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sexta-feira, 23 de março de 2012

Flor do Campo a Árvore da Vida.




Flores do campo

Vejo as flores dos campos tão lindas
Com mil cores e suaves como a seda
Qualquer espécie de flor é bem-vinda
Tanto as da selva como as da alameda

As flores enfeitam todas as veredas
E quando à tardezinha o dia se finda
Peço a Deus do céu que me conceda
Que eu possa ver muitas flores ainda

Pois o mundo sem flores é tão vazio
Como deserto muito quente, sem rio
E sem haver brisa da praia soprando

Como deve ser triste a terra sem relva
É o mesmo que se caminhar pela selva
E não ouvir nenhum pássaro cantando.

Flor do Campo a Árvore da Vida.

Pamela conhecida como Flor do Campo        

         Todas as minhas tardes eram assim. Não mudavam. Nem sempre podia olhar o por do sol, pois, meu tempo de descanso não existia, ou se existia era uma nuance de momentos. Sabia que o mundo tinha me reservado essa vida. Não haveria mudanças, mas eu me sentia feliz. Afinal estava viva, acreditava em Deus e tinha a maior das alegrias que uma mulher pode ter. Minha filha. Nalva, ou melhor, Borboletinha como a chamavam.

          Meu nome é Pamela, nome que minha mãe achou em um jornal jogado numa esquina do nosso povoado. Achava bonito, mas preferia Flor do Campo. Era assim que ele me chamava. Pedia a todos para me chamar assim. Hoje o dia está lindo, um céu azul poucas nuvens, e já estou vendo o por do sol que vai se esconder atrás das Montanhas dos Pastores. Já fui lá algumas vezes. A última com ele. Foi lindo. Um passeio incrível. Valeu enquanto durou.

        Meus vinte e cinco anos ainda mostram que sou bonita. Cabelos negros curtos, olhos cinzentos, não gosto do meu pescoço, acho ele meio grande. Mas adoro meu nariz, minhas orelhas e meus brincos são grandes. Dizem que chamo atenção com eles, mas para dizer a verdade, ele sempre dizia que eu era a mulher mais bela do mundo e nenhuma espanhola poderia se igualar. Sou professora. A única deste povoado quase na divisa do Espírito Santo com Minas Gerais.

        Eu morava em Nova Venécia. Povoado ao norte de Colatina. Diziam que éramos mineiros e outros diziam que éramos capixabas. Uma briga surda entre os dois estados se faziam acontecer a anos. Quase não lia jornais e as poucas notícias eu escutava na Radio Nacional à noite. Ela falava pouco sobre o assunto. Seu tema maior era a cidade do Rio de Janeiro. Nova Venécia tinha menos de cinco mil habitantes e só uma escola. Escola? Bem, uma construção de pau a pique, que quando chovia não tinha aula.

        Uns homens do governo estiveram lá uma vez e convidaram moças para um curso rápido de quatro semanas. Tinha só o primário. Mas lia muito e acharam que eu iria servir. Nomearam-me professora primária. Mas cinco desistiram logo. O salário não vinha e quando vinha não era o prometido. Os poucos rapazes na cidade eram comprometidos. A maioria procurava cidades maiores.

         Morava só. Minha mãe e meu pai já haviam morrido. A malária os matou. Nunca eu pensei em sair dali até o dia que Venâncio bateu em minha porta. Como era gostoso lembrar. Lembrar-me dele. Do seu rosto, da sua voz do seu sotaque caipira. Meu Deus! Como é difícil esta lembrança doída. Afinal estava com dezesseis anos, e apesar de nova me considerava uma mulher. Desculpem. Era virgem. Até aquele dia. Ainda não era professora. Como disse ele bateu em minha porta. Abri e quando olhei para ele minha mente virou. Era o homem que sonhava!

          Estava magro, barbudo e com olheiras. Mas era ele sem tirar nem por! Mandei entrar sem mesmo perguntar o que ele queria. Sentou no banco em volta da mesa rústica de madeira. Olhou-me, pediu água e se podia dar a ele uma comida quente. Tinha seis meses que não comia nada quente. Só agora notava que estava fardado. Militar mineiro. Claro, esfarrapado, a roupa suja de barro, barba por fazer e tinha um cheirinho de quem não tomava banho há muito tempo.

           Disse ia fazer um almoço para ele. O mandei ao meu quintal e lá se lavasse. Existia uma bica de águas cristalinas de uma nascente ao lado do abacateiro. Tinha quase um metro de altura. Ele me olhou assim meio cismado e foi. Levei para ele umas roupas de meu pai. Eram grandes. Deviam servir. O almoço foi frugal. Arroz, carne de porco frita, ovos e farinha de mandioca. Comeu com vontade.

Venâncio conhecido como o Matador

              Seis anos encarcerado aqui. Não era ruim. Diziam que só militares e pessoas com curso superior estavam aqui. Eu tinha amizade com todos, só ficávamos na cela depois das dez e as sete já estava aberta. Se não fosse por isso e o tédio, até que dava para morrer ali. Diziam que iria ficar vinte anos. Soube que estudavam um perdão não só para mim, mas a todos que estiveram na “guerra” do Contestado. Guerra. Quando me lembro disto dá vontade de rir.

