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sexta-feira, 6 de julho de 2012

A doce vingança de Laudivino Centauro




 Vingança

Eu consigo a incrível façanha
de ser feliz e triste ao mesmo tempo

É que falta uma peça
tão grande e importante
que fica difícil percebê-la
mas ela existe…
e dói saber

Não há fardo maior na vida
do que os malditos sonhos
que te iludem

Eu não quero me vingar da vida
mas parece que ela se vinga de mim.


A doce vingança de Laudivino Centauro

              Nuvens brancas, cinzentas perpassavam pela minha mente em um redemoinho nefasto. Minha vida mostrava devassidão, corrupção, bandalheira. Este era eu? Não estava me reconhecendo. Tentava concatenar as ideias e não conseguia. Era como se toda uma vida fosse passada ali naquela tela imensa um relato do que fui, do que fiz e sem sombra de dúvida mostrava que eu não era ninguém. Apenas um ser perverso, maléfico e que a troco de riquezas e poder destruiu muitas vidas e tirou de quem precisava em benefício próprio. Mas onde eu estava? Tentava lembrar tudo que aconteceu e só via aquele filme maldito que passava naquela tela gigante me forçando a lembrar de toda minha vida desde que nasci.
               Agora sim. Estava entendendo. Eu estava em um hospital. Vi-me ali cheio de fios na boca nas orelhas. Uma parafernália de aparelhos que me faziam respirar. Mas como se eu não estava lá no corpo? Como não sentia nada? Através do vidro vi Celina chorando e ela rezava. Sua reza me ajudava. Era pura, verdadeira. Celina, quem diria! A mulher que nunca pedi em casamento e me foi fiel por toda a vida. Uma empregada que nunca reclamou de salários nunca reclamou de meus carinhos. Maldito sou eu. Ficou do meu lado durante todo o tempo sem nada pedir. Celina, a mulher mais linda do mundo que não soube valorizar. Nunca quis o meu dinheiro, maldito dinheiro, sim, hoje digo maldito diferente do passado quando corria atrás dele como o diabo corre atrás das almas perdidas.
               Mas onde estava Fernanda? Afinal foi a ela que dediquei muitos anos para ver se tinha uma vida feliz. Dei a ela o que queria. Seus sonhos de mulher rica foram concretizados. Tinha tudo que desejou. Fomos para a Europa, Américas, lugares que nunca desejei ir e ela adorava e ria, cantava quando estávamos lá. E eu iludido fazia tudo o que ela me pedia. Mas onde está ela? Não jurou que me amava? Que a paixão por mim era a única e nunca iria me abandonar? Começava a lembrar-me de tudo. Não de tudo e sim de uma boa parte. Agora via o caminhão carregado vindo em minha direção. O volante não obedecia. Parecia que estava solto. Um monstro a minha frente buzinava alto, parecia dizer – Sai seu burro! Vais morrer e ir para o inferno onde é seu lugar.
                Nem fizera dezoito anos e sai de casa. Minha mãe chorava e meu pai sério ficou na janela sem dizer adeus. Ele no seu íntimo sabia o que eu era. Sabia da minha cobiça, dos meus sonhos de riqueza. Aquela vida que ele deu a mamãe e a mim eu considerava um lixo. Não posso reclamar tanto. Ele deu para ela uma casinha simples, limpa, aconchegante. Meu deu estudos ou tentou já que não liguei muito para isto. Na minha cidade sempre tentei enganar as pessoas. Era conhecido como um embusteiro, enganador e trapaceiro. Minha mãe sempre chorava quando ia preso. Mas menor de idade ficava lá pouco tempo. Tinha pinta, as meninas eram apaixonadas por mim apesar dos pais manterem elas longe. Engravidei umas cinco. Risos. Problema delas. Quem mandou abrir as pernas? Tudo bem. Menor de idade. Mas de uma coisa tinha certeza, nunca matei ninguém. Nunca.
               No Rio de Janeiro cheguei com uma mão na frente e outra atrás. Um mendigo que se dizia cego tentei roubá-lo. Não era cego. Chamou amigos e me deram uma surra tremenda. Uma ambulância me levou ao hospital. Fiquei oito dias internado. Arrumei lá algum dinheiro. De madrugada ia aos apartamentos e roubava os pacientes ricos. Não era muito, mas deu para ficar uns meses em um hotel enquanto planejava outros golpes. Achei um interessante. Na página de necrologia dos jornais via os que morreram, procura seus endereços e telefones, ligava para a empregada pedindo um documento como se eu fosse o gerente do velório onde ele estava. Enquanto ela corria para levar o documento eu fazia uma limpeza na casa. Era chamado de rato de velório.
                 Aprendi também a não pagar o barbeiro. Pegava um menino qualquer, cortava meu cabelo, fazia a barba, as unhas e quando terminava colocava o menino para cortar o cabelo como se fosse o meu filho e dizia que ia tomar um café. Sumia é claro. Assim fui dando muitos golpes até que um amigo me convidou para ser seu sócio. Arrematar em um leilão, dez mil fraldas para velhos. Ri dele. E daí? Perguntei. Simples, montamos uma firma fantasma, entramos em uma concorrência publica em uma cidade do interior, compramos o responsável pela escolha e dai partimos para outras concorrências mais fortes. Conheço gente que está rico com isto! E quando vamos precisar para iniciar? Se tiver vinte mil já dá. Tinha. Foi só o começo. Ninguém das prefeituras do interior recusavam uma propina. Ganhamos muito dinheiro.
                Comprei uma casa boa em um bairro de classe media. Celina apareceu um dia pedindo emprego. Negra, jovem ainda e sempre de cabeça baixa, humilde, simples. Ela me serviu na casa e na cama. Nunca reclamou. Não sei se fui bom para ela. O dinheiro que pagava não era nada. Mas nunca reclamou. Disse que não precisava de nada. O que sobrava guardava na poupança. Prá que Celina? Você é só no mundo. Não sei respondia. Um dia posso usar. Tudo cresceu mais quando entramos em uma concorrência em um estado. Desta vez era coisa grande. De cem milhões. Uma fábula. Ganhamos. Vinte por cento para meia dúzia de safados do governo. Daí foi um pulo. Outras e outras. Fiquei milionário. Deputados, senadores, prefeitos e vereadores me bajulavam. Sempre cada um querendo seu quinhão. É para o partido diziam! Partido. Eu sei que partido. O próprio bolso.
               Quando estava no aeroporto para embarcar para Lós Angeles, conheci Fernanda. Ela também estava indo para lá. Disse que me conhecia pelos amigos que tinha. Fernanda era linda, alta quem sabe um e setenta e cinco, seios maravilhosos, olhos verdes profundos, cabelos loiros naturais. Uma voz rouca, gostosa que fazia dela a mulher perfeita. No avião ela não estava em minha poltrona. Havia duas vazias bem atrás. Fiz um sinal e ela foi. Amassos, beijos chupadas. Tudo terminou no WC do avião. Nunca tinha feito assim. Muito gostoso adorei. Nesta viagem fomos lá quatro vezes. Cheguei esgotado em Los Angeles.
                Ela aceitou meu convite. Mesmo hotel mesma suíte. O que veio fazer aqui? Perguntei. – Ela – Passear somente. Acreditei. Sempre fui um sabido com os negócios e um idiota com as mulheres. Minha missão era encontrar deputados, juízes, senadores na calada da noite para planejarmos negociatas longe das luzes de holofotes que se encontram no Brasil. Fernanda ia comigo. Aos poucos se inteirando de tudo. Os políticos e juízes a olhavam e ficavam loucos por ela. Ela disse-me que os durões ela amansava. E amansou. Fez sexo com muitos para me ajudar. Um ciúme enorme. Mas negócios são negócios, amores à parte.
               Comprei um apartamento de cobertura na Vieira Souto no Rio de Janeiro e outro no Morumbi em SP. Ela gostava mais do Rio. Tudo bem. Ficava em São Paulo a maioria do tempo. Sempre com a fiel Celina. Grande Celina. Tentou me abrir os olhos e eu cego achei que era ciumeira dela. Seu Laudivino, ela dizia, Fernanda já esteve aqui com outro homem quando o senhor Não estava. Eu ria e dizia, são negócios minha “nega”. Não sei como ela descobriu minha conta na Suíça. Uma grande quantia tinha lá, acho que mais de duzentos milhões de dólares. Uma fábula. No Brasil quase nada. Um dia poderiam vasculhar minha conta a vontade.
               Tudo começou a desmoronar quando fui preso de manhã em meu apartamento do Morumbi pela Polícia Federal. Quantas acusações. Falsidade ideológica (nem sabia o que era isso), formação de quadrilha, e mais uma dezena de acusações. Deram-me uns cascudos. Mas foram benevolentes. Não tinha advogado. Liguei para Fernanda e pedi que escolhesse o melhor de todos. O preço não importava. Ela escolheu o pior. Não me tirou da cadeia. Através deste advogado arrumei outro. Conseguiu um Habeas Corpus. Solto voltei ao apartamento. Vazio. Roubaram tudo. Foi Fernanda eu fiquei sabendo. E Celina? Perguntei ao porteiro. Não sei me disse. Fernanda a pôs para fora do apartamento.  Ela sempre ficava aqui sentada no meio fio esperando o senhor. Não veio ontem nem hoje. Já ia embora quando a vi. De cabeça baixa, chorando. O que será de mim senhor Laudivino sem o senhor? Calma Celina. Calma, vamos resolver tudo.
               Mas tudo estava indo para o brejo. Ainda bem que no Banco Itaú e no Bradesco tinha uma merreca. Comprei um notebook e uma surpresa. Não tinha nenhum tostão nos bancos suíços. Tinham sido surrupiados. Consegui em quatro bancos mais de trinta mil reais. Mal deu para pagar o advogado. Procurei uns amigos. Todos me viraram as costas. Coloquei a venda o apartamento do Morumbi, o mesmo ia fazer com o da Vieira Souto. Não estava mais no meu nome e sim no de Fernanda. – Então foi ela! Dei tudo que queria e não ficou satisfeita? Deve ter descoberto minha senha e retirou nos bancos suíços. Maldita, pensei, vai pagar em dobro!
               Aluguei uma casinha na Lapa, pedi a Celina para tomar conta e fui ao Rio de janeiro. Encontrei Fernanda. Junto o Laureano. Um antigo Deputado Federal que foi cassado. Agora eram amantes. Laureano me ofendeu. Que eu sumisse da vida deles. Juraram-me de morte. Morte? Quem ia morrer eram eles.
À tardinha de novo a Federal. Disseram que eu estava cerceando testemunhas. Mas não me prenderam. Só disseram para tomar cuidado. Um delegado dos mais novos ao pé do ouvido me disse para ficar de orelha em pé. Muita gente querendo me ver morto. Muitos figurões. Voltei a São Paulo de carro. Quando passei por Resende notei uma folga no volante. Esperei o próximo posto. Lá veria o que era. Antes da entrada de Itatiaia o carro dançou na pista, não consegui dominar, invadiu a pista contrária e bati de frente a uma enorme carreta que estava a mais de cem por hora.
               Estou me vendo ali na cama, cheio de fios, e no vidro chorando estava Celina. A única companheira de verdade. Fernanda eu sabia que não viria. Devia estar festejando com Laureano em algum lugar do Rio de Janeiro. Malditos. Tinha de me vingar. Minha mente só pensava em vingança. Notei ao meu lado dois homens vermelhos, como se estivessem queimando. Exalavam um mau cheiro parecendo enxofre. Nós ajudamos você disseram. Nosso mestre tem poderes e se os quiser mortos o faremos. Em troca vai conosco. Fechei os olhos. Tinha lido histórias de pacto com o demônio. Eles estavam me oferecendo um? Valeria a pena? Olhei para Celina no espelho. Ela rezava. Sua reza chegava até a mim. Dizia para me arrepender dos meus pecados que estavam passando na tela grande a minha frente. Eram muitos. Não sei se Deus iria me perdoar.
              Os dois homens vermelhos começaram a me arrastar. A reza de Celina bateu fundo no meu coração. Comecei a rezar também. Chorava, um clarão apareceu. Vários homens e mulheres de branco. Junto meu avô que só me lembrava dele quando tinha cinco anos depois ele morreu. Pegou no meu braço e disse – Venha comigo meu neto querido. Levou-me rumo aos céus. – Laudivino meu filho, você cometeu muitos erros, prejudicou muita gente, mas Deus se apiedou de sua alma. Você vai ter que trabalhar em dobro para recuperar o que perdeu em suas ultimas andanças na terra. Alguém me levou para uma cidade cinzenta, onde todos choravam e gemiam. Uma mulher me abraçou e disse, vamos trabalhar meu amigo, aqui tem muito trabalho a fazer. São espíritos que precisam de nossa ajuda. Vieram das zonas inferiores. Aqui não vais ter folga, não vais ver o céu azul, só dores e sofrimento.
               Ainda recebo as boas rezas de Celina. Elas me ajudam muito. Aos poucos fui esquecendo-se de Fernanda. Não pensava mais em vingança. Minha alma estava em paz. O Chefe da cidade me chamou. Venha me ajudar. Fiquei contente ia sair da cidade em que estava por anos a fio. Um trabalho incessante. Fomos a uma casa simples.  Lá estava Fernanda, gritando. Laureano tinha atirado nela por uma discussão boba. Estava morta. Desencarnada. Gritava, queria ver morto o Laureano. Aproximei-me. Ele me viu e se assustou. Dei a mão a ela. Venha minha amiga, vamos a uma cidade onde poderemos trabalhar muito. Você vai gostar de lá. Ela se calou. Olhou nos meus olhos, não viu vingança viu amor. Um amor diferente do qual ela nunca teve. Ouvi o sorriso de Celina, na terra ela continua a horar por nós dois.


