurança estavam com ele a mais de dez anos e sabiam manejar qualquer arma.

                        Ficaram um dia em São Paulo. Roodney disse que ia partir para a Europa. Não gostaria de deixa-la ali sozinha sem proteção. Ela o encarou e disse – Me leve com você. Nasceu daí uma grande amizade. Roodney a considerava a filha que não teve. Deu tudo que podia dar. Mas nunca conseguiu um sorriso. Nestes seis anos Mel aprendeu muito. Roodney viajava muito. Mel ia junto a não ser em alguns lugares que ele achava perigoso. Ela já sabia que ele era um grande traficante de armas pesadas. Chegou a armar diversos países sul africanos e americanos. Todas as policias do mundo gostariam de colocar a mão nele, mas não tinham provas. Mel gostava de ficar na Mansão de Paris. Ele tinha também um chalé na Suíça. Ela ia pouco. Não gostava de frio. Um dia sentiu saudades de sua cidade. Chorou porque sentia saudades também de sua mãe. De seu pai não. Comentou com Roodney. Ele sorriu. Deixe comigo, vou comprar a melhor casa de Vale da Lua.

                      Não foi difícil. Tinha um amigo que conhecia o Coronel Jerônimo. Ele estava devendo muito a este amigo. Quando viu a quantia que ofereciam vendeu logo. Comprometeu-se a não dizer para quem vendeu. Roodney depositou para ela uma grande quantia no banco. Um cartão de crédito sem limites. Colocou lá seis seguranças escolhidos a dedo entre seus homens. Lastimer ficou responsável por ela. Era seu braço direito. A acompanhava sempre aonde ela ia. A cidade em peso um dia a viu descer da Mercedes azul sem capota. Ninguém a reconheceu. Um frenesi geral. Fez algumas compras na loja do Turco e no Mercadinho do Zuzinha. Todo mundo nas janelas. - Quem era? Parece linda! Uma princesa? – Mel não conversou com ninguém. Entrou na igreja. O padre Thomaz veio correndo subserviente. Mel olhou para ele – Lembra-se de mim? – Não senhorita! Ele disse. Eu vou te amaldiçoar o resto da minha vida, seu sacana filho da puta!  Ela disse. Você não perde por esperar.

                     O Padre Thomaz passou uma tarde pensativo, preocupado e com medo. Quem era ela? Dormiu e acordou afoito. Mel! Era Mel! Meu Deus! Ela não tinha se esquecido do que eu quis fazer com ela. – Comentou com Matilde que fazia limpeza. Em menos de uma hora a cidade inteira sabia quem era a madona da mansão. Os pais de Mel ficaram sabendo. Correram até a mansão. No portão foram barrados. Mel só deixou sua mãe entrar. Falou pouco. Não contou nada de sua vida. Mel chorou aquele dia. Ela não tinha mais ódio de seu pai e sua mãe, mas achou que ainda não estava preparada para contar sua história. Um dia pela janela avistou um jovem moreno fazendo a entrega de pães. Meu Deus! Era Nonô! Estava vivo. Foi correndo ao portão. Ele quando a viu ficou com medo. Ela o abraçou. Ele tremeu ao ver os guarda-costas olhando sério para ele.

                     Mel ficou amigo de Nonô. Nada mais que isto. Não era mais o homem de sua vida. Mandou chamar seus pais. Comprou uma nova casa para eles. Seu pai sempre a olhava de cabeça baixa. O Padre Thomaz nunca mais apareceu. Pediu transferência para o Bispo. O medo grande de ser espancado pelos guarda- costas. Mel não deu satisfação para ninguém. Uma tarde Roodney chegou à cidade. Junto com ele mais de cem homens. Disse para Mel que ela devia ir embora. Aqueles homens eram mercenários. Iriam se entrincheirar no sitio fazer barricadas, pois uma guerra iria começar. Tudo que impedisse a entrada seria válido – Mas por quê? Disse Mel. – Querida filha, estou cansado de fugir. Vendi para um general fajuto no país pequeno da África diversas armas. Quando eram entregues o exercito do imperador atacou e matou quase todo mundo. Ele acha que fui eu quem deletou. Já tentou me matar em vários países. Agora chega. Não vou fugir mais.

                     Mel se recusou a sair. Ela não acreditava que alguém de outro pais fosse atacar Roodney ali. Afinal ainda havia leis no Brasil. Um exército em atividade. – Vou ficar – Se não fosse você eu teria morrido! Você me devolveu a vida! Quatros meses aquela movimentação de guerra no sitio. O delegado via tudo assustado e comunicou as autoridades na capital. Um general foi enviado para ver o que seria. Ficou estarrecido. Tentou conversar com Roodney e nada. Mandou avisar que traria um unidade do exército. Ou ele conversava por bem ou por mal. Não deu tempo. Zito Mobutu entrou na cidade com mais de trezentos homens. Vale da Lua virou uma praça de guerra. A população corria para o mato, para os morros e quem tinha carro sumia pelas estradas vicinais, estaduais e federais.

