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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Eu lhe ofereci minha vida e um buque de margaridas amarelas, porque não aceitou?



Onde está você margarida?
Flor mais bela do jardim
Com seus olhos tão profundos
Que expõem minha alma
Me tirando da solidão

Não me abandones margarida
Pois preciso do teu ser para ser
Do teu perfume embriagando manhãs
Me fazendo perder os sentidos

De tua voz acalentando meu coração
Do teu corpo entrelaçando o meu
Do teu sorriso arredio e corrediço
Do teu amor para libertar-me.

Eu lhe ofereci minha vida e um buque de margaridas amarelas, porque não aceitou?

               Não dá para esquecer. Nunca. Os versos de Clarice batem no fundo dentro de mim. Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la. “Enquanto escrevo, vou ter que fingir que alguém está segurando a minha mão.” Mas isto não é real. Ela foi tudo para mim e eu não fui nada para ela. Porque o destino sempre protege aqueles que não precisam? Meu irmão Javel sempre teve tudo que quis. E a vida sempre lhe sorriu. Deu-lhe todas as benesses que alguém pode alcançar. Será que ele merecia? Quem sou eu para julgar. As pessoas achavam que éramos gêmeos. Eu era um ano mais novo e nunca nos vestimos iguais. Eu nunca o invejei. Nunca. Sei que ele era mais perfeito que eu, mas até quanto à perfeição influi no caráter? – Gill, ele dizia, cada dia é um dia. O seu vai chegar. Nunca chegou. Ele faculdade eu Escola Técnica. Ele ótimo emprego e eu com um que mal dava para viver.

                Aceitei tudo normalmente. Nunca me revoltei. Até os poucos amigos que me conheciam diziam que eu devia mudar. Mesmo não sendo não deveria aceitar ser o segundo. Juro que eu tentei tudo para ser um bom irmão, mas não deu. Palavra que não deu. De quem foi à culpa? Disseram que foi dela. Não sei. Mas Javel sabia que eu a amava. Ele sabia que eu a conheci antes dele, ele sabia que a vida sem ela era nada para mim. Eu sei que mesmo lhe oferecendo Margaridas Amarelas suas preferidas ela evitava aceitar. Aquilo me machucava, doía uma espada entrando em meu corpo. Ela agora preferia beber o néctar do veneno com meu irmão. Todos poderão dizer que a escolha foi dela. Mas por quê? Eu disse a ela que daria minha vida para fazê-la feliz. Ela abaixava a cabeça e não dizia nada.

              Por toda minha vida fui um perdedor. Queria jogar e ganhar, mas não conseguia. Meu irmão era meu fantasma. Para ele tudo em primeiro lugar. As sobras eu podia utilizar. Foram anos assim e até achei que tudo era natural. A melhor roupa, o melhor calçado, a melhor mesada, os direitos que lhe davam e para mim nenhum. Erro do meu pai? Da minha mãe? Não dizem que os primogênitos tem mais direitos? Afinal ao nascer primeiro os direitos não são deles? Posso dizer que a principio concordei com tudo isso. Concordei de ele estar sempre em primeiro lugar. Eu sei também que onde a esperança falta, onde um amor se transforma em mal, onde quem mata se esconde em si mesmo nada e nem nunca pode dar certo. Há o amor... que nasce não sei onde e vem não sei como, e dói não sei por que (Camões).

               Foi o destino que me jogou naquela marquise para fugir do vento forte e da chuva que caiu como uma tromba d’água naquela tarde tão benfazeja. Foi quando a vi pela primeira vez. Meu Deus! Como era linda. Não vi mais a chuva nem mesmo ouvi trovões. Os raios que caiam eram flores de margaridas amarelas que iluminavam aquele rosto de uma deusa do Olimpo. Ela suspirava forte. A corrida até ali a deixou cansada. Alguns segundos ela me olhou. Sorriu. Que sorriso maravilhoso! - Oi, ela disse. Eu tremia, minha voz saiu rouca – Oi para você também. Ela riu mais. – Que chuva eim? Ela continuou falando. Eu só ouvindo. Se ela quisesse eu ficaria todo o tempo do mundo ali só a ouvi-la. Que linda voz, que sorriso maravilhoso e sua expressão? Impossível descrever. A chuva começou a amainar. Maldita chuva. Assim ela iria embora. – Olhe, ela disse, sou sua vizinha, saio de madrugada e volto à noite para o trabalho. Casa 132, amanhã sábado estou em casa, se quiser apareça para tomar um café!

                 Ela se foi. Eu fiquei ali esperando seu vulto desaparecer na esquina. Porque não fomos juntos? Até hoje me pergunto por quê não. Levantei cedo. Um banho vesti minha melhor roupa. Meu irmão perguntou o que houve para ficar assim tão elegante. Não respondi. Bati na casa dela. – Entre ela disse quando chegou à porta. Sem palavras para descrever aquela tarde. Não pense mal. Ela contava histórias, me serviu café, depois chocolate, um delicioso bolo de baunilha. A noite chegou. A mãe dela uma simpatia. Mas vi que precisava ir. – Posso convidar você para um cinema? Perguntei. Naquele noite mesmo saímos. Segurei em sua mão. A minha tremia de emoção. Foi o começo de tudo. Eu a amava. Mais que tudo na vida. Meu irmão cismado. Não deu para esconder. – Um dia nos encontrou no portão da casa dela – Não vai me apresentar? Ele disse. Vontade de mandar ele para o diabo que o carregue. Não devia, mas ela me perguntou quem ele era. Foi o começo do fim de tudo.

              Meu inferno começou. Por ela minha vida já não era mais a mesma. Aceitei tudo do meu irmão, mas agora eu o odiava. Cheguei a maldizer ter nascido do mesmo sangue. Vi que ele não me respeitava. Ele sabia que eu a amava, que estávamos namorando e mesmo assim insistiu com ela. Foi ela quem me disse que ele seria o homem de sua vida. Um ódio mortal tomou conta de mim. A única coisa importante na minha vida ele me roubava sorrindo. Nem sequer me procurou para justificar. Passei a beber e juro que até hoje não sei por quê. Eu nunca bebi. Tornei-me um alcoólatra e me mandaram embora da fábrica. Nenhum dos dois sequer me procuraram. Não houve explicações, nunca houve. Começou a germinar na minha mente a ideia de matá-los. Meu Deus, a que ponto estava chegando.

               No dia do casamento deles resolvi acabar com meu sofrimento. Quando o Padre fosse perguntar se tinha alguém contra, eu daria um tiro em cada um e sorrindo para os convidados diria – Eu sou contra este casamento. Que eles sejam felizes no meio do inferno! Que o demônio os abençoe. Mas não ia ficar só por aí. Com a própria arma daria um tiro em minha cabeça. Claro, eu seria companhia deles junto aos demônios naquela caldeira do diabo onde iriamos morar. – Vesti minha melhor roupa. Um terno que guardei para quando fosse casar com ela. Consegui de um conhecido um Taurus 45. Na hora marcada entrei na igreja. Todos olharam para mim. Quando o Padre começou a perguntar dei um tiro no meu irmão e outro nela. Ri quando ambos caíram ao chão. Virei para os convidados sorrindo – Eu a amava, disse. Ele o meu irmão sabia. Roubou-me como sempre o fez em toda nossa vida. Alguém correu para me tomar a arma. Dei um tiro por bairro do queixo e a bala saiu do outro lado do cérebro.

