Bem vindo ao blog do Osvaldo

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quarta-feira, 6 de maio de 2015

A canção de Bernadete



A FLOR E A FONTE

"Deixa-me, fonte!" Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria
Cantava, levando a flor.

"Deixa-me, deixa-me, fonte!”
Dizia a flor a chorar:
 “Eu fui nascida no monte...
“ Não me leves para o mar”.

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

"Ai, balanços do meu galho,
“ Balanços do berço meu;
 “Ai, claras gotas de orvalho
“ Caídas do azul do céu!..."

Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.

"Adeus, sombra das ramadas,
“ Cantigas do rouxinol;
 “Ai, festa das madrugadas,
“ Doçuras do pôr-do-sol;

"Carícias das brisas leves
“ Que abrem rasgões de luar...
 “Fonte, fonte, não me leves,
“ Não me leves para o mar!"
*
As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor..
Vicente de Carvalho

A canção de Bernadete

           O sol estava vermelho junto às nuvens escuras que chegavam de mansinho naquela tarde fria de final de inverno. Bernadete se dirigia para sua casa depois de fazer sua peregrinação de casa em casa pedindo ajuda para sua mãe. Não tinham o que comer. Seu pai morreu de tuberculose e sua mãe ia pelo mesmo caminho. Mas Bernadete não sabia disto. Apenas oito anos e ninguém para explicar a ela que sua mãe partiria em breve. Não fora um dia ruim. Ganhou um pouco de arroz, um pouco de macarrão. Não era nada, mas daria para uns dois dias as duas se alimentarem. Bernadete não estudava. A escola não aceitou com medo que ela passasse a doença para as outras alunas.

           Não tinham luz elétrica e água encanada. Ela tirava a água necessária na cisterna no fundo do quintal. Bernadete cantava. Estava feliz. Dois dias sem ter o que comer. Sua mãe lhe ensinou a cantar nas horas difíceis. Cantava e sonhava com a música que aprendeu com ela. Luar do Sertão. Sozinha pela rua quase deserta ela cantava. “Não há, oh gente, não luar Como esse do sertão. Oh que saudade do luar da aminha terra, lá na serra branquejando, folhas secas pelo chão...”. Bernadete amava cantar esta canção. Ao entrar em casa saudou a mãe carinhosamente. Pela primeira vez não teve resposta. Foi até ao quartinho e sua mãe inerte. Não falava. Ela balançou chamando Mamãe! Mamãe! Era o fim. Ela sabia. Sua mãe se fora. Ela a tinha prevenido.

           No dia seguinte enterraram sua mãe no cemitério da Saudade no centro da cidade. Uma senhora da prefeitura se encarregou de tudo. Os olhos de Bernadete estavam vermelhos de tanto ela chorar. Agora não chorava mais. Esqueceu-se de pensar para onde ia, qual seria seu destino. Não conhecia ninguém. Nem sabia se tinha algum parente. Sua mãe nunca disse nada. Cantou baixinho quando sua mãe desceu a sepultura para sua última morada. “Este luar cá da cidade tão escuro, não tem aquela saudade do luar do meu sertão!”. A mulher da prefeitura disse para ela arrumar suas coisas. Ela ia morar com Dona Heloisa mulher do Seu Nivaldo o tabelião. Bernadete não disse nada. Não conhecia ninguém. Quem sabe seria feliz lá?

            Dona Heloisa a olhou de uma maneira que a fez tremer e baixar a cabeça. Disse – Menina, eu não gosto de preguiça. Não gosto de gente respondona. Não gosto de gente suja. Portanto faça o que eu mandar e vamos viver bem as duas. Curto seco e grosso. Nada mais. Nem uma palavra de carinho. Perdera sua mãe e agora perdera também alguém que a pudesse acariciar e dizer palavras como sua mãe dizia – Eu gosto de você, eu amo você. Bernadete recebeu as tarefas do dia. Varrer e passar pano molhado em toda a casa. Limpar todos os dias o quintal das folhas das arvores. Arrumar as camas, lavar as roupas dos meninos. Esqueci-me de dizer, Dona Heloisa era mãe de Larita e Lourenço. Não reclamou. Ambos eram quase da mesma idade dela com exceção de Lourenço. Dois anos mais velho. Quem sabe seriam amigos?

           Queria ser amiga deles, mas Dona Heloisa não deixou. – Você é empregada eles são os patrões. Fique no seu lugar. Bernadete quase ficou triste, mas lembrou de sua mãe e cantou: - “Não há oh gente, oh não luar...” isto a fazia lembrar-se da sua mãe e assim ela sorria. Seu Nivaldo nunca a cumprimentou. Nem olhava para ela. Era normal. Ela aceitava. Dona Heloisa não quis colocá-la na escola. Não disse o porquê. Bernadete ficava quando tinha folga escrevendo seu nome. Achou um livrinho de beabá jogado no lixo. Em pouco tempo aprendeu a ler sozinha. Ela era muito inteligente.

           O tempo passou. Os anos passaram. Os filhos de Dona Heloisa foram estudar em um colégio interno na capital. Bernadete torcia contando os dias e as horas quando eles de férias voltavam para casa. Ela se sentia feliz com eles ali. De vez em quando Larita falava com ela, mas Lourenço nunca. Estava ficando um belo rapaz. Com seus dezesseis anos já era bem alto, seus cabelos loiros caiam na testa e era um charme vê-lo balançar cabeça para tirá-los dos olhos. As moças da cidade morriam de amores por ele. Bernadete estava com quatorze anos. Nunca foi bonita. Tinha uma perna mais curta que a outra e andava mancando. Seu rosto não era feio apesar de ter os cabelos crespos e por isto ela mesma o cortava para não ficar grande demais. Tinha um lindo sorriso e isto encantava quem não a conhecia.  Dona Heloisa a presenteava uma vez ou outra com as roupas de Larita que não serviam mais nela. Bernadete se deliciava. Sorria e cantava: “E a gente pega na viola que ponteia, e a canção é a lua cheia a nos nascer do coração!”. Não conseguia fazer amigos. Não podia sair. Quando saia era para ir à padaria ou ao armazém.

            Bernadete nunca esqueceu o semblante de sua mãe. Dormia em um quartinho no fundo do quintal que ela arrumou ao seu modo. Gostava quando estava lá, pois fez amizade com um canário Belga amarelo que vinha sempre cantar para ela na janela. Não tinha cortinas. Não podia ter. Mas tinha uns vasinhos com flores silvestres que ela regava diariamente. Agora não era mais só o canário amarelo. Um sabiá e um Pássaro Preto se juntou aos outros. Eles sempre pela manhã acordavam Bernadete com seu cantar na janela e ela contente corria para saudá-los.

             Bernadete levantava cedo. Muito. Tinha de fazer o café, ir à padaria, e voltar à velha rotina da casa. De uns tempos para cá Dona Heloisa a deixava passear até a praça aos domingos à tarde. Gostava muito. Via gente, meninos brincando e ela sorria para eles com sua alegria infantil, pois a pureza de Bernadete persistiu por todos os anos da sua vida. Ela olhava as meninas a brincarem no pula-pula, no balanço e a descer e subir o escorregador. Quando todos sorriam ela cantava. Nunca deixou de cantar a canção que sua mãe ensinou para ela. “Não há, oh gente...”.