            Porque entrei nessa fria até hoje não sei. Tinha pensado em assentar praça e voltar para minha cidade. Não tinha pretensão de ser mais nada na vida. Uma “vidinha” de soldado, quem sabe cabo e isso seria minha redenção em São Jacinto. Sabia que não tinha muita escolha e lá fui eu e claro aceito logo. Um físico de lutador acho que era inteligente e em um ano já era um “milico” da policia militar.

           Nada deu certo nos meus planos. Uma manhã, nos formaram, entregaram-me uma mochila e deram meia hora para preparar para a viagem. Viagem? Claro. Fomos para uma cidadezinha perdida nos confins de Minas Gerais.  Agua Doce. Bem perto de Nova Venécia. Passamos por lá e andamos mais umas duas léguas. O sargento desceu todos e nos mandaram fazer uma trincheira. Um sol de rachar. Dois dias furando buraco. Éramos uns quarenta homens. Só no quinto dia fiquei sabendo que estávamos em guerra. Sim era a guerra do Contestado. Minas Gerais contra o Espírito Santo.

           Soube mais tarde que por uma simples cobrança de impostos, cada um dizia que ali era seu. Depois me contaram que Minas sem mar queria um pedaço da terra dos capixabas e ter seu navio. Uma merda. Cada dia um sol de rachar. Um calor de matar moscas que voavam a procura do nosso suor fedorento. Fiz amizade com Romualdo. Minha idade, vinte e cinco anos. Contávamos prosas, causos, cantávamos. Ficamos amigos. Achei que seria uma amizade para sempre. Eu gostava dele.

           Durante o dia não ouvíamos nada. Nem um tiro. Guerra de merda mesmo. Comíamos mal. Comida fria trazida da cidade em panelões fedorentos. Café aguado. Um pão mais duro que a terra que pisava.  À noite os capixabas gritavam – Mineiros! Filhos de uma puta! Vão tomar no cu! E a gente ria e retornava – Capixaba! Filho de uma égua parida! Vou comer o cu da sua mãe! E eram uma profusão de palavrões de um lado e de outro. Depois grandes gargalhadas. Que guerra era essa?

           Uma noite Romualdo se encrencou em ir colocar água nos cantis no córrego em frente. Era proibido.  Ele servia como divisa de um lado e outro. Teimosamente escondido lá foi ele. Ouvi um estampido. Não! Saí correndo até ele. O sargento gritando para voltar! Uma saraiva de tiros. Não me incomodei. Lá estava ele deitado de bruços no riacho. Os cantis iam com a correnteza. Sua nuca havia sumido. Um tiro de fuzil estoura tudo. Uma raiva enorme.  Tremia. Não pensei outra coisa a não ser em vingança. Coloquei a baioneta e corrigi em direção aos filhos da puta dos capixabas.

           O sargento, o tenente e o capitão gritavam para eu voltar. Não voltei. Tiros. Nenhum me acertou. Pulei na trincheira deles. Atirava e usava a baioneta. Matei mais de dez. Os outros fugiram. Fiquei ali respirando e não sabendo o que fazer. Voltei. Prenderam-me. Mas afinal não tinha acabado com a guerra? Nem uma palavra. Antes da chegada do caminhão fugi. Andei não sei quantos quilômetros. Vi um lugarejo. Uma casa afastada. Bati. Pedi comida. A fraqueza era tanta que nem vi quem era. Um anjo acho eu. Linda. Me deu roupas limpas. Me deu comida. Me deu amor. Me deu carinho e hoje eu sei que me deu a mais linda Borboletinha do contestado. Nalva. Minha amada Borboletinha. 
    
Pamela conhecida como Flor do Campo

            Foram os mais belos dias da minha vida. A paixão entre nos foi avassaladora. Andávamos de mãos dadas. Abraçados. Quando acordava achava que era um sonho. Mas lá estava ele. Com seu ronco gostoso. O beijava e nos amávamos.  Achava que o mundo para mim era de felicidade. Até o dia que Nalva nasceu. Em uma semana o pior aconteceu. Um caminhão da policia militar parou na praça do coreto. Vários soldados de casa em casa. Um tenente perguntou por ele. Se apresentou. Levaram-no preso. Me disse que voltaria. Prometeu voltar.

          Um ano, dois, quatro seis anos se passaram. Borboletinha cresceu. Era a única que me fazia feliz. Não a felicidade que esperava ter. Nos primeiros anos me mandou cartas. Depois diminuíram. Meu coração partido chorava todas as noites por ele. O crepúsculo para mim era um suplicio. A lua cheia me amedrontava. Voltei à escola. Mas já não era a mesma Pamela do passado. Queria fugir. Ir embora com a Borboletinha.  Me mandava cartas a principio semanal. Depois mensal e por fim uma aqui outra ali. Até o dia que nunca mais recebi noticias suas.

          A vida para mim não tinha mais sentido. Vivia em função da minha filha. Procurava não conversar com ninguém no povoado. Sabia que ninguém iria compreender a minha dor. Sabia sim que todos me condenavam pelo que fiz. Parei de chorar. Não adiantava. Sorria quando Borboletinha sorria. Íamos a todos os lugares onde eu e ele fomos. Até na Montanha dos Pastores. Lá no alto chorei. Borboletinha não entendia. Mamãe – dizia – Não chores! Eu estou aqui!