Lágrimas tristes tomarão vingança

Se somente hora alguma em vós piedade
De tão longo tormento se sentira,
Amor sofrera, mal que eu me partira
De vossos olhos, minha saudade.

Apartei-me de vós, mas a vontade,
Que por o natural na alma vos tira,
Faz-me crer que esta ausência é de mentira;
Porém venho a provar que é de verdade.

Ir-me-ei, Senhora; e neste apartamento
Lágrimas tristes tomarão vingança
Nos olhos de quem fostes mantimento.

Desta arte darei vida a meu tormento
Que, enfim, cá me achará minha lembrança
Sepultado no vosso esquecimento.

Luis Vas de Camões




domingo, 17 de junho de 2012

A vingança de Chico Mortalha.



O sentimento do avesso

Por te querer tanto
não mais te quero
Por me fazer pranto
não mais espero
Por te querer encanto
não mais me espanto
Meu sentimento é avesso
verso e reverso
acolhimento e arremeço
os dois lados da mesma moeda
amor e ódio no mesmo endereço
Te quero aqui
te quero distante
te recebo em meu leito
te vejo errante
Aconchegada ao teu peito
te desejo amante
não te quero livre e saltitante
te almejo preso ao meu regaço
te encontro no tempo de um abraço
Vá embora
Fique aqui
Não demora
Saia de mim

Úrsula de Almeida Vairo

A vingança de Chico Mortalha.