             Bernadete quando fez vinte anos ainda continuava a mesma. Sempre alegre, sempre fazendo tudo naquela casa. Agora cozinhava também, pois Dona Heloisa teve um problema nas pernas e não podia andar. Ficava em uma cadeira de rodas azucrinando o dia inteiro sua vida. Bernadete ficou mais encorpada. Seus seios cresceram. Suas pernas apesar de uma mais curta ficaram mais grossas. Seu cabelo ainda crespos cortados curtos lhe davam um aspecto faceiro e até sensual. Mas ela não sabia o que era isto. Um dia ao varrer o corredor ouviu gritos e correu para ajudar. Mas era no quarto de Dona Heloisa. Ela gemia e pedia mais. Bernadete não entendeu nada. O que seria? Um dia ao sair da igreja Sentou em um banquinho onde varias meninas conversavam. Falaram de sexo, de penetração, mas penetrar o que? Nunca tinha visto um membro de um homem. Ouvia falar, mas não sabia como era. Não era um assunto que ela queria pensar. Todas as noites ajoelhava próximo a sua cama e agradecia a Jesus por tudo que estavam dando a ela. Não passava fome, tinha um quartinho só dela e tinha os passarinhos que eram seus amigos. Ela quando deitava sentia os lábios de sua mãe a lhe beijar. Ela vinha todas as noites. Bernadete sabia. Dormia sorrindo!

              Um dia Lourenço chegou da cidade grande com uma moça linda. Faceira. Loira também e os cabelos compridos iam até sua cintura. – Meus pais, esta é Edna, minha esposa. Sua mãe levou um susto e seu pai quase caiu da cadeira. Bernadete sorriu para ela como a dizer – Seja bem vinda moça linda! Edna perguntou quem era Bernadete – Lourenço respondeu que não era ninguém. Uma empregada mal agradecida, pois deram tudo para ela e fazia tudo errado! Bernadete abaixou a cabeça e sem perceber começou a cantar baixinho – “A lua nasce por detrás das verdes matas...” – O que é isto Edna perguntou. Nada, ela é louca. Cuidado com ela.

               Um ano depois Lourenço deixava Edna sozinha em casa e ia para a Rua do Quebra Cachaça. Bernadete não sabia o que era isto, mas achou que não era boa coisa. Voltava tarde, bêbado e chingando todo mundo. Um dia chegou calado e foi até o quarto de Bernadete. Entrou e deitou com ela em sua caminha estreita. Bernadete assustou e ia gritar quando ele disse – Se gritar vou contar a todo mundo que você me chamou. E vão escorraçá-la daqui para fora. Rasgou sua camisola. Ela sentiu a dor da penetração. Foi forte. Ele logo parou, pois a molhou toda por dentro. Bernadete chorava baixinho. De dor e de vergonha. Lourenço arrumou as calças e foi embora. Por vários dias nem olhava para ela.

               Edna suspeitava que Lourenço tivesse feito “mal” a Bernadete. A maneira como ele procedia em casa junto a ela não dava para esconder. Notou que Bernadete quase não ria mais. Andava sempre triste, de cabeça baixa. Não demorou e a barriga de Bernadete começou a crescer. Dona Heloisa não perdoou. Queria a todo custo mandar ela embora. Uma “puta” isto sim dizia. Faltou com o respeito! Meu filho casado e ela nem pensou nisto? E minha filha o que vai dizer? Bernadete sempre ficava de cabeça baixa. Os olhos cheios de lágrimas, mas ela cantava sem ninguém ouvir – “E a gente pega na viola que ponteia...”.  Seu Nivaldo não deixou. E você nesta cadeira de rodas vai fazer tudo?

              Quando o filho de Bernadete nasceu, foi em outubro. À noite. Ninguém ajudou. Edna ouviu os gritos e correu a ajudar. O menino já havia nascido. Quando pegou o menino sentiu que era lindo! Não falou nada com ninguém. O levou para seu quarto e disse a Lourenço que ele seria filho dela, pois ele era o pai. Um susto. Lourenço não falou nada. Bernadete no outro dia tentou levantar. Lavou-se. Os pássaros cantavam para ela na janela apesar de sua dor e tristeza. Sentiu que toda a noite sua mãe estava lá. Sorrindo para ela e dizendo – Calma minha filha, sua recompensa não tarda. Bernadete com dificuldade voltou ao trabalho. Edna a chamou em um canto e disse que ia tomar conta do filho dela, bastava ela amamentar. Daria tudo a ele. Não iria faltar nada. – Você nunca teria condições de cria-lo! Bernadete chorou. Chorou muito, mas mesmo assim conseguiu cantar – “Este luar cá da cidade tão escuro, não tem aquela saudade do luar do meu sertão!”.

              Passaram-se os anos. Antônio Carlos cresceu. Bernadete o olhava com amor e carinho e sorria. Ele não gostava dela, sempre lhe virava as costas. Seu filho não sabia que ela era sua mãe. Nunca o beijou, nunca o abraçou. Viveu junto a ele até quando fez sessenta anos. Ele rapagão, bonito, forte, se formou engenheiro. Vinha em casa, trazia presentes para todo mundo. Para Bernadete não. Ela o olhava orgulhosa, seus olhos brilhavam. Lágrimas se faziam cair. Ela fazia tudo que ele pedia. Mas ele nem sequer lhe sorria. Mesmo assim ela cantava de alegria – “A canção e a lua cheia a nascer no coração!”.

             Um dia Bernadete começou a tossir, da tosse viu que sangrava. Tentou esconder. Dona Heloisa bem velha, mais de oitenta anos disse – Como sua mãe. Tuberculosa! Tire ela desta casa! Internem-na em um sanatório! Seu Nivaldo não deixou. Afinal Bernadete dedicou uma vida inteira a família, nunca teve nada, e agora por ela para fora? Dois meses depois, em uma manhã de sol brilhante, Bernadete ao acordar viu os passarinhos cantarem em sua janela, não era só os três, eram centenas. Foi uma surpresa. Ela nunca viu um dia tão bonito, ensolarado, lindas nuvens no horizonte. Parecia que estava em um enorme jardim e o perfume das flores era trazidos até sua janela por aragens refrescantes vinda do céu. A família veio correndo para ver o que era. Uma multidão de passarinhos a cantar próximo a janela de Bernadete. Entraram e a viram deitada inerte. Um fio de sangue escorria em sua boca. Estava morta.

              Bernadete os viu entrar tentou sorrir, ia pedir desculpas. Mas viu seu corpo na cama. Ia falar com eles, mas sua mãe chegou. Estava toda vestida de branco. Atrás uma luz brilhante com vários anjos a cantar e os passarinhos cantaram também. O que é isto perguntou Dona Heloisa, assombração? Saiu rápido em sua cadeira de rodas. Seu Nivaldo estava boquiaberto. Larita que estava visitando não suportou a forte luz que vinha da janela. Lourenço tremia e Edna sorria. Antônio Carlos não estava em casa. Tinha viajado para o “estrangeiro”.

