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sábado, 20 de fevereiro de 2016

A dança da morte


Lúcifer
Então, Deus, são estas tuas imagem e semelhança...
Por elas varreste-me de teus céus que minha luz esfuziava.
Por tais criaturas, arrogantes e francas,
Interrompeste o diálogo;
Desdenhaste o encontro permanente,
Deste-lhe o amor que só nosso.
Como com todas tuas outras, travestiram-no de tudo:
Menos de teu amor.

Eu lúcifer, hei de compor um vírus, uma anti-vida
Escondido no rubro que vida representa,
Tão faminta da vida que criaste,
Que aniquile, com insídias, a obra que amaste.

Que o amor que lhes deste seja a porta
Pela qual entre minha criação, portal da morte.
Tocada por mim, tua imagem te amaldiçoará a cada instante.
E nela, ferida, que te feriei. Porque te amo ainda.
Júlio Dias de Queiróz

A dança da morte

                           Desde que nasceu Jove ouvia falar em Deus. Sua mãe o obrigava a rezar, o padre a confessar, na escola professoras enchendo sua cabeça de Deus. Sempre quis falar com ele, mas ele nunca o atendeu. Entrava em igrejas, em templos em busca de Deus. Nada. Ficou cinco dias no monte Caparal olhando as estrelas procurando um sinal. Nada. Resolveu ficar jejuando para ver o que Deus faria. Não fez nada. Nando desistiu. Esse Deus não existia.

                         Se Deus não existe e o diabo? O demônio? O capeta? Ia provar que ele também não existia. Mas para isso teria que fazer a invocação com a Dança da Morte. O que iria fazer seria horrível, mas valeria a pena provar que o inferno não existia. Jove era magrinho, cara de “fuinha” na escola o chamavam de “porquinho da índia”. Alugou um sitio próxima a cidade. Avisou seus pais que iria fazer uma viagem de um mês para não se preocuparem.

                        Ele conhecia Safira, uma menina magrinha, com treze anos, muda e que morava com a avó próxima a sua casa. Safira quase nunca saia de casa. Olhos pequenos boca grande, cabelos escorridos, não tinha nada de belo em sua aparência. Nando a raptou quando ela ia a padaria comprar pão. Fazia isso toda a manhã. Colocou em seu fusquinha e partiu para o sitio. Tinha comprado éter e com ele embebido em um lenço viu que Safira tinha desmaiado.

                          Ao chegar ao sitio, tirou a roupa de Safira, deixou-a nua. Pequena, magra, apenas treze anos não possuía nenhum atrativo sexual. Levou-a ao quintal, colocou-a dentro de um tanque de agua fria, amarrou seus braços abertos em duas estacas fincadas ao lado do tanque com cordas finas. Ela não tinha como levantar e teria que ficar dentro da água só com a cabeça para fora. Safira quando acordou estava horrorizada. Abria a boca e só saia grunhidos. Seus olhinhos saltavam como se fosse fugir. A dor era incrível.

                        Um horror enorme saia de seus olhos quando Jove se aproximava. Ele cortou com canivete varias lascas finas de bambu. A cada hora enfiava uma lasca em uma parte do corpo de Safira. Sempre ria quando o sangue se misturava a água do tanque. No segundo dia a água já estava vermelha. Com um pequeno alicate, arrancou a força duas unhas de sua mão direita. E duas do pé esquerdo. A pobre da Safira gemia horrorizada tentava gritar um grito que não saia. Desmaiava e acordava. Uma dor tremenda. Não entendia nada do que estava acontecendo.

                       À noite Jove tirou sua roupa. Pintou-se de preto. Matou um galo que tinha comprado. Espalhou as penas e o sangue em cima de Safira que agora estava desmaiada. Daquele jeito Safira iria morrer no dia seguinte. Não aguentava mais de tanta dor. Jove começou a gritar a meia noite em ponto. Gritava e dançava, cacarejava e pedia – Apareça demônio! Mostre sua força! Mostre que você existe! Onde está você demônio dos infernos! E dava grandes gargalhadas e gritos. Dançou por muito tempo a Dança da Morte.

                       Estônio acordou assustado. Dois dias como o mesmo pesadelo. Estônio era investigador de polícia e também "Chefe" Escoteiro. Adorava sua profissão e ria quando os meninos e meninas da tropa pediam para ele contar historias de bandidos em acampamentos ou mesmo na sede. Considerava-se um bom policial. Nunca abusou e nunca deixou de cumprir suas obrigações dentro da lei.

                      Sempre o mesmo sitio que ele não conhecia. Uma menina indefesa na mão de um maníaco. Teria que ser verdade. Isso só podia ser um sinal de Deus. Teria que descobrir onde era o tal sítio. Sem querer comentou com amigos seu sonho. Estava preocupado. Afinal era casado também e tinha dois filhos homens. Ainda crianças com dois e três anos. Rildo um colega de trabalho lembrou que seu pai alugou um sitio para um homem e que ele tinha comentado que o tal queria só por um mês. Pagou adiantado e dobrado.

                      Junto ao pai de Rildo ele foi ao sitio. O que viram um verdadeiro terror. Nunca imaginaria algum parecido e olhe, ele era um policial. Tinha visto muitas coisas na sua profissão. Ainda encontraram Safira com vida. Desmaiada. Toda machucada, mas respirava. Em volta pedaços de corpo de um homem todo queimado. Tinha sido esquartejado. Seus membros fedia. Acharam sua cabeça fincada em um bambu. Sua língua para fora mostrando que morrera gritando e horrorizado. Em todos os membros cortados, lascas de bambus pontiagudos. Nas duas mãos e nos dois pés nenhuma unha. Foram todas arrancadas a alicate.

                      Estônio ficou estarrecido. Depois que a ambulância levou Safira, ele olhou e viu em uma porteira próxima fumaça como se ela estivesse queimando. Foi até lá. Viu escrito a fogo nas taboas e o que leu gelou suas veias. Estarrecido imaginou o que poderia ter acontecido ali. Dizia: – “Não se preocupem. Ele queria me ver, duvidava de mim. Ele agora vai morar comigo. Lá no meio dos infernos e vai queimar comigo para sempre” assinado o “Demônio”.

                      O que viu o que sentiu mostrou a Estônio que não se pode duvidar da morte, das pessoas, de Deus e do Demônio. Não soube explicar quando do seu relatório policial. Não sabia o que dizer. Escreveu o que viu. Hipóteses somente. Safira se recuperou. Com quinze anos começou a balbuciar. Aos dezoito já falava normalmente. Sua mente apagou tudo que tinha acontecido. A dor do passado agora eram alegrias do futuro.

                   Não sei quantas vezes outros fizeram a “Dança da Morte”. Espero que não sejam muitos, pois seu final é trágico.                 
Anjo ou Demônio
Por vezes te quero, anjo
Para afugentar meus demônios
Mas quando estou possuído
Peço-te socorro em meus sonhos.
Muitas vezes és demônio
Pecando me leva ao delírio
Minha alma fica entregue
Ardendo no seu martírio
Anjo que me fascina
Demônio que me instiga
E eu fico envolvido
No mistério que me domina
Sedutora e sensual
Me hipnotiza e conduz
Com seu olhar demoníaco
Sugando-me toda luz
Possuindo-me aos poucos
Demônio, Lasciva, Mandraca
Salvando-me de meus pecados
Anjo, Mulher, Fada.
Angelical e indemnizada
Forte como um vulcão
Arrebatou-me por inteiro
Corpo, alma, coração.

André Ferreira

domingo, 24 de janeiro de 2016

Se vai viver viva no inferno!


Viver ou morrer?

Eu não sei o que é melhor…
Eu não quero esta Vida,
pois toda me é uma ferida.