Chico Mortalha, o matador.

É uma história que me foi contada por um amigo um dia quando chorávamos a vida em um botequim de uma esquina na Rua do Machado. Eu estava quase dormindo quando ele começou. Não sei por que bebia, não era um ébrio isto não. Pode ser que minha vida acabou de pronto quando perdi meus pais em um desastre de avião. Solteiro, dependente dos dois sofria calado sua perda. Os amigos me consolaram por uns tempos depois me esqueceram. Mas minha dor continuava. Sem emprego parei de estudar. Agora que ninguém poderia se interessar por mim bebia aqui e ali. Um ébrio sem motivo aparente a chorar um passado que já devia estar morto há muito tempo.
Gastei o que meu pai tinha de reserva e aos poucos vendi tudo que tinha. Mas eu parei de chorar quando conheci Neco. Um amigo verdadeiro. Foi ele quem me contou a história de Chico Mortalha e Tininha, a gostosa. Não foi uma história de mil e uma noites, não poderia ser. Foi uma história contada de arredo em duas ou três noites e talvez fosse à história que transformou a minha vida, pois resolvi ser escritor. Escritor? Risos, nem pense nisso. Andei escrevendo tanto e ninguém se interessou. Coloquei no papel tudo que o Neco contou. Publiquei em um blog. Poucos leitores e não desisti. O conto do Chico Mortalha se transformou em um incentivo. Um dia alguém disse que seria ótimo escrever um livro. Assim o fiz, mas quem publicaria? Mas deixemos esta trilha do conto, pois aqui vamos contar é a vida de Chico Mortalha.
Nasceu de família simples, pai professor e mãe dona de casa. Aos três anos descobriram que ele era gago. Muito. Falava com extrema dificuldade. Seu nome verdadeiro era Simplício da Anunciação Louzeiro. O apelido veio depois. Muito depois quando ele matou a pedradas seu primeiro desafeto. Chico à medida que crescia evitava falar. Via o semblante dos outros a rirem dele e isto ele odiava. Até os onze anos de idade brigou muito. Chegava sempre em casa com as roupas em farrapos. Aos doze ao voltar do colégio uma turma começou a gritar e a zombar dele pela sua incapacidade de falar direito. Lá vai o gago! Xô Gaguinho! Risos e risos. Chico pegou uma pedra e arremeçou na multidão que troçava dele. A pedra pegou bem na testa de Leandrinho que morreu na hora.
Durante muito tempo ficaram longe dele. Claro era menor de idade e o delegado admoestou sua família para olhar melhor o filho e educá-lo conforme os preceitos cristãos. Mas tudo na vida tem uma razão de ser e um recém-chegado da capital achou que poderia troçar de sua gagueira. Mais um morto. Desta vez a faca. Levaram-no preso. Com medo de linchamento foi transferido para a penitenciária estadual até o julgamento. O camburão sofreu um acidente na estrada e todos morreram menos Chico Mortalha. Chico resolveu que não iria preso mais. Só morto. Fugiu para outro estado. Lá começou a trabalhar como servente de pedreiro. Por pouco tempo é claro, pois mandou para o inferno um companheiro que morava com ele em um quartinho e achou que ele era “viado”.
Dai para matador foi um pulo. Era um matador que ninguém conhecia. Só um sabia como ele era. Seu padrinho Malecio. Padrinho? Risos, nada disto. Conhecia seu segredo quando mandou para a cova o amigo de quarto. Ofereceu um serviço, dois, três e agora tinha perdido a conta. Tornou-se um matador famoso entre os bandidos e até entre grandes homens da sociedade que não hesitavam em lhe pedir um trabalhinho. Ganhou muito dinheiro. Guardava tudo em poupança em diversos bancos. Assim era mais fácil diversificar e não ser identificado. Um dia se encheu de tudo. Falou para seu padrinho que não mais iria matar. Ia mudar de vida. Malecio riu. Duvido – disse. Mas Chico Mortalha sumiu no mundo. Foi parar em uma cidade lá perto de Alta Floresta no Mato Grosso em um pequeno povoado de menos de cinco mil habitantes chamado Martelo.
Abriu um pequeno bar, e fez muitos amigos. Falava pouco. Alguns acharam que era mudo. Tinha medo de sua gagueira. Gostava de sua nova vida. No fundo do bar construiu uma pequena vivenda e lá tinha uma sala, uma cozinha, um quarto e tudo que ele precisava para viver tranquilamente. Comprou muitos livros e passou a ler sem parar. No bar sempre tinha um embaixo do balcão. Isto o ajudou muito. Através dos livros conheceu lugares, viajou pela Europa, Ásia, Oceania, e Américas. Notou que sua gagueira diminuía. Chico Mortalha se transformou. Um simples homem um emérito matador agora era bem quisto na cidade. Até o delegado se dizia amigo o que ele matinha um pé atrás. Tudo ia bem, mas sua vida não tinha jeito. A desgraça não tardou a se aproximar novamente.

Tininha, a gostosa.

Tininha estava agora com dezesseis anos. Olhe Tininha era indescritível. Era a mulher mais gostosa de Martelo. Quando ia a Alta Floresta era comum batidas de carros, mulheres querendo dar uma sova nela, maridos sendo beliscados pelas esposas, noivados desmanchados. Incrível! Mas olhe, tente analisar Tininha. Coxas grossas lisas queimada de sol. Um metro e sessenta bunda redonda arrebitada. Não tinha barriga e um belo par de seios que ela fazia questão de deixar à metade a mostra. Sempre usou uma microssaia. Sempre de cor berrante. Vermelha, amarela, rosa e sapatos altos. Lábios carnudos um olhar profundo reluzente como se fossem duas enormes jabuticabas. Um cabelo comprido pintado de vermelho dava o tom lascivo que ela completava em tudo que tinha em volta de sí.
Quando Tininha fez doze anos sofreu uma tentativa de estupro por parte de seu tio. Ele entrou no seu quarto e a viu trocando de roupa. Estava sem calcinha e seu púbis apesar da idade, era espesso, liso e brilhante. Isto colocava qualquer um de “pau duro” na hora. E foi isto que aconteceu. Ele tentou conversar e ela gritou. Mesmo com o pinto para fora ela se recusou a pegar e não parava de gritar. Seu pai chegava a casa e ouvindo os gritos correu para seu quarto vendo a cena dantesca de um estupro no seu inicio. Seu tio pulou a janela e sumiu da cidade. O pai de Tininha nervoso não aguentou olhar para a filha seminua com aquele púbis lindo, aqueles seios desabrochando e saiu rápido dali com o pau subindo por dentro da calça.
Tininha cresceu. Sabia que era gostosa. Não escondia. Que os outros olhassem suas coxas, seus seios, seus lábios carnudos e seus olhos negros enormes e brilhantes. Todos que a olhavam diziam que dariam tudo para uma noite com ela. Mas ninguém sabia se ouve alguém que comeu a Tininha. Um dia o filho do seu Antônio do armazém, metido a Doutor, pois tentara se formar com advogado e não conseguiu, falou aos quatro ventos que tinha comido a Tininha. Não deu outra. No sábado na praça, à noite no “foot” Tininha aproximou dele e o chamou de tudo. Viado, fresco, filho da puta, você comeu sua mãe e nunca encostou a mão em mim. Realmente Tininha era virgem. Nunca pensou em dar para ninguém a não ser para seu príncipe que um dia sabia que ia encontrar.
Continuava na escola. Terminou o segundo grau e tentava um emprego na farmácia do Seu Thadeu. Mas quando foi conversar com ele viu que suas calças se avolumaram. Mais um de pau duro pensou. Desistiu. Pensava em ir embora de Martelo. Nem Alta Floresta serviria para ela. Melhor ir para longe. Se todos a achavam gostosa e ela sabia que era porque não aproveitar na capital em algum programa de televisão? Mas precisava dos dezoito anos. Dezesseis não davam. Agora evitava andar muito pelas ruas de Martelo. Sabia que se facilitasse seria estuprada em qualquer canto. Mas como disse antes a vida tem os caminhos traçados. O de Tininha era só um. No sábado foi à padaria quando ao passar em frente ao bar do Chico Mortalha três jovens da cidade começaram a esfregar e passar a mão nela. Belisca aqui, aperta dali e soltaram sua blusa que sem sutiã os seios apareceram em todo seu esplendor.
Tudo aconteceu muito rápido. Tininha correu para dentro do bar. Chico Mortalha não gostou dos rapazes agindo daquela maneira. Tentou “maneirar” aconselhar, mas um deles o mandou “tomar no rabo”. Foi à conta, Chico Mortalha o pegou pelo colarinho e o arremessou fora do bar. O danado caiu como uma banana podre na rua. Os outros tomaram as dores e avançaram em direção a ele. Chico Mortalha era um matador. Treinado para matar. Matava a tiros, faca ou punhal e era mestre com as mãos. Ninguém sabia do perigo que corria. Na carótida de um ele partiu seu pescoço e do outro pegou no seus ovos apertou e quando os olhos esbugalharam ele meteu os dois dedos e os olhos saltaram para fora. Uma gritaria sem sessar. Dois mortos. Um aleijado. Ninguém mais no bar para testemunhar a não ser Tininha, a gostosa.
Tininha chorava e via Chico Mortalha espantado com tudo. Tentou agradecer, mas sua voz não saia. Pegou na mão de Chico Mortalha e beijou. Ao beijar sentiu seu cheiro e sabia. Chico Mortalha era seu príncipe. Era o seu homem esperado. O abraçou e lhe deu um longo beijo. Gritou para ele antes que a policia chegasse que ele não deixasse de procurá-la. Ele era seu homem e ela não queria perde-lo. – Estou indo para Alta Floresta, espero você lá na Rua dos Cabritos 44. Tenho uma amiga lá. Não falte eu te amo muito!