                 Fiquei vagueando em um lugar fétido, gemidos por todo lado e pessoas passando e me desejando que fosse para o inferno. Tudo escuro e eu não via nada. O tiro que dei em mim toda hora entrada em minha cabeça e saia do outro lado. Doía horrivelmente. Pessoas horrendas riam de mim. Eu me chafurdava na lama. Não conseguia sair. Onde estava? Queria agora mesmo ir para o inferno. Lá era meu lugar e não aqui no meio desta podridão. Eu não via nada. Em uma parede invisível sempre aparecia uma tela, sempre com as mesmas imagens. Na primeira vez o que passava me assustou. Ele e ela vivos em um hospital. Não estavam mortos. Eu errei o tiro e um acertou a perna dela e o outro o ombro do meu irmão. Eles sorriam para mim. Malditos! Mil vezes malditos. – Alguém me tocou o ombro. Um bicho enorme. Vermelho como se estive em fogo, chifres brancos na cabeça. – Olá meu jovem, vim te buscar. Segurou-me com força. Jogou-me em um despenhadeiro. Lá no fundo lavas quentes onde cai com um estrondo. Gritava de dor, tentava pensar e não conseguia, foram anos e anos assim. Meu Deus me ajude! Não aguentava mais aquilo. Eu sentia muita falta. Não só dela como dele também.

               Não sei quanto tempo fiquei ali. Queria falar com ela e meu irmão. Pedir perdão. Sei que eles iriam me perdoar. Tentei tudo, mas cansei de procurar, de insistir, é difícil e ficava cada dia mais cansado. Meu corpo doía e melhor é deixar o tempo agir. O que deve ser será. Se existe um Cristo um Deus sei que um dia eles irão me perdoar. Sei que aquele sofrimento um dia terá fim. Agora uma nevoa a minha frente. Um pequeno raio de sol apareceu. Pessoas chegaram vestidos de branco. Uma jovem sorrindo me trouxe flores. Margaridas amarelas. Lindas, as flores que eu amava e que sempre dei a ela. Alguém me abraçou. Fui elevado no ar e levado para um céu onde existia tudo. Hoje vivo ali, ajudando e trabalhando. Dizem que eu vou voltar. Voltarei com filho dela e de meu irmão. Será sublime. Uma alegria. Não sei se mereço isto. Mas Deus sabe o que faz!  

              Hoje na cidade dos sonhos onde moro, eu vivo sorrindo, não tenho mais ódio no coração e nas minhas horas vagas depois de minhas orações eu faço poemas e no meu jardim eu cultivo margaridas amarelas. Sempre quando me lembro deles lagrimas caem e mesmo com voz não tão bonita eu canto: - £São duas flores unidas, são duas rosas nascidas, talvez do mesmo arrebol. Vivendo, no mesmo galho, da mesma gota de orvalho, do mesmo raio de sol. Ah! Unidas... Ai quem pudera, numa eterna primavera, viver qual vive esta flor. Juntar as rosas da vida, na rama verde e florida, na verde rama do amor!£ – Que eles sejam muito felizes. Para sempre... (Castro Alves)

Saudade

Não tenho percebido cores;
Não tenho sentido mais o néctar das flores;
Não sei mais o que é real e nem abstrato.
Talvez neste exato momento, não sonhasse com o futuro,
Nem vivesse no passado;

Há dias tenho vagado na mente distante, incessante,
Mas exatamente neste instante, tenho sido incoerente e não só com opiniões diferentes,
Mas também com pouca e muita gente.
Sou assim... Naturalmente!
“O que fazer?”.

Tenho medo da dor, tenho medo de sofrer,
Tenho medo de brigar com meu amor, de matar, de morrer...
Será que todos são assim?
Não sei mais quem sou!
Não tenho estado mais aqui comigo.

A saudade, engrandece a tristeza,
Que mesmo sendo de nossa natureza,
Não consigo aceitar!

Sinto falta de tudo, sinto falta de você!
Na memória, a lembrança tardia de um sorriso e um olhar de uma triste alegria, que glorifico!
É o que me faz despertar!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Alice, que nunca esteve no país das maravilhas.



Ao perseguir o coelho branco
Alice caiu num buraco
Que a levou a um lugar encantado,
Com maravilhas por todos os lados.
Animais ali falavam como gente
Comemoravam o desaniversário.
E a Rainha Vermelha com destreza
Arrancava a cabeça
Daqueles que a desagradavam.
Alice inventava palavras,
Sempre procurando rimá-las.
Com  elas em suas andanças
Encantava adultos e crianças.
No País das Maravilhas,
Flores lindas eram orgulhosas
De seus perfumes e cores.
Enquanto que a Lagarta Azul
Enigmática em seus dizeres
Fumava horrores.
E a pobre Alice em seu caminho
Conheceu a luta da Rainha Branca,
Que teve seu trono usurpado
Por irmã vil e invejosa.
Luta sangrenta por justiça
Onde com a espada vortal
Pôde mostrar que era a tal.
Alice, menina que cresceu,
Sem lembrar da viagem maravilhosa,
Pensava que enlouqueceu!
Mas ao lembrar-se de toda a verdade,
Que não era sonho, mas realidade,
Alice conformou-se com seu papel:
Tornou-se heroína e lutou contra o inimigo,
Devolvendo o trono à bondosa amiga branca rainha.
06/11/2012
Postado por Guacira Maffra. 

Alice, que nunca esteve no país das maravilhas.

             Nunca desejei ser além do que sou. Sou feliz. Tenho tudo que preciso. Um emprego, bons amigos, um ótimo patrão e um homem que preenche tudo aquilo que preciso. Estamos noivos. Não é um amor louco nem um amor apaixonado. Não sei o que seria da minha vida sem ele. Não esqueço o dia que nos conhecemos. Foi no lotação Centro/Mauá. Não havia lugares vagos. Ele me olhou sorriu e disse – Moça, ninguém com sua beleza pode viajar em pé. – Fiquei encabulada. Sentei e ele em pé não tirava os olhos de mim. Desci na Praça Ontário e ele ficou da janela me dando adeus. Que sensação maravilhosa eu sentia. Na loja Pentecostes até seu Norberto o proprietário me perguntou o que houve. Claro que não contei. Era um segredo meu. Uma paixão enorme que se abria em meu coração. Mas será que eu o viria de novo?

             Durante vários dias fiquei entre o céu e a terra. Não podia esquecê-lo. Nunca. Corria para o ônibus e ele não estava lá. Ia dormir pensando nele, pois tinha medo de que o esquecesse. Estava absorta pensando em minha sorte que nunca foi boa para mim. – Moça, tem um Mocassim número 42? Levantei os olhos. Um susto! Quase desmaiei, era ele, Deus não tinha me abandonado. Sorri, um sorriso apressado mas verdadeiro. – Claro, sente-se aqui. Vou buscar várias cores para o senhor escolher. – Senhor? Ele riu. Chame-me de Balty, o nome real é Baltazar, mas gosto mais do apelido. – Muito prazer Balty, eu sou Alice. Foi o melhor dia da minha vida. Minhas amigas da loja sorriram e disseram que era o homem mais bonito que tinham visto. Moreno, bronzeado, cabelos negros lisos e bem penteados, dois enormes olhos castanhos que brilhavam e a boca? A mais perfeita que já vi.