         Uma manhã de abril bateram em minha porta. Corri. Ele? Não era. Um homem simpático, alegre, com o carro na porta me perguntou se tinha mecânico no povoado. Expliquei que só o Tonico entendia alguma coisa. Agradeceu e se foi. Fui à janela vendo-o ir devagar com seu carrinho. A tarde voltou. Agradeceu. Disse que estava indo para Colatina. Era médico. Iria tomar conta hospital da cidade. Convidei para um café. Do café ficou para a janta e da janta... Nem sei por que fiz aquilo. Seria falta de homem?

        Me pediu em casamento. Rafael Saldanha fez o pedido de uma maneira tão simpática que não recusei. Ele e Borboletinha tinham uma química que até hoje não entendia. Amigos ou pai e filha para sempre?

Venâncio conhecido como o Matador

        Fiquei preso por nove anos. Um dia vi que vários amigos meus ali no presidio foram soltos. O governador assinou um indulto. Nele não fui incluído. Por quê? Perguntei ao Sargento da guarda. Ele não soube responder. Procurei o capitão e ele nem quis falar comigo. Se afastava quando o peguei pelo braço. Queria uma resposta. Me deu um safanão e um tapa no rosto. Retribui com um murro direto no seu nariz. Sangue espirrou. Tirou seu revolver me apontou e atirou. O tiro pegou de raspão no ombro. Tomei dele a arma. Descarreguei na sua cabeça. Porque fiz aquilo? Por quê? Não sei.

       Sai correndo pelo portão e ouvi muitos tiros. Os prisioneiros não ficavam atrás das grades durante o dia. Tínhamos essa regalia. Afinal éramos militares. Consegui chegar à rua. Parei um automóvel que passava. Entrei ameacei e o obriguei a me levar fora da cidade. Próximo a Ponte Queimada desci. Não sem antes pegar sua carteira.  Corri beirando o rio por muitos quilômetros. Avistei um pequeno bote apoitado na margem. Entrei e desci o rio. Muitos quilômetros. Passei um dia e uma noite remando.

          Uma fraqueza enorme. Três dias sem comer. Meu corpo tremia. Sabia que se não colocasse alguma coisa no estomago eu iria morrer logo. Lá pelas oito da noite do segundo dia notei na margem esquerda uma pequena cidade. Desci do barco e caminhei pelas ruas e não vi ninguém. Um ou outro veiculo passava e eu me escondia. Fiquei numa esquina até de madrugada. Já estava amanhecendo. A fome enorme. As ruas desertas ainda. Avistei uma casinha branca, com rosas vermelhas. Lembrei-me de Flor do Campo. Ela gostava. Em nossa casa tinha muitas.

         Bati de leve. Ninguém. Bati de novo ninguém. Insisti e a porta abriu devagar. Um homem barbudo, com um olho parecendo ferido (escorria um liquido escuro) dente cariado me perguntou o que queria. Fome meu amigo. Fome. Não aguento mais. – Suma daqui! Disse. Não me mexi. Vi atrás dele nada mais nada menos que Flor do Campo. Olhos vermelhos, ainda chorava baixinho. Ela me reconheceu. Não disse nada. Falou para o brutamonte que tinha uma sobra da janta de ontem.

          Sem esperar resposta entrei. O sujeito tentou me barrar, mas ela insistiu. Vi que ele tinha uma arma sob a camisa. Eu precisa comer. E logo. Não tinha forças. Vi que ali tinha alguma coisa. Ela estava sendo subjugada. Mas eu não podia reagir. Sentei-me à mesa da cozinha. Logo ela trouxe um pedaço de pão. Comi com gosto. Nem mastigava a comida. Engolia. Meu organismo precisa absorver tudo. Só assim teria forças para pegar o tal de jeito. Não vi Borboletinha. Nem pensava porque Flor do Campo estava ali.

        As forças estavam voltando. O Brutamonte me deu um tapa no pescoço.  – Já comeu que chega! Agora se manda sem bosta! Levantei o garfo na mão esquerda para ele não ver. Enfiei entre seus olhos podres. Ele berrou de dor e não tinha como reagir. Tirei sua arma. Um Colt 45. Dei uma tremenda coronhada na sua cabeça. Tirei seus cadarços. Amarrei suas mãos e seus pés. Flor do Campo me abraçou chorando. Soluçando me contou o que aconteceu.

       Ela tinha casado com o dir. Rafael Saldanha. Moravam naquela cidade há anos. O bandido encontrou a porta aberta. Entrou em luta corporal com Rafael e o matou. Ele esta no quarto lá em cima. Ainda bem que Borboletinha dormiu na casa de uma amiguinha. Ela o abraçou e chorava. Montaram um plano. Ele tinha uma identidade do homem que roubou o carro. Parecia muito com ele. Diriam para o delegado que ele era um primo distante do Dr. Rafael e veio fazer uma visita. Foi atacado. Legítima defesa.

Pamela conhecida como Flor do Campo

       Pamela nunca esqueceu aquele dia. Nunca pensou que isso pudesse acontecer. Achou que seria feliz para sempre com Rafael. Venâncio apareceu. Uma fatalidade. Resolveram fazer uma vida só deles. Ele contou para ela tudo do que aconteceu no presídio. Se ficassem ali poderia ser preso. Ela colocou a casa venda. Ele já tinha partido para Nova Almeida no Espírito Santo. Ela chegou um mês depois. Compraram uma casinha. Na frente Venâncio montou uma vendinha de secos e molhados.