              Os vizinhos acorreram à casa dos Nivaldos. Eram milhares de passarinhos. Nunca se viu tanto e todos voando em volta da casa de Dona Heloisa. Cantavam e faziam uma enorme algazarra. Bernadete ficou em dúvida. Ficar ali ou ir com sua mãe? Sentiu tristeza em deixar aquela família que apesar de tudo ela os amava. Sua mãe sorria e dizia, - vem minha filha, eles ficaram amparados apesar do que fizeram a você. Todos passamos por isto. Eles irão um dia também passar as dificuldades da vida. E Bernadete seguiu sua mãe. A luz forte e brilhante as acompanhou enquanto desapareciam no horizonte. A passarada foi atrás e nunca mais voltaram naquela casa.

             Bernadete ficou deslumbrada com a cidade onde foi morar. Era linda, toda colorida e cheia de flores. Não sabia que tinha tanta gente que a conhecia. Sempre diziam – Olá Bernadete. Seja bem vinda! Esperamos muito este dia. Que Jesus esteja com você! E todos sempre sorrindo. Eram centenas que iam visitá-la em sua casinha branca cheia de rosas perfumadas de todas as cores. Eles sorriam para ela, a abraçavam e beijavam carinhosamente. Ela sentiu ali que o amor era o elixir da vida que sustentava a cidade. Sentia que agora pertencia a uma família, uma família enorme, linda, a família de Jesus. Ele havia atendido seu pedido e as suas preces. Viu que sua tosse não existia mais. Viu que também se vestia de branco e adorava. E as tardes, ela e sua mãe sentavam na varanda e cantavam. Não se sabe como, uma viola invisível dedilhava a canção e os passarinhos seus amigos faziam um coro tão lindo que a transformavam na mais bela canção do mundo. Era Maravilhoso. Impossível descrever e tão incrível de ouvir que toda a cidade do além parava para escutar a Canção de Bernadete:

Não há, oh gente  
oh não, Luar  
Como esse do sertão.

Oh que saudade  
Do luar da minha terra  
Lá na serra branquejando  
folhas secas pelo chão

Este luar cá da cidade  
Tão escuro  
Não tem aquela saudade  
Do luar lá do sertão

Não há, oh gente...
Se a lua nasce  
Por detrás da verde mata  
Mais parece um sol de prata  
Prateando a solidão


E a gente pega  
Na viola que ponteia  
E a canção  
É a lua cheia  
A nos nascer do coração

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O Vale encantando dos sonhos perdidos.


O vale encantado dos sonhos perdidos

Foi em minha casa, passeando na net em que eu te conheci.
Foi encanto, foi magia, por trás de uma simples telinha.
Que muitos sonhos eu vivi.
Eu não sei como é seu rosto,
A não ser o seu retrato e seu lindo nome.
Em meus poemas te digo quantas vezes.
Pronuncio seu nome.
Suas mensagens eram lindas encheram-me de alegria.
 Até chegar o dia, de ouvir sua voz linda e macia.
Estranho, gostar de alguém assim
Tão longe e tão perto nunca Juntos enfim

               
             
                 Andava a esmo, sem rumo. Tropeçando. Não sabia aonde ir e de onde tinha vindo. Seus olhos fechando, o sono chegando, mas ele sabia que não podia parar. Encurralaram-no próximo da barranca da virgem do rio das Velhas com o São Francisco. Escondera-se por dias em uma velha igrejinha abandonada. Não era um bom esconderijo. Só viu quando uma dezena de macacos (policiais volantes) o cercaram. Saiu atirando com seus dois 38 cano longo. Deixou seu fuzil para trás. Seu cavalo também. Agora sabia que o tinha perdido para sempre. Pena, gostava dele.
                
                 Rosa Maria cantava. Sempre as tardes quando o por do sol ficava vermelho ela gostava de cantar. Havia um banco de madeira na porta de sua casa e ali ela olhava o céu cheio de estrelas ou a lua cheia da primavera. Diziam que tinha uma linda voz e cantava como uma cotovia. Nunca tinha visto ou ouvido uma. Diziam-se, acreditava. Acreditava em tudo. Nascera ali, naquela barranca do São Francisco. A cidade mais próxima que conhecia era o povoado de Cruz das Almas. Não mais que 500 almas perdidas naquele mundo de Deus. Nos seus dezessete anos acreditava em tudo. Não tinha namorado, não tinha sonhos não sabia o que era amor e nem sabia o que era apaixonar. Era fervorosa filha de Jesus e quando pudesse ia servir a Deus para sempre. Tinha sonhos de ser freira.
                
                Seu corpo não ajudava. Tinha de parar. Levara dois tiros. Um pouco abaixo da omoplata e outro acima da coxa esquerda bem perto da virilha. Era uma dor terrível. Já não sangrava mais. Tinha certeza que havia mandado para os infernos pelo menos uns dois macacos. Há meses estavam atrás dele. Ele não se arrependia de nada. Era um jagunço. Um dos últimos do sertão. Agora não tinha amigos, todos se afastaram ou foram mortos. Arrastava-se com um galho de um pequizeiro e não entendia porque ainda não tinha morrido. Dizem que raça ruim não morre. Só pode ser.

               Rosa Maria levava para casa como fazia todas as tardes, uma lata de vinte litros de água potável equilibrada na cabeça. O córrego de águas limpas ficava perto. As chuvas tornaram o São Francisco com águas barrentas. Vivia só com sua mãe. Ela era cega. Desde que nascera fora assim. Quem não soubesse não desconfiaria. Andava por ali, em volta da casa e até ia pescar, pois ali viveu toda a sua vida. Sabia que ali sua mãe seria enterrada. Próximo a sua casa existia uma cruz. Sua mãe dizia que ela enterrara seu pai, que morreu gritando de dor, por causa da mordida de uma cascavel.

                Encontrou um bosque de espinheiros. Adentrou e escolheu um local ermo e ali dormiu. Não sabia se ia acordar ali ou prestando contas de suas maldades a Deus. Poderia ter confessado com o padre Jesuino, mas ele mesmo perdoando não ia entender porque ele havia matado tanta gente. Diziam que ele era o pior de todos os jagunços que viveram naquelas terras perdidas no sertão de Minas Gerais com a Bahia. Não sonhou. Ele não sonhava. Pouco se lembrava de Constancia que um dia fora sua mulher e morrera quando os macacos o encurralaram em sua casinha próxima a Macaxeira. Deram trinta tiros nela. Sem dó e sem piedade.

                 Rosa Maria havia se lavado. Trocou de roupa. Tinha poucas. Dois vestidos de chita que usava quando ia rezar na capela do Padre Laurindo que uma ou duas vezes por ano ia ali para fazer batizados e casamentos. Duas saias de popelina e duas blusas que “seu” Waldomiro, um "Velho" pescador vizinho trouxera quando foi em Pirapora. Ela sonhava em ir a Pirapora. Seu Waldomiro contava maravilhas de lá. Ela deixava se levar com seu conto. Sabia que nunca iria lá. Era difícil. Deixar sua mãe só não podia. Acendeu a lamparina. Estava escurecendo. Queria ter um radinho de pilha igual do “seu” Waldomiro, mas não podia comprar e como ter pilhas reservas? Como seria bom ouvir umas musicas!