              Convidou-me para sair à noite. Um cinema. Super-respeitoso. Levou-me em casa e só um beijo na minha mão. Estava nas nuvens. Eu dormi sonhando ser a verdadeira Alice nos pais das maravilhas. Quem sabe ela caiu na toca do coelho? Quem sabe a lógica do absurdo do filme não seria sua lógica? Eu tinha assistido o filme varias vezes. Adoro a história de Lewis Carroll. Um mês de namoro. Nunca pedi nada. Ele tinha um velho fusca 74. Nunca abri a porta. Ele corria para abrir. Levou-me algumas vezes em restaurantes. Simples é claro. Ele contou-me que não ganhava muito. Era gerente de uma Banca de Verduras no Ceasa. Pediu-me em casamento quatro meses depois. O dia mais feliz de minha vida. Mandei um telegrama para a Vovó. Queria compartilhar minha alegria, meus pais haviam falecido há tempos.

                Naquela mesma noite dormirmos juntos. Uma experiência incrível, pois eu era virgem. Nunca tinha sido de nenhum homem. Ele calmo e ponderado me levou nas nuvens. Quando fiquei nua na sua frente senti um enorme calafrio e fiquei vermelha de vergonha – Pensei comigo – Vai ser meu marido, não tenho de envergonhar. Ele me acariciou de uma maneira que tremia dos pés a cabeça. Na ponta do dedo de uma mão começava nos pés, ia subindo pelas pernas e com o outro dedo vinha ao contrario, descendo pelo seu rosto, na ponta dos seios e ambos se encontravam lá, na sua gruta escondida que ninguém a tinha visto antes. Ele foi o primeiro. Pediu-me para acariciar sem membro. Grande. Duro mas macio. Ele me possuiu devagar, eu tremia e gemia. Nunca tinha passado por aquilo. Era lindo e maravilhoso. Pela primeira vez tive um orgasmo que eu mesma fiquei admirada.

                Nosso casamento seria em novembro. Dia 12 na Igrejinha de Santo Antônio do meu bairro. Eu acreditava ser a pessoa mais feliz do mundo. Engraçado. Não sabia onde ele morava. Ele nunca me disse e nunca perguntei. Lembro que foi em uma tarde ao sair do trabalho que passei em frente a uma lotérica. Uma enorme fila. Nativa uma amiga do trabalho perguntou se não ia jogar na loto. Ri e disse que nunca joguei. Não tinha sonhos de riqueza. – Mas jogue Alice, uma vez só. Quem sabe isto vai trazer a maior felicidade entre você e o Balty? – Entrei com ela na lotérica, fiz um jogo sem pensar e guardei a cartela dentro da bolsa. – Oito dias depois nem lembrava dela. – Vi a noite em um jornal da TV que o ganhador do premio de cento e setenta milhões ainda não aparecera. Puxa! É muito dinheiro para ninguém procurar.

                 Em casa nem pensei no assunto. Morava com Dona Madalena em um quartinho que ela me alugou. Grande amiga. Muitos conselhos. Ao procurar a chave vi bem lá no fundo da bolsa à cartela. Sorri. Não podia ser eu. No dia seguinte passei na lotérica. Tremia quando vi o resultado do meu jogo. Era a ganhadora. Liguei para Balty pedindo socorro. Não sabia o que fazer. Meia hora depois ele chegou. Abraçou-me e disse que não precisava me preocupar. Falei para o senhor Norberto sobre o prêmio – Alice ele disse – É muito dinheiro. Você não tem pais, irmãos alguém que possa lhe ajudar? Expliquei que Balty já oferecera. – Não sei não Alice, eu sei que vão casar, mas não seria melhor ver isto sozinha? Soube que na Caixa tem gente especializada. – Calma seu Norberto. Tenho a maior confiança em Balty.

                  Confiança. Linda palavra. O que o amor não faz entre dois amantes que juram viver juntos para sempre. Balty abriu uma poupança. Conta conjunta. O gerente ficou conosco horas nos orientando. – No mesmo dia sai do emprego e junto com ele fomos para o melhor hotel do Rio de Janeiro. – Depois veremos onde vamos morar e o que vamos fazer. Agora precisamos ter um tempo nosso. Só nosso. Eu ria de felicidade. Balty no segundo dia saiu cedo. Disse que ia encontrar um amigo e que eu devia descansar. Balty sumiu. Não voltou ao hotel naquele dia e nem no outro. Não o encontrei em nenhum hospital, delegacia e fui até no IML.  Nada. Estava desesperada. Não sabia o que fazer. O gerente do hotel me cobrou as diárias atrasadas. Mais de oito mil reais. Meu Deus! Na minha conta só duzentos reais. Na poupança nada. Vazia!

                   Não estava acreditando. Impossível. Balty nunca faria isto. Ele me amava. Qual a explicação? Quem sabe foi sequestrado e os bandidos o obrigaram. Procurei o gerente. Disse que não tinha como pagar. Oferecia trabalhar para eles até a conta ser liquidada. Fiquei três meses no hotel e voltei para São Paulo. Voltei à velha rotina. Minhas amigas e seu Norberto e Dona Madalena inconformada. O dinheiro para mim não era tudo. Eu o amava. Ele podia ter ficado com tudo se eu estivesse do seu lado. Passaram-se cinco meses. Meses sofrendo, mas aos poucos estava esquecendo dele. – Um dia sentado no Bar do Tadeu onde almoçava um homem pediu licença para sentar. Dizer o que? – Moça, soube do seu caso. Sou advogado e detetive. Se quiser encontro o desgraçado que te roubou e vou lhe ensinar como recuperar seu dinheiro. Se concordar e tudo dando certo quero quarenta por cento.

                     Não disse nada. Peguei um cartão dele. Um mês depois vi uma noticia no jornal que me revoltou. Ele cercado de mulheres numa casa cinematográfica em Búzios. Liguei na mesma hora para Osmar. O advogado detetive. Disse que continuasse trabalhando. Ele ia investigar tudo. Passou mais de um mês quando ele me procurou. – Tenho um plano. Não vai ser difícil. Explicou-me tudo. Balty tinha uma fazenda no interior de Goiás. Na cidade de Morro Agudo próxima a sua fazenda. Ele ia quase semanalmente no puteiro da cidade. Era o rei da Boate da Margarida. Dava grandes festas. Osmar sabia como eu devia agir. Transformou-me de morena para loura. Pagou do próprio bolso a um cirurgião em plástica e estética operar os lábios, o nariz, a orelha e deixar minhas bochechas mais firmes. De olhos castanhos transformou-se em verdes. Tornei-me uma prostituta. Fui aceita na Boate de Dona Margarida sem problemas.