Venâncio conhecido como o Matador

       Venâncio tinha encontrado a felicidade. A mulher que amava e a filha que era seu sonho. Era agora um cidadão honesto naquela cidade e levava uma vida pacata e simples. Sua vendinha não era grande, mas tinham o necessário para viver. Ninguém o procurou. Seu nome não apareceu nos jornais. Achou que o deixaram em paz.

Na Árvore da Vida, Venâncio, Flor do Campo e Borboletinha viveram felizes para sempre!       
Crepúsculo de Outono

O crepúsculo cai, manso como uma benção.
Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito...
As grandes mãos da sombra evangélicas pensam
As feridas que a vida abriu em cada peito.

O outono amarelece e despoja os lariços.
Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar
O terror augural de encantos e feitiços.
As flores morrem. Toda a relva entra a murchar.

 Os pinheiros, porém viçam, e serão breve
Todo o verde que a vista espairecendo vejas,
Mais negros sobre a alvura unânime da neve,
Altos e espirituais como flechas de igrejas.

 Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio
Do rio, e isso parece à voz da solidão.
E essa voz enche o vale... O horizonte purpúreo...
Consoladora como um divino perdão.

O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha
Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos,
Flocos, que a luz do poente extática semelha
A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos.

A sombra casa os sons numa grave harmonia.
E tamanha esperança e uma tão grande paz
Avultam do clarão que cinge a serrania,
Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.

domingo, 4 de março de 2012

A dança da morte


Lúcifer
Então, Deus, são estas tuas imagem e semelhança...
Por elas varreste-me de teus céus que minha luz esfuziava.
Por tais criaturas, arrogantes e francas,
Interrompeste o diálogo;
Desdenhaste o encontro permanente,
Deste-lhe o amor que só nosso.
Como com todas tuas outras, travestiram-no de tudo:
Menos de teu amor.

Eu lúcifer, hei de compor um vírus, uma anti-vida
Escondido no rubro que vida representa,
Tão faminta da vida que criaste,
Que aniquile, com insídias, a obra que amaste.

Que o amor que lhes deste seja a porta
Pela qual entre minha criação, portal da morte.
Tocada por mim, tua imagem te amaldiçoará a cada instante.
E nela, ferida, que te feriei. Porque te amo ainda.
Júlio Dias de Queiróz

A dança da morte

                           Desde que nasceu Jove ouvia falar em Deus. Sua mãe o obrigava a rezar, o padre a confessar, na escola professoras enchendo sua cabeça de Deus. Sempre quis falar com ele, mas ele nunca o atendeu. Entrava em igrejas, em templos em busca de Deus. Nada. Ficou cinco dias no monte Caparal olhando as estrelas procurando um sinal. Nada. Resolveu ficar jejuando para ver o que Deus faria. Não fez nada. Nando desistiu. Esse Deus não existia.

                         Se Deus não existe e o diabo? O demônio? O capeta? Ia provar que ele também não existia. Mas para isso teria que fazer a invocação com a Dança da Morte. O que iria fazer seria horrível, mas valeria a pena provar que o inferno não existia. Jove era magrinho, cara de “fuinha” na escola o chamavam de “porquinho da índia”. Alugou um sitio próximo a cidade. Avisou seus pais que iria fazer uma viagem de um mês para não se preocuparem.

                        Ele conhecia Safira, uma menina magrinha, com treze anos, muda e que morava com a avó próximo a sua casa. Safira quase nunca saia de casa. Olhos pequenos boca grande, cabelos escorridos, não tinha nada de belo em sua aparência. Nando a raptou quando ela ia a padaria comprar pão. Fazia isso toda a manhã. Colocou em seu fusquinha e partiu para o sitio. Tinha comprado éter e com ele embebido em um lenço viu que Safira tinha desmaiado.

                          Ao chegar ao sitio, tirou a roupa de Safira, deixou-a nua. Pequena, magra, apenas treze anos não possuia nenhum atrativo sexual. Levou-a ao quintal, colocou-a dentro de um tanque de agua fria, amarrou seus braços abertos em duas estacas fincadas ao lado do tanque com cordas finas. Ela não tinha como levantar e teria que ficar dentro da água só com a cabeça para fora. Safira quando acordou estava horrorizada. Abria a boca e só saia grunhidos. Seus olhinhos saltavam como se fosse fugir. A dor era incrível.

                        Um horror enorme saia de seus olhos quando Jove se aproximava. Ele cortou com canivete varias lascas finas de bambu. A cada hora enfiava uma lasca em uma parte do corpo de Safira. Sempre ria quando o sangue se misturava a água do tanque. No segundo dia a água já estava vermelha. Com um pequeno alicate, arrancou a força duas unhas de sua mão direita. E duas do pé esquerdo. A pobre da Safira gemia horrorizada tentava gritar um grito que não saia. Desmaiava e acordava. Uma dor tremenda. Não entendia nada do que estava acontecendo.

                       À noite Jove tirou sua roupa. Pintou-se de preto. Matou um galo que tinha comprado. Espalhou as penas e o sangue em cima de Safira que agora estava desmaiada. Daquele jeito Safira iria morrer no dia seguinte. Não aguentava mais de tanta dor. Jove começou a gritar a meia noite em ponto. Gritava e dançava, cacarejava e pedia – Apareça demônio! Mostre sua força! Mostre que você existe! Onde está você demônio dos infernos! E dava grandes gargalhadas e gritos. Dançou por muito tempo a Dança da Morte.