                Acordou várias vezes à noite. Suava. Um frio miserável o deixava tremendo. Um pesadelo o martelava e o acusava. Estava na porta do céu e o santo dizia que ali não podia entrar. Foi para o inferno e o demônio também o recusou. O acusavam de ter matado crianças, jovens, mulheres, homens e animais. Diziam que matava tudo que encontrava pela frente, principalmente seres vivos. Quando o sol começou a nascer se levantou tropeçando. Não tinha água. Uma sede terrível. Porque ele não morria? Raça ruim – repetiu. Coisa ruim não morre. Seguiu em frente. Não sabia até quando agüentaria mais um dia. Suava, seu corpo fedia. O sangue dos buracos das duas balas havia coagulado.

                 Rosa Maria acordou como sempre com o cantar do Carió, seu galo preferido. Tinham dois. Agradeceu a Deus pela noite e pediu a Jesus que protegesse sua mãe naquele dia e nos que virão. Não pediu para si. Não se lembrava disto. Lavou o rosto e usou uma escova de dente velha sem pasta, mas que ajudava a manter seus dentes sadios. Colocou alguns gravetos no fogão de barro e fez o mesmo café, aproveitando a borra do dia anterior. Não podia gastar. Levou para sua mãe. Estava sentada na cama. Era só o café pela manhã. Sabia que as goiabeiras estavam carregadas. Foi até lá com uma bacia. Ela e sua mãe comeram com gosto.

                 Avistou ao longe uma fumaça branca, rala. Achou que seria a morada de alguém. Ficou em dúvida se poderia ser os macacos ou se estavam à espera dele. Capengando foi até uma colina e lá avistou uma choupana de barro coberta de sapé. Não viu ninguém, chegou mais próximo e caiu numa vala onde corria um pequeno riacho. Ficou ali por muito tempo. Precisava daquela água mais que tudo. Desmaiou. Achou que agora sua vez havia chegado. Precisava morrer. Tinha que morrer. Ele estava morto e não sabia.

                 Rosa Maria o viu cambaleando pelos campos e cair na vala do riacho seco como o chamavam. Foi até lá e o viu desmaiado. Achou que estava morto, mas seu nariz fungava e seus olhos abriam e fechavam. Arrastou-o com dificuldade até sua casa. Contou para sua mãe. Ela disse que não. Ali não. Tinha experiência e podia ser um jagunço procurado. Não podiam se comprometer. Pediu para ela ir até a casa do seu Waldomiro e chamar à volante. Ela não obedeceu. Pela primeira vez não obedeceu. Sabia da gruta escondida na curva do rio e o levou para Lá. Não sabia o que fazer. Não tinha remédios. Nada.

                Ele abriu os olhos. Estava no céu. Um anjo estava com ele. Perguntou se Deus havia perdoado seus pecados. Viu o anjo rindo preocupado. Não era um anjo, agora podia ver melhor. Era uma linda jovem. Estava febril, gemia de dor das balas no corpo. Pediu para ela fazer uma fogueira. Esquentar água. Iria tirar as balas dele. Ela assustou. Nunca disse. Vai sim, se não fizer volto para atormentar você e sua família. Todas as noites. Não darei paz a ninguém. Mato você, seus parentes e deixo para os urubus. Tirou sua faca presa nas costas. Deu para ela colocar a ponta no fogo.

                Rosa Maria estava apavorada. Fez o que ele mandou. Ele gritou quando a faca entrou em seu ombro. Rosa Maria tinha as mãos de seda. Se tivesse sido médica seria uma grande cirurgiã. Tirou a bala do ombro, da virilha não. Estava funda demais. Ele disse para deixar. Tinha mais cinco balas no corpo. Mandou-a pegar seu lenço, embebedar em álcool ou óleo. Ali não tinha. Rosa Maria foi a sua casa e trouxe óleo e um pouco de sal que ele havia pedido. Ferveu água, misturou o óleo com sal e colocou nas duas feridas das balas. Que experiência meu Deus!

                Pela primeira vez ele dormiu. Por mais de quinze horas seguidas. Acordou com fome e sede. Uma fome enorme. Não viu ninguém na gruta. Levantou com dificuldade. Sentiu que as feridas iriam se cicatrizar. Não era a primeira vez. Seu corpo tinha dezenas de cicatrizes. Marcas de bala. Com dificuldade chegou até a entrada da gruta. Escondeu-se. Viu lá embaixo vários cavalos. Sabia que era a volante. Macacos do inferno! Pensou. Encontrou um pouco de água numa bilha de barro. Bebeu com sofreguidão. Olhou de novo. Lá estavam eles. Olhando para todo o lado. Procurando. Se aquele anjo ou sua mãe desse com a língua dos dentes, ele sabia que não tinha salvação. Mas tinha jurado que não ia morrer sozinho.

                Rosa Maria estava apavorada. O Capitão da volante desconfiou. Deu-lhe um tapa com força no rosto. Conte a verdade putinha! – Ela negava. Nada dizia, sua mãe estava desmaiada, tinham dado uma coronha nela. Achava que tinha morrido. Ele bateu de novo e de novo. Ela serrou os dentes. Dois se espatifaram. Mandou dois soldados da volante a violentarem. Eles não tiveram coragem. Ambos tinham filhas naquela idade. Um terceiro não se fez de rogado. Ela gritou de dor quando ele a penetrou. Depois veio outro, desta vez por trás. Ela sentiu a pontada. Um estupro e uma dor terrível. Ela nada disse. Desistiram de tudo e do espancamento. Achava que ali ninguém sabia de nada.

                  Ele viu quando os macacos se foram. Esperou um longo tempo e desceu. Encontrou-a chorando, gemendo de dor. Toda ensangüentada. Jurou matar o capitão da volante. Quando ele jurava que Deus tivesse piedade da alma do escolhido. Tratou-a como pode. Ela soluçava. Sua mãe estava morta. Ele ajudou-a a enterrar junto de seu pai na curva do rio. Ela não chorava mais. Também não ria. Seu semblante era de ódio. Naquela noite fizeram amor ali na cabana. Ele foi gentil com ela. Ela pela primeira vez, pois era virgem antes da maldade da volante, sentiu o prazer de ser possuída com carinho. Não dormiram abraçados. Ele sempre a espreita, na janela, olhando o horizonte.

                  Ele disse que ia partir. Chegou a hora, pois já se sentia recuperado. Ainda estava com a faca e os dois trinta e oito. Poucas balas, mas daria para dar uma lição naquela volante Filho da Puta. Ela disse que iria com ele. Ele recusou. Ela insistiu. Não tinha parentes, sua mãe morreu. Ficar ali para que? Queria ir para ajudar a matar o capitão da volante. Olhou para ele com seus olhos negros e com tanta determinação que ele não soube dizer não. Disse que tinha esse direito. Ele se lembrou de Constancia. Era determinada como ela.  Foram para as colinas em direção a Capitão Honório. Lá iriam roubar alguns cavalos, dinheiro, viveres e seguir a trilha dos volantes filhos de uma égua.

                 Rosa Maria cresceu. Ficou adulta em meses. Nunca mais sorriu. Dezesseis anos e virou mulher. Uma mulher dura e temida por todos cujo único sonho era encontrar e capar aquele capitão filho da puta. Viveu com seu jagunço por mais cinco anos. Seguiram as pegadas da volante por anos. Encontraram o capitão bebendo pinga em um boteco perto de Cracatua. Ele nem entendeu direito o que acontecia. Arrastaram-no pela estrada até o morro do Cavalo Doido. Ele a olhou e pensou em tê-la reconhecido. Estava amarrado em duas árvores em V e nu. Ela riu pela primeira vez em anos. Um riso de ódio e sem esperar o matou sem dó e sem piedade. Ela mesmo decepou sua cabeça não antes de enfiar um cabo de madeira grosso e cheio de espinhos no anus daquele nojento filho da puta. Ele berrou e gritou feito um porco capado. Fincou sua cabeça fedida num bambu na fazenda do Chico Bento.        