Chico Mortalha o matador e Tininha, a gostosa.

Só deu tempo para ele pegar umas roupas, dinheiro que tinha guardado e sumiu no meio do mato e dali em diante ninguém nunca mais o viu. Um dia apareceu na cidade um homem engravatado dizendo ter uma procuração sua. Vendeu tudo. E sumiu de novo da cidade. Tudo deu certo agora na vida de Chico Mortalha. Na rua dos cabritos encontrou Tininha, a gostosa. A beijou como nunca tinha beijado uma mulher. No melhor Motel da cidade ele a comeu saboreando cada pedaço. Assim como ela ele também era virgem. Ficaram se amando por uma semana. Ele não saia de cima dela. Arrumou em Vargem Alegre, uma cidade próxima ao Rio de Janeiro um homem que lhe fez documentos novos para ele e ela. Agora ele se chamava Paulo Roberto Santini e ela a senhora Vanessa Santini. Claro tinham se casado. Conseguiram um visto para os Estados Unidos e lá se radicaram.
Em Sacramento na Califórnia ele abriu um mini mercado. Tininha era sua companheira em todas as horas. Continuava gostosa, mas agora se vestia pudicamente. Iam à igreja pentecostal, aprendeu inglês, e hoje seus quatro filhos são a alegria do lar. Não sei se eles ainda moram lá. Soube que um pé rapado morador do Martelo os viu na rua principal e os chamou. Nunca mais voltou para sua terra e sumiu naquele enorme estado americano. Se Chico Mortalha deu um jeito ninguém sabe. Claro, cinco anos depois acharam após uma tempestade de areia no deserto de Mojave uma caveira cheia de buracos de bala.

Neco parou de contar. Disse que esta era a história. Claro que dei um toque de escritor. E quem não dá? Foi a minha primeira história que nunca esqueci. Foi meu inicio nas sendas da escrita e hoje tenho oito livros publicados. Dizem que sou famoso. Não sei. Para dizer a verdade um dia em visita aos Estados Unidos fui a Sacramento, mas nem sinal de Chico Mortalha. Uma cidade grande como aquela não seria fácil. Uma agulha no palheiro. Um tarde quando saia de um cinema em um shopping vi uma garota morena, com uma micro saia colorida, pernas morenas lindas, uns seios de tirar todo mundo do sério, uns lábios carnudos, olhos negros brilhantes, cabelos vermelhos longos e esvoaçantes de braços dados com um cara magrinho, caolho, boca murcha, andava mancando e até ri dele quando observei ao seu lado um homem grande, bigodudo, dentes de ouro que todos chamavam de Don Castilho e cercado de capangas todos armados. Levei o maior susto me mandei e sai correndo quando ela gritou – Chico Mortalha! Onde você deixou o carro?

Tercetos

Noite ainda, quando ela me pedia 
Entre dois beijos que me fosse embora, 
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia: 

 “Espera ao menos que desponte a aurora! 
Tua alcova é cheirosa como um ninho... 
E olha que escuridão há lá por fora! 

Como queres que eu vá triste e sozinho, 
Casando a treva e o frio de meu peito 
Ao frio e à treva que há pelo caminho? 

Ouves? é o vento! é um temporal desfeito! 
Não me arrojes à chuva e à tempestade! 
Não me exiles do vale do teu leito! 

Morrerei de aflição e de saudade... 
Espera! até que o dia resplandeça, 
Aquece-me com a tua mocidade! 

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça 
Repousar, como há pouco repousava... 
Espera um pouco! deixa que amanheça!" 

E ela abria-me os braços. E eu ficava.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A canção de Bernadete




A FLOR E A FONTE
"Deixa-me, fonte!" Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria
Cantava, levando a flor.

"Deixa-me, deixa-me, fonte!”
Dizia a flor a chorar:
 “Eu fui nascida no monte...
“ Não me leves para o mar”.

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

"Ai, balanços do meu galho,
“ Balanços do berço meu;
 “Ai, claras gotas de orvalho
“ Caídas do azul do céu!..."

Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.

"Adeus, sombra das ramadas,
“ Cantigas do rouxinol;
 “Ai, festa das madrugadas,
“ Doçuras do pôr-do-sol;

"Carícias das brisas leves
“ Que abrem rasgões de luar...
 “Fonte, fonte, não me leves,
“ Não me leves para o mar!"
*
As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor..
Vicente de Carvalho

A canção de Bernadete

           O sol estava vermelho junto às nuvens escuras que chegavam de mansinho naquela tarde fria de final de inverno. Bernadete se dirigia para sua casa depois de fazer sua peregrinação de casa em casa pedindo ajuda para sua mãe. Não tinham o que comer. Seu pai morreu de tuberculose e sua mãe ia pelo mesmo caminho. Mas Bernadete não sabia disto. Apenas oito anos e ninguém para explicar a ela que sua mãe partiria em breve. Não fora um dia ruim. Ganhou um pouco de arroz, um pouco de macarrão. Não era nada, mas daria para uns dois dias as duas se alimentarem. Bernadete não estudava. A escola não aceitou com medo que ela passasse a doença para as outras alunas.