                   Cinco dias depois o Exército federal chegou. Mais de cinco mil homens. O General Afonso deu um ultimato para encerrar a luta. Ninguém ouviu o Exército. Uma ordem do presidente e aviões da força aérea bombardearam o sitio e arredores. Em volta centenas de repórteres de jornais, revistas rádios e TVs. Até a CNN estava lá. O Exército invadiu. Uma matança. Dois dias. Cadáveres e cadáveres. A paz voltou. Mais de duzentos mortos. Ninguém se entregou. Uma carnificina. O sitio destruído. Não encontram Roodney e Mel. Sumiram. Ninguém sabia onde teriam ido. Tornou-se o homem mais procurado do mundo. A Interpol tentou em todos os países onde podia agir. Dois anos depois a imprensa já tinha esquecido o acontecido em Vale da Lua. Acharam que Roodney tinha morrido na luta pois vários mortos ficaram irreconhecíveis por causa do bombardeiro.

                     Era uma fazendinha no sul do Pará. Umas oitocentas cabeças de gado, uma boa aguada, o Rio Corrente atravessando a fazenda e Seu Honório e sua filha Larissa viviam uma nova vida. Nonô estava na mansão quando o tiroteio chegou ao auge. Mostrou um caminho onde fugir. Roodney Mel e cinco dos seus homens seguiram Nonô. Compraram o caminhão do Senhor Joelmir, dono de uma serralheria. Nonô foi com eles. Não havia militares na estrada. Compraram a fazenda. Roodney e Mel ou melhor Seu Honório e Larissa viveram ali para sempre. Mel não se casou. Nunca mais foi de ninguém. A sequela do estupro marcou para sempre. Nonô ficou trabalhando na fazenda. Roodney ou melhor Seu Honório dava uma ou outra escapulida até Nova Fonte. Lá se abastecia de algum dinheiro no banco. Sempre fazia transferência de bancos suíços. Não muito. Não queria dar a vista.

                      Mandou fazer um aeroporto na fazenda. Não possuía nenhuma aeronave. Alugava. Um simples telefonema e em menos de duas ou três horas ela estava à disposição. Viajavam muito pela Europa. Deixou crescer a barba. Fez uma operação no nariz e Mel usava lente escura. Não ficavam nos melhores hotéis para não dar na vista, mas não deixaram de viajar por todos os lugares que desejavam. Viveram por muitos e muitos anos, dizem que morreram já na velhice de “morte morrida”.  Os pais de Mel morreram sem ter a presença dela. O padre Thomaz foi encontrado enforcado um dia no quintal igreja. Ninguém nunca soube o porquê. E assim terminada a história. A história de Mel que não é mais virgem e virou mulher!

Soneto da mulher inútil

De tanta graça e de leveza tanta
Que quando sobre mim, como a teu jeito
Eu tão de leve sinto-te no peito
Que o meu próprio suspiro te levanta.

Tu, contra quem me esbato liquefeito
Rocha branca! Brancura que me espanta
Brancos seios azuis, nívea garganta
Branco pássaro fiel com que me deito.

Mulher inútil, quando nas noturnas
Celebrações, náufrago em teus delírios
Tenho-te toda, branca, envolta em brumas.

São teus seios tão tristes como urnas
São teus braços tão finos como lírios
É teu corpo tão leve como plumas.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Seja bem vindo ao inferno Malaquias!




Este Inferno de Amar!

Este inferno de amar – como eu amo!
Quem me pôs aqui n’alma... Quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que a vida – e que a vida destrói.
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei não me lembro: o passado,
A outra vida que dantes vivi.
Era um sonho talvez... – Foi um sonho.
Em que paz tão serena eu dormi!
Oh! Que doce era aquele sonhar...
Quem me veio ai de mim! Despertar?

Só me lembra que um dia formoso,
Eu passei... Dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez el? Eu que fiz? – não não sei;
Mas nessa hora a viver comecei...

Almeida Garret.  

Seja bem vindo ao inferno Malaquias!

                       - Você soube do Cassandro? Não soube? Fugiu com a mulher do Nequinha. Coitado do Nequinha, em vez de ir atrás dele ou dar risadas o coitado senta na porta da sua casa e chora feito uma mulher! – Eu soube, mas é sempre assim. Já foram épocas que ser macho mesmo era ir atrás e sapecava uns dois tiros na testa do filho da puta! – Mas será que eles merecem mesmo? Afinal não foi a mulher que resolveu fugir com ele? – Malaquias sentado na ponta da mesa nada dizia. Sempre fora assim. Caladão. Sorriso? Ninguém viu. De onde veio e o que fazia para sobreviver era um mistério. Nunca disse uma palavra quando estavam ali em volta da mesa do boteco do Virgílio.  Milico Barbeiro é quem contava que ele chegou uma tarde com uma mochila nas costas e perguntou na Barbearia se alguém sabia de uma casa para vender. – Ali? No Martelo? Um povoado de merda onde Judas perdeu as botas? Milico vendeu seu barraco no fim da rua. A única do povoado.