               Correram o sertão e não perdoavam ninguém. Um medo terrível nas fazendas e nos povoados com a chegada deles. Varias volantes se formaram e correram o sertão em busca dos jagunços do inferno. Pareciam estar mancomunados com o demônio, pois desapareciam como pó levado pelo vento.  Uma lenda se formou. Diziam que os Anjos do inferno tinham descido a terra e fizeram uma nova Rosa Maria. Ela e seu jagunço se amaram em lugares nunca antes imaginados. Amaram-se como dois amantes loucos nos espinheiros da Bahia e até nas escaldantes terras de buritis em Minas Gerais. Não tiveram filhos. Não poderiam. Não tinham futuro. Só o presente. O passado se foi. Agora era ele e ela. Nada mais importava.

                 Ele morreu sorrindo com uma saraiva de balas da volante e com seus dois trinta e oito jorrando balas para todo o lado. Matou não sei quantos. Ele já sabia que este era seu fim. Nunca teve medo. Uma palavra que não existia para ele. Sabia que Rosa Maria tinha escapado. Ele a deixara para trás quando sentiu a volante em seu encalço. Sabia que ela esperava um filho seu. Não deixaria que ela o tirasse como fez com os outros. Agora era hora de enfrentar o demônio. Ele estava preparado. Tinha que descansar sua cabeça em algum lugar. Poderia ser no céu ou no inferno. Não importava. Tanto faz. Não tinha escolha. Seu mundo fora aquele. Não conhecera outro.

                 Rosa Maria chegou tarde demais. A volante já havia levado seu corpo para Buritis. Ela sabia que ele estava morto. Ele nunca se entregaria. Jurava que neste dia levaria alguns macacos com ele. Seguiu outro rumo. Desceu o São Francisco numa Gaiola. Tinha algum dinheiro. Pegou um ônibus para São Paulo. Criou Rafinha Lá. Um lindo garoto. Quem a conhecia não se aproximava. Vizinhos e amigos tinham medo. Seus olhos mostravam ódio. Nunca mais sorriu para ninguém. Homem nenhum se aproximou dela. Ela não deixava. Só tinha olhos para Rafinha.

                  Rosa Maria morreu com 91 anos de idade. Nunca contou sua vida para ninguém. Era uma mulher só. Nem Rafinha sabia. Todos ficaram assustados quando do seu funeral. Ela sorria. Um lindo sorriso de companheirismo e de amor. Rafinha se tornou um homem. Fez curso no SENAI. Torneiro. Ganhava bem. Nada faltava para sua mãe. Deu a ela um enterro de primeira no melhor cemitério da cidade. Diziam que todas as noites umas luzes vermelhas eram vistas em seu túmulo. Seu homem não a deixava sozinha. Amavam-se sempre ali embaixo de um abacateiro. Ele partia ao amanhecer. Dizia que o diabo não dava folga e ria. Ela tentava rir, mas não conseguia. Esperava todas as noites sua visita.

                  Contaram mais tarde, que na sepultura de Rosa Maria nasceu um lindo pé de Buritis. Sempre florido, seja na primavera ou no outono. Quando o sol se punha um clarão vermelho aparecia. Todos tinham medo. Ninguém se aproximava. Seja feliz Rosa Maria. Seja onde estiver, seja feliz com seu jagunço que amou para sempre...

Morrer, dormir, não mais: termina a vida
E com ela terminam nossas dores,
Um punhado de terra, algumas flores
E às vezes uma lágrima fingida.
Sim, minha morte não será sentida,
Não deixo amigos e nem tive amores!
Ou se os tive, mostraram-se traidores,
Algozes vis de uma alma consumida.
Tudo é pobre no mundo; que me importa
Que ele amanhã se esb’roe e que desabe
Se a natureza para mim está morta!
É tempo já que o meu exílio acabe;
Vem, pois, ó morte, ao nada me transporta!
Morrer, dormir, talvez sonhar, quem sabe?

segunda-feira, 6 de abril de 2015

O Gigolô, a menina virgem e o Padre Exorcista.



Menina sensível

Minha linda,
Minha menina sensível,
Garota carente!
Quero fazer de você
Uma fêmea fogosa,
Devassada,
Penetrada
Na frente e verso,
Sacudida e virada ao avesso,
Mas saciada,
E satisfeita,
Enfim
Uma mulher realizada.

E eu,
Eu serei o que você quiser.
Serei seu abrigo,
Seu aconchego,
Seu primeiro homem,
Seu conforto,
Seu amante,
Vibrante,
Um comediante,
Ator galante,
Um macho fulgurante,
De Olhar penetrante,
Seu guia ora em diante.

Serei aquele que vai lhe ensinar
A ser atrevida, fogosa e ardente,
Mas sem deixar de ser
Aquela garota sensível,
Gentil, carente,
Que trás no rosto
Um sorriso terno e meigo,
Propensa a sonhar
Com venturas sem fim...
Willian Armien


Menina sensível
O Gigolô, a menina virgem e o Padre Exorcista.

Tentei me esconder em vários lugares. Ninguém queria me ajudar. Por mais que pedisse todos me viraram as costas. Até as meninas que eu tomava conta e que pensei que gostavam de mim se viraram contra minha pessoa. Claro eu entendia o medo de todos. Cicatriz era temido no bairro. Diziam que ele tinha parte com o Demônio. Eu não pensava assim e para dizer a verdade não tinha medo dele. Maldita hora que tomei emprestado aquele dinheiro. Maldito agiota. Uma merda, uma merreca, menos de cinco mil reais. Mas o valor foi crescendo, crescendo e o filho da puta dizia que já devia a ele mais de vinte mil.

Lembro que cheguei aqui com uma mão na frente e outra atrás. Todos me achavam bonito. Lá em Santo Antonio do Monte diziam que eu podia ser ator de novela, ou até de cinema. Diziam que eu parecia com Mel Gibson. Risos. Minha mãe não gostava do meu estilo. Dizia que eu era espalhafatoso. As meninas viviam atrás de mim. Ainda não tínhamos telefone, mas os bilhetinhos e as cartas no correio chegavam aos montes. Claro, tive uma ou outra, mas sempre fui respeitador. Sabia que ali transar com alguma ou era morte certa ou então tinha de casar com uma arma nas costas junto ao delegado.

Com dezessete anos me mandei para São Paulo. Nunca mais voltei. Soube um dia pelo Limão, um caixeiro viajante que ia sempre lá que minha mãe não chorou com minha partida. Dizia que ele me amaldiçoou. Disse que nunca mais queria me ver. Bem a principio eu a esqueci. A cidade grande, os amigos, as coroas ricas que levava para a cama, faziam de mim um folgado. Eu levava um vida que pedi a Deus. Mas tudo foi só uma ilusão. As noitadas, as bebidas e eu virei um trapo. Não achava mais as mulheres ricas para sair comigo. O dinheiro começou a rarear. Tive então uma ideia, porque não arrumar algumas meninas e mostrar que eu poderia tomar conta delas?