Eu não consigo assim viver,
para além do grande mal que tenho
sozinho me tenho de precaver.

Para assim aqui andar
Acho que é melhor desertar,
deste Mundo infame em que estou
e partir para aquele onde o meu Coração ficou.

Se disto nada se resolve 
A minha Alma se dissolve,
ingressando na Morte
onde lá, terei outra Sorte.


Se vai viver viva no inferno!

                       Chegou sua hora Polônio. Se achar que rezar vai ajudar reze. Te darei o tempo que for necessário, mas não sei se os céus irão te ouvir! – Olhei para ele sem medo. Se fosse morrer eu sabia que iria morrer como um homem. Não iria pedir clemencia e nem perdão. Não me sentia culpado. – Vais me matar atoa seu Nonato. Sei que tens um pouco de razão mas eu sou sincero, a culpa foi dela e não minha. Afinal você não conhece sua filha? – Seu filho da puta, ela tem só desesseis anos e você levou-a para o mato e fez o que quis! Pelo menos se fosse um homem de verdade a levaria para um motel! Um merda como você não merece viver. Tentei meditar no que ele dizia. – Pensava comigo se outro faria diferente. Não sei, acho que mesmo um padre não perderia a oportunidade. Marilia era uma mulher linda e gostosa apesar dos seus dezesseis anos. Quem olhasse para ela iria balançar de paixão e tesão. Era gostosa demais. Afinal eu era solteiro, vinte e seis anos, namorador e não ia perder a oportunidade.

                        Todos diziam que ela era uma flor cheia de espinhos. Era só olhar e sonhar. Mas a danada sorriu para mim, piscou o olho e disse baixinho que seria minha se eu quisesse. E agora? Nestas horas a gente esquece tudo. A paixão indecente toma o lugar, parece o diabo no corpo assumindo os riscos e deixando a vida nos levar. A principio foi um namorico, atrás dos muros, beijocas quentes e salientes, saliva gostosa de uma boca de mel. Zé Maria meu amigo me alertou: - Polônio, está arriscando sua vida por alguém que nunca vai te fazer bem! – Eu playboy da cidade ria. – Se ela me quer Zé fazer o que? – Bem você é dono da sua vida, mas sabe muito bem que o pai dela vai te arrancar o pelo se não mandar você viver para sempre no Cemitério da Saudade. – Bem, havia esta possibilidade mas a menina era tão gostosa que valia a pena tentar. E aconteceu, em uma touceira de capim gordura, o assalto virou verdade. Parecia que eram um só corpo, ambos nus não importando com a gordura do capim.

                A coisa foi tão boa que não parei por aí. Agora queria todos os dias e ela sorria dizendo que gostava e eu podia fazer o que quiser. A cidade tem olhos no escuro, seja na frente ou atrás dos muros. Logo Seu Nonato ficou sabendo. Era um homem frio e calculista. Esperou com calma a hora e o lugar. Voltava de uma noitada na Casa de Vandica a puta do lugar e encontrei com ele em frente ao Curtume do Salador. Rezar? Eu tremia tanto que esqueci todas as rezas que um dia aprendi quando fui coroinha do lugar. Senti um balaço no pescoço, outro na virilha e outro na bunda que saiu na frente ao lado do meu saco. Cai como um saco de batatas. Apaguei. Abri os olhos dor terrível. Estava morto? Olhei de lado e vi Cristina à enfermeira sorrindo para mim. Não estava morto e sabia que no hospital não tinha onde esconder. Seu Nonato quando soubesse que suas balas não me mataram viriam atrás de mim.

                Tentei levantar e não consegui. Cristina disse baixinho: - Calma, vai demorar para voltar a andar. A danada tinha ouvido que eu tinha o pênis enorme e enfiou a mão por baixo da colcha para saber se era verdade. Maldita. Eu ali quase morto e ela querendo me apalpar. Doutor Jacinto entrou. Foi a minha salvação pois vi que mesmo com um tiro bem perto ele ainda ficava arretado. Me olhou com cara de mau. Não gostava de mim. Pudera Dona Nair sua esposa vivia dizendo que ia dar prá mim. Bem nunca sai com ela, mas ele soube. Virou um inimigo mortal. Era assim em Morro Novo. Maldito pinto danado. Me jogou contra a parede, não havia uma mulher que não queria ser testada e eu um jogador mulherengo atrás de saia não perdia uma. Devia ter aprendido quando Dona Flor mulher do Delegado Madraga me pegou de jeito quando passei três dias na prisão. Ali mesmo na cela sozinho ela me comeu. Ainda bem que não entrou ninguém mas ele desconfiou. Entrou na cela, fechou e disse: Você não passa de um monte de merda! Estou desconfiado. Reservei duas balas de prata para acabar com você.

                    Ali na cama do hospital só pensava em sobreviver e fugir. Minha mãe velhinha pagava minhas contas, me dava o que comer e vestir. Eu vagabundo não trabalhava. “Bom vivant” tinha a mulherada a pagar para mim de tudo que precisava. – Cristina! Eu chamei a enfermeira – Preciso de você. Só você pode me salvar. Tem de me tirar daqui e me levar para longe. Qualquer cidade e me deixe no meio da rua que a policia vai me pegar e quem sabe me ajudar! – Cristina pensou e pensou. – É Polônio acho que tem razão. O Delegado Madraga esteve aqui, estava com Seu Nonato. Veio Também o Betinho. – O Betinho? Pensei. Juro que não comi a filha dele. Afinal tinha quatorze anos. Gostosa sim, apetitosa demais mas me aproveitei do seu corpo sem entrar. Se os três estavam de tocaia eu estava frito. Era questão de horas para me mandarem pro inferno. - Cristina, por favor, pelo amor que tem a Deus, só você pode me salvar!  Ela me olhou desta vez sem sorrir. – Ajudo se casar comigo!

                 - E agora? A danada não era bonita, tinha pernas finas, cabelos crespos, uns lábios que faziam medo a quem quisesse beijar. Casar? Tinha outra saída? Prometer e não cumprir ela vai contar prá todo mundo onde eu estou. Melhor fingir que aceito depois vamos ver. – Naquela noite, lá pelas duas da madrugada ela veio com uma maca de rodinhas e me ajudou a passar para ela. Tivemos sorte, em minutos estávamos na rua. Ela não tinha carro e eu também. A rua estava deserta e ela me levou até a sua casa. Morava com a Avó já cega, mas bem atenta. Fiquei em sua casa por cinco dias. Estava melhorando e com sacrifício já andava com uma perna. A outra da bala na virilha ainda doía demais. Evitava chegar à janela e sair na varanda. Pedi a ela que chamasse Zé Maria. Ele tinha uma camionete e poderia me ajudar. Apareceu lá à noite. Ria sem parar – Não te falei? Bala na bunda no saco e no pescoço, onde mais? Não disse nada, eu precisava dele para sair da cidade.

                  Um mês depois sem sair de casa, sem chegar à janela Zé Maria chegou de madrugada com sua camionete e disse: - Chegou a hora, vou levar você até Lagoa Azul. De lá você pega um ônibus e se manda para a capital. Se tiver cabeça arruma um emprego e muda de vida. Chegar de comer as mulheres que acham você o homem mais gostoso do mundo – Olhei para ele. Estava enciumado e tinha um brilho esquisito nos olhos. Bem eu tinha prometido a mim mesmo mudar de vida. Ele conseguiu com minha avó uns tostões para quebrar o galho.  Andava com muita dificuldade arrastando a perna esquerda. Cristina vivia pegando nele, botando na boca e dizendo: - Só entra em mim quando nos casar. Sou mulher séria e virgem. Olhava para ela e pensava o dia que teria de fazer isto. Seria um tremendo sacrifício. Ela não foi comigo. – Você vai para a capital quando chegar me telefone e vou te encontrar. Caso pensado. Ela sabia o que ia acontecer. Mulher? Eu sabia como eram. Quem pode desconfiar?