                     Quando ele me viu me chamou. Fez todo tipo de arrasta-pé, jogou nota de cem na mesa dizendo que era minha. Bem tarde, já madrugada ele completamente alcoolizado me levou para sua fazenda. Fiquei com ele por quinze dias. O plano era ver papeis que ele tinha assinado e guardar comigo. Quando já tinha oito folhas de papel fugi de lá. Eu e Osmar ficamos dois meses treinando a sua assinatura. Eu consegui uma noite que ele estava quase dormindo sua senha. Retiramos todo o dinheiro que ainda existia nos bancos. Cento e quarenta e dois milhões. A casa em Búzios e a Fazenda não deu. Entreguei a parte do Osmar. Sessenta e cinco milhões. Bem empregado. Ainda sobrou mais de setenta milhões. No segundo mês voltei lá. Minha vingança só começou. De novo na Boate da Margarida. Ele me viu e desconfiou. Levou-me de novo para a fazenda.

                   Tentou tudo para saber o que eu era. Inventei uma história. Naquela noite ele totalmente alcoolizado e a fumar maconha desmaiou na cama. O amarrei melhor que pude. Fui na cozinha. Peguei uma faca de açougueiro. Sem dó e sem piedade cortei seu pênis e seu saco escrotal. Ele gritou e gemeu fundo. Estava amarrado. Gritei com ele – Agora seu filho da puta, vais comer e desgraçar mulher no inferno! Gritando perguntou quem eu era. Dei uma risada. Alice seu filho de uma égua, Alice que nunca foi no país das maravilhas. Sai de lá correndo. Peguei um Taxi até Goiana. Lá aluguei um jatinho que me levou ao Uruguai. Tinha lá uma bela casa. Mas não ia ser minha moradia. Hoje tenho casa em Malibu próximo a Los Angeles de frente a praia, outra em Paris próximo a Torre Eiffel. Um grande apartamento situado ao longo dos jardins um bairro dos mais elitistas da capital. Em Mônaco mais precisamente em Monte Carlos comprei outra. Minha Avó mora comigo. Nativa minha amiga da loja também.

                   Não tenho namorados. Vivo com minha renda. Passeamos eu e Nativa pela Europa. Nunca mais voltei ao Brasil. Tinha receio que o filho da mãe do Balty pudesse fazer alguma vingança ou mesmo que estivesse sendo procurada pela policia. Osmar de vez em quando aparecia. Deixou seu escritório de Detetive e ria quando perguntava se estava fazendo alguma coisa. Eu sou rica. Não sei se sou feliz. O dinheiro é a minha esperança de independência. Mas sei que a única segurança verdadeira para a felicidade é fazer uma reserva de sabedoria, de experiência e competência. Aprendi a lidar com o dinheiro. Eu sei que o dinheiro é o sonho dos pobres. Eles não conseguem pensar em mais nada. Bem que o Dalai Lama um dia comentou que o que mais surpreende é o homem, vive perdendo a saúde para juntar dinheiro, depois perde o dinheiro para recuperar a saúde. Ele também vive pensando ansiosamente no futuro, de tal forma que acaba por não viver nem o presente nem o futuro. Vive como se nunca fosse morrer e morre como se nunca tivesse vivido!

                      Mas querem saber a verdade? Nunca esqueci Balty. Eu o amava e ainda o amo. Poderíamos ter sido felizes. O maldito dinheiro não deixou. Agora eu Alice só penso em encontrar o meu País das Maravilhas.

Eu amo cada milímetro da minha vida.
 “Na riqueza ou na pobreza, na saúde ou na doença...”
O importante é saber que iremos envelhecer,
Ricos ou pobres, se você estiver doente cuidarei
De você e tenho certeza que se eu estiver doente
Você irá cuidar de mim.
E isso é o que importa, a lembrança de um passado,
A segurança de um futuro e a alegria do presente.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Doutor Freed D’olison, o Capo de tutti i capi.



O mafioso.
Perdido nessa trama de mentiras
Nessa rede de intrigas

Tua estrada é sem fim
Tua existência é suja

Mais uma carta
Uma aposta
Um tiro como resposta
Treze cigarros jogados ao chão
Cinco garrafas quebradas na mão

Tarde demais, tarde demais
Sete corpos deixados p'ra trás
Foi longe demais, longe demais
Dezessete vidas que seguem sem paz

Por ruas desertas
Cantando pneus
Enredos que não são teus
São teu filme em preto-e-branco
Manchados de sangue, manchados de espanto
Manchados de cifra$

Mas onde vai?
Vão te encontrar
Calma, calma...!
Vão assassinar a tua alma.

Nanda_Vamp

Doutor Freed D’olison, o Capo de tutti i capi.

Dias de hoje.

                Doutor Freed D’olison não esperava visita, isto é não esperava ninguém. Nunca foi procurado em sua casa a não ser pelos casos especiais. Olhou de soslaio pela janela. Quatro homens carregando outro. Seu coração bateu forte. Nunca recusou ajudar ninguém. Abriu a porta e foi empurrado por um homem com o triplo de sua altura. Gritou para ele – Chame o Doutor urgente anão aleijado! Doutor Freed D’olison não se sentiu ofendido. Quantas e quantas vezes tinham dito isto para ele. – Eu sou o Doutor Freed D’olison – disse. O que vinha mais atrás foi mais educado. – Precisamos de você. Meu irmão foi baleado. Um tiro na barriga. – Doutor Freed D’olison sabia que  eram bandidos caso contrário teriam ido a um hospital. Sabiam quem ele era. Um ano antes socorrera um jovem de dezessete anos com uma bala bem perto do coração. Atiraram nele em frente sua casa. Ninguém o socorreu. Só ele. Operou ali mesmo no quartinho que tinha nos fundos da casa.

                 O jovem ficou bom. Agradeceu ao Doutor Freed D’olison e ele nada disse. Sabia que o jovem devia pertencer a alguma gang do bairro. Começou então uma busca frenética por seus conhecimentos médicos. Dificilmente olhavam para ele, mas o respeitavam como profissional. Nunca perdeu um paciente para o demônio. Isto mesmo. Todos que apareciam eram bandidos. Uma vez a policia bateu em sua porta. O empurrou entrando a força. Ele não disse nada. Dizer o que? Colocaram nele as algemas. Na saída mais de trinta bandidos armados até os dentes. Soltaram-no. Um dos bandidos disse aos policias que nunca mais fizessem aquilo. Se fizerem vai correr sangue. Não os seus e sim de seus filhos da sua mãe, do seu pai! Deixaram o Doutor Freed D’olison em paz por muitos anos.

Dias de ontem.

                 Sua mãe fazia tudo por ele. Nunca escondeu nada. Disse que ele nasceu em um beco sujo. Uma travessa da São João. Parto normal e ela ria quando contava. Ele nasceu com uma enorme corcunda. – Não dá para operar dona. – Disseram os médicos. O levou para casa. A principio tinha raiva dele. Um toquinho feio, uma corcunda que parecia mais ser filho do Diabo. Aos cinco anos ele não falava. Aos sete balbuciava. Foi para a escola. Ridicularizado mas as professoras ficaram impressionadas com sua inteligência. Aprendia tudo com rapidez. Tinha dificuldade não fala e pela sua aparência ninguém deu muita bola para ele. Sua mãe que o odiava passou a amá-lo. Jurou que ia fazer dele alguém. Aprendeu a mendigar na esquina da Paulista. Levava um pedaço de carne estragada, amarrava na perna e se fazia de coitada doente.