                       Estonio acordou assustado. Dois dias como o mesmo pesadelo. Estonio era investigador de polícia e também "Chefe" Escoteiro. Adorava sua profissão e ria quando os meninos e meninas da tropa pediam para ele contar historias de bandidos em acampamentos ou mesmo na sede. Considerava-se um bom policial. Nunca abusou e nunca deixou de cumprir suas obrigações dentro da lei.

Sempre o mesmo sitio que ele não conhecia. Uma menina indefesa na mão de um maníaco. Teria que ser verdade. Isso só podia ser um sinal de Deus. Teria que descobrir onde era o tal sítio. Sem querer comentou com amigos seu sonho. Estava preocupado. Afinal era casado também e tinha dois filhos homens. Ainda crianças com dois e três anos. Rildo um colega de trabalho lembrou que seu pai alugou um sitio para um homem e que ele tinha comentado que o tal queria só por um mês. Pagou adiantado e dobrado.

                      Junto ao pai de Rildo ele foi ao sitio. O que viram um verdadeiro terror. Nunca imaginaria algum parecido e olhe, ele era um policial. Tinha visto muitas coisas na sua profissão. Ainda encontraram Safira com vida. Desmaiada. Toda machucada, mas respirava. Em volta pedaços de corpo de um homem todo queimado. Tinha sido esquartejado. Seus membros fedia. Acharam sua cabeça fincada em um bambu. Sua língua para fora mostrando que morrera gritando e horrorizado. Em todos os membros cortados, lascas de bambus pontiagudos. Nas duas mãos e nos dois pés nenhuma unha. Foram todas arrancadas a alicate.

                      Estonio ficou estarrecido. Depois que a ambulância levou Safira, ele olhou e viu em uma porteira próxima fumaça como se ela estivesse queimando. Foi até lá. Viu escrito a fogo nas taboas e o que leu gelou suas veias. Estarrecido imaginou o que poderia ter acontecido ali. Dizia: – “Não se preocupem. Ele queria me ver, duvidava de mim. Ele agora vai morar comigo. Lá no meio dos infernos e vai queimar comigo para sempre” assinado o “Demônio”.

                      O que viu, o que sentiu mostrou a Estonio que não se pode duvidar da morte, das pessoas, de Deus e do Demônio. Não soube explicar quando do seu relatório policial. Não sabia o que dizer. Escreveu o que viu. Hipóteses somente. Safira se recuperou. Com quinze anos começou a balbuciar. Aos dezoito já falava normalmente. Sua mente apagou tudo que tinha acontecido. A dor do passado agora eram alegrias do futuro.

                   Não sei quantas vezes outros fizeram a “Dança da Morte”. Espero que não sejam muitos pois seu final é trágico. 
                
Anjo ou Demônio
Por vezes te quero, anjo
Para afugentar meus demônios
Mas quando estou possuído
Peço-te socorro em meus sonhos
Muitas vezes és demônio
Pecando me leva ao delírio
Minha alma fica entregue
Ardendo no seu martírio
Anjo que me fascina
Demônio que me instiga
E eu fico envolvido
No mistério que me domina
Sedutora e sensual
Me hipnotiza e conduz
Com seu olhar demoníaco
Sugando-me toda luz
Possuindo-me aos poucos
Demônio, Lasciva, Mandraca
Salvando-me de meus pecados
Anjo, Mulher, Fada
Angelical e endemoniada
Forte como um vulcão
Arrebatou-me por inteiro
Corpo, alma, coração
André Ferreira

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A canção do adeus



Canção do Adeus

Digo-te adeus e talvez
Ainda te queira
Não sei se vou te esquecer,
Mas te digo adeus
Não sei se você me quis
Não sei se eu te quis
Ou talvez a gente se quis
Demais os dois.
Este meu carinho,
Apaixonado e louco.
Eu o semeei na minha alma
Para te querer a ti.
Não sei se te amei muito,
Não sei se te amei pouco.
O que eu sim sei é que nunca
Voltarei a amar assim.
Fico com teu sorriso,
Gravado nas minhas lembranças
Y o coração me diz,
Que não vou te esquecer.
Mas ao ficar sozinho,
Sabendo que perco você
Talvez comece a te amar,
Como jamais te amei.
Digo-te adeus e talvez,
Nesta despedida.
Meu sonho mais bonito,
Morra dentro de mim,
Mas te digo adeus,
Para toda a vida.
Ainda que toda a vida,
Continue pensando em você,
Continue pensando em você,
Continue pensando em você.
(Horacio Guarany – José Angel Buesa)

 A canção do adeus

              Há dias eu estava assim. Não me lembrava do meu passado. Não sabia de onde tinha vindo. Lembrar para que? Estava bebendo sempre, achava que não tinha parado nem um minuto. Eu devia ser rico, pois sempre tinha uns tostões para pagar a bebida. Sempre ficava ali naquela cadeira do canto do bar do Joel. Não olhava para ninguém. Não tinha motivo. Conhecia o Joel, o único, o barman que se tornou meu amigo. Ele era prestativo e educado. Não perguntava o que houve, não dava conselhos e não ficava encarando. Os outros bares que já tinha percorrido não.