                     Não andamos oitenta quilômetros e Zé Maria parou. Me olhou de soslaio e disse. – Chegou tua hora Polônio. Eu não vou proteger você. Desde o dia que comeu Norminha minha noiva nunca mais te perdoei. Só não matei você porque não sabia como e agora eu sei. Olhei a estrada poeirenta. Olhei mais a frente e vi vindo em nossa direção o Delegado Madraga, o Senhor Nonato, o Doutor Jacinto e o Betinho. Puta merda! Tudo combinado. Estava mesmo “fudido”! Tentei correr para o mato e cai. Sentia os tiros nas costas, na bunda no saco no pescoço e na cabeça. Levantei e sorri. Não morri cambada de filhos da puta! Foi então que vi meu corpo estirado no chão e morto. Era assim a morte? Mas não tinha outro corpo flutuando? O barulho dos infernos e vi uma turma de demônios sorrindo a me pegar. Vamos Polônio. Para onde você vai ter mulher pelada de montão. E riam e riam e eu gritava e gritava...
Soneto do amor e da morte

Quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. Quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.
Vasco Graça Moura

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A doce vingança de Laudivino Centauro


Vingança

Eu consigo a incrível façanha
de ser feliz e triste ao mesmo tempo

É que falta uma peça
tão grande e importante
que fica difícil percebê-la
mas ela existe…
e dói saber

Não há fardo maior na vida
do que os malditos sonhos
que te iludem

Eu não quero me vingar da vida
mas parece que ela se vinga de mim.


A doce vingança de Laudivino Centauro

              Nuvens brancas, cinzentas perpassavam pela minha mente em um redemoinho nefasto. Minha vida mostrava devassidão, corrupção, bandalheira. Este era eu? Não estava me reconhecendo. Tentava concatenar as ideias e não conseguia. Era como se toda uma vida fosse passada ali naquela tela imensa um relato do que fui, do que fiz e sem sombra de dúvida mostrava que eu não era ninguém. Apenas um ser perverso, maléfico e que a troco de riquezas e poder destruiu muitas vidas e tirou de quem precisava em benefício próprio. Mas onde eu estava? Tentava lembrar tudo que aconteceu e só via aquele filme maldito que passava naquela tela gigante me forçando a lembrar de toda minha vida desde que nasci.

               Agora sim. Estava entendendo. Eu estava em um hospital. Vi-me ali cheio de fios na boca nas orelhas. Uma parafernália de aparelhos que me faziam respirar. Mas como se eu não estava lá no corpo? Como não sentia nada? Através do vidro vi Celina chorando e ela rezava. Sua reza me ajudava. Era pura, verdadeira. Celina, quem diria! A mulher que nunca pedi em casamento e me foi fiel por toda a vida. Uma empregada que nunca reclamou de salários nunca reclamou de meus carinhos. Maldito sou eu. Ficou do meu lado durante todo o tempo sem nada pedir. Celina, a mulher mais linda do mundo que não soube valorizar. Nunca quis o meu dinheiro, maldito dinheiro, sim, hoje digo maldito diferente do passado quando corria atrás dele como o diabo corre atrás das almas perdidas.

               Mas onde estava Fernanda? Afinal foi a ela que dediquei muitos anos para ver se tinha uma vida feliz. Dei a ela o que queria. Seus sonhos de mulher rica foram concretizados. Tinha tudo que desejou. Fomos para a Europa, Américas, lugares que nunca desejei ir e ela adorava e ria, cantava quando estávamos lá. E eu iludido fazia tudo o que ela me pedia. Mas onde está ela? Não jurou que me amava? Que a paixão por mim era a única e nunca iria me abandonar? Começava a lembrar-me de tudo. Não de tudo e sim de uma boa parte. Agora via o caminhão carregado vindo em minha direção. O volante não obedecia. Parecia que estava solto. Um monstro a minha frente buzinava alto, parecia dizer – Sai seu burro! Vais morrer e ir para o inferno onde é seu lugar.

                Nem fizera dezoito anos e sai de casa. Minha mãe chorava e meu pai sério ficou na janela sem dizer adeus. Ele no seu íntimo sabia o que eu era. Sabia da minha cobiça, dos meus sonhos de riqueza. Aquela vida que ele deu a mamãe e a mim eu considerava um lixo. Não posso reclamar tanto. Ele deu para ela uma casinha simples, limpa, aconchegante. Meu deu estudos ou tentou já que não liguei muito para isto. Na minha cidade sempre tentei enganar as pessoas. Era conhecido como um embusteiro, enganador e trapaceiro. Minha mãe sempre chorava quando ia preso. Mas menor de idade ficava lá pouco tempo. Tinha pinta, as meninas eram apaixonadas por mim apesar dos pais manterem elas longe. Engravidei umas cinco. Risos. Problema delas. Quem mandou abrir as pernas? Tudo bem. Menor de idade. Mas de uma coisa tinha certeza, nunca matei ninguém. Nunca.

               No Rio de Janeiro cheguei com uma mão na frente e outra atrás. Um mendigo que se dizia cego tentei roubá-lo. Não era cego. Chamou amigos e me deram uma surra tremenda. Uma ambulância me levou ao hospital. Fiquei oito dias internado. Arrumei lá algum dinheiro. De madrugada ia aos apartamentos e roubava os pacientes ricos. Não era muito, mas deu para ficar uns meses em um hotel enquanto planejava outros golpes. Achei um interessante. Na página de necrologia dos jornais via os que morreram, procura seus endereços e telefones, ligava para a empregada pedindo um documento como se eu fosse o gerente do velório onde ele estava. Enquanto ela corria para levar o documento eu fazia uma limpeza na casa. Era chamado de rato de velório.

                 Aprendi também a não pagar o barbeiro. Pegava um menino qualquer, cortava meu cabelo, fazia a barba, as unhas e quando terminava colocava o menino para cortar o cabelo como se fosse o meu filho e dizia que ia tomar um café. Sumia é claro. Assim fui dando muitos golpes até que um amigo me convidou para ser seu sócio. Arrematar em um leilão, dez mil fraldas para velhos. Ri dele. E daí? Perguntei. Simples, montamos uma firma fantasma, entramos em uma concorrência publica em uma cidade do interior, compramos o responsável pela escolha e dai partimos para outras concorrências mais fortes. Conheço gente que está rico com isto! E quando vamos precisar para iniciar? Se tiver vinte mil já dá. Tinha. Foi só o começo. Ninguém das prefeituras do interior recusavam uma propina. Ganhamos muito dinheiro.

                Comprei uma casa boa em um bairro de classe media. Celina apareceu um dia pedindo emprego. Negra, jovem ainda e sempre de cabeça baixa, humilde, simples. Ela me serviu na casa e na cama. Nunca reclamou. Não sei se fui bom para ela. O dinheiro que pagava não era nada. Mas nunca reclamou. Disse que não precisava de nada. O que sobrava guardava na poupança. Prá que Celina? Você é só no mundo. Não sei respondia. Um dia posso usar. Tudo cresceu mais quando entramos em uma concorrência em um estado. Desta vez era coisa grande. De cem milhões. Uma fábula. Ganhamos. Vinte por cento para meia dúzia de safados do governo. Daí foi um pulo. Outras e outras. Fiquei milionário. Deputados, senadores, prefeitos e vereadores me bajulavam. Sempre cada um querendo seu quinhão. É para o partido diziam! Partido. Eu sei que partido. O próprio bolso.