                        O Zé Povinho ficou de olho em Malaquias que não deu bola para ninguém e meteu a cara no seu barraco. Sozinho deu uma melhorada. Comprou umas taboas e fez seus móveis. Claro ninguém tinha visto, pois ele nunca convidou ninguém para ir lá. As tardes costumava ir ao Bar, melhor ao boteco do Virgílio e tomava uma ou duas cervejas. Não bebia cachaça. Mal escurecia ia embora. As comadres diziam que ele ficava sentado na porta do barraco com um lampião a gás lendo. O que ele lia? Ninguém sabia. Interessante de vez em quando ele desaparecia. Cinco ou dez dias fora. Sumia e ninguém via quando ele ia ou chegava. Parecia um fantasma. E se ele fosse um? – Cruz credo, diziam. Martelo era um povoado, ou melhor, município de Lagoa Grande. Ficava a mais de setenta quilômetros de distância. Nunca recebeu nenhum beneficio, mas se orgulhavam de nunca terem pagado o imposto da prefeitura.

                     - Por favor, Malaquias, não me mate! Eu juro por Deus que lhe pago o dobro! – Malaquias o olhou bem nos olhos. Não tinha volta, não tinha perdão. Quando Zózimo pedia e pagava Malaquias não discutia. Nem conversou com Bodoin. Não tinha o que falar. Meteu-lhe dois balaços entre os olhos. Morreu na hora. Ele gostava disto. Morte sem dor dizia para sim mesmo. Nunca perguntava o que o outro fez. Não lhe interessava. Contrato é contrato e tem de ser respeitado. Para falar a verdade não gostava do Zózimo. Homem falso, sem palavra, sorriso de idiota, mas não era nada disto. Malaquias sabia que ele cumpria ordens do Bicheiro Castanha. Homem rico. Dono de todas as bancas no Estado. Quando alguém resolvia entrar sem ser convidado ou então falasse o que não devia Malaquias era chamado.

                       Malaquias não gostava do seu passado. Nasceu num puteiro. Sua mãe morreu jovem de doença venérea. Dona Marquesa foi quem o criou. A dona da boate. Aos quinze anos se mandou. Caiu no mundo. Sofreu poucas e boas. Com dezesseis matava para roubar. Fora preso algumas vezes. Sendo menor de idade era sempre solto. Resolveu crescer no mundo do crime. Ficar matando atrás de uma esquina por cem ou trezentos reais era muito pouco para ele. Foi Zózimo que lhe ofereceu o primeiro contrato. Não escrito é claro. – Olhe Malaquias já dizia a Amanda Rodrigues que ninguém transforma um demônio em um anjo, mas um anjo pode virar demônio facilmente e deu belas gargalhadas. – Malaquias não entendeu. Mas ele sabia que um dia teria de matar o Zózimo. Ele sabia demais de sua vida. Seu primeiro trabalho lhe rendeu dez mil. A partir daí não aceitava nada por menos de vinte. Matou um cara na divisa com o Paraguay por cem mil reais. O cara era o delegado de lá.

                       Não podia morar na capital. Seria perigoso para ele. Um dia passou por Martelo. Era o lugar ideal. Disse ao Zózimo que quando precisasse dele enviasse uma cartinha para sua caixa postal. Bastava escrever: - Saudades de você amigo! - Caixa Postal? Disse o Zózimo. – Isto mesmo, em Lagoa Grande. – É lá que você mora? - Não, mas passo lá uma vez por semana. Zózimo não perguntou. Sabia que Malaquias não ia dizer mais nada. Malaquias podia ter feito uma casa enorme. Nada disto. Se fizesse despertaria suspeita. Ele lembrou-se de um matador que conheceu que disse para ele – Malaquias, um poeta Charles Caneia disse um dia - O que você chama de coincidência, sorte e azar é à maneira de Deus ou do Demônio se manifestar. Lembre-se a vida é um demônio disfarçado de um lindo anjo mal! Malaquias entendeu o recado.

                          Teve uma tarde que a mesa no Boteco do Virgílio tinha mais de oito cachaceiros. Até o Neco o padeiro da cidade metido a santo apareceu. Encheu Malaquias de pergunta. Malaquias não disse nada. Saiu do boteco e foi embora. Todos em volta da mesa se assustaram. – Neco! Não se faz perguntas assim! – Porque não? Porque você não o conhece! – Neco foi para sua casa preocupado. Caralho! Porque não fiquei de boca fechada? A rua estava deserta. Era assim o Martelo. Fazer o que a noite? A luz fraquinha nem iluminava onde passava. Não tinha cinema nada. Só o boteco do Virgílio. Uma sombra passou por ele. Sentiu um cano de revolver na nuca. – Se você um dia me perguntar mais alguma coisa, vai fazer companhia ao Demônio nas prefundas dos infernos! Neco se borrou todo. Gemeu baixinho pedindo a Deus que o socorresse. Não viu ninguém perto dele. O cara era uma alma do outro mundo.