           Não tinham luz elétrica e água encanada. Ela tirava a água necessária na cisterna no fundo do quintal. Bernadete cantava. Estava feliz. Dois dias sem ter o que comer. Sua mãe lhe ensinou a cantar nas horas difíceis. Cantava e sonhava com a música que aprendeu com ela. Luar do Sertão. Sozinha pela rua quase deserta ela cantava. “Não há, oh gente, não luar Como esse do sertão. Oh que saudade do luar da aminha terra, lá na serra branquejando, folhas secas pelo chão...”. Bernadete amava cantar esta canção. Ao entrar em casa saudou a mãe carinhosamente. Pela primeira vez não teve resposta. Foi até ao quartinho e sua mãe inerte. Não falava. Ela balançou chamando Mamãe! Mamãe! Era o fim. Ela sabia. Sua mãe se fora. Ela a tinha prevenido.

           No dia seguinte enterraram sua mãe no cemitério da Saudade no centro da cidade. Uma senhora da prefeitura se encarregou de tudo. Os olhos de Bernadete estavam vermelhos de tanto ela chorar. Agora não chorava mais. Esqueceu-se de pensar para onde ia, qual seria seu destino. Não conhecia ninguém. Nem sabia se tinha algum parente. Sua mãe nunca disse nada. Cantou baixinho quando sua mãe desceu a sepultura para sua última morada. “Este luar cá da cidade tão escuro, não tem aquela saudade do luar do meu sertão!”. A mulher da prefeitura disse para ela arrumar suas coisas. Ela ia morar com Dona Heloisa mulher do Seu Nivaldo o tabelião. Bernadete não disse nada. Não conhecia ninguém. Quem sabe seria feliz lá?

            Dona Heloisa a olhou de uma maneira que a fez tremer e baixar a cabeça. Disse – Menina, eu não gosto de preguiça. Não gosto de gente respondona. Não gosto de gente suja. Portanto faça o que eu mandar e vamos viver bem as duas. Curto seco e grosso. Nada mais. Nem uma palavra de carinho. Perdera sua mãe e agora perdera também alguém que a pudesse acariciar e dizer palavras como sua mãe dizia – Eu gosto de você, eu amo você. Bernadete recebeu as tarefas do dia. Varrer e passar pano molhado em toda a casa. Limpar todos os dias o quintal das folhas das arvores. Arrumar as camas, lavar as roupas dos meninos. Esqueci-me de dizer, Dona Heloisa era mãe de Larita e Lourenço. Não reclamou. Ambos eram quase da mesma idade dela com exceção de Lourenço. Dois anos mais velho. Quem sabe seriam amigos?

           Queria ser amiga deles, mas Dona Heloisa não deixou. – Você é empregada eles são os patrões. Fique no seu lugar. Bernadete quase ficou triste, mas lembrou de sua mãe e cantou: - “Não há oh gente, oh não luar...” isto a fazia lembrar-se da sua mãe e assim ela sorria. Seu Nivaldo nunca a cumprimentou. Nem olhava para ela. Era normal. Ela aceitava. Dona Heloisa não quis colocá-la na escola. Não disse o porquê. Bernadete ficava quando tinha folga escrevendo seu nome. Achou um livrinho de beabá jogado no lixo. Em pouco tempo aprendeu a ler sozinha. Ela era muito inteligente.

           O tempo passou. Os anos passaram. Os filhos de Dona Heloisa foram estudar em um colégio interno na capital. Bernadete torcia contando os dias e as horas quando eles de férias voltavam para casa. Ela se sentia feliz com eles ali. De vez em quando Larita falava com ela, mas Lourenço nunca. Estava ficando um belo rapaz. Com seus dezesseis anos já era bem alto, seus cabelos loiros caiam na testa e era um charme vê-lo balançar cabeça para tirá-los dos olhos. As moças da cidade morriam de amores por ele. Bernadete estava com quatorze anos. Nunca foi bonita. Tinha uma perna mais curta que a outra e andava mancando. Seu rosto não era feio apesar de ter os cabelos crespos e por isto ela mesma o cortava para não ficar grande demais. Tinha um lindo sorriso e isto encantava quem não a conhecia.  Dona Heloisa a presenteava uma vez ou outra com as roupas de Larita que não serviam mais nela. Bernadete se deliciava. Sorria e cantava: “E a gente pega na viola que ponteia, e a canção é a lua cheia a nos nascer do coração!”. Não conseguia fazer amigos. Não podia sair. Quando saia era para ir à padaria ou ao armazém.

            Bernadete nunca esqueceu o semblante de sua mãe. Dormia em um quartinho no fundo do quintal que ela arrumou ao seu modo. Gostava quando estava lá, pois fez amizade com um canário Belga amarelo que vinha sempre cantar para ela na janela. Não tinha cortinas. Não podia ter. Mas tinha uns vasinhos com flores silvestres que ela regava diariamente. Agora não era mais só o canário amarelo. Um sabiá e um Pássaro Preto se juntou aos outros. Eles sempre pela manhã acordavam Bernadete com seu cantar na janela e ela contente corria para saudá-los.

             Bernadete levantava cedo. Muito. Tinha de fazer o café, ir à padaria, e voltar à velha rotina da casa. De uns tempos para cá Dona Heloisa a deixava passear até a praça aos domingos à tarde. Gostava muito. Via gente, meninos brincando e ela sorria para eles com sua alegria infantil, pois a pureza de Bernadete persistiu por todos os anos da sua vida. Ela olhava as meninas a brincarem no pula-pula, no balanço e a descer e subir o escorregador. Quando todos sorriam ela cantava. Nunca deixou de cantar a canção que sua mãe ensinou para ela. “Não há, oh gente...”.

             Bernadete quando fez vinte anos ainda continuava a mesma. Sempre alegre, sempre fazendo tudo naquela casa. Agora cozinhava também, pois Dona Heloisa teve um problema nas pernas e não podia andar. Ficava em uma cadeira de rodas azucrinando o dia inteiro sua vida. Bernadete ficou mais encorpada. Seus seios cresceram. Suas pernas apesar de uma mais curta ficaram mais grossas. Seu cabelo ainda crespos cortados curtos lhe davam um aspecto faceiro e até sensual. Mas ela não sabia o que era isto. Um dia ao varrer o corredor ouviu gritos e correu para ajudar. Mas era no quarto de Dona Heloisa. Ela gemia e pedia mais. Bernadete não entendeu nada. O que seria? Um dia ao sair da igreja Sentou em um banquinho onde varias meninas conversavam. Falaram de sexo, de penetração, mas penetrar o que? Nunca tinha visto um membro de um homem. Ouvia falar, mas não sabia como era. Não era um assunto que ela queria pensar. Todas as noites ajoelhava próximo a sua cama e agradecia a Jesus por tudo que estavam dando a ela. Não passava fome, tinha um quartinho só dela e tinha os passarinhos que eram seus amigos. Ela quando deitava sentia os lábios de sua mãe a lhe beijar. Ela vinha todas as noites. Bernadete sabia. Dormia sorrindo!

              Um dia Lourenço chegou da cidade grande com uma moça linda. Faceira. Loira também e os cabelos compridos iam até sua cintura. – Meus pais, esta é Edna, minha esposa. Sua mãe levou um susto e seu pai quase caiu da cadeira. Bernadete sorriu para ela como a dizer – Seja bem vinda moça linda! Edna perguntou quem era Bernadete – Lourenço respondeu que não era ninguém. Uma empregada mal agradecida, pois deram tudo para ela e fazia tudo errado! Bernadete abaixou a cabeça e sem perceber começou a cantar baixinho – “A lua nasce por detrás das verdes matas...” – O que é isto Edna perguntou. Nada, ela é louca. Cuidado com ela.