               Quando estava no aeroporto para embarcar para Lós Angeles, conheci Fernanda. Ela também estava indo para lá. Disse que me conhecia pelos amigos que tinha. Fernanda era linda, alta quem sabe um e setenta e cinco, seios maravilhosos, olhos verdes profundos, cabelos loiros naturais. Uma voz rouca, gostosa que fazia dela a mulher perfeita. No avião ela não estava em minha poltrona. Havia duas vazias bem atrás. Fiz um sinal e ela foi. Amassos, beijos chupadas. Tudo terminou no WC do avião. Nunca tinha feito assim. Muito gostoso adorei. Nesta viagem fomos lá quatro vezes. Cheguei esgotado em Los Angeles.

                Ela aceitou meu convite. Mesmo hotel mesma suíte. O que veio fazer aqui? Perguntei. – Ela – Passear somente. Acreditei. Sempre fui um sabido com os negócios e um idiota com as mulheres. Minha missão era encontrar deputados, juízes, senadores na calada da noite para planejarmos negociatas longe das luzes de holofotes que se encontram no Brasil. Fernanda ia comigo. Aos poucos se inteirando de tudo. Os políticos e juízes a olhavam e ficavam loucos por ela. Ela disse-me que os durões ela amansava. E amansou. Fez sexo com muitos para me ajudar. Um ciúme enorme. Mas negócios são negócios, amores à parte.

               Comprei um apartamento de cobertura na Vieira Souto no Rio de Janeiro e outro no Morumbi em SP. Ela gostava mais do Rio. Tudo bem. Ficava em São Paulo a maioria do tempo. Sempre com a fiel Celina. Grande Celina. Tentou me abrir os olhos e eu cego achei que era ciumeira dela. Seu Laudivino, ela dizia, Fernanda já esteve aqui com outro homem quando o senhor Não estava. Eu ria e dizia, são negócios minha “nega”. Não sei como ela descobriu minha conta na Suíça. Uma grande quantia tinha lá, acho que mais de duzentos milhões de dólares. Uma fábula. No Brasil quase nada. Um dia poderiam vasculhar minha conta a vontade.

               Tudo começou a desmoronar quando fui preso de manhã em meu apartamento do Morumbi pela Polícia Federal. Quantas acusações. Falsidade ideológica (nem sabia o que era isso), formação de quadrilha, e mais uma dezena de acusações. Deram-me uns cascudos. Mas foram benevolentes. Não tinha advogado. Liguei para Fernanda e pedi que escolhesse o melhor de todos. O preço não importava. Ela escolheu o pior. Não me tirou da cadeia. Através deste advogado arrumei outro. Conseguiu um Habeas Corpus. Solto voltei ao apartamento. Vazio. Roubaram tudo. Foi Fernanda eu fiquei sabendo. E Celina? Perguntei ao porteiro. Não sei me disse. Fernanda a pôs para fora do apartamento.  Ela sempre ficava aqui sentada no meio fio esperando o senhor. Não veio ontem nem hoje. Já ia embora quando a vi. De cabeça baixa, chorando. O que será de mim senhor Laudivino sem o senhor? Calma Celina. Calma, vamos resolver tudo.

               Mas tudo estava indo para o brejo. Ainda bem que no Banco Itaú e no Bradesco tinha uma merreca. Comprei um notebook e uma surpresa. Não tinha nenhum tostão nos bancos suíços. Tinham sido surrupiados. Consegui em quatro bancos mais de trinta mil reais. Mal deu para pagar o advogado. Procurei uns amigos. Todos me viraram as costas. Coloquei a venda o apartamento do Morumbi, o mesmo ia fazer com o da Vieira Souto. Não estava mais no meu nome e sim no de Fernanda. – Então foi ela! Dei tudo que queria e não ficou satisfeita? Deve ter descoberto minha senha e retirou nos bancos suíços. Maldita, pensei, vai pagar em dobro!

               Aluguei uma casinha na Lapa, pedi a Celina para tomar conta e fui ao Rio de janeiro. Encontrei Fernanda. Junto o Laureano. Um antigo Deputado Federal que foi cassado. Agora eram amantes. Laureano me ofendeu. Que eu sumisse da vida deles. Juraram-me de morte. Morte? Quem ia morrer eram eles.

À tardinha de novo a Federal. Disseram que eu estava cerceando testemunhas. Mas não me prenderam. Só disseram para tomar cuidado. Um delegado dos mais novos ao pé do ouvido me disse para ficar de orelha em pé. Muita gente querendo me ver morto. Muitos figurões. Voltei a São Paulo de carro. Quando passei por Resende notei uma folga no volante. Esperei o próximo posto. Lá veria o que era. Antes da entrada de Itatiaia o carro dançou na pista, não consegui dominar, invadiu a pista contrária e bati de frente a uma enorme carreta que estava a mais de cem por hora.

               Estou me vendo ali na cama, cheio de fios, e no vidro chorando estava Celina. A única companheira de verdade. Fernanda eu sabia que não viria. Devia estar festejando com Laureano em algum lugar do Rio de Janeiro. Malditos. Tinha de me vingar. Minha mente só pensava em vingança. Notei ao meu lado dois homens vermelhos, como se estivessem queimando. Exalavam um mau cheiro parecendo enxofre. Nós ajudamos você disseram. Nosso mestre tem poderes e se os quiser mortos o faremos. Em troca vai conosco. Fechei os olhos. Tinha lido histórias de pacto com o demônio. Eles estavam me oferecendo um? Valeria a pena? Olhei para Celina no espelho. Ela rezava. Sua reza chegava até a mim. Dizia para me arrepender dos meus pecados que estavam passando na tela grande a minha frente. Eram muitos. Não sei se Deus iria me perdoar.

              Os dois homens vermelhos começaram a me arrastar. A reza de Celina bateu fundo no meu coração. Comecei a rezar também. Chorava, um clarão apareceu. Vários homens e mulheres de branco. Junto meu avô que só me lembrava dele quando tinha cinco anos depois ele morreu. Pegou no meu braço e disse – Venha comigo meu neto querido. Levou-me rumo aos céus. – Laudivino meu filho, você cometeu muitos erros, prejudicou muita gente, mas Deus se apiedou de sua alma. Você vai ter que trabalhar em dobro para recuperar o que perdeu em suas ultimas andanças na terra. Alguém me levou para uma cidade cinzenta, onde todos choravam e gemiam. Uma mulher me abraçou e disse, vamos trabalhar meu amigo, aqui tem muito trabalho a fazer. São espíritos que precisam de nossa ajuda. Vieram das zonas inferiores. Aqui não vais ter folga, não vais ver o céu azul, só dores e sofrimento.

               Ainda recebo as boas rezas de Celina. Elas me ajudam muito. Aos poucos fui esquecendo-se de Fernanda. Não pensava mais em vingança. Minha alma estava em paz. O Chefe da cidade me chamou. Venha me ajudar. Fiquei contente ia sair da cidade em que estava por anos a fio. Um trabalho incessante. Fomos a uma casa simples.  Lá estava Fernanda, gritando. Laureano tinha atirado nela por uma discussão boba. Estava morta. Desencarnada. Gritava, queria ver morto o Laureano. Aproximei-me. Ele me viu e se assustou. Dei a mão a ela. Venha minha amiga, vamos a uma cidade onde poderemos trabalhar muito. Você vai gostar de lá. Ela se calou. Olhou nos meus olhos, não viu vingança viu amor. Um amor diferente do qual ela nunca teve. Ouvi o sorriso de Celina, na terra ela continua a horar por nós dois.


Lágrimas tristes tomarão vingança

Se somente hora alguma em vós piedade
De tão longo tormento se sentira,
Amor sofrera mal que eu me partira
De vossos olhos, minha saudade.

Apartei-me de vós, mas a vontade,
Que por o natural na alma vos tira,
Faz-me crer que esta ausência é de mentira;
Porém venho a provar que é de verdade.