                     Todo o dinheiro que ganhou foi para pagar a escola do filho. Sorriu sem gritar quando ele foi o terceiro classificado no vestibular para medicina na USP. Formou-se como o primeiro da turma. Não foi chamado por nenhum hospital. Tentou residência em vários. Com muito custo a troco de um salario de fome achou um humilde próximo a São Paulo. Ficou lá três anos. Era um médico com uma facilidade grande de curar e operar. Tinha as mão de seda. Mas sua aparecia não ajudava. Agora com trinta e dois anos seu rosto era cheio de espinhas. Quase não tinha nariz e o cabelo caiu todo. Usava uma peruca velha quando andava na rua, mas quem olhava para ele dava voltas.

Dias de hoje.

                     Sua fama cresceu no mundo do crime. Dom Pergoto de Cassiole era um Capo de tutti i capi. Todos o reverenciavam. Sua filha vivia tossindo. Passou a cuspir sangue. Os melhores médicos da capital disseram não saber o que fazer. Não era tuberculose. Mas Chiquita de Cassiole a cada dia definhava mais. Foi Bate Volta quem sugeriu o Doutor Freed D’olison. Dom Pergoto de Cassiole mandou buscá-lo. Assustou quando ele chegou. Afinal o que viu foi um anão mais feio que o diabo e com uma corcunda enorme. Bate Volta disse para acreditar nele. Chefe, o homem é feio, mas é bom demais. – Tudo bem disse. Se este anão filho duma égua não curar minha filha, vou encher ele de mel e jogar para as formigas lá na grota do capeta. Foi amor à primeira vista. O Doutor Freed D’olison se apaixonou pela paciente. Ficou na mansão de Dom Pergoto de Cassiole por dois meses. A cada dia a Chiquita de Cassiole ficava mais formosa. Sua tosse sumiu.

                 O Doutor Freed D’olison foi convidado e passou a morar na mansão de Dom Pergoto de Cassiole. Gentileza dele como explicou. Foi feito um quarto especial. Dom Pergoto não fazia nada sem consultá-lo. O Doutor Freed D’olison um dia pediu a mão de Chiquita de Cassiole. – Nem morto meu caro Doutor. Nem morto. Ela a minha linda filha casar com você? Se ponha no seu lugar! – O Doutor Freed D’olison não se sentiu ofendido, pois era comum ser tratado assim. Mas o tempo pensava vai modificar tudo. Ele sabia que Chiquita de Cassiole um dia seria sua esposa. Junto com o capo ele viajou o mundo. Ficou conhecido como o maior médico cirurgião da terra. Claro isto no meio dos homens sem caráter e sem alma. Sua fama foi tanta que Reis e Rainhas, grandes empresários passaram a procurá-lo. Tirou um câncer terminal do primeiro ministro russo. Seu nome ficou famoso. Ricaços o procuravam. Criminosos famosos desciam todos os dias em seus jatinhos em Congonhas. A policia paulista estava de prontidão, mas as ordens para prendê-lo não vinham nunca. Pudera, o governador e o prefeito lhe deviam favores. Sem contar centenas de vereadores, deputados e senadores.

                 Diziam que o melhor hospital de Brasília era a ponte aérea para São Paulo. Agora não. Era mandar um jatinho buscar o Doutor Freed D’olison. Dom Pergoto de Cassiole morreu de causas desconhecidas. Ninguém nunca soube o que acontecera. Começou a definhar, definhar até que um dia apareceu morto em sua cama. Deixou o Doutor Freed D’olison em seu lugar. Ninguém disse nada. Havia uma espécie de medo por parte dos outros capos. Tudo estava mudando. O Doutor Freed D’olison mostrou outra face. Trouxe sua mãe velhinha para a mansão. Disse para Chiquita de Cassiole que se não casasse com ele seria colocada na rua. Não foi um casamento suntuoso. Casou-se na igrejinha de São Judas Tadeu. Convidados só os oito capos que ainda achavam que mandavam. Chiquita de Cassiole tremeu quando foi para a cama com ele. Fechou os olhos de medo e horror. Mas incrível, ele deu a ela orgasmos que ela nunca antes experimentou.

               O Doutor Freed D’olison demonstrou para ela como um amante nunca antes imaginado. Tudo mudou para ela depois desta noite. Não sabia como, mas estava se apaixonando por aquele anão corcunda feio de doer. Impossível dizia para sí própria, mas a cada noite mais e mais ansiava pelo seu corpo.  O Doutor Freed D’olison satisfazia a ela varias vezes a noite. Mas a medita que o tempo foi passando o desejo foi diminuindo. Chiquita Cassiole viu que tudo desmoronava. Seu esposo não era mais o mesmo. A tratava com displicência, não ligava mais para ela. Agora só se preocupava pelos negócios. Sem ele perceber começou a transar com um segurança da casa. Mal ela sabia que Parquito era um agente federal infiltrado.

               O Doutor Freed D’olison tinha um plano para desaparecer com todos os capos do estado. Na última reunião deles sentiu um ar de deboche para com sua figura. Eles não perdem por esperar disse para si. Ele sabia que não podia confiar em ninguém. Bate Volta até que se mostrava fiel, mas a traição está escondida na sua pessoa. Você não sabe até ver que foi traído. Desconfiou de Parquito, o segurança. Ninguém sabia o nome dele e nem quando foi admitido. Quando passava perto dele sentia o perfume de Chiquita. Uma tarde o convidou para tomar um café com ele. Parquito ficou de olhos abertos. Aquele Anão filho da puta não era de confiança. Bebeu devagar para sentir o gosto. Não adiantou. Sentiu seu corpo endurecer. Sua mente fervilhava, mas o corpo não obedecia. Tentou falar e não conseguiu.

            Viu quando o Anão desgraçado o arrastou até a sala de operações. Sentiu o bisturi cortando seus braços. Ele cortava devagar, rindo e dizendo para Parquito – Vais sentir dor Parquito. Muito e não poderá mexer com o corpo e nem falar. Quero que você sinta meu ódio. Você não sabe como me sinto sendo traído pela minha mulher. O dia dela vai chegar. - A dor era tremenda. Ele cortou cada braço e cada perna com maestria. Jogou tudo em uma banheira que estava cheia de acido. Depois se sentiu carregado e jogado na banheira. O acido queimava. Doía horrivelmente. Morreu lentamente a gritar e pedir pelo amor de Deus que parasse. Ninguém ouvia. Seu corpo estava mudo. Chiquita desconfiou do desaparecimento de Parquito. Nunca desconfiou que seu marido o tivesse matado.