                As madrugadas, Joel me colocava em um taxi e dava o endereço. Joel sabia. Não entendia como o porteiro do prédio me levava até meu apartamento. Abria a porta, me colocava na cama, tirava meus sapatos e ia embora. Devo ter sido boa pessoa. Todos eram gentis comigo. Acordava ainda de madrugada. Suando. Nem me lembrava do que sonhei, mas tinha sido um pesadelo. Tinha sido sempre assim. Levantava e olhava a mesinha. Lá estava meu uísque. Não podia faltar. Nem sabia quem o comprava.

                Já começava o dia bebendo. Sentia uma fraqueza no corpo, um vazio, como se fosse explodir para dentro. Devia haver um motivo. Tinha de haver. Mas minha mente se recusava a voltar ao passado. Eu tinha passado? Claro que sim. Todos têm. Parece a piada que dizia assim – “Ontem eu bebi para esquecer. Bebi tanto que esqueci. Hoje estou bebendo para lembrar”. Disso eu me lembro. Risos. Lembro até das outras piadinhas:

- Uma mulher me levou a beber... E eu nem agradeci!
- Aos que bebem para esquecer, favor pagar adiantado!
- Quem bebe morre, quem não bebe morre também, então vamos beber!

                  Eu lembrava, mas não ria. Não achava mais graça. Não achava graça de nada. Preferia estar morto. Acho que era um zumbi, a andar por aí como um morto vivo. Sem nada para fazer a não ser beber. Vesti uma roupa limpa. Uma camisa branca de mangas compridas, uma calça cinza esporte, um paletó também cinza esporte e achei um Mocassim marrom que poderia calçar sem meia.  Custei a achar a porta da sala. Nem fechei. Sabia que alguém a fecharia. Na porta do prédio todos me chamavam de doutor. Doutor? Doutor de que? Não respondia. Não sabia o que dizer.

                   Olhei para o céu, o sol estava se pondo. Tão tarde assim? Achei que tinha dormido pouco. Dormi o dia todo. Meu estomago pedia um bife. Um bife ou um drink? Acho melhor um drink primeiro. Já conhecia todos os bares e restaurantes ali perto. Não gostava de nenhum deles. Sempre me aconselhando. Dizendo o que tinha de fazer. Preferia o bar do Joel. Lá em me escondia em meu próprio corpo e nem sabia quem estava lá. Peguei um taxi. Só disse bar do Joel. Ele sabia onde era.

                    Parei na porta. Desci, uma jovem linda me cumprimentou. Boa tarde Doutor Marcio Basseto. Ela sabia meu nome? Chamei-a, ela sorriu e se aproximou. Você me conhece? Quem não conhece o senhor Doutor Marcio Basseto? O maior cientista vivo do país. Riu e se foi. Meu nome é Marcio? Boa bisca não devo ter sido para não me lembrar de nada. E ainda vivo? Estou morto e só ela não sabia. Risos. Entrei no bar do Joel. Foi para minha cadeira e minha mesa. Joel colocou uma garrafa na mesa. Um legítimo Buchanans 18 anos. Não era barato. Mas era o meu preferido.

                   Chegava ao anoitecer e quando Joel ia fechar eu saia. Sempre o mesmo taxi. O mesmo porteiro, o mesmo apartamento, a mesma cama e os pesadelos. Uma noite no bar do Joel, alguém sentou em minha frente. Doutor Marcio Basseto, permite-me. Permite-me? Já sentou “cacete” falei. Nem olhei, não precisava, varias vezes alguém aparecia para conversar e eu não queria. Conversar o que? Não sabia nada, não me lembrava de nada. Não conhecia ninguém. – Estou aqui a pedido de dona Eugênia Basseto. Olhei para ele. Na casa de seus 55 anos. Cabelos negros grandes com mechas brancas. Um bigode já ficando também branco. Todo o tipo de um advogado.

                   Doutor Marcio eu estou aqui em nome da Dona Eugenia Basseto. Levantei. Olhei para ele e sai do bar. Não estava a fim de conversar. Não estava a fim de lembrar. Não estava a fim de nada. Cacete! Ele devia saber. Não foi a primeira vez que me procurou. Se eu bebia era para esquecer e não ficar conversando com advogados idiotas. Não queria lembrar-se do meu passado. Pequei o primeiro taxi. Parou, entrei, para onde Doutor Marcio? Era sempre assim, eu era um “merda”. Não poderia me esconder nunca. Me leve ao inferno, por favor! Quem sabe o diabo me dá sossego?

                  Ele sabia. Levava-me ao bar do Joel de novo. Dava umas duas voltas e voltava ao ponto de partida. Minha garrafa de Buchanans estava lá. Joel sabia que eu ia voltar. Um dia desmaiei na mesa. Joel correu e chamou uma ambulância. Só acordei com o corpo em pandarecos num apartamento de um hospital. Em volta duas enfermeiras e um médico. Gritei – Meu uísque onde está? Ninguém respondeu. Tentei levantar não deu. Fios e buracos no corpo para todo lado. Chorei. Chorava querendo meu drink. Eles não diziam nada. Desmaiei. Acho que me sedaram.