Ir-me-ei, Senhora; e neste apartamento
Lágrimas tristes tomarão vingança
Nos olhos de quem fostes mantimento.

Desta arte darei vida a meu tormento
Que, enfim, cá me achará minha lembrança
Sepultado no vosso esquecimento.


Luis Vas de Camões

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A história de Mel que não é mais virgem



Que mulher é essa

Que mulher é essa
que não se cansa nunca,
que não reclama nada
que disfarça a dor?
Que mulher é essa
que contribui com tudo,
que distribui afeto,
tira espinhos do amor!
Que mulher é essa
de palavras leves,
coração aberto,
pronta a perdoar?
Que mulher é essa?
Que sai do palco,
ao terminar a peça,
sem chorar!
Essa mulher existe,
sua doçura resiste,
às dores da ingratidão,
Resiste à saudade imensa,
resiste ao trabalho forçado,
resiste aos caminhos do não!
Essa mulher é MÃE,
linda, como todas são.

A história de Mel que não é mais virgem e virou mulher!

                        Vale da Lua estava em polvorosa. Alguém comprou o Sítio do Coronel Gerônimo. Ele jurou que nunca o venderia. Era um belo Sitio. No final da Avenida Sonhos Dourados.  Muitos passavam em frente e ficavam horas olhando. Não havia muros. O jardim imenso. A casa do estilo renascentista era imensa. Dizem poucos sabiam ao certo que atrás da casa existia uma enorme piscina em forma de coração que fazia as delicias dos moradores. Eram para muitos a casa dos sonhos. Quem comprou? Como o Coronel Gerônimo resolveu vender? De boca em boca o assunto do dia na cidade. Vale da Lua era pequena, não mais que vinte e cinco mil habitantes e todos se conheciam. Caras novas que apareciam na Pensão de Dona Dilva ou no Hotel do Seu Francisco todos já sabiam que eram caixeiros viajantes.

                        No dia seguinte chegou uma Nissan preta, com quatro homens que nem pararam na cidade e foram direito para o Sitio do Coronel. No segundo dia chegou um ônibus cheio de operários. O povo todo de porta em porta atrás de uma novidade. Nada. Ninguém sabia de nada. O Coronel Gerônimo passou a morar em sua mansão da Avenida Sonhos Dourados próximo a matriz. Ninguém ousou perguntá-lo nem mesmo seus companheiros das soturnas noites jogando pôquer com o prefeito Santino, o delegado Javier, o juiz Doutor Prazeres e o Padre Thomaz. Algumas vezes valendo altas somas. Em menos de um mês uma reforma foi feita no sítio do Coronel. Cinco caminhões baús enormes despejaram a nova mobília e os especuladores em volta quase nada viam. As comadres corriam aqui e ali. Nada. Ninguém sabia de nada. Um mês e dez dias e os carros rarearam. Chegou sim uma Van, com oito homens de terno, desceram com suas malas. Daquele dia em diante sempre tinha um em cada parte do Sitio.

                         Mel tinha treze anos quando tudo aconteceu. Mel não era linda, era sim uma menina magrinha, cabelos loiros encaracolados e uns olhos azuis que pareciam sair faísca quando se olhava para ela. Era filha única. Sua mãe a adorava, mas seu pai nem tanto assim. Parecia que Mel não era sua filha. Um dia ela viu pelo buraco da fechadura seu pai olhando para vê-la tomar banho. Assustou-se. Por quê? Passou mais dois meses até que um dia ele entrou em seu quarto quando ela trocava de roupa. Gritou com ela. Fique como está. Quero saber se ainda é virgem. Um susto enorme. O que era aquilo? Mel não sabia de nada. Começou a acariciar seu corpo magro. Seu pai emitia sons que a assustaram. Seus dedos passavam em todo parte do seu corpo. Quando levou a mão em seu sexo ela gritou. Ele assustou e saiu do quarto. Não foi a primeira vez. Ele entrava e exigia que ela ficasse só de calcinha enquanto ele se masturbava. Mel chorava de cabeça baixa.

                        Mel passou a ter medo do próprio pai. Esperava ele sair para tomar banho e trocar de roupa. Sabia que não podia contar para sua mãe. Ela nunca acreditaria. Pela janela Mel namorava Nonô, um rapazinho que aprendia a fazer pão na Padaria do Seu Ernesto. Ela gostava dele. Ficava na janela e ele em pé no muro da casa do Seu Antenor bem em frente. Ele fazia sinais e ela ria. Um dia sentiu uma lambada nas costas. Doeu muito. Era seu pai. “Vagabunda!” – Ela correu para seu quarto. Ele foi atrás. – Gritou alto – Tire a roupa, fique só de calcinha em cima da cama – Já! Se não vou te moer de pancada! – Ela começou a chorar, mas obedeceu. Ele não se aproximou dela. Ficou olhando. Tirou seu sexo enorme, e latente e de novo se masturbou na frente da filha.

                           Mel tentou falar com sua mãe. Ela gritou mais alto. Mentirosa! Seu pai é um santo! O que fazer? Procurou o Padre Thomaz. No confessionário contou tudo. O padre a mandou rezar padres nossos e ave Marias e depois procurá-lo na sacristia. A igreja estava vazia. Ela entrou. O padre mandou que ela sentasse em seu colo. Ela acreditou que ia ser consolada e o padre iria conversar com seu pai. Não era assim. Nunca foi. Ela sentiu o membro do Padre entumecendo. Sentiu as mãos do padre acariciando seu corpo. Ele pegou em sua mãozinha e colocou em volta do seu membro. Um susto, nunca pensou que isto pudesse acontecer. Saiu correndo. Agora passou a ficar com medo de estar em casa sozinha. Não tinha amigas para onde ir. Esperou Nonô sair do serviço na padaria. Ele se assustou. Contou para ele tudo. – Resolveram fugir da cidade. Ir para onde? Ela disse que preferia morar no inferno. Qualquer lugar serve. Ela não entendia o que queriam com ela. No dia seguinte ela fugiu de casa e partiu com Nonô.

                          Andaram por muitas léguas pela estrada. Ninguém dava carona. Parou um caminhão. Uma carreta, enorme. O Motorista moreno, forte um grande bigode parou e deu carona. Não deu um sorriso. Só olhou de soslaio para Mel. O que vinha a seguir seria a morte para qualquer um. Foi à primeira vez de Mel. Maldito. A possuiu com força na cabine. Doeu de mais. Ela gritou pediu pelo amor de Deus que parasse. Nonô não podia socorrer. Levou um soco e foi jogado fora da cabine. Ela nem sabia se ele estava morto. Mel desmaiou. O maldito depois de horas abusando dela a jogou na estrada e se foi. Mel ensanguentada se arrastava no asfalto. Muitos passaram e assustados não pararam para socorrer. Uma Mercedes preta parou. Desceu um homem pequeno. De terno. Seu rosto tinha uma enorme cicatriz. Pegou Mel no colo e a levou para seu carro.

                         Passaram não menos que seis anos. Mel agora estava com dezenove. Se sorrisse podia se dizer que era linda. Mas Mel nunca mais sorriu desde que foi estuprada covardemente pelo caminhoneiro. Até hoje ela se sentia suja. Nenhum banho a limpava. Morava em uma mansão nos arredores de Paris. Seu novo protetor tentou de tudo para vê-la sorrir. Mel gostava dele. Foi o pai que ela não teve. Apesar da cicatriz ele não era feio. Rico, riquíssimo. Tentou colocar Mel em uma escola famosa para moças na Basileia. Mel não quis. Mel não queria nada. Achava que devia ter morrido. Roodney tentou de tudo. Fez de Mel uma filha que não teve. Sentiu uma enorme revolta quando a encontrou caída na estrada.