           O Doutor Freed D’olison planejou tudo. A reunião seria feita em um galpão abandonado próximo a Guarulhos. Sabia que todos os Chefões iriam aparecer. Sabia que eles se sentiam ameaçados e levariam o maior número de seguranças possíveis. Não importava. Não ia sobrar ninguém. A bomba já estava armada para explodir cinco minutos depois do horário do encontro. Ele mesmo a fez. Toda a área do galpão seria explodida. Ele não iria. Estaria na hora assistindo o maestro alemão Helmuth Rilling no Teatro Municipal se deliciando com Bach, que prometia uma apresentação soberba da Missa em Si Menor. Ninguém poderia dizer que ele estaria envolvido. O Doutor Freed D’olison era um aficionado por opera. Muitas vezes ia a Europa só para ver um grande regente.  Chiquita de Cassiole estava ao lado dele. Quando o espetáculo terminou ouviu um zum zum no salão. Ele já sabia o que seria. Que fossem para o inferno, pois antes eles do que eu.

           Os jornais no outro dia se divertiam com suas manchetes sensacionalistas. Não sobrou ninguém no galpão. A polícia disse que foi uma explosão criminosa. Já sabiam quem seria o responsável, mas como provar? Porque ele o capo mais temido não estava lá? Chiquita de Cassiole definhava a olhos vistos. Dona Manfred D’olison mãe do Doutor Freed D’olison passou a gostar de Chiquita. Temia por ela, pois conhecia seu filho. Quando ela começou a emagrecer e tossir sem parar ela pediu ao filho que perdoasse Chiquita. Ela precisava viver. Ela nunca teve uma filha e a considerava como uma. Ele mal levantou a cabeça. Nem piscou. Não disse nada. Ela sabia que não haveria perdão. Chiquita de Cassiole morreu um mês depois. Ninguém soube por quê. Não ouve nenhuma investigação. Foi enterrada no mausoléu da família Cassiole no Cemitério da Consolação. Menos de vinte pessoas presente.

             Dona Manfred D’olison evitava comer junto ao filho. Tinha medo de também se envenenada. Ela sabia que ele nunca a amou como mãe. Deve ter sabido que ele foi rejeitado por ela no hospital. Vivia pelos cantos da mansão desvencilhando dele de cômodo em cômodo. O viu matar muita gente e curar outros tantos. Ele não tinha amigos e ninguém se aproximava dele. Um segurança jura tê-lo visto uma noite com um tridente soltando rajadas de fogo na varanda da mansão. Jurava também que ele estava com dois chifres e ria como louco. Saiu em desabalada carreira pela rua e nunca mais voltou. Doutor D’olison viveu muitos e muitos anos. Sua mãe tentou matá-lo um dia. Achou que ele estava dormindo. Engano. Ele a aprisionou num sótão da mansão e ninguém deu falta dela. Claro que ninguém a conhecia direito. Ele não recebia visitas e nunca a apresentou a ninguém. Dos vintes seguranças ninguém mais deu noticia dela. Se morreu se foi embora ninguém sabia de nada.

                 Os capos da Unione Siciliana evitavam vir ao  Brasil. Ninguém sabia como enfrentar o Doutor Freed D’olison. Muitos deles usaram de seu serviço e tinham uma admiração por ele como médico. Eles sabiam que no Brasil tudo funcionava diferente. Não havia os soldati, os caporegimes, os capos ou capitães e nem tampouco o sotocapo e o principal deles o consigliere. Para eles aqui não havia máfia. Nunca ouve. Mas uma enorme quantia em dinheiro corria por todos os lados. Sabendo explorar seria uma mina de ouro. Só que ninguém conseguia montar nada semelhante aqui. Morriam um atrás do outro. Um dia desceu no aeroporto de Cumbica pelo voo 354 da Alitália um homem baixo, com uma enorme corcunda e sumiu em meio à multidão. Dois dias depois embarcou de volta para a Itália. O que veio fazer aqui ninguém soube.  Só souberam que o Doutor Freed D’olison desapareceu sem deixar rastros. A policia com um mandato revistou peça por peça de sua casa. Encontraram varias ossadas enterradas. O IML ia ter muito serviço para identificar.

                  A vida dá a uns o que merecem e a outros o que não mereciam. A cada um de cada um. Só sei quem muitos reis, rainhas, presidentes e presidentas, sem considerar uma infinidade de senadores e deputados e os participantes fixos e honorários da Lista de Bilionários da Forbes também sentiram falta das mãos mágicas do Doutor Freed D’olison. Mas tudo tem o seu final. Ele também teve o dele. Que foi que contratou e quem foi quem executou nunca saberemos. A Máfia, os Ufos, O Vaticano e a Cia quem sabe poderiam ter em seus arquivos alguma história parecida. Mas nós simples mortais morreremos na esperança de que todos são inocentes perante a lei!

Eu te amo!


Ela gritou!
Tinha conhecimento do que se passava no coração
Era difícil conter a voz
Abandona essa ira
Chuta o pessimismo
Não existe amor impossível
Desculpe se costumo agir sem pensar
Quero tudo que deseje compartilhar
Deleta o nada
Dá um sinal
Emite um som
Mesmo que seja: 
Menina chata, me deixa em paz!
Aproveita a Lua Nova
Perdoa-me vai!



Jmattos

terça-feira, 30 de abril de 2013

A história de Mel que não é mais virgem e virou mulher!




Que mulher é essa
que não se cansa nunca,
que não reclama nada 
que disfarça a dor?
Que mulher é essa
que contribui com tudo,
que distribui afeto, 
tira espinhos do amor!
Que mulher é essa
de palavras leves,
coração aberto, 
pronta a perdoar?
Que mulher é essa? 
Que sai do palco,
ao terminar a peça,
sem chorar!
Essa mulher existe,
sua doçura resiste,
às dores da ingratidão,

Resiste à saudade imensa,
resiste ao trabalho forçado,
resiste aos caminhos do não!
Essa mulher é MÃE,
linda, como todas são.


A história de Mel que não é mais virgem e virou mulher!

                        Vale da Lua estava em polvorosa. Alguém comprou o Sítio do Coronel Gerônimo. Ele jurou que nunca o venderia. Era um belo Sitio. No final da Avenida Sonhos Dourados.  Muitos passavam em frente e ficavam horas olhando. Não havia muros. O jardim imenso. A casa do estilo renascentista era imensa. Dizem poucos sabiam ao certo que atrás da casa existia uma enorme piscina em forma de coração que fazia as delicias dos moradores. Eram para muitos a casa dos sonhos. Quem comprou? Como o Coronel Gerônimo resolveu vender? De boca em boca o assunto do dia na cidade. Vale da Lua era pequena, não mais que vinte e cinco mil habitantes e todos se conheciam. Caras novas que apareciam na Pensão de Dona Dilva ou no Hotel do Seu Francisco todos já sabiam que eram caixeiros viajantes.

                        No dia seguinte chegou uma Nissan preta, com quatro homens que nem pararam na cidade e foram direito para o Sitio do Coronel. No segundo dia chegou um ônibus cheio de operários. O povo todo de porta em porta atrás de uma novidade. Nada. Ninguém sabia de nada. O Coronel Gerônimo passou a morar em sua mansão da Avenida Sonhos Dourados próximo a matriz. Ninguém ousou perguntá-lo nem mesmo seus companheiros das soturnas noites jogando pôquer com o prefeito Santino, o delegado Javier, o juiz Doutor Prazeres e o Padre Thomaz. Algumas vezes valendo altas somas. Em menos de um mês uma reforma foi feita no sítio do Coronel. Cinco caminhões baús enormes despejaram a nova mobília e os especuladores em volta quase nada viam. As comadres corriam aqui e ali. Nada. Ninguém sabia de nada. Um mês e dez dias e os carros rarearam. Chegou sim uma Van, com oito homens de terno, desceram com suas malas. Daquele dia em diante sempre tinha um em cada parte do Sitio.