A primeira foi a Rosangela. Uma morena linda. Um corpo lindo. Tinha um dente cariado, mas isto era fácil. Um dentista, e pronto. Conversei com Lidonio, o dono de um hotel de terceira na esquina da São João com a Rua Formosa. Ele me emprestou um quartinho, que dava para iniciar. Se o lucro conforme esperava fosse maior, alugaria outro quarto. Enquanto as meninas usavam com seus clientes eu ficava por ali de olho nelas. Sabia que tinham outros querendo aliciar para seu covil.

Marlene foi à segunda. Baixinha mas um lindo corpo. Recém-chegada de Várzea da Roça uma pequena cidade no interior da Bahia. Marli foi a terceira e última. Não era fácil meu trabalho. Muitos clientes não queriam pagar, outros achavam que podiam espancar e era a hora que tinha de agir. Marli era o tipo de mulher que eu me casaria. Mas ela nunca se interessou por mim como amante. Claro uma vez ou outra dormia com ela. Mas tudo parava por aí. Ninguém entendia meu trabalho. Para mim um trabalho como qualquer outro. Achavam que eu era um aproveitador, demagogo e explorador de mulheres. Não sou nada disto.

Uma tarde Marlene passou mal. Rosangela correu a me avisar. Levei-a em um pronto socorro. Mau atendimento. Ela ficou lá jogada as traças. Levei-a em um hospital próximo. Pediram uma caução. Dei o dinheiro que tinha no banco. Acharam que era pouco. Gritei para atendê-la e um médico me deu uma hora para ver o saldo. Já tinha ouvido falar no Cicatriz. Ele me emprestou os cinco mil. Pagar a ele em uma semana com juros de vinte por cento.

Durante quinze dias ela ficou entre a vida e a morte. Gastei o que não tinha. Cicatriz veio me cobrar, pedi mais uma semana. Ele deu. Agora dizia, devia a ele mais de dez mil. Marlene saiu do hospital e me pediu para passar uns tempos com sua mãe em Buritizeiro Minas Gerais. Não tinha como negar. Mas o dinheiro não entrava. Cicatriz me deu vinte e quatro horas. Depois iria me cortar todo com navalha. Disse que ia dar meu “pau” de graça para as pombas do Vale do Anhangabaú.

Precisava desaparecer por uns tempos. No dia anterior Cicatriz pelas costas enfiou uma faca pontuda no seu braço. Isto é só o começo, disse. Rosangela fez um curativo. Expliquei as duas que tinha de dar um sumiço. Que elas aguentassem sozinhas. Cuidado com falsas promessas de outros homens que poderiam querer me substituir. Peguei um ônibus até Guarulhos lá embarquei para Santo Antônio do Monte. Ia procurar minha mãe. Ela não negaria ajuda. Foi uma viagem cansativa. Mais de quinze horas. Bem no interior de Minas Gerais.

Havia mais de doze anos que eu tinha saído da cidade. Quando o ônibus entrou na periferia vi que nada mudou. As mesmas casas, as mesmas ruas barrentas, o coreto, a igreja, a prefeitura alguma ruas com o mesmo calçamento de pedra. Estava com uma pequena maleta e atrai a atenção de todo mundo. Ninguém parece tinha se esquecido de mim. As moçoilas na janela sorriam e piscavam o olho. A casa de mamãe era a mesma. Uma pintura amarela descascada, uma janela simples e o mesmo portão de ferro do passado.

Mamãe me recebeu com um sorriso. Oitenta e cinco anos. Agora em uma cadeira de rodas. Falava pouco. Dona Mercês era quem cuidava dela. Uma santa, pois o dinheiro que recebia da aposentadoria do meu pai não dava para nada. Mas a casa era limpinha. A roupa também.  No quintal sempre tivemos uma horta. Muito tomate, verduras, pés de mamão, goiaba e tantas outras frutas que sempre tínhamos alguma não importando o mês. Cheguei sem dinheiro. Mal tinha para cobrir o gasto com um café no bar do Joca.

Os amigos não demoraram a aparecer. Alguns mais duro que eu. Fiquei um bamba na sinuca e ganhava uns trocados apostando. Divaldo foi quem me mostrou a menina virgem. Lá estava ela na praça com sua mãe do lado. – Todo dia ela vem com a mãe. Sentam no banco da praça e depois vão à igreja. Lá sempre tem muitas beatas que acreditam que ela faz milagres. Eu mesmo nunca vi, mas dona Clotilde disse que a pedra do rim sumiu depois que ela colocou a mão. Divaldo era um pândego. Não contou a verdade. Parecia um pacto de silêncio.

Prestei mais atenção na Virgem. Caramba! A danada era linda. E que rosto meu Deus! Vestia-se de branco e os cabelos cobertos por um manto também branco. Ela me olhou de soslaio. Divaldo riu e disse que podia tirar ao cavalo da chuva. Sua mãe não desgrudava dela. Mas gostei de flertar com a Virgenzinha. Fui para casa pensando que ela seria um “patuá” na cama. Como mudei Nossa Senhora! Dormi sonhando com a Virgem. Fiquei duro a noite toda. Ainda não era meia noite e batiam na porta com força. Abri. A surpresa! Era a mãe da Virgem.

- O Senhor tem de vir comigo a minha casa. Ela está tomada de novo. O Demônio não a deixa em paz! Quase um ano sem ataque. Está quebrando tudo em minha casa e diz que se não for lá ele vai desgraçar minha filha! Pelo amor de Deus! Vem comigo! Não estava entendendo nada. Que diabos era o tal demônio? Mas vesti uma roupa as pressas e fui com ela. O que vi me deixou boquiaberto! Ela a Virgem estava nua na porta. Ninguém na rua olhava, pois todos se escondiam atrás das janelas de suas casas.

Seu rosto mesmo angelical tinha um que de maldade. Rosnou grosso e me disse a queima roupa – Ainda bem que veio filho de uma égua, agora você vai-me foder! E com força! Estou doida para dar para você, até o rabo se for preciso! Deus do céu! O que era aquilo? Não era ela. Estava tomada por alguém que diziam ser o demônio. E que força descomunal! Agarrou-me pelo braço e me arrastava para seu quarto. A mãe gritava e berrava. Pelo amor de Deus, não faça isso com minha filha. Não sabia se ela falava comigo ou com o satanás que estava dentro dela.

O padre José chegou correndo. De novo Dona Maria? – De novo padre. Ela quando viu o jovem na praça começou a se transformar. Nem fomos à igreja. Ela não deixou. Vi que ia dar um espetáculo no meio da rua e corri para a casa. Lá ela se acalmou um pouco, mas tão logo escureceu o Demônio tomou conta dela. Rasgou as roupas, tirou a calcinha e ficou dançando na varada. Não sei mais o que fazer. Padre – O que fiz para merecer tudo isto?

O padre jogou água benta na virgem. Ela olhou para o padre e lhe deu um belo soco no queixo. Com tanta força que o padre caiu desmaiado de encontro à parede. A virgem não me soltava. Rasgou minhas calças, pegou no meu membro e gritou – Bota ele duro filho da puta! Duro? Nunca daquele jeito. Tentei me desvencilhar e nada. Vi encostado atrás da porta um banquinho de madeira. Peguei o mesmo e arremessei na cabeça da virgem.