                    Acordei calmo. Olhei o teto, não era do hospital. Um azul profundo. Não era teto ou era? Eu via o céu. Mas estava em uma cama. Meu corpo não doía. Não tinha fios ligados ao meu corpo. Olhei de lado e não vi ninguém. Muitas árvores. Muitas flores, bem perto uma bica de água doce corria e cantava sons intermitentes como se fosse uma obra de Bach. Johann Sebastian Bach. O meu preferido. Não sabia qual sonata, mas uns sabiás pousaram em uma árvore próxima. Canários rajados, amarelos e azuis faziam acrobacias no ar.

                   Onde estava? Uma nuvem branca se aproximava. Era ela. Tinha certeza. Maria Inês se aproximava com aquele seu sorriso que nunca esqueci. Ou já tinha esquecido? Junto a ela de mãos dadas, Darlene de um lado e Mauricio de outro. Todos sorriso se aproximando. Bach estava chegando ao auge com sua melodia. Minha cabeça começou a doer. Gritei alto. Não! Não deixe que ela se vá de novo!

                    Acordei suando. Gemendo. Médicos e enfermeiras do meu lado. Chega! Pelo amor de Deus! Não me cedem mais. Não estou agüentando! Eles não diziam nada. Apenas sorriam. Um sorriso enigmático. Porque não tiram minha vida? Matem-me ou me deixem ir para o meu lar. A mesa do bar do Joel. Lá pelo menos ele me entende. Ninguem dizia nada. Mamãe estava ali. Assim ela dizia. Claro lembrava que Já tinha dito que desaparecesse da minha vida. Nunca me ajudou. Sempre me odiou por ter casado com Maria Inês. Agora ficava sempre ao meu lado como uma ave de mau agouro.

                    Na minha mente, tocava harmoniosamente as Sonatas para flauta de Bach. Mas meu estomago pedia meu uísque. Malditos. Tragam meu uísque! Mas ninguém me atendia. Médicos e enfermeiras ali, feito idiotas sorrindo e me sedando. Dormi de novo. Uma sensação de alegria de novo. Lá estava Maria Inês correndo para mim, ao seu lado Darlene e Mauricio. A música aumentava o som. Pedia a Bach para não tocar tão alto as sonatas para flautas. Minha mente começava a gritar, o suor chegava. Tudo desaparecia. Meu Deus! Acho que estou louco. Uma bebida pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus!

                    Naquele dia quanto acordei não havia médicos. Ninguém no quarto. Levantei cambaleando. Muitos fios. Arranquei todos. Estava amarrado com uma bata azul clara. A bunda de fora. Por baixo nada. Olhei a janela, três andares. Dava para tentar descer. Tinha saliências entre um andar e outro. Consegui chegar ao primeiro depois caí no vácuo. Não perdi os sentidos, mas a perna esquerda doía muito. Mesmo assim saí mancando. Peguei um taxi, nem precisei falar. Levou-me ao meu edifício. Zezé o porteiro abriu a porta e me conduziu ao apartamento.

                    Lá estava ela, linda, como a amava aquela garrafa. Corri até ela. Coloquei o liquido no copo. Não sei por que nunca bebi no gargalo. Talvez fosse um costume do passado. Não sabia. Sentei em uma cadeira. Fechei os olhos. Enchi o copo novamente. Estava melhorando. Sabia o que fazer. Um banho! Isso! Tinha mais de duas semanas que não tomava um. Escolhi uma camisa azul clara. Mangas compridas. Uma calça azul de mescla. Um paletó marrom esporte. O Mocassim de sempre.

                  Pela primeira vez resolvi ir ao bar do Joel a pé. Estava um ar gostoso. Já tinha bebido quatro drinks. Notei que todos que me olhavam me cumprimentavam. Devia ser muito conhecido ou tinha muitas dívidas. Meu estomago doía de fome. Nunca pensava em comer só beber. Vi na esquina um carrinho de cachorro quente. Quanto tempo não comia um? Acho que muitos e muitos anos. Ainda não sabia o motivo, mas agora ia tirar o atraso. Sentei no meio fio, comecei a comer um. Pela primeira vez senti o gosto.

                 Alguém sentou ao meu lado. Um mendigo. Sujo. Imundo. Um cheiro ruim. Não importei. Pedi ao moço do cachorro quente que fizesse um para ele. Ficamos ali os dois sem falar nada. Comemos quatro cachorros quentes. Levantei, tirei do bolso duas notas de cem, dei para o mendigo. Paguei com uma de cinqüenta ao moço do cachorro quente. Fique com o troco eu disse. Se tinha tanto dinheiro no bolso tinha que ser rico.

                Já estava escurecendo quando cheguei ao bar do Joel. Alguém na minha mesa. Não gostei. Joel me disse que a moça queria falar comigo. Não iria embora enquanto eu não atendesse. Merda! Merda! Fui até lá. – Diga logo, essa mesa é minha e não gosto de convidados. Ela levantou a cabeça, sorriu. Um sorriso de Mona Lisa. Estava gostando daquele sorriso. Não podia. Tinha um passado que não lembrava e que me proibia.

                Sentei. Ela me olhou dentro dos olhos. Tenho uma proposta disse. Obrigado, eu mesmo compro minha bebida. E não gosto de prostitutas. Nada disso completou – Minha empresa tem um bom salário a lhe oferecer se resolver voltar a trabalhar e largar a bebida. Olhei para ela profundamente. Proposta? A única proposta que quero fazer é com Deus se ele me aceitar quando partir desta para melhor. Ela completou - Vou lhe deixar um cartão. Qualquer coisa me telefone.