                           Ele estava ali na sala onde ela morava. Nunca tinha visto, nem sabia quem era e nem queria saber. Zózimo lhe dera o dinheiro e o endereço.  Só pediu que cortasse sua garganta e lhe disse para nunca tentar um homem como o Bicheiro Castanha. Malaquias não gostava de matar mulher. Matou algumas para roubar, mas achava que estava se defendendo. Não discutiu com Zózimo. Não era do seu feitio. Matador é assim. Recebe o pagamento, mata e esquece. Chegou cedo a casa dela. Vazia. Só a noite ela chegou. Ficou preocupado. Parecia ser uma menina. Não tinha mais do que dezesseis anos. Cabelos dourados. Raquítica, um metro e meio no máximo. O que Zózimo esperava de uma menina como essa? O que ele fez para ser apunhalada no pescoço? Ele sabia que não devia perguntar e nem fazer conjecturas. Um matador não faz isto. – Ela o viu com um punhal na mão. Seus olhos arregalaram. – Foi o Zózimo quem mandou?  Pelo amor de Deus! Não me mate. Juro que farei tudo que você quiser!

                             Pela primeira vez em sua vida Malaquias não soube o que fazer. Devia meter-lhe logo o punhal no pescoço, ver o sangue espirrar e ela berrar de dor e dar o recado de Zózimo. Foi pago para isto. Pegou-a pelos cabelos. Ela não gritou mais. As lagrimas secaram seus olhos.  – Só disse o seguinte: Vou me encontrar com você no inferno! Espero você lá! – Malaquias sentado na porta de seu barraco não sabia se estava arrependido ou não. Ela chegou à porta e disse que o jantar estava pronto. Morava com ele, mas não era sua mulher. Não deitava com ele. Uma menina. Isto ele não faria nunca. Sabia que agora estava marcado para morrer. Zózimo não iria perdoar. Iria remover céus e terras até encontrá-lo. Não estava arrependido. Poderia ter fugido dali e se embrenhado em matas do Mato Grosso ou do Pará. Quem sabe algumas das Guianas seria um paraíso para ele morar.

                             Sabia que tinha uma boa reserva financeira. Mais de oito milhões de reais. Uma fortuna para ele viver bem o resto da vida. Mas iria ficar ali e esperar o Zózimo. Ele viria pessoalmente. Seria sua “vendeta” ele sabia que era normal. Matador cumpre ordens caso contrário outro matador acaba com ele. – Uma tarde falou com a menina dos cabelos dourados: - Zózimo vai vir atrás de nós. Não vou fugir. Se você quiser ir embora fique a vontade. – Ela nada disse. Continuou ali ao lado dele. O Povoado de Martelo notou a presença dela. Mesmo não saindo de casa. Os comentários e buchichos se multiplicaram. – Uma menina! Uma menina! Ele é um pedófilo! – Mas ninguém dizia isto para ele. Sabiam o que acontecera com o Padeiro Neco. O cara era um perigo. Carne de pescoço! Alguns diziam que ele era o Demônio escondido ali para pegar um ou outro do povoado.

                              Era cedo quando uma BMW 760 LI entrou no povoado. Parou em frente ao boteco do Virgílio. Um homem atarracado de terno preto desceu e perguntou se alguém conhecia o Malaquias. Virgílio tremeu. Fazer o que? Mostrou onde era a casa. O carro foi em frente e parou no local indicado. Desceram quatro homens de terno. Chapéu atolado na cabeça para ninguém ver seus rostos. Ficaram lá uns dez minutos e saíram. Voltaram. No boteco Virgílio disse não saber onde ele tinha ido. Costumava pescar na curva do rio. Lá foram eles. Duas ou três horas se passaram. Ouviram barulhos de tiros. Muitos. Meia hora depois o carro passou na rua principal de Martelo. A menina loira dos cabelos dourados dirigia. Mais ninguém. O que houve? Ninguém sabia e ninguém nunca perguntou. Dois dias depois eles viram Malaquias e a moça novamente na casinha.

                                O sossego durou pouco. O que aconteceu ali seus oitocentos habitantes tiveram mil histórias para contar. Eram mais de quinze veículos. Eram Ranger Rover, Toyota, SUV de todos os tipos. Cheias de homens de terno e mal encarados. Fecharam as portas da cidade. Ninguém sai ninguém entra. Já sabiam onde Malaquias morava. Nem bem dois desceram de uma SUV e cada um recebeu uma condecoração no peito. Balaços sangrentos sem retorno. Passaporte para o inferno! Um tiroteio infernal. Ao amanhecer a rua cheia de mortos. Os engravatados jaziam ali na poeira do Martelo, como se fossem festejar o maior baile funk de todos os tempos. Claro junto aos capetas e demônios no lugar merecido. Um silêncio enorme abateu sobre todos. Ninguém se mexia. Lá no inicio da rua vinha Malaquias e a moça dos cabelos dourados.