               Um ano depois Lourenço deixava Edna sozinha em casa e ia para a Rua do Quebra Cachaça. Bernadete não sabia o que era isto, mas achou que não era boa coisa. Voltava tarde, bêbado e chingando todo mundo. Um dia chegou calado e foi até o quarto de Bernadete. Entrou e deitou com ela em sua caminha estreita. Bernadete assustou e ia gritar quando ele disse – Se gritar vou contar a todo mundo que você me chamou. E vão escorraçá-la daqui para fora. Rasgou sua camisola. Ela sentiu a dor da penetração. Foi forte. Ele logo parou, pois a molhou toda por dentro. Bernadete chorava baixinho. De dor e de vergonha. Lourenço arrumou as calças e foi embora. Por vários dias nem olhava para ela.

               Edna suspeitava que Lourenço tivesse feito “mal” a Bernadete. A maneira como ele procedia em casa junto a ela não dava para esconder. Notou que Bernadete quase não ria mais. Andava sempre triste, de cabeça baixa. Não demorou e a barriga de Bernadete começou a crescer. Dona Heloisa não perdoou. Queria a todo custo mandar ela embora. Uma “puta” isto sim dizia. Faltou com o respeito! Meu filho casado e ela nem pensou nisto? E minha filha o que vai dizer? Bernadete sempre ficava de cabeça baixa. Os olhos cheios de lágrimas, mas ela cantava sem ninguém ouvir – “E a gente pega na viola que ponteia...”.  Seu Nivaldo não deixou. E você nesta cadeira de rodas vai fazer tudo?

              Quando o filho de Bernadete nasceu, foi em outubro. À noite. Ninguém ajudou. Edna ouviu os gritos e correu a ajudar. O menino já havia nascido. Quando pegou o menino sentiu que era lindo! Não falou nada com ninguém. O levou para seu quarto e disse a Lourenço que ele seria filho dela, pois ele era o pai. Um susto. Lourenço não falou nada. Bernadete no outro dia tentou levantar. Lavou-se. Os pássaros cantavam para ela na janela apesar de sua dor e tristeza. Sentiu que toda a noite sua mãe estava lá. Sorrindo para ela e dizendo – Calma minha filha, sua recompensa não tarda. Bernadete com dificuldade voltou ao trabalho. Edna a chamou em um canto e disse que ia tomar conta do filho dela, bastava ela amamentar. Daria tudo a ele. Não iria faltar nada. – Você nunca teria condições de cria-lo! Bernadete chorou. Chorou muito, mas mesmo assim conseguiu cantar – “Este luar cá da cidade tão escuro, não tem aquela saudade do luar do meu sertão!”.

              Passaram-se os anos. Antônio Carlos cresceu. Bernadete o olhava com amor e carinho e sorria. Ele não gostava dela, sempre lhe virava as costas. Seu filho não sabia que ela era sua mãe. Nunca o beijou, nunca o abraçou. Viveu junto a ele até quando fez sessenta anos. Ele rapagão, bonito, forte, se formou engenheiro. Vinha em casa, trazia presentes para todo mundo. Para Bernadete não. Ela o olhava orgulhosa, seus olhos brilhavam. Lágrimas se faziam cair. Ela fazia tudo que ele pedia. Mas ele nem sequer lhe sorria. Mesmo assim ela cantava de alegria – “A canção e a lua cheia a nascer no coração!”.

             Um dia Bernadete começou a tossir, da tosse viu que sangrava. Tentou esconder. Dona Heloisa bem velha, mais de oitenta anos disse – Como sua mãe. Tuberculosa! Tire ela desta casa! Internem ela em um sanatório! Seu Nivaldo não deixou. Afinal Bernadete dedicou uma vida inteira a família, nunca teve nada, e agora por ela para fora? Dois meses depois, em uma manhã de sol brilhante, Bernadete ao acordar viu os passarinhos cantarem em sua janela, não era só os três, eram centenas. Foi uma surpresa. Ela nunca viu um dia tão bonito, ensolarado, lindas nuvens no horizonte. Parecia que estava em um enorme jardim e o perfume das flores era trazidos até sua janela por aragens refrescantes vinda do céu. A família veio correndo para ver o que era. Uma multidão de passarinhos a cantar próximo a janela de Bernadete. Entraram e a viram deitada inerte. Um fio de sangue escorria em sua boca. Estava morta.

              Bernadete os viu entrar tentou sorrir, ia pedir desculpas. Mas viu seu corpo na cama. Ia falar com eles, mas sua mãe chegou. Estava toda vestida de branco. Atrás uma luz brilhante com vários anjos a cantar e os passarinhos cantaram também. O que é isto perguntou Dona Heloisa, assombração? Saiu rápido em sua cadeira de rodas. Seu Nivaldo estava boquiaberto. Larita que estava visitando não suportou a forte luz que vinha da janela. Lourenço tremia e Edna sorria. Antônio Carlos não estava em casa. Tinha viajado para o “estrangeiro”.

              Os vizinhos acorreram à casa dos Nivaldos. Eram milhares de passarinhos. Nunca se viu tanto e todos voando em volta da casa de Dona Heloisa. Cantavam e faziam uma enorme algazarra. Bernadete ficou em dúvida. Ficar ali ou ir com sua mãe? Sentiu tristeza em deixar aquela família que apesar de tudo ela os amava. Sua mãe sorria e dizia, - vem minha filha, eles ficaram amparados apesar do que fizeram a você. Todos passamos por isto. Eles irão um dia também passar as dificuldades da vida. E Bernadete seguiu sua mãe. A luz forte e brilhante as acompanhou enquanto desapareciam no horizonte. A passarada foi atrás e nunca mais voltaram naquela casa.
             Bernadete ficou deslumbrada com a cidade onde foi morar. Era linda, toda colorida e cheia de flores. Não sabia que tinha tanta gente que a conhecia. Sempre diziam – Olá Bernadete. Seja bem vinda! Esperamos muito este dia. Que Jesus esteja com você! E todos sempre sorrindo. Eram centenas que iam visitá-la em sua casinha branca cheia de rosas perfumadas de todas as cores. Eles sorriam para ela, a abraçavam e beijavam carinhosamente. Ela sentiu ali que o amor era o elixir da vida que sustentava a cidade. Sentia que agora pertencia a uma família, uma família enorme, linda, a família de Jesus. Ele havia atendido seu pedido e as suas preces. Viu que sua tosse não existia mais. Viu que também se vestia de branco e adorava. E as tardes, ela e sua mãe sentavam na varanda e cantavam. Não se sabe como, uma viola invisível dedilhava a canção e os passarinhos seus amigos faziam um coro tão lindo que a transformavam na mais bela canção do mundo. Era Maravilhoso. Impossível descrever e tão incrível de ouvir que toda a cidade do além parava para escutar a Canção de Bernadete:
Não há, oh gente  

oh não, Luar  
Como esse do sertão.