Ela me soltou e sai correndo pela porta atingindo a rua. Entrei em casa e tranquei a porta. Eu tremia. E como tremia. Que diabos seria isto? Jesus Cristo me ajude, pois nunca imaginei uma coisa desta. Deitei em minha cama e custei para dormir. Acordei tarde. Abri a janela de leve. Nada na rua. Tomei um banho frio e um café bem quente e fui para o bar do Joca. Todos me cercaram. O que aconteceu? Comeu a virgem? Todo mundo sabia do acontecido.

Lembra-se do Joildes? Aquele que trabalhava no armazém do Coelho? Ela encrencou com ele. Um dia arrastou ele para a casa dela. O obrigou a foder com ela. Ela gritava e berrava. Saiu de lá correndo todo ensanguentado. “Ela cortou seu pau e ele ficou ‘cotoco”. Fugiu daqui e ninguém nunca mais o viu. Estava mesmo assustado. Menos de dois dias na minha cidade e tinha conhecido o inferno. O que fazer? Voltar para a capital era morrer na mão do Cicatriz. Ficar ali a danada ia me capar.

Nem fiquei por muito tempo no bar do Joca. Fui para casa e arrumei minha mala. Quando ia sair o ônibus estava chegando. A surpresa era grande. Nada mais nada menos que Cicatriz nele. O desgraçado deve ter descoberto com as meninas onde eu estava. Não saí de casa naquele dia. Quando amanheceu soube do ocorrido. Ela viu o Cicatriz. Agarrou-o e levou para a casa dela. Dizem que ficou “comendo” ele a noite toda. De manhã ele saiu correndo com a mão no saco. Sangue prá todo lado.

Não sei para onde foi. Nunca mais o vi. Voltei para São Paulo. Minha vida voltou ao normal. Agora fazia boas economias. Abri uma firma fictícia. Só para registrar as meninas e dar a elas um plano de saúde. Quando souberam disto as outras começaram a me procurar. Agora agenciava mais de dez meninas. Arrumei um contador. A firma ia de vento em popa. Cicatriz sumiu. A virgem nunca mais a vi, pois não voltei mais a Santo Antônio do Monte. Acho que lá os rapazes são todos capados. Que se fodam.

Contaram-me depois, muito tempo depois que o padre fugiu da cidade. Também sem saco. Risos. O Coronel Fagundes da Fazenda Córrego D’água comeu ela e não deixou que cortassem seu saco. Acho que o demônio apaixonou pelo coronel. Anda com ela de braços dados pela rua e ela dá grandes gargalhadas. Eu perdi o tesão por um bom tempo. Só de pensar cortarem meu saco ele murchava.

Ainda estou solteiro. De vez em quando dou uma ou outra nas minhas meninas. Aos poucos vou voltando a acreditar que nenhuma delas é a virgem de Santo Antônio do Monte. Que Deus me ajude. Sei que mamãe ainda está viva, mas não pretendo voltar lá nunca mais. Se tem uma coisa que preso muito é meu saco!
O final a pensar

Virgem! Filha minha
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
Da flor carmesim.
E os brincos da orelha,
Fazendo tlintlin?
Minha mãe querida
Venho do meu jardim,
Onde a olhar o céu
Fui, adormeci.
Quando despertei
Cheirava a jasmim.
Que um anjo esfolhava
Por cima de mim...


Vinicius de Morais.

domingo, 22 de março de 2015

A sombria e esquecida cidade de Cordel Azul.



Mistério

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

A sombria e  esquecida cidade de Cordel Azul.

               Todos diziam que Cordel Azul foi no passado uma linda cidade, cheia de vida cheia de alegrias, sua praça e seu coreto sempre cheias de gente. As ruas eram limpas, o sol brilhava, e as noites se faziam lindos saraus e nas ruas sempre tinham os seresteiros cantando juras de amor as suas amadas. Os pássaros em bandos cantavam nas arvores e o céu a noite tinha as estrelas mais lindas do universo. Um dia  Jasão de Albuquerque chegou à cidade. Tinha uma perna mais curta que a outra e apesar de fazer tudo para não mancar não adiantou. – O manco chegou à cidade! Disseram a molecada brincando com Jasão. Ele era caladão, não respondia, e seguiu seu caminho até o Bar do Firmino. Sentou e pediu uma pinga – Deixa a garrafa, por favor! Todos olharam espantados para Jasão. Bebeu devagar, copo por copo. Terminou e perguntou ao Firmino onde poderia se hospedar.

               Cordel Azul era uma cidade pequena, três mil almas? Por aí. Todos se conheciam, os ricos eram ricos e os pobres eram pobres. O Juiz Comendador Salomon de Piaçaba era o dono da cidade. Seu bisavô chegou por volta de 1850 e se assenhorou de boa parte das terras. De pai para filho se chegou ao Juiz Salomon. Ele mesmo foi quem fundou a cidade. O governador prometeu que a estrada de ferro passaria por lá e ela nunca deu as caras. Mesmo assim o povo que morava nas estancias e proximidades do Rio Azul se aglomeraram lá, uns fizeram um moinho, outros uma olaria, O pai de Firmino inaugurou seu bar servindo cachaça para todo mundo. O povo era feliz. O padre satisfeito com Sulamita que no dia limpava a capela e noite servia o padre na cama episcopal. Ninguém incomodava ninguém. Viver e deixar viver era o lema da cidade. Se o Comendador Salomon não quisesse ele que se manifestasse.

                  O botequeiro Firmino olhou espantando para Jasão. Vai dormir aqui? Jasão olhou para ele franzindo a testa e nada disse. – Olhe moço, não tem hotel nem pensão aqui. Dona Veneranda costuma alojar os caixeiros viajantes. Siga na rua ao lado e no final vai ver a casa dela. Tem um pé direito alto, janelas tipo renascentista, toda pintada de verde musgo. Jasão tirou uma nota de cinquenta reais e pagou. – Sem troco moço! Fique com a nota e abra uma conta para mim. Jasão partiu sem despedir de ninguém. Até hoje ninguém soube o que ele falou para Dona Veneranda, mas ela o aceitou e a cidade em peso querendo saber do novo inquilino. Eles conheciam Dona Veneranda. Um tumulo. Parecia que ela não gostava da cidade. Passou-se duas semanas e ninguém viu se Jasão ainda estava na cidade. Se ele foi embora devia ter sido à noite. Naquela tarde modorrenta de um setembro qualquer Jasão apareceu. Bateu na porta do Comendador e Pancrácio seu mordomo atendeu.

                  - Pois não? Com uma cara de poucos amigos Jasão custou a responder. – Chame o Comendador! – Pancrácio olhou incrédulo aquele forasteiro. Ninguém tinha a audácia de procurar o Juiz Comendador Salomon. Se alguém aparecia era convidado ou intimado. Se intimado podia rezar e pedir a Deus que o recebesse no céu. – Ele não atende respondeu Pancrácio. Jasão não se fez de rogado, deu meia volta, foi até a loja do Romano e comprou uma caixa de foguetes de um só tiro. Voltou e no segundo disparo de seu foguete o Comendador chegou à porta. Zunia de raiva. Na sua mão uma espingarda de pederneira, uma arma longa cujo mecanismo de disparo era um fecho de pederneira. Mortífera para quem tinha boa pontaria e mortal para quem estivesse na sua frente. Jasão levantou a mão esquerda e falou baixinho: - Sou seu merda, o Jasão  pai da Thabita que o senhor engravidou e deixou-a na miséria!