                              Nenhum deles falou nada. Malaquias com a mesma mochila que chegou ali um dia. A moça sem nada na mão. Quando sumiram na curva da estrada foram contabilizar os mortos. Mais de vinte e uns dez ainda vivos precisando de socorro médico. Ninguém se mexeu. Era como estivessem mancomunados com Malaquias. Deixaram-nos morrer a mingua ali no meio da rua sob um sol escaldante e inclemente. Martelo ficou famoso. Repórteres, televisões, jornais até gente do exterior. – O que foi? Como foi? Como era Malaquias? E a moça dos cabelos dourados? Ninguém abriu a boca. Delegados, detetives, homens do serviço secreto e nada. Não conseguiram arrancar um naco deles. Todos juravam que não sabiam de nada. 

                              Naquela azáfama todo um homem parecia estar misturado à multidão. Ninguém o reconheceu. O Bicheiro Castanha era assim. Invisível para todo mundo. Olhou seus homens mortos. Paciência. Não tinha amizade com ninguém. Para isto foram bem pagos. Agora mais de trinta homens morrerem nas mãos de um só? Uns bostas isto sim! Quem era Malaquias? Tinha parte com o demônio? Bem ele agora não podia fazer nada. Sabia que dificilmente os encontraria novamente. Esta história que mundo é pequeno para nos dois é balela.  Tudo bem para Malaquias. Ele foi mais esperto, mais valente, mas não sabe com quem se meteu. Ele sabia que mais cedo ou mais tarde Vanessinha iria cortar sua garganta como fez com sua filha Naná. Não conseguiu a vingança que queria, mas tudo bem. Vanessinha um dia ia ter o que merecia. Seus quinze anos não iriam enganar por muito tempo e o tempo? Ah! O tempo. Ele sempre foi o aliado dos calmos, pois os apressados não sabem que o melhor é comer devagar, deixar a carne na brasa até ficar no ponto.

                             Como era mesmo o que dizia Abraham Lincoln? Ah! Sim, ele dizia que você pode enganar uma pessoa por muito tempo; algumas por algum tempo; mas não consegue enganar a todas por todo o tempo. As surpresas da vida estão em cada esquina. E olhem ninguém nunca mais soube de Malaquias e Vanessinha. A loira dos cabelos dourados. Nem mesmo aqueles jacarés do Lago do Suplicio na divisa com a Venezuela souberam de quem era as carnes pudentas e brancas que foram jogadas para eles. Nem repararam nos cabelos dourados cor de mel!                

Quando eu morrer.

Quando eu morrer e no frescor de lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixa-me em paz na minha quieta rua...
Nada mais quero com nenhum de vós!

Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em vão...
Que lindo a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Expressão!...

Eu levarei comigo as madrugadas,
Pôr de sóis, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas...

E um dia a morte há de fitar com espanto
Os fios de vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra do seu negro manto...

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O doce sorriso da Primavera.



Quero apenas cinco coisas... 
Primeiro é o amor sem fim 
À segunda é ver o outono 
A terceira é o grave inverno 
Em quarto lugar o verão 
A quinta coisa são teus olhos 
Não quero dormir sem teus olhos. 
Não quero ser... Sem que me olhes. 
Abro mão da primavera para que continues me olhando.


O doce sorriso da Primavera.

                    Não sei como fui aparecer ali. Acho que foi o acaso. "Nada acontece por acaso. Não existe a sorte. Há um significado por detrás de cada pequeno ato. Talvez não possa ser visto com clareza imediatamente, mas sê-lo-á antes que se passe muito tempo." Dizem que os acasos são importantes em nossas vidas. Lá estava ela, um sorriso que me conquistou na hora. Não era linda, nada disto, nem alta nem baixa. Cabelos castanhos nos ombros ondulados. Duas mechas insistiam em cair em seus olhos e ela os fazia voltar ao lugar de uma maneira encantadora. Ela brincava com seu irmãozinho de dois ou três anos. Era um parque de diversões. Nunca o vi na cidade. Também nunca fui de ir a parques de diversão. Ela não teria mais que catorze anos. Vestia simplesmente uma saia de cambraia, chinelos de dedo, nem um colar nem um anel. Fiquei paralisado. Ela era um ímã que me atraia. Nunca uma jovem me atraiu assim.

                     Nunca fui um bom conquistador. Nunca. Era reservado. Sempre tinha medo das moças da minha idade ou não. Com quinze anos ainda não tinha namorada. Olhava uma ou outra, mas aproximar? Chegar perto? Nunca. Diferente do meu primo Cesar que diziam ser um “Don Juan”. Nenhuma mocinha da cidade deixou de lhe dar um “beijo”. – Olhe Vadico, dizia ele, existem quatro questões na nossa vida. (Um) O que é sagrado? (Dois) De que é feito a alma? (Três) O que vale a pena ser vivido e qual o motivo pelo qual vale a pena morrer? (Quatro) A resposta meu amigo é a mesma para todas as questões – O amor! Se um dia você amar uma mulher tudo isto vai valer a pena. Assim quando acontecer você vai ver que essa seria uma boa ocasião para mentir, mas não esqueça, a verdade é um hábito terrível.