Oh que saudade  

Do luar da minha terra  
Lá na serra branquejando  
folhas secas pelo chão

Este luar cá da cidade  

Tão escuro  
Não tem aquela saudade  
Do luar lá do sertão

Não há, oh gente...
Se a lua nasce  

Por detrás da verde mata  
Mais parece um sol de prata  
Prateando a solidão

E a gente pega  

Na viola que ponteia  
E a canção  
É a lua cheia  
A nos nascer do coração

domingo, 20 de maio de 2012

O simpático e alegre prefeito Marcolino Santo Ângelo


Remorso 

Às vezes, uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando.
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calado,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! Com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro, neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude,

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!
O simpático e alegre prefeito Marcolino Santo Ângelo

        Já passei por poucas e boas em minha vida. Muitas situações inusitadas e quando me lembro delas parecem um farol nas noites de inverno a procurar um navio perdido no imenso oceano. Mas o caso do prefeito Marcolino Santo Ângelo para dizer a verdade foi uma surpresa. E põe surpresa nisto. Interessante que quando chegou era um simplório, para dizer a verdade um “banana”. Depois passou a exigir que o chamássemos de Doutor Prefeito Marcolino Santo Ângelo.  Afinal não nasci ontem. Que ele me enganou não tenho a menor sombra de dúvida. Neste mundo de meu Deus eu vi causos e causos, e quantas vezes enganei a mim próprio? Assim foi Marcolino Santo Ângelo. Enganou milhares de pessoas. Mas quem podia duvidar dele?
           Cheguei à cidade de Sol Nascente no final de agosto de 1979. Faz tempo. Acho que vinte e seis anos atrás. Quando Lola morreu São Paulo perdeu a graça para mim. Engenheiro civil vendi minha empresa, minha casa e até um pequeno sitio em Limeira. Tinha visto um pôster de Sol Nascente. Adorei a cidade. No litoral norte quase divisa com o Rio de Janeiro. Fui até lá um fim de semana e voltei dois dias depois, proprietário de uma casa a beira mar. Uma encosta bem próximo à praia. O mar se descortinava da minha varanda numa visão celestial.
           Encontrei um povo hospitaleiro e logo fiz muitos amigos. Já não trabalhava mais. Quando cheguei tinha cinquenta e um anos. Estou com mais de setenta e sete anos hoje. Mas meu coração ainda bate forte. Levanto cedo, faço caminhadas e dou grandes braçadas mar adentro. Alguns amigos se assustaram na primeira vez e depois acostumaram. Costumo ficar à tarde na varanda do Totim, um barbeiro que é um dos meus principais amigos. Olhe acho que conhecia todo mundo na cidade. Quando as temporadas acabavam ali era um paraíso.
         Marcolino Santo Ângelo chegou numa tarde de novembro. Acho que foi em 1993 não tenho certeza. O vi pela primeira vez no boteco do Jamil. Eu jogava uma “sinuquinha” para passar o tempo com apostas de um real. Na cidade não tínhamos muito que fazer. Era ali ou ir para a praça ficar com os velhos na biriba ou truco. Sem esquecer claro, minhas belas tarde na minha varanda e ver o por do sol se esconder no infinito do oceano. Marcolino Santo Ângelo em pouco tempo fez muitos amigos. Ria, abraçava todo mundo. Seu sorriso era radiante. No primeiro dia todos ficaram amigo dele. O danado era bom demais para fazer amigos. Perguntou onde poderia comprar uma casinha. Comprou do Rosildo sem pagar nada. Assim começou a vida de Marcolino Santo Ângelo na cidade de Sol nascente.
          Chegou sem nada e seu patrimônio começou a crescer. Ninguém notou ou fingiam não notar. Ele nunca aprontou de uma maneira afrontosa. Educado, prestativo, ajudava nos sábados quando precisavam de amigos para carregar baldes de cimento na construção de uma Lage qualquer ou na igreja. Com ele não tinha hora nem lugar. Sempre pronto a ajudar. Nunca faltou uma missa. Sempre doava mais que os outros e o Padre Jacinto o adorava. Acho que ele sempre dizia que era um santo em suas confissões.
        A vida seguia seu curso. Ah! Esqueci-me de dizer, em poucos meses Marcolino Santo Ângelo abriu a melhor casa de tecidos da cidade. Sua loja era muito concorrida. Pediu ao Vicentino o dono da agencia de automóveis que trouxesse para ele um conversível amarelo. Não importava a marca. Pagou a vista. Como? Não me perguntem, pois não sei. Todos os sábados fechava a loja ao meio dia e ia como o Delegado Jailton pescar na lagoa do Marimbondo. Disseram-me que ele nunca foi pescar em alto mar. Tinha medo de morrer afogado.
        Duas vezes por semana, ele o delegado Jailton, o Juiz Moreno Silva e o Prefeito Malta Santos iam à casa do Valdico, o dono da Mercearia Santo Antônio jogar truque. Dizem que as apostas eram altas. Não sei. Interessante que nunca o vi de braços dados com uma mulher. Nos primeiros anos todos achavam que ele era “viado”. Que nada. Sarita uma loira do Bairro do Pinguim contou para Rose, que contou para Lavinia que contou para Otho que contou para Mimi, que contou para a cidade toda que ela “deu” para ele.
        Todos ficaram embasbacados em saber que ele tinha uma “piroca” enorme, e que fazia todas as mulheres que dormissem com ele “gosar” a noite toda. Se ele já era bem considerado por todos os homens, agora era amado pelas mulheres curiosas em conhecer aquela “piroca” infernal. Sua fama se espalhou. Algumas delas só para provocar inveja contavam entre si que tinham “dado” para ele e olhe não havia uma que não queria experimentar a “piroca” do Marcolino Santo Ângelo. Claro, só ficávamos sabendo dos bochichos. A verdade ninguém sabia. Um dia soube que Sarita tinha “embuchado” e sumira da cidade. O mesmo aconteceu com Naldinha, uma pena. Uma morena linda, nova, não tinha vinte anos quando as más línguas contaram que Marcolino Santo Ângelo arrebentou seu “cabaço”.
       O tempo foi passando, Marcolino Santo Ângelo “enricando” e comendo a mulherada da cidade que misteriosamente desaparecia para ninguém mais saber por onde andavam. Claro, as más línguas sempre disseram que Marcolino Santo Ângelo ajudava as famílias das desaparecidas. Marcolino Santo Ângelo era agora dono do moinho do português, de duas barracas de lanches na praia, de uma loja de eletrodomésticos, da sorveteria, do restaurante Brinco de Ouro e a cada dia aumentava suas posses.
      A cidade um dia amanheceu em festa. Marcela, a bela filha do Delegado Jailton ficou noiva de Marcolino Santo Ângelo. Como? Perguntaram. Ninguém sabia. Nunca viram ele e ela juntos. Se eles namoravam era escondido, mas esconder para que? O delegado Jailton era muito amigo de Marcolino Santo Ângelo. Não havia necessidade de esconder. Se houve amor, se houve paixão e mesmo se houve algum mais era um segredo bem guardado. Poucas mulheres na cidade agora diziam ter usufruído da “piroca” de Marcolino Santo Ângelo. Mesmo assim comentavam do sumiço da Mercedes, da Lindalva, da Guiomar, da Marialva e da Gloria Chumbinho.
        O casamento foi uma apoteose. Vieram da Capital seis senadores, sendo dois da oposição, trinta deputados, o Vice Governador Florentino Sinclair e um general aposentado que não fiquei sabendo o nome. A missa e a benção foi celebrada pelo cardeal Mota. A força de Marcolino Santo Ângelo era enorme. A festa durou três dias. Dizem que mataram oito bois, doze ovelhas, trinta e cinco porcos, seiscentas galinhas e foram mais de trinta mulheres para preparar tudo no campo do Catumbi Futebol clube.