                Levantou-se e saiu rebolando. Pela primeira vez assim achava, senti um pequeno calor no corpo. Logo Joel trouxe meu uísque. Beberiquei devagar o primeiro drink. Não estava entendendo. Só fazia isso quando passava dos dez. Por mais de uma hora não sorvi ele todo. Estava pensando. Mas juro que não sabia em que. Minha mente se fechava quando tentava lembrar. Agora lembrava mais amiúde do meu pesadelo. No inicio o sonho mais lindo que um homem podia ter depois o seu pior pesadelo.

               Pedi ao Joel colocar Bach. As Sonatas para Flautas. Não sei por que a chamava da Canção do Adeus. Tinha de haver um motivo. Não sabia. Não lembrava. Que merda meu Deus! Desculpe Deus! Foi sem querer. Fechei os olhos. Lá estava ela, linda, sorrindo, flutuando em nuvens brancas levadas pelo vento. Juntos Darlene e Mauricio. Mas que diabos eram isso? Quem eram eles? Abria os olhos. Joel atrás do balcão, alguns outros bebendo nas mesas subseqüentes. Um reclamou da Sonata de Bach. Joel o mandou para o inferno. Ri baixinho.

               Hora de fechar Doutor. Joel agora me chamava de Doutor.  Levou-me até o taxi. Este me deixou na porta do meu prédio. Não vi o Zezé. Era outro porteiro. Onde está o Zezé? - Foi embora. Pediu demissão. Voltou para sua terra no norte. Dizia que lá se vive aqui se vegeta. Pela primeira vez ninguém me levou ao meu apartamento. Subi as escadas com dificuldade. Não quis ir de elevador. Achava que desta vez bebi menos. Precisava me exercitar. No segundo andar senti uma forte dor no peito.

                  Acordei de novo no tal hospital. Lá estavam duas enfermeiras e o médico. Em pé, feito três panacas. Olhando-me e sorrindo. Não diziam nada. Ao lado minha mãe. Dona Eugenia Basseto. Mãe? Que mãe? Quando conseguia me lembrar nunca pensava em amor, só em ódio. – Ela dizia você vai morrer assim, Marcio Basseto. Eu sei que é o que você quer. Mas não se foge assim dos problemas. Senti uma dor aguda de novo no coração. Médicos acorreram. Massagens cardíacas. Nada. Meu coração parou de bater.

Prólogo                                       

                 Há três anos atrás, os maiores jornais do país em letras garrafais de primeira página, traziam escritos – DOUTOR MARCIO BASSETO, O PRIMEIRO BRASILEIRO A GANHAR O PREMIO NOBEL. Comparavam-no a Pierre Curie e Maria Curie pelo estudo da radioatividade. A maior descoberta na época. O Doutor Marcio, sem ajuda governamental e muitas vezes gastando do próprio bolso comprovou que a explosão de um tipo específico de estrela no fim de sua vida (supernova) e a análise da luz emitida nessas situações, demonstra que o universo cresce de forma acelerada e não cada vez mais devagar como se supunha.

                 A nação estava em polvorosa, pois nunca esperavam que um brasileiro pudesse ganhar um prêmio desta magnitude. Dois anos depois, os jornais traziam em letras garrafais na primeira página – O DOUTOR MARCIO BASSETO, É BALEADO NO JARDIM DAS ROSAS, E VIROU HEROI DO POVO. Seis terroristas tentaram matar os filhos do Presidente da Republica, que acompanhado de amigos e seguranças, estavam indo a pé para uma partida de futebol de salão.

                 O Doutor Marcio Basseto, sua esposa dona Maria Inês e seus dois filhos de seis e sete anos, Darlene e Mauricio, brincavam no jardim das Rosas quando os terroristas começaram a atirar. Doutor Marcio num ato heróico pegou um dos terroristas, tomou sua arma e matou três deles, outros dois ficaram feridos e o sexto fugiu, sendo capturado logo a seguir pela policia. Infelizmente os tiros dos bandidos mataram na hora a esposa e os filhos do Doutor Marcio. Ele levado ao hospital sobreviveu de uma bala alojada no cérebro que o fez perder a memória para sempre.

                 O Doutor Marcio Basseto e sua mãe dona Eugenia Basseto, pertenciam à aristocracia nacional. Ela sempre requisitada para festas beneficentes. Parece que não se dava bem com o filho. Doutor Marcio, filho único se distanciou de tudo e de todos quando resolveu se casar com Maria Inês uma jovem simples e humilde que morava em uma favela da capital.

                Os jornais do dia trouxeram a ultima noticia do dia, desta vez em uma pagina escondida onde se lia – Doutor Marcio Basseto. 1960 – 2008. O famoso físico Doutor Marcio Basseto, morreu ontem à tarde, no hospital Conrado Pacífico, vitima de parada cardíaca.  A família enlutada convida para o féretro que será realizado hoje, às quatro da tarde, no cemitério Jardim da Saudade.
        

Amor é um fogo que arde sem se ver, 
é ferida que dói, e não se sente; 
é um contentamento descontente, 
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer; 
é um andar solitário entre a gente; 
é nunca contentar se de contente; 
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade; 
é servir a quem vence o vencedor; 
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor 
nos corações humanos amizade, 
se tão contrário a si é o mesmo Amor? 

Luis de Camões