                       Nunca contou para Mel, mas ele mesmo fez questão de castigar o caminhoneiro. Naquela tarde parou em um posto de gasolina para abastecer e ver se Mel queria alguma coisa. Ela agora não chorava mais e nem mostrava sentir suas dores. Antes pararam em uma clinica em uma pequena cidade a beira da estrada. Fizeram tudo para ela ficar internada. Não quis. Jurou que ia fugir. Roodney tinha compromisso em Belgrado. Não podia ficar. No posto de gasolina viu um caminhoneiro grande, enorme dando gargalhadas em uma mesa com os outros amigos. Ouviu dele o que tinha feito a uma menina na estrada. Contava como se fosse tudo natural. Roodney o matou com dois golpes mortais de caratê. Ele era um mestre. Não precisou de ajuda. Ele não estava sozinho. Seu motorista e o segurança estavam com ele a mais de dez anos e sabiam manejar qualquer arma.

                        Ficaram um dia em São Paulo. Roodney disse que ia partir para a Europa. Não gostaria de deixa-la ali sozinha sem proteção. Ela o encarou e disse – Me leve com você. Nasceu daí uma grande amizade. Roodney a considerava a filha que não teve. Deu tudo que podia dar. Mas nunca conseguiu um sorriso. Nestes seis anos Mel aprendeu muito. Roodney viajava muito. Mel ia junto a não ser em alguns lugares que ele achava perigoso. Ela já sabia que ele era um grande traficante de armas pesadas. Chegou a armar diversos países sul africanos e americanos. Todas as policias do mundo gostariam de colocar a mão nele, mas não tinham provas. Mel gostava de ficar na Mansão de Paris. Ele tinha também um chalé na Suíça. Ela ia pouco. Não gostava de frio. Um dia sentiu saudades de sua cidade. Chorou porque sentia saudades também de sua mãe. De seu pai não. Comentou com Roodney. Ele sorriu. Deixe comigo, vou comprar a melhor casa de Vale da Lua.

                      Não foi difícil. Tinha um amigo que conhecia o Coronel Jerônimo. Ele estava devendo muito a este amigo. Quando viu a quantia que ofereciam vendeu logo. Comprometeu-se a não dizer para quem vendeu. Roodney depositou para ela uma grande quantia no banco. Um cartão de crédito sem limites. Colocou lá seis seguranças escolhidos a dedo entre seus homens. Lastimer ficou responsável por ela. Era seu braço direito. A acompanhava sempre aonde ela ia. A cidade em peso um dia a viu descer da Mercedes azul sem capota. Ninguém a reconheceu. Um frenesi geral. Fez algumas compras na loja do Turco e no Mercadinho do Zuzinha. Todo mundo nas janelas. - Quem era? Parece linda! Uma princesa? – Mel não conversou com ninguém. Entrou na igreja. O padre Thomaz veio correndo subserviente. Mel olhou para ele – Lembra-se de mim? – Não senhorita! Ele disse. Eu vou te amaldiçoar o resto da minha vida, seu sacana filho da puta!  Ela disse. Você não perde por esperar.

                     O Padre Thomaz passou uma tarde pensativo, preocupado e com medo. Quem era ela? Dormiu e acordou afoito. Mel! Era Mel! Meu Deus! Ela não tinha se esquecido do que eu quis fazer com ela. – Comentou com Matilde que fazia limpeza. Em menos de uma hora a cidade inteira sabia quem era a madona da mansão. Os pais de Mel ficaram sabendo. Correram até a mansão. No portão foram barrados. Mel só deixou sua mãe entrar. Falou pouco. Não contou nada de sua vida. Mel chorou aquele dia. Ela não tinha mais ódio de seu pai e sua mãe, mas achou que ainda não estava preparada para contar sua história. Um dia pela janela avistou um jovem moreno fazendo a entrega de pães. Meu Deus! Era Nonô! Estava vivo. Foi correndo ao portão. Ele quando a viu ficou com medo. Ela o abraçou. Ele tremeu ao ver os guarda-costas olhando sério para ele.

                     Mel ficou amigo de Nonô. Nada mais que isto. Não era mais o homem de sua vida. Mandou chamar seus pais. Comprou uma nova casa para eles. Seu pai sempre a olhava de cabeça baixa. O Padre Thomaz nunca mais apareceu. Pediu transferência para o Bispo. O medo grande de ser espancado pelos guarda- costas. Mel não deu satisfação para ninguém. Uma tarde Roodney chegou à cidade. Junto com ele mais de cem homens. Disse para Mel que ela devia ir embora. Aqueles homens eram mercenários. Iriam se entrincheirar no sitio fazer barricadas, pois uma guerra iria começar. Tudo que impedisse a entrada seria válido – Mas por quê? Disse Mel. – Querida filha, estou cansado de fugir. Vendi para um general fajuto no país pequeno da África diversas armas. Quando eram entregues o exercito do imperador atacou e matou quase todo mundo. Ele acha que fui eu quem deletou. Já tentou me matar em vários países. Agora chega. Não vou fugir mais.

                     Mel se recusou a sair. Ela não acreditava que alguém de outro pais fosse atacar Roodney ali. Afinal ainda havia leis no Brasil. Um exército em atividade. – Vou ficar – Se não fosse você eu teria morrido! Você me devolveu a vida! Quatros meses aquela movimentação de guerra no sitio. O delegado via tudo assustado e comunicou as autoridades na capital. Um general foi enviado para ver o que seria. Ficou estarrecido. Tentou conversar com Roodney e nada. Mandou avisar que traria um unidade do exército. Ou ele conversava por bem ou por mal. Não deu tempo. Zito Mobutu entrou na cidade com mais de trezentos homens. Vale da Lua virou uma praça de guerra. A população corria para o mato, para os morros e quem tinha carro sumia pelas estradas vicinais, estaduais e federais.

                   Cinco dias depois o Exército federal chegou. Mais de cinco mil homens. O General Afonso deu um ultimato para encerrar a luta. Ninguém ouviu o Exército. Uma ordem do presidente e aviões da força aérea bombardearam o sitio e arredores. Em volta centenas de repórteres de jornais, revistas rádios e TVs. Até a CNN estava lá. O Exército invadiu. Uma matança. Dois dias. Cadáveres e cadáveres. A paz voltou. Mais de duzentos mortos. Ninguém se entregou. Uma carnificina. O sitio destruído. Não encontram Roodney e Mel. Sumiram. Ninguém sabia onde teriam ido. Tornou-se o homem mais procurado do mundo. A Interpol tentou em todos os países onde podia agir. Dois anos depois a imprensa já tinha esquecido o acontecido em Vale da Lua. Acharam que Roodney tinha morrido na luta, pois vários mortos ficaram irreconhecíveis por causa do bombardeiro.

                     Era uma fazendinha no sul do Pará. Umas oitocentas cabeças de gado, uma boa aguada, o Rio Corrente atravessando a fazenda e Seu Honório e sua filha Larissa viviam uma nova vida. Nonô estava na mansão quando o tiroteio chegou ao auge. Mostrou um caminho onde fugir. Roodney Mel e cinco dos seus homens seguiram Nonô. Compraram o caminhão do Senhor Joelmir, dono de uma serralheria. Nonô foi com eles. Não havia militares na estrada. Compraram a fazenda. Roodney e Mel, ou melhor, Seu Honório e Larissa viveram ali para sempre. Mel não se casou. Nunca mais foi de ninguém. A sequela do estupro marcou para sempre. Nonô ficou trabalhando na fazenda. Roodney, ou melhor, Seu Honório dava uma ou outra escapulida até Nova Fonte. Lá se abastecia de algum dinheiro no banco. Sempre fazia transferência de bancos suíços. Não muito. Não queria dar a vista.