     A boca pequena dizem que foram passar a lua de mel no Caribe. Ninguém sabia o que era esse tal de Caribe. Diziam que era o lugar mais lindo do mundo. Mais que Sol Nascente? Todos duvidavam. E como todos invejavam a sorte de Marcolino Santo Ângelo desejaram a ele uma feliz Lua de Mel. Já pensou diziam? “Comer” marcela? Uma tetéia de gostosa. Deve ter sido uma bela “foda”. Marcela sempre foi o xodó da rapaziada. Era mesmo uma gostosinha de quebrar o queixo dos “punheteiros” da cidade. Se ela gostou ou não da famosa “piroca” de Marcolino Santo Ângelo ninguém soube. Mas diziam que dois anos depois do seu casamento e disso eu não tenho certeza, ela passou a se encontrar com o Totonho da Mercearia Gabiroba, seu antigo namorado. Totonho sumiu no dia que Marcolino Santo Ângelo foi eleito prefeito de Sol Nascente. De oito mil e duzentos eleitores, Marcolino Santo Ângelo teve sete mil e quinhentos votos. Nunca em minha vida soube de tal proeza.
      Voltando ao Totonho, ele era ponta de lança do time do Catumbi e tinha até uma proposta do Santos para jogar lá. Por amor a Marcela não aceitou. Devia ter aceitado. Sumiu sem dar notícias. Diziam que aceitou uma proposta do “estrangeiro”. Não sei. Depois que ele se foi Marcela quase nunca era vista nas ruas da cidade. Eleito, Marcolino Santo Ângelo passou a exigir de todos o titulo de Doutor Prefeito Marcolino Santo Ângelo. E ai de quem não o chamasse assim. Ele na hora sorria depois o pobre levava uma surra das boas em algumas esquinas escuras de Sol Nascente.
       Sei que ele asfaltou algumas ruas, melhorou algumas escolas, acabou com a sujeira das praias, e sempre com seu terno branco e chapéu de panamá, com seu bigodinho “sem vergonha” e um sorriso de grande político, viajava toda semana para a capital. Ia três vezes por ano para a Europa ou Estados Unidos. Sua casa virou uma mansão. Tinha oito guardas. Cinco empregadas e diziam que contratara um mordomo inglês e um “chief de Cuisine” francês. A boca pequena todos davam como certo sua eleição para deputado. Que fosse estadual ou federal, não importava, ele estaria eleito sem sombra de dúvida. Alguns até diziam que em poucos anos ele seria o Presidente do Brasil! Olhe para ser sincero eu não duvidava.
       Tudo corria bem para o prefeito Marcolino Santo Ângelo. Na rua era saudado e adorado. Agora as moças quase não falavam da sua famosa “Piroca” e quando o olhavam era de esguelha. Tinha medo de desaparecer como as outras. Risos. Como se ele tivesse alguma culpa. Com quatro anos de casado soube-se que Marcela estava muito doente e faleceu no final outubro. Mas caramba, não houve enterro na cidade. Se ela morreu onde enterraram? Uma pergunta que correu de boca em boca na cidade. Interessante que seu pai também foi transferido para Tocantins bem longe dali. Um comentário dizia que seu pai a levou a um famoso hospital na capital e ela foi enterrada por lá mesmo.
      A boa vida de Marcolino Santo Ângelo durou até março passado. A cidade em polvorosa viu o que nunca tinha visto na vida. De uma hora para outra se materializou nas ruas de Sol Nascente carros e mais carros da policia federal. Dois na saída da cidade, dois na prefeitura e quatro na mansão de Marcolino Santo Ângelo. Cinco camburões da policia militar davam o reforço necessário se houvesse alguma represália. Nunca iria haver ali em Sol Nascente. Todos acorreram assustados. Que diabo estava havendo? Malaquias e Pedro Honório juraram que viram Marcolino Santo Ângelo sair algemado e jogado num camburão. Não era possível! Eu não podia acreditar. Dois carros continuaram em frente à casa de Marcolino Santo Ângelo e sempre de olho em quem passava. Quem estava dentro não podia sair e os de fora não podia entrar.
      O novo delegado Doutor Tibúrcio Menor, se fingiu de morto. O Juiz, o Presidente da Câmara dos vereadores, do Lions, do Rotári e até o Promotor grande amigo dele a ponto de dormir em sua casa deu chá de sumiço. Dos amigos ricos de Marcolino Santo Ângelo ninguém soube informar onde estavam. Nada como os federais em uma operação X-9 para afugentar todo mundo. Ninguém agora queria ser amigo dele. Marcolino Santo Ângelo nunca mais voltou para a cidade. Os jornais do dia seguinte em manchetes garrafais traziam nas primeiras páginas a noticia de sua prisão. Não por ele ser importante no estado ou no país, mas sim pelo que tinha feito. Isto mesmo.
          Marcolino Santo Ângelo era um dos maiores “Serial Killer” que tivemos noticia no Brasil. Pelas contas da Policia Federal ele matara em São Cândido onde nasceu e viveu até seus vinte e quatro anos, nada mais nada menos que nove mulheres, quatro homens e doze meninos e meninas. E agora descobriram em sua mansão em Sol Nascente, um cemitério que ele construiu sozinho no porão. Todo chumbado com massa de cimento pesado, (tiveram que dinamitar algumas). Era uma verdadeira fortaleza. No primeiro momento descobriram dezesseis vitimas, esquartejadas e regadas a sal com cal virgem. Diziam ser bom para derreter tudo. Encontram o corpo de Marcela, de seu pai o Delegado Jailton, Totonho o ex-namorado e todas as mulheres que tinham sumido durante os anos que morou em Sol Nascente.
         Incrível como ele conseguiu esta façanha. Enganou uma cidade inteira. O “cara” era “foda” mesmo. Até eu fui enganado, mas sempre com a dúvida na cabeça. O que pretendia este sujeito? Eu sempre me perguntava. Seu julgamento foi uma festa. Repórteres do mundo inteiro. Pegou 500 anos de cadeia, mas sabemos que só vai cumprir trinta e depois de 12 anos, lá estará ele de novo na rua. Bem doze anos é muito para mim. Somando com meus setenta e seis teria oitenta e oito anos quando ele sair. Estaria vivo ainda? Ou quem sabe ele sairia regenerado?
              Catorze anos depois, estava internado em um hospital público, praticamente sem o movimento das pernas e com grandes problemas de falta de ar, quando ao meu lado foi internado um rapaz, dos seus trinta anos, com pedras nos rins e precisava ser operado. Contou-me que era de Monte Dourado. Ficamos amigos e dentre as muitas histórias que me contou uma surpresa. Na ultima eleição em sua cidade um candidato da situação obteve mais de noventa por cento dos votos. – Todos gostam dele dizia um boa praça, mal chegou à cidade fez milhares de amigos – disse. Perguntei qual era o nome – Marcolino Santo Ângelo. Você conhece? Perguntei a ele: - Você sabe se sumiu alguma mulher lá depois que ele chegou? – Olhe para ser franco soube de quatro. Mas por que pergunta isto? – Perguntei de novo - Comentaram o tamanho de sua “piroca”? Ele riu e concordou com a cabeça.
            Falar mais o que? Marcolino Santo Ângelo de volta a lida. A mulherada vai adorar a “piroca” dele até ir dormir o sono eterno de uma facada no pescoço e no coração. (como ele fez com todos que matou antes). Que o danado morra um dia como um cão (pobre dos cães) e vá pagar seus pecados nas “profundas dos infernos!”. Esse é nosso país. Direitos iguais. E como dizem por aí, quem já foi rei nunca perde a majestade!                             
Um beijo

Foste o beijo melhor da minha vida, 
ou talvez o pior... Glória e tormento, 
contigo à luz subi do firmamento, 
contigo fui pela infernal descida! 

Morreste, e o meu desejo não te olvida: 
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento, 
e do teu gosto amargo me alimento, 
e rolo-te na boca malferida. 

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo, 
batismo e extrema-unção, naquele instante 
por que, feliz, eu não morri contigo? 

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto, 
beijo divino! E anseio delirante, 
na perpétua saudade de um minuto...
·.