                    De onde ele tirava estas palavras? Afinal estávamos com quinze anos e eu mal lia um livro por ano. Lembro que na Praça Doutor Gervásio quando ele chegava à moçada ficava prá lá e prá cá se mostrando para ele. Mas sabia que se ele escolhesse alguma seria apenas um beijinho e mais nada. Afinal uma época onde a palavra “sexo” era tabu. Nenhuma moça deixaria que seu namorado desse mais que um beijinho. Sabia que se fosse diferente os comentários logo iriam surgir e ela ficaria falada. Fiquei ali olhando para ela. Vontade de me aproximar, mas e o medo? Olhe, eu me considerava corajoso. Enfrenta nas minhas brigas de juventude os mais valentes da cidade. Mas mulheres? Estas me faziam tremer.

                  Enquanto ela ficou ali com seu irmãozinho eu também fiquei. Na minha mente lá estava ela com seu sorriso e esta foto invisível ficou gravado em minha mente para sempre. Uma hora eu fiquei ali e só um dia para saber que estava apaixonado. Sei que por toda a minha vida nunca mais iria esquecê-la. Quando ela se foi deveria ter ido atrás para saber onde morava. Não fui. Voltei no parque nos dias seguintes. Ela não mais apareceu. Que dor eu sentia no meu coração! Seria isto o amor? Com quinze anos não seria a ilusão que nunca tive? Eu não era um bom católico, mas o colégio nos obrigava a uma vez por ano confessar e comungar. Confessei com o Padre Nonato. No domingo lá estava eu. Meus colegas de classe achavam aquilo chatíssimo, eu não. Afinal não precisamos lembrar-nos de Deus? Não digo que gostava de perder a manhã de domingo das peladas do campinho do Seu Nonô.

                 A missa começou e então eu a vi novamente. Um véu sobre a cabeça. Um vestido branco e uma sapatilha cinza. Os cabelos presos por um lacinho verde e meu Deus! Mais linda ainda. Meu coração batia forte. Quando chegou a hora da comunhão ela estava na minha frente. Ela me olhou e sorriu. Minhas pernas ficaram bambas. Queria ficar olhando para ela o tempo todo, mas ali na igreja? O que Deus iria pensar? Quando a missa terminou não mais a vi. Passou-se um ano quando a encontrei novamente. Na fila do Cine Marrocos. Estava em cartaz os Dez Mandamentos. Uma fila enorme. Todos na cidade querendo assistir, pois seriam duas sessões por dia e o filme ficaria só por uma semana. De novo não consegui meu intento. Falar com ela. Ela entrou e a porta do cinema fechou. Lotação esgotada. Só amanhã! Fiquei sentado na calçada esperando a sessão terminar. Quase três horas. Todos saindo e eu olhando. Desta vez iria segui-la e saber onde morava. Perda de tempo. Ela parecia fumaça a correr com o vento.

                 Desta vez ela sumiu para sempre. Fiz dezesseis, dezessete, dezoito, vinte e fui trabalhar na cidade grande. Durante todo este tempo ela não saia da minha mente. Caramba! Pelo menos eu devia saber seu nome. Mas sempre receoso de um “fora” não me aproximei dela. Conheci algumas garotas, saía com elas, mas nenhum compromisso. Nenhuma fez o meu coração bater. Não tinha jeito. Quatro anos se passou desde a última vez que a vi. Nunca em tempo algum há esqueci. Não riam, por favor, mas fiz um desenho dela em uma folha de papel cartolina. Nunca fui desenhista. Mas demorou seis meses para terminar. Comprei uma linda moldura. A pendurei na saleta do pequeno apartamento onde morava com mais dois amigos. Quando chegava do serviço olhava o quadro e dizia – “Boa tarde amor da minha vida”, quando saia dizia – “Até mais tarde amor da minha vida”. Calma, não sou um psicopata. Nada disto. Apenas um homem apaixonado.

             De novo aconteceu. Na Avenida Angélica ao esperar o sinal abrir lá estava ela. Do outro lado da rua. Não era mais um menino. Não era mais aquele que tinha medo das meninas. Desta vez não iria me escapar pensei. Fui atravessar a rua correndo e quase fui atropelado. Passou cinco ônibus. Quando consegui atravessar ela tinha sumido. De novo! Que coisa meu Deus! Era meu destino? Fui para casa triste e pensando o que a vida me reservara. Tinha um bom emprego. Se não fosse tão novo já podia ser um gerente. Isto foi meu Chefe quem disse. Pediu-me se podiam ficar uns quinze dias na filial. Teria que dormir lá. Em Campinas. Mais de uma hora da capital. Não dava para ir e voltar. O gerente da filial ia sair em férias. Claro que sim. Alem dos dois amigos do apartamento não tinha mais ninguém. Campinas não era uma pequena cidade. Quase três milhões de habitantes. Alojei-me em um pequeno hotel próximo onde trabalhava. Era a empresa que iria pagar.