                      O Comendador Salomon levou um susto enorme. A história toda se passou em sua mente. Conheceu, prometeu e comeu. Depois que embarrigou sumiu. Achou que era um menina qualquer. Não tinha mais que treze anos. Mas gostosa e como ele gosou na menina! Não deu tempo para pensar mais nada. Jason tirou da sua calça um pequeno Colt 22 que um só tiro certeiro bastou para entrar pela testa do Comendador e sair de lado atrás da orelha. O famoso Salomon caiu feito uma barrica d’água se quebrando e se encontrando com os capetas dos infernos! Jason saiu calmamente sem se importar com o reboliço dos empregados e do miserável do seu mordomo Pancrácio. Jason foi para a casa de Dona Veneranda. Não fugiu. Ninguém foi à procura dele. Não havia delegado na cidade, pois o Comendador era o Rei de tudo.

                     Por meses ninguém viu mais o Jason. O Comendador foi enterrado com honras de estilo. O Coronel Sansão mandou uma tropa de cavalaria para prestar as honras de praxe. Vinte e um tiros, hino nacional e debaixo da terra jazia o comendador que comeu e agora vai comer terra até os bichinhos o comerem também. Ninguém perguntou quem matou porque matou. O próprio Coronel nem na cidade foi para despedir do Comendador. Para dizer a verdade a cidade de Cordel Azul passou a sorrir mais do que sorria. Festas aconteciam todo sábado, até um Clube da Roseta foi organizado com bailes dançantes três vez por semana. Simão de Piaçaba chegou à cidade a noitinha. Ninguém o reconheceu. Largou seu pai com quinze anos e sumiu no mundo. Ninguém mais soube dele. A cavalo e imponente como um Lord Inglês não cumprimentou ninguém, foi direto a casa de Dona Veneranda, apeou e chamou Jason. Um tiroteio  aconteceu. O dia amanheceu. O corpo de Jasão na porta ensanguentado e o corpo de Simão não dava sinal de vida.

                     Durante meses a cidade permaneceu calada quieta e pacata. Mas quando a noite chegava o inferno descia na cidade. Eram gritos horrendos tiros, berros e raios caindo por todos os lados. A cidade praticamente acabou. Muitos mudaram para nunca mais voltar. O romance do Padre com a Sulamita continuava. Nasceu uma menina que batizaram de Thabata. Ninguém maldisse o padre. Se ele queria mulher porque não? Sulamita foi morar com ele. O Bispo Teobaldo soube e nem ligou. Se ele quer foder que foda! Ele disse. Thabata cresceu. Linda, uma morena de se tirar o chapéu. Só tinha um problema, Thabata era alcoviteira, sonhava em ser princesa, começou a ter fama de levar para a cama a maioria dos homens de bem. Se Cordel Azul definhava agora muito mais. Não se sabe como, mas Thabata se tornou dona da Fazenda do Comendador Salomon. Até mesmo o mordomo Pancrácio tinha eterna veneração por ela.

                    Salatiel morava em Monte Alegre. Era um jovem que apreciava a boa comida, a boa vida e a riqueza. Ali em sua cidade ele sabia que não ia conseguir nada. As histórias fantásticas de Cordel Azul eram motivos de risadas, de comentários e então começaram a falar em Thabata. – Linda diziam. Gostosa! Dizia outro. A bunda dela faz jus ao maior tesão do Brasil. E sabem da melhor? Um falou! – Cheia da grana. Comprou um carrão de dar inveja. Sua fazenda virou mansão. Salatiel ouvia e sorria baixinho. Minha vez chegou. Vou passar uma temporada em Cordel Azul. Pegou sua mula selou e partiu para seu destino. Salatiel não tinha um puto, duro duro. Sua família vivia com o auxílio do Salário Família. Era hora de enricar. Ele sabia que tinha estampa, loiro, alto e forte. Conversa de gostosão. Andava gingando e as moçoilas de Monte Alegre adoravam. Ele comeu a maioria, mas casar? Pobre comigo não, dizia.

                      Quando entrou em Cordel Azul ele levou um susto. Não esperava uma cidade assim. Triste escura, silenciosa. Parou no Bar do Firmino. Desceu como um galã de faroeste. Pediu uma pinga e informações. No bar só ele e um Velho. – Pode-me dizer onde fica a fazenda do falecido Comendador Salomon? Todos olharam espantados. O Velho sorriu mostrando não ter um dente na boca. Firmino não se fez de rogado. Quem sabe ele retiraria a praga que se abateu em Cordel Azul? Firmino não era poeta, mas escrevia poesias. Tinha saudades do tempo de outrora das cantorias, dos pardais, da alegria no domingo ir à missa, de falar mal do padre e sua amasiada, era bom demais. Andou escrevendo versos e até na privada ele escreveu: -    “Neste lugar sagrado”, Toda vaidade se acaba. O mais covarde se esforça, E o mais valente se caga! Ele gostava de escrever, mas não tinha ninguém para ler. A cidade tinha uma escola e uma professora, mas magra feito à peste e se olhava você parecia querer te matar com um raio.

                    - Melhor não me meter na vida dos outros – Siga em frente e quando a rua terminar vai encontrar a trilha que o levará a fazenda que hoje é da Dona Thabata, que lá mora sozinha e não tem ninguém ao seu lado! – Poderia ter rido, mas não riu. Que o forasteiro se fodesse. Ele não tinha nada com isto. Salatiel agradeceu fazendo um gesto no seu chapéu. Montou na sua égua e partiu. Olhe ninguém soube o que aconteceu lá. O que podem contar que naquela noite uma tempestade caiu sobre Cordel Azul. Dizem que os raios partiram arvores centenárias. Se o forasteiro era o responsável ninguém nunca soube. No dia seguinte um clarão se fez formar no céu. Assustou todo mundo. Uma gargalhada se fez ouvir. Centenas de espíritos correram pelo céu. Alguém descobriu que Salatiel era filho do padre com outra mulher. Se Thabata descobriu ninguém nunca soube. Mas uma coisa me garantiram, Cordel Azul se transformou, a cidade voltou a sorrir, a cantar e nas ruas à noite as serestas aconteciam. O clube da Roseta se transformou em Bordel.

                             Hoje dizem que Cordel Azul tem mais de vinte mil habitantes. Dizem que a neta de Dona Veneranda abriu o maior hotel das redondezas. A putaria tomou conta da cidade de Cordel Azul. E daí? Quem se importava? A cidade ficou famosa. Seus cassinos, suas boates, suas mulheres correram o mundo. Sentado na varanda de sua mansão o Comendador Salomon com Thabata eu seu colo, tirava sarro de Jason e Salatiel que presos por demônios queriam se libertar das correntes que o prendiam. Thabata a menina filha do padre agora mandava em tudo. Pena que ninguém via só as almas do outro mundo onde agora viviam as personagens deste conto. Se assim foi assim será escrito! Entrou por uma porta e saiu em outra!

Mistério
Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!