                      Mandou fazer um aeroporto na fazenda. Não possuía nenhuma aeronave. Alugava. Um simples telefonema e em menos de duas ou três horas ela estava à disposição. Viajavam muito pela Europa. Deixou crescer a barba. Fez uma operação no nariz e Mel usava lente escura. Não ficavam nos melhores hotéis para não dar na vista, mas não deixaram de viajar por todos os lugares que desejavam. Viveram por muitos e muitos anos, dizem que morreram já na velhice de “morte morrida”.  Os pais de Mel morreram sem ter a presença dela. O padre Thomaz foi encontrado enforcado um dia no quintal igreja. Ninguém nunca soube o porquê. E assim terminada a história. A história de Mel que não é mais virgem e virou mulher!

Soneto da mulher inútil

De tanta graça e de leveza tanta
Que quando sobre mim, como a teu jeito
Eu tão de leve sinto-te no peito
Que o meu próprio suspiro te levanta.

Tu, contra quem me esbato liquefeito
Rocha branca! Brancura que me espanta
Brancos seios azuis, nívea garganta
Branco pássaro fiel com que me deito.

Mulher inútil, quando nas noturnas
Celebrações, náufrago em teus delírios
Tenho-te toda, branca, envolta em brumas.

São teus seios tão tristes como urnas
São teus braços tão finos como lírios
É teu corpo tão leve como plumas.

sábado, 24 de outubro de 2015

O estranho funeral de Jacinto Malaquias


O funeral azul
Parem já os relógios, corte-se o telefone,
dê-se um bom osso ao cão para que ele não rosne,
emudeçam pianos, com rufos abafados
transportem o caixão, venham enlutados.
Descrevam aviões em círculos no céu
a garatuja de um lamento: Ele Morreu.
no alvo colo das pombas ponham crepes de viúvas,
polícias-sinaleiros tinjam de preto as luvas.
Era-me Norte e Sul, Leste e Oeste, o emprego
dos dias da semana, Domingo de sossego,
meio-dia, meia-noite, era-me voz, canção;
julguei o amor pra sempre: mas não tinha razão.
Não quero agora estrelas: vão todos lá para fora;
enevoe-se a lua e vá-se o sol agora;
esvaziem-se os mares e varra-se a floresta.
Nada mais vale a pena agora do que resta.
O estranho funeral de Jacinto Malaquias
                    Era estranho, muito. Jacinto não reconhecia aquele salão. Nunca o tinha visto, afinal sua cidade pequena não possuía salões assim. Lá dentro viu várias pessoas, muitos amigos. Seria uma festa? Festa estranha. Todos sussurrando, não havia musica. Grupinhos aqui e ali. Num canto do salão Pedro Bala e Antonio da Linda davam risadinhas sacanas. Claro, eles eram sempre assim. Nanci da Nadir e Napoleão espoleta também estavam lá. Sempre agarradinhos. Os dois namoravam há quinze anos (risos), nem noivos ficavam. Diziam que assim que era melhor.
                   Jacinto pensou que poderia estar em um sonho. Mas não se lembrava de ter dormido. Claro já tinha tido outros sonhos, mas nunca tão real como esse. Viu no fundo do salão uma figura de um homem que ele não conhecia. Fazia sinais para ele se aproximar. Ao adentrar viu na entrada uma plaqueta escrita – Jacinto Malaquias – 1980-2010. Era ele! Então estava sendo homenageado? Sorriu e entrou. Nunca na vida recebera uma homenagem. Viu seu avô em um canto sentado em uma cadeira de cabeça baixa. Sua avó não estava. Claro morrera cinco anos antes.
                     Quando estava entrando ouviu um sussurro no salão, olhou e viu Maysa chegando. Estava linda! Toda de preto com um véu negro sobre os olhos. Nossa! Como estava linda! Durante seus cinco anos de casados ele nunca tinha visto ela tão linda. Ela passou por ele sem dizer nada. Ele não se preocupou. Era sempre assim. Ela só o procurava quando queria. Nunca parava em casa. Mas ele gostava tanto dela que alem de ganhar seu sustento na sapataria, também fazia a limpeza da casa e as refeições diárias.
                     Ele sabia disso quando casou com ela. Diziam que era frívola fútil e interesseira. Não era surpresa. Afinal era a única que desde os doze anos só andava com um “micro-saia” que os homens adoravam e as mulheres detestavam. Sabia até que ela tinha vários casos com diversos homens da cidade. No entanto nenhuma mulher se interessou por ele nesses seus trinta anos de vida. Disseram-lhe uma vez que o homem verdadeiro quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso escolhe a mulher, o jogo mais perigoso. Seria mesmo? Ela o enfeitiçou. Entrou na sua sapataria com um salto alto que quebrou. Sussurrou baixinho se ele podia fazer alguma coisa.
                    O que ele não faria por aquela mulher? Todos na cidade a desejavam. Jacinto sabia. É mais claro que o sol que Deus criou a mulher para domar o homem. E olhe, o homem que não mente para uma mulher tem muito pouca consideração pelos sentimentos dela. Risos. Jacinto era louco por Maysa. Depois da primeira vez ele voltou varias vezes na sapataria. Ele ficava sem ter o que falar. Só olhava para ela. Um feitiço isso sim ela tinha colocado nele. Um dia quando estava fechando ela chegou. Ajudou a fechar a porta e ficaram dentro da sapataria. O que ela fez quase matou Jacinto.
                 Jogou-o com força sobre uma velha poltrona de couro marrom rasgada. Pegou um cinto e bateu nas pernas dele. Ele estava atônito! Quando ia reagir ela começou a se despir. Devagar. Sensual. Jacinto ficou petrificado! Deus meu! Ela tinha um corpo fenomenal. Única loira autentica da cidade. Cabelos curtos, olhos azuis profundos. Ficou nua na sua frente. Jacinto não fez nada. Estava tremendo. Ela rasgou as roupas de Jacinto. Ela o possuiu. Jacinto fechou os olhos. Achou que estava no paraíso. Sempre fora assim. Terminavam e ela sussurrava em seu ouvido - “quero mais!”
                 Casaram-se na igrejinha de São Francisco numa tarde de setembro. Ele nunca esqueceu aquele dia. Seu vestido de noiva era transparente e mostrava a calcinha biquíni preta. Ela não usava sutiã. Terminado o casamento, por sinal bem concorrido ela sumiu. Sumiu mesmo da cidade. Voltou duas semanas depois. Foi para a casa de Jacinto. Entrou olhou para ele e não disse nada. Com o dedo polegar fez sinal para ele segui-la. Ele suspirou fundo. Achou que deveria inquiri-la, mas se calou. Ele era assim e aquela mulher o dominava. Toda a cidade sabia como ela era todos os homens a desejavam e Jacinto foi um privilegiado. Ele sabia que ia dividir. Seria normal.
                Durante cinco anos seu casamento foi entremeado de idas e vindas de Maysa. Interessante que nunca pediu dinheiro a Jacinto. Sempre quando sumia deixava uma boa quantia em cima da penteadeira. Jacinto não usava. Abriu uma poupança em nome dela. Um dia fechou a sapataria e ao chegar em casa ele viu saindo o Vadico do seu Leôncio. Ele conhecia Vadico. “O garanhão”, todos os chamavam de ‘gostosão da cidade’ o tal ‘Ricardão”. Nem se deu o implante de cumprimentar Jacinto. Ele a encontrou deitada, nua, de pernas abertas e molhadas, olhando para ele. Claro, esqueceu tudo e cumpriu sua função de marido.
                Agora ele estava ali, naquela festa estranha, ou melhor, dizer bizarra depois que Jacinto viu seu pai e sua mãe em volta de um esquife dourado. Ora, quem seria? Porque seu pai e sua mãe estavam chorando? Jacinto viu quando Maysa se aproximou deles e levantando o véu viu que algumas lágrimas desciam dos seus lindos olhos azuis da cor do céu de outono. Queria se aproximar, pois o amigo que tinha feito o sinal insistia em sua presença. Ele foi até ele. O cara que não conhecia sorriu e disse – “Bem vindo ao clube dos chifrudos mortos!”
                Ele deu uma gargalhada e sumiu. Jacinto aceitou. Sempre fora pacato e tranqüilo. Nunca brigou nem reclamou. A vida para ele era assim. Quando alguém perguntava a ele que “A vida é dura’, ele sempre respondia “Comparada a que?”E ainda completava a vida para os desconfiados e os temerosos, não é vida, mas uma morte constante. Simplório este Jacinto. Ingênuo? Não sei. Havia pelo menos umas trintas pessoas na sala, mas em volta do esquife que intrigava Jacinto. De quem seria? Aproximou-se – Nossa! Era ele! Mas não podia ser ele estava vivo, ali presente.
               Deu-se conta que ninguém falava com ele. Tentou falar com Maysa. Ele nem olhou para ele. Chamou sua mãe e seu pai. Nada. Alguém cutucou suas costas e ele se virou e outro estranho sorria, com dois pares de chifres na cabeça. Disse – Quando terminar me procure. Sou o chefe do Clube dos Chifrudos mortos. Vou fazer sua admissão no clube. Ria e a valer e saiu como entrou. Viu Maysa ir ao banheiro. Logo em seguida viu Vadico indo para lá. Ele atravessou a porta com facilidade. Maysa estava sentada no colo dele com a saia levantada e ele sentado no vaso. Ela gemia baixinho e Vadico ria. Se ele estava morto, até no enterro Maysa botava chifre nele?
               Saiu Dalí quando viu dois homens de uniforme dizendo – Chegou à hora, quem quiser que despeça agora. Todos fizeram volta no esquife. O sinal da cruz e os homens fecharam a tampa. Jacinto podia ler os pensamentos e ninguém pensava nele. Ao caminhar nas alamedas da necrópole, viu que os homens só olhavam a “bunda” de Maysa. As mulheres beliscando os homens. Maysa sabia disto e mais se rebolava. Jacinto riu. Gostava disto. Sabia como todos sonhavam em levar Maysa para a cama. Claro muitos levaram, mas ele a levou muito mais.
               Chegaram a um canto bem no final do cemitério. Uma roda, a mãe de jacinto chorava e o pai se despediu dele. Disse um Pai Nosso e Jacinto viu que o pai pensava outra coisa. “Vai meu filho, um frouxo, ficará na memória de todos como o maior chifrudo que esta cidade já teve”. Jacinto não chorava aquilo era estranho para ele. Todos que se aproximaram do caixão para se despedir aproveitavam a multidão (pequena) para passar a mão na “bunda” da Maysa. Que mulher pensava jacinto. Até no meu enterro deixava os homens fazendo “continência”.
               Só então Jacinto percebeu que o cemitério estava cheio. Tinha centenas e centenas de homens, sentados nos muros, nas cruzes, nos mausoléu e nas catacumbas. Todos com um par de chifres na cabeça. Todos riam. Gargalhavam. Gritavam para Jacinto, “Bem vindo ao clube”. Jacinto riu. Parece ser uma turma boa, acho que vou gostar daqui. Os amigos e parentes se foram. A noite chegou. Jacinto tentou sair do cemitério, não deixaram. Tentou dormir também não deixaram. Jacinto era de paz. Não quis discutir. Sentou em um galho de um abacateiro e lá passou a noite.
               Jacinto acordou. Não estava no cemitério. Estava em baixo da mangueira do quintal de sua casa. Ficou de pé. Estranho. Muito. Ele sentia que estava vivo, ficou com sede e foi até a pequena bica que passava em seu quintal. Bebeu com gosto. Olhou para a porta da cozinha. Estava aberta. Entrou. Não tinha café. Ele fez. Bebeu e comeu alguns biscoitos. Foi para a sala. Viu Maysa nua deitada na poltrona abraçada a Vadico. A Televisão estava ligada. Um desenho de Popeye.
               Pela primeira vez não gostou do que via. Uma coisa entrou na sua cabeça. Não sabia o que era. Foi cozinha. Pegou uma faca de cortar carne. Voltou e enfiou de uma só vez no pescoço de Maysa. Ela nem gritou. Passou a faca com o sangue no “penis” de Vadico. Cortou seu saco. Ele berrou. Jacinto bateu com um vaso de flores em sua cabeça. Subiu ao seu quarto, arrumou umas roupas e suas poucas economias. Levou também o cartão do banco onde depositava o dinheiro de Maysa. Ela agora não iria precisar mais.
               Saiu sem fazer barulho. Ninguém o viu. A cidade acordou. O padeiro foi entregar o pão. Jacinto não atendeu. O leiteiro entregou o leite. Ninguém atendeu. Dona Cotinha a vizinha achou estranho. Chamou o Delegado. A porta estava aberta. Viu que Maysa estava morta. Ao lado Vadico desacordado. De Jacinto nem sinal. Foi uma festa na cidade. Fofocas de boca em boca. Vadico matou Maysa porque ela cortou seu saco! Que isso, não foi assim. Jacinto cortou o saco de Vadico e matou Maysa.
              Vadico saiu do hospital e foi preso. Julgado foi condenado por quinze anos de um crime que não cometeu. Mas na cidade todos ficaram aliviados. Enfim deram um sumiço no “Ricardão”. Os maridos sorriram. As mulheres iriam sentir falta. Os pais de Jacinto venderam sua sapataria. O delegado desconfiou que eles soubessem onde ele estava. Juraram não saber. Ficou sabendo que Jacinto fez uma Poupança para Maysa. O gerente disse que tudo foi retirado. Não tinha mais um “tostão’.
              Seis anos depois, Miguezinho um vendedor de utensílios de alumínio da capital, em uma roda de sinuca no bar do Peixoto Pinto Morto, jurou que tinha visto Jacinto em Pacaraima. Uma cidade fronteiriça com a Venezuela. Aproximou-se, mas Jacinto disse que seu nome era Alberico das Flores. Miguezinho disse que não discutiu. Jacinto tinha na cintura um parabellum e seu olhar não era de bons amigos. Na pensão disseram que ele era o maior fazendeiro da região. Plantador de soja. Tinha mulher e quatro filhos. Quem diria.
              É vida. Hoje uma amanhã outra. Se Jacinto ganhou claro que Maysa e Vadico perderam. Mas quem tudo quer tudo perde não é assim que se fala? O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada, o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções. Aconteceu na cidade de Jacinto. Ninguém lembrava mais dele, mas os homens nunca esqueceram Maysa e sua “bunda” de ouro. Enfim, tudo que existe existe. Talvez porque outra coisa existe. Nada e tudo coexistem: talvez assim seja o certo...
Enterro de Maysa

Morreu, vai a dormir, vai a sonhar, deixai-a!
(Fale baixinho, agora mesmo se ficou...)
Como padres orando, os choupos foram ala,
Nas margens do ribeiro onde ela se afogou...

Toda de branco vai, n’esse hábito de opala,
Para um convento: Não o que Hamlet lhe indicou,
Mas para um outro horror! Que em por nome Vala,
De onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!...

O lindo pôr-do-sol, que era doido por ela,
Que a perseguia sempre, em palácio e na rua,
Vede-o, coitado! Mal pode sustar a vela...
Como damas de honra, ninphas seguem-lhe os rastros,
E assomando no céu, sua Madrinha, a Lua,
Por ela vai desfiando as suas contas, Astros!

Antonio Nobre