              Cinco dias depois fui chamado pelo diretor. Gente boa. Educado. Pediu-me se eu podia entrevistar algumas candidatas para a vaga de almoxarife na fábrica. Iria entrevistar homens e mulheres. Deveria escolher três. Ele iria decidir o melhor. Achei interessante. Nunca pensei em fazer isto. Agora com vinte e três anos seria uma nova experiência. Olhei pela janela o pátio da fábrica. Uma multidão na fila. Mais de cem pessoas. Fiquei maluco. Não pensei que fosse assim. Chamei três funcionários do escritório. Separem só quem tem a última série e disponibilidade para horário noturno. Sobraram vinte cinco. Pedi à funcionária que levasse um de cada vez na sala de reuniões. No inicio ainda motivado por ser a primeira vez depois cansado. As mesmas coisas. As mesmas promessas. O mesmo olhar havido e choroso para conseguir a vaga.

               - Quantos ainda têm? Perguntei. Só uma. Graças a Deus! Estava soberbamente cansado. Já sabia quem seriam os escolhidos. Separei cinco e depois iria reduzir para três. Iria entrevistar o ultimo só pró-forma. – A candidata entrou. Não era possível! Meu Deus! Era ela. Ali a menos de dois metros. Linda. Aqueles cabelos cacheados. Transformara-se em uma bela mulher. Perdi a fala. Perdi o rumo. Tentei falar. A voz não saia. Parecia o jovenzinho do passado. Vergonhoso com seu primeiro amor. Engasguei. Ela sorria. Não dizia nada. Não podendo falar peguei sua Carteira Profissional. Comecei a folhear. Mas estava tremendo. Acho que ela tinha percebido. Levantei os olhos. Os dela fixos no meu. Falou com voz doce, voz de anjo. Mais encantado fiquei – Preciso trabalhar. Tenho um filho para cuidar!

               Filho? Não era seu irmão? E agora? Fazer o que? Tinha que ajudá-la, mas não conseguia entrevistar. Pedi para voltar no dia seguinte. Pela manhã. Bem cedo. Ela aquiesceu. Levantou-se. De cabeça baixa agradeceu e foi saindo. Não resisti. Perguntei se poderia acompanhá-la até o portão. Ela estranhou. Não disse nada. Fui com ela ao seu lado. Uma pequena brisa trouxe para mim o seu perfume. Ficou para sempre em meu corpo. No portão dei adeus. Ela riu. Não é até amanhã? Ri sem jeito. Claro que sim. Fiquei ali olhando até ela desaparecer na esquina. No outro dia não apareceu. Fiquei andando de um lado a outro esperando. Olhando o pátio pela janela. Fui varias vezes ao portão nada. Ela desapareceu como uma sombra na escuridão da noite. Fiquei desnorteado. Fizera planos. Seria admitida. Iria convidá-la a jantar. Sair, passear. Fazer uma pic nic com ela e seu filho. E depois casar...

             Planos que nunca se cumpriram. Sonhava com ela. Rezava para ela voltar à fábrica. Não voltou. Voltei para São Paulo triste e acabrunhado. A menina, ou melhor, a mulher tinha me enfeitiçado. Como achá-la em Campinas? Quase três milhões de habitantes. Todo sábado e domingo ia para lá. Rodava rua por rua. Nada. O tempo passou. Muito tempo. Acho que cinco anos. Pediram-me para fechar uma compra de uma pequena mercearia no Bairro Vila das Mercês em São Paulo. Era bem considerado nesta área. Precisavam do terreno da mercearia. Iriam construir um grande Shopping ali. A mercearia ficava bem no meio do terreno já comprado. Disseram-me que iria enfrentar o maior desafio da minha vida.

             Quarta feira. Meio de semana. Melhor dia para fechar negócio. Deram-me um valor máximo. O dobro do que ela valia. Precisavam do terreno. Mas devia começar por baixo. Parei o carro bem em frente. A mercearia vazia. Um terreno pequeno, mas atrapalhava em muito os planos da empresa. Entrei. Só um cliente. Perguntei pelo proprietário. Disseram-me para aguardar. Estava vendo um livro que estava à venda. Um Amor de Verdade. Da escritora Zibia Gasparetto. Já tinha ouvido falar na escritora. Espiritualista. Diziam ser médium. Conhecia pouco da nova doutrina. O livro me chamou a atenção pelas poucas linhas que li. O livro versava sobre viver uma verdadeira experiência amorosa. Dizia que seria um dos maiores prazeres da vida. Explicava que gostar é sentir com a alma, mas expressar os sentimentos depende das ideias de cada um. Condicionamos o amor as nossas necessidades neuróticas e acabamos com ele. Deus meu! Seria eu?