                         Mel tinha treze anos quando tudo aconteceu. Mel não era linda, era sim uma menina magrinha, cabelos loiros encaracolados e uns olhos azuis que pareciam sair faísca quando se olhava para ela. Era filha única. Sua mãe a adorava, mas seu pai nem tanto assim. Parecia que Mel não era sua filha. Um dia ela viu pelo buraco da fechadura seu pai olhando para vê-la tomar banho. Assustou-se. Por quê? Passou mais dois meses até que um dia ele entrou em seu quarto quando ela trocava de roupa. Gritou com ela. Fique como está. Quero saber se ainda é virgem. Um susto enorme. O que era aquilo? Mel não sabia de nada. Começou a acariciar seu corpo magro. Seu pai emitia sons que a assustaram. Seus dedos passavam em todo parte do seu corpo. Quando levou a mão em seu sexo ela gritou. Ele assustou e saiu do quarto. Não foi a primeira vez. Ele entrava e exigia que ela ficasse só de calcinha enquanto ele se masturbava. Mel chorava de cabeça baixa.

                        Mel passou a ter medo do próprio pai. Esperava ele sair para tomar banho e trocar de roupa. Sabia que não podia contar para sua mãe. Ela nunca acreditaria. Pela janela Mel namorava Nonô, um rapazinho que aprendia a fazer pão na Padaria do Seu Ernesto. Ela gostava dele. Ficava na janela e ele em pé no muro da casa do Seu Antenor bem em frente. Ele fazia sinais e ela ria. Um dia sentiu uma lambada nas costas. Doeu muito. Era seu pai. “Vagabunda!” – Ela correu para seu quarto. Ele foi atrás. – Gritou alto – Tire a roupa, fique só de calcinha em cima da cama – Já! Se não vou te moer de pancada! – Ela começou a chorar, mas obedeceu. Ele não se aproximou dela. Ficou olhando. Tirou seu sexo enorme, e latente e de novo se masturbou na frente da filha.

                           Mel tentou falar com sua mãe. Ela gritou mais alto. Mentirosa! Seu pai é um santo! O que fazer? Procurou o Padre Thomaz. No confessionário contou tudo. O padre a mandou rezar padres nossos e ave Marias e depois procurá-lo na sacristia. A igreja estava vazia. Ela entrou. O padre mandou que ela sentasse em seu colo. Ela acreditou que ia ser consolada e o padre iria conversar com seu pai. Não era assim. Nunca foi. Ela sentiu o membro do Padre entumecendo. Sentiu as mãos do padre acariciando seu corpo. Ele pegou em sua mãozinha e colocou em volta do seu membro. Um susto, nunca pensou que isto pudesse acontecer. Saiu correndo. Agora passou a ficar com medo de estar em casa sozinha. Não tinha amigas para onde ir. Esperou Nonô sair do serviço na padaria. Ele se assustou. Contou para ele tudo. – Resolveram fugir da cidade. Ir para onde? Ela disse que preferia morar no inferno. Qualquer lugar serve. Ela não entendia o que queriam com ela. No dia seguinte ela fugiu de casa e partiu com Nonô.

                          Andaram por muitas léguas pela estrada. Ninguém dava carona. Parou um caminhão. Uma carreta, enorme. O Motorista moreno, forte um grande bigode parou e deu carona. Não deu um sorriso. Só olhou de soslaio para Mel. O que vinha a seguir seria a morte para qualquer um. Foi à primeira vez de Mel. Maldito. A possuiu com força na cabine. Doeu de mais. Ela gritou pediu pelo amor de Deus que parasse. Nonô não podia socorrer. Levou um soco e foi jogado fora da cabine. Ela nem sabia se ele estava morto. Mel desmaiou. O maldito depois de horas abusando dela a jogou na estrada e se foi. Mel ensanguentada se arrastava no asfalto. Muitos passaram e assustados não pararam para socorrer. Uma Mercedes preta parou. Desceu um homem pequeno. De terno. Seu rosto tinha uma enorme cicatriz. Pegou Mel no colo e a levou para seu carro.

                         Passaram não menos que seis anos. Mel agora estava com dezenove. Se sorrisse podia se dizer que era linda. Mas Mel nunca mais sorriu desde que foi estuprada covardemente pelo caminhoneiro. Até hoje ela se sentia suja. Nenhum banho a limpava. Morava em uma mansão nos arredores de Paris. Seu novo protetor tentou de tudo para vê-la sorrir. Mel gostava dele. Foi o pai que ela não teve. Apesar da cicatriz ele não era feio. Rico, riquíssimo. Tentou colocar Mel em uma escola famosa para moças na Basileia. Mel não quis. Mel não queria nada. Achava que devia ter morrido. Roodney tentou de tudo. Fez de Mel uma filha que não teve. Sentiu uma enorme revolta quando a encontrou caída na estrada.

                       Nunca contou para Mel, mas ele mesmo fez questão de castigar o caminhoneiro. Naquela tarde parou em um posto de gasolina para abastecer e ver se Mel queria alguma coisa. Ela agora não chorava mais e nem mostrava sentir suas dores. Antes pararam em uma clinica em uma pequena cidade a beira da estrada. Fizeram tudo para ela ficar internada. Não quis. Jurou que ia fugir. Roodney tinha compromisso em Belgrado. Não podia ficar. No posto de gasolina viu um caminhoneiro grande, enorme dando gargalhadas em uma mesa com os outros amigos. Ouviu dele o que tinha feito a uma menina na estrada. Contava como se fosse tudo natural. Roodney o matou com dois golpes mortais de caratê. Ele era um mestre. Não precisou de ajuda. Ele não estava sozinho. Seu motorista e o segurança estavam com ele a mais de dez anos e sabiam manejar qualquer arma.

                        Ficaram um dia em São Paulo. Roodney disse que ia partir para a Europa. Não gostaria de deixa-la ali sozinha sem proteção. Ela o encarou e disse – Me leve com você. Nasceu daí uma grande amizade. Roodney a considerava a filha que não teve. Deu tudo que podia dar. Mas nunca conseguiu um sorriso. Nestes seis anos Mel aprendeu muito. Roodney viajava muito. Mel ia junto a não ser em alguns lugares que ele achava perigoso. Ela já sabia que ele era um grande traficante de armas pesadas. Chegou a armar diversos países sul africanos e americanos. Todas as policias do mundo gostariam de colocar a mão nele, mas não tinham provas. Mel gostava de ficar na Mansão de Paris. Ele tinha também um chalé na Suíça. Ela ia pouco. Não gostava de frio. Um dia sentiu saudades de sua cidade. Chorou porque sentia saudades também de sua mãe. De seu pai não. Comentou com Roodney. Ele sorriu. Deixe comigo, vou comprar a melhor casa de Vale da Lua.