             Alguém atrás de mim me cumprimentou. Boa tarde Senhor! Era a voz dela. Impossível. Virei rápido. Ainda linda. Ainda com aquele sorriso encantador. – Ah! É o Senhor? – Sim sou eu. Esperei você no dia seguinte – Não pude ir. Meu filho adoeceu. Corremos para o pronto socorro. Ficou entre a vida e a morte por dois meses. Estava desesperada. Quando melhorou desisti de voltar. Sabia que a vaga não iria mais existir. Voltei para São Paulo. Minha Tia me acolheu. Era dona desta mercearia. Morreu ano passado. Deixou tudo para mim. E agora? E agora? Negociar com ela? Eu a amava e ela não sabia disto. A amei desde o primeiro dia da minha infância nos meus inocentes quinze anos. Nunca a esqueci. Agora em caminhos opostos. Tentei ser delicado. Apresentei-me. Antonio Marcus, gerente da Rede de Super Mercados Brasil.

             Senhor Antonio Marcus, sei de sua pretensão. Não quero vender. É tudo que tenho. Meu filho logo vai para a faculdade. Não tenho outros ganhos. – Seu nome? Perguntei. – Renata. Renata Ambrosio. – Renata. Que lindo nome. Quase quinze anos para saber. Quinze anos imaginando como devia ser. Pode me dar à honra de ir jantar comigo hoje? Quem sabe poderemos nos entender. Garanto que não vai se arrepender. Ela ficou em duvida, mas aceitou. Oito e meia da noite. Morava nos fundos da mercearia. Oito e vinte. Estava na porta. Desta vez ela não iria me escapar. Alí estava o sonho da minha vida. Esperei muitos anos. Minha chance agora. Oito e meia, nove, nove e meia. Desci do carro. Bati no portão ninguém atendeu. Tudo escuro. Meu Deus! De novo? De novo não. Esperei dar dez horas, onze, meia noite. Se necessário iria passar a noite ali.

              O dia clareou. A mercearia não abriu. Liguei para a empresa. Expliquei. Deram-me carta branca. Dez da manhã. Onze duas da tarde. Alguém chegou ao portão. Era uma senhora. Corri. Perguntei. – Dona Renata levou correndo seu filho ao Hospital das Clinicas. Ele ficou ruim de uma hora para outra. Tem uma doença no pulmão. Sem cura disseram aos médicos. Sai em desabalada carreira para as Clinicas. Grande. Um hospital enorme. Seria como achar uma agulha no palheiro. Procurei uma enfermeira. Foi educada. Encaminhou-me a secretaria. Tinha um sistema de som. Mas não precisou. Achou no computador onde ela estava. Fui correndo. A encontrei no corredor chorando. Seu filho estava mal. Liguei para o diretor. Expliquei. Ele conhecia o Diretor do Hospital. Ligou para ele. Dois dias depois ele saiu da UTI.

          Ela vendeu a mercearia. Nunca mais sai do lado dela. Com o dinheiro recebido da venda da mercearia Levou o filho para um tratamento no Hospital Johns Hopkins em Baltimore. Diziam ser o melhor para Neurologia e Neurocirurgia. Tirei férias. Fui com ela. Lá a pedi em casamento. Ela riu. Há tempos que não ria. Voltamos vinte e cinco dias depois. Seu filho fora operado e passava bem. Se tratasse como foi explicado poderia viver por muitos e muitos anos. Casei com Renata. Sou feliz. Acredito que ela também. Robertinho eu o considerava como meu filho. Nunca perguntei quem era o pai dele. Não era importante para mim. Dezesseis anos e eu o amava. Não sou rico. Ainda tenho responsabilidade na empresa. Agora sou Diretor Comercial. Renata nunca mais vai sair de perto de mim. Não precisa trabalhar. Mas dei inteira liberdade se ela quisesse. Eu a amo e sempre a amei em todas as minhas vidas passadas. O nosso amor era um amor de verdade. Quando chegava a primavera eu me lembrava sempre do primeiro dia que a vi. Eu chamava aquele dia como o doce sorriso da primavera.

          Desculpem. Tenho que ir. Renata me espera. Combinamos de ir passar o fim de semana no litoral. Tenho uma casinha lá em Ilhabela. Desta vez iremos em quatro. Quatro? Sim Robertinho pediu para levar sua namorada. Agora seria assim. Eu, Renata, Robertinho e Alessandra. Quatro felizes e quatros amores naquela primavera que chegava. “Um amor de verdade para sempre”.

Nunca eu tivera querido
Dizer palavra tão louca
Bateu-me um vento na boca
E depois no teu ouvido
Levou somente a palavra
Deixou ficar o sentido

O sentido está guardado
No rosto com que te miro
Nesse perdido suspiro
Que te segue alucinado
No meu sorriso suspenso
Como um beijo malogrado

Nunca ninguém viu ninguém
Que o amor pusesse tão triste
Esta tristeza não viste
E eu sei que ela se vê bem
Só se aquele mesmo vento
Fechou teus olhos também
Cecília Meireles