                      Não foi difícil. Tinha um amigo que conhecia o Coronel Jerônimo. Ele estava devendo muito a este amigo. Quando viu a quantia que ofereciam vendeu logo. Comprometeu-se a não dizer para quem vendeu. Roodney depositou para ela uma grande quantia no banco. Um cartão de crédito sem limites. Colocou lá seis seguranças escolhidos a dedo entre seus homens. Lastimer ficou responsável por ela. Era seu braço direito. A acompanhava sempre aonde ela ia. A cidade em peso um dia a viu descer da Mercedes azul sem capota. Ninguém a reconheceu. Um frenesi geral. Fez algumas compras na loja do Turco e no Mercadinho do Zuzinha. Todo mundo nas janelas. - Quem era? Parece linda! Uma princesa? – Mel não conversou com ninguém. Entrou na igreja. O padre Thomaz veio correndo subserviente. Mel olhou para ele – Lembra-se de mim? – Não senhorita! Ele disse. Eu vou te amaldiçoar o resto da minha vida, seu sacana filho da puta!  Ela disse. Você não perde por esperar.

                     O Padre Thomaz passou uma tarde pensativo, preocupado e com medo. Quem era ela? Dormiu e acordou afoito. Mel! Era Mel! Meu Deus! Ela não tinha se esquecido do que eu quis fazer com ela. – Comentou com Matilde que fazia limpeza. Em menos de uma hora a cidade inteira sabia quem era a madona da mansão. Os pais de Mel ficaram sabendo. Correram até a mansão. No portão foram barrados. Mel só deixou sua mãe entrar. Falou pouco. Não contou nada de sua vida. Mel chorou aquele dia. Ela não tinha mais ódio de seu pai e sua mãe, mas achou que ainda não estava preparada para contar sua história. Um dia pela janela avistou um jovem moreno fazendo a entrega de pães. Meu Deus! Era Nonô! Estava vivo. Foi correndo ao portão. Ele quando a viu ficou com medo. Ela o abraçou. Ele tremeu ao ver os guarda-costas olhando sério para ele.

                     Mel ficou amigo de Nonô. Nada mais que isto. Não era mais o homem de sua vida. Mandou chamar seus pais. Comprou uma nova casa para eles. Seu pai sempre a olhava de cabeça baixa. O Padre Thomaz nunca mais apareceu. Pediu transferência para o Bispo. O medo grande de ser espancado pelos guarda- costas. Mel não deu satisfação para ninguém. Uma tarde Roodney chegou à cidade. Junto com ele mais de cem homens. Disse para Mel que ela devia ir embora. Aqueles homens eram mercenários. Iriam se entrincheirar no sitio fazer barricadas, pois uma guerra iria começar. Tudo que impedisse a entrada seria válido – Mas por quê? Disse Mel. – Querida filha, estou cansado de fugir. Vendi para um general fajuto no país pequeno da África diversas armas. Quando eram entregues o exercito do imperador atacou e matou quase todo mundo. Ele acha que fui eu quem deletou. Já tentou me matar em vários países. Agora chega. Não vou fugir mais.

                     Mel se recusou a sair. Ela não acreditava que alguém de outro pais fosse atacar Roodney ali. Afinal ainda havia leis no Brasil. Um exército em atividade. – Vou ficar – Se não fosse você eu teria morrido! Você me devolveu a vida! Quatros meses aquela movimentação de guerra no sitio. O delegado via tudo assustado e comunicou as autoridades na capital. Um general foi enviado para ver o que seria. Ficou estarrecido. Tentou conversar com Roodney e nada. Mandou avisar que traria um unidade do exército. Ou ele conversava por bem ou por mal. Não deu tempo. Zito Mobutu entrou na cidade com mais de trezentos homens. Vale da Lua virou uma praça de guerra. A população corria para o mato, para os morros e quem tinha carro sumia pelas estradas vicinais, estaduais e federais.

                   Cinco dias depois o Exército federal chegou. Mais de cinco mil homens. O General Afonso deu um ultimato para encerrar a luta. Ninguém ouviu o Exército. Uma ordem do presidente e aviões da força aérea bombardearam o sitio e arredores. Em volta centenas de repórteres de jornais, revistas rádios e TVs. Até a CNN estava lá. O Exército invadiu. Uma matança. Dois dias. Cadáveres e cadáveres. A paz voltou. Mais de duzentos mortos. Ninguém se entregou. Uma carnificina. O sitio destruído. Não encontram Roodney e Mel. Sumiram. Ninguém sabia onde teriam ido. Tornou-se o homem mais procurado do mundo. A Interpol tentou em todos os países onde podia agir. Dois anos depois a imprensa já tinha esquecido o acontecido em Vale da Lua. Acharam que Roodney tinha morrido na luta pois vários mortos ficaram irreconhecíveis por causa do bombardeiro.

                     Era uma fazendinha no sul do Pará. Umas oitocentas cabeças de gado, uma boa aguada, o Rio Corrente atravessando a fazenda e Seu Honório e sua filha Larissa viviam uma nova vida. Nonô estava na mansão quando o tiroteio chegou ao auge. Mostrou um caminho onde fugir. Roodney Mel e cinco dos seus homens seguiram Nonô. Compraram o caminhão do Senhor Joelmir, dono de uma serralheria. Nonô foi com eles. Não havia militares na estrada. Compraram a fazenda. Roodney e Mel ou melhor Seu Honório e Larissa viveram ali para sempre. Mel não se casou. Nunca mais foi de ninguém. A sequela do estupro marcou para sempre. Nonô ficou trabalhando na fazenda. Roodney ou melhor Seu Honório dava uma ou outra escapulida até Nova Fonte. Lá se abastecia de algum dinheiro no banco. Sempre fazia transferência de bancos suíços. Não muito. Não queria dar a vista.

                      Mandou fazer um aeroporto na fazenda. Não possuía nenhuma aeronave. Alugava. Um simples telefonema e em menos de duas ou três horas ela estava à disposição. Viajavam muito pela Europa. Deixou crescer a barba. Fez uma operação no nariz e Mel usava lente escura. Não ficavam nos melhores hotéis para não dar na vista, mas não deixaram de viajar por todos os lugares que desejavam. Viveram por muitos e muitos anos, dizem que morreram já na velhice de “morte morrida”.  Os pais de Mel morreram sem ter a presença dela. O padre Thomaz foi encontrado enforcado um dia no quintal igreja. Ninguém nunca soube o porquê. E assim terminada a história. A história de Mel que não é mais virgem e virou mulher!

Soneto da mulher inútil

De tanta graça e de leveza tanta
Que quando sobre mim, como a teu jeito
Eu tão de leve sinto-te no peito
Que o meu próprio suspiro te levanta.

Tu, contra quem me esbato liquefeito
Rocha branca! Brancura que me espanta
Brancos seios azuis, nívea garganta
Branco pássaro fiel com que me deito.

Mulher inútil, quando nas noturnas
Celebrações, náufrago em teus delírios
Tenho-te toda, branca, envolta em brumas.

São teus seios tão tristes como urnas
São teus braços tão finos como lírios
É teu corpo tão leve